sexta-feira, 11 de junho de 2021

Enquete: em 2022 vamos ter um Dia dos Namorados normal?

a) Claro! Esse maldito vírus não vai atrapalhar ninguém em 2022. O problema é o dinheiro porque tudo está subindo e para comprar alguma coisa que preste vai ficar o olho da cara. 

b) Sim. O novo normal será ficar em casa e só sair usando máscaras! Viva a ciência! Viva a Globo! Fora negacionistas! Fora Bolsonaro!

c) Vamos pensar no aqui e agora! O negócio é deixar esses chatos pandeminions falando sozinho e aproveitar a vida, sem máscara e indo com a gata (o gato) para a balada! Se pegar o vírus, pelo menos a gente morre feliz!

d) Chegaremos a 2022?!


quinta-feira, 10 de junho de 2021

Da série 'Oitentolatria', parte 31 - Pelos poderes de Grayskull!

Um cult dos anos 1980 está de volta: o desenho He-Man e os Mestres do Universo

Já houve pelo menos duas versões do clássico de 1983, mas nenhuma delas capaz de superar o original. A Netflix promete, em julho, lançar algo um pouco mais fiel, uma continuação menos inocente da velha animação com as técnicas contemporâneas. No cartoon de 1983, havia limitações nos movimentos e muito reaproveitamento de cenas, mas tinha lá o seu charme. O enredo também era divertido, apesar de simples, baseado no velho dualismo do bem, representado pelo guerreiro de Etérnia e seus amigos, contra o mal, Esqueleto e seus lacaios. 

He-Man (direita) em cena contra o antologico vilão com cara de caveira, Esqueleto (Divulgação)


Na nova versão, haverá maior espaço para Teela, a capitã da guarda e filha de Mentor, o braço direito do rei Randor e amigo de He-Man. Ela também passará a descobrir - finalmente - que He-Man e o príncipe Adam são a mesma pessoa. No original, era óbvia e até risível a semelhança entre os dois, mas somente Mentor, o atrapalhado mágico Gorpo e a Feiticeira, guardiã do Castelo de Grayskull, guardavam o segredo da transformação. 

Recentemente, houve uma versão infantilizada da irmã de He-Man, She-Ra, mas não agradou devido à simplificação dos traços. Muitos com mais de 40 anos se lembram da heroína, suas roupas que deixavam as pernas à mostra e revelavam as curvas do corpo, além de ter muita valentia para enfrentar o terrível Hordak, o antigo mestre de Esqueleto. A versão de 2018 parece uma menina

Este cartoon vai aproveitar para lançar vários bonecos da Mattel, como aconteceu naquela década louca. Porém, não haverá a famosa dublagem de Garcia Jr. como o herói, e talvez nem a voz de Isaac Bardavid na voz de Esqueleto, e muito menos Orlando Drummond, este se recuperando de problemas recentes de saúde aos 101 anos, para dublar o feroz Gato Guerreiro. Provavelmente, nesta versão de 2021 o tigre não fala, ao contrário da versão antiga. 

Quem acreditou que não haveria Copa América?

Não havia como acreditar num gesto "revolucionário" dos jogadores e da comissão técnica contra a decisão da Conmebol de transferir a Copa América para o Brasil após a Colômbia e a Argentina se mostrarem sem condições de sediarem o evento. 

A mídia fingiu entusiasmo e a Rede Globo não escondia seu despeito por não ter os direitos de transmitir os jogos, e sim o SBT. Jair Bolsonaro teve parte ativa neste espetáculo e teria até falado com Rogério Caboclo, presidente da CBF, sobre a substituição de Tite por Renato Gaúcho ou outro técnico por sua postura a favor do "motim" dos jogadores. Se avançasse além disso estaria interferindo na entidade, algo proibido pela Fifa. 

No final, o elenco frustrou quem gostaria de ver algum "gesto grandioso" e lançou um manifesto mal redigido mostrando sua contrariedade com a Copa América no Brasil em meio à pandemia. Pensaram mais em seus egos do que nas vítimas da COVID-19. Nem uma criança que estivesse começando a torcer pela Seleção acreditaria em algo diferente. 

O único efeito concreto deste enredo foi o afastamento de Caboclo da presidência da CBF, mas não por iniciativa dos jogadores ou da comissão técnica, mas por uma ex-funcionária que o acusou de assédio moral e sexual. Somando as gravações segundo as quais o dirigente mostrava pouco respeito até pelo presidente da Fifa, Gianni Infantino, e o seu comportamento destemperado ao falar com os jogadores, sua imagem está arruinada e sua volta não dependerá dele, mas de alguma maquinação de Marco Polo Del Nero ou Ricardo Teixeira, ex-presidentes da CBF e ainda muito influentes. 

terça-feira, 8 de junho de 2021

Péssimos exemplos

Na nossa tão mal falada América Latina, dois países estão indo para o caminho da falência política, onde já está a Venezuela. 

Peru e México estão dando mostras preocupantes de ruptura institucional e anomia, caminhos a serem evitados a todo custo pelo Brasil. 

Keiko Fujimori disputou a presidência com Pedro Castillo; os dois sofreram com índice altíssimo de rejeição (Cesar Bazan/Martín Mejia/AFP)

O primeiro enfrenta instabilidades desde a renúncia de Pedro Paulo Kuczinski em 2018, substituído pelo vice Martin Vizcarra, deposto por um impeachment dois anos depois. Manuel Merino, presidente do Congresso, assumiu, mas renunciou no mesmo dia, substituído por Francisco Sagasti. E agora, nas eleições, marcadas pela rejeição e pela polarização, o eleito foi um ex-membro do braço político do grupo guerrilheiro Sendero Luminoso, Pedro Castillo, disputando voto a voto com a filha do ex-ditador Alberto Fujimori, Keiko. Esta última acusa a eleição de fraude e não irá aceitar facilmente o resultado. 

Por sua vez, o segundo teve uma eleição parlamentar marcada pela morte de 96 candidatos e centenas de outros envolvidos no pleito, inclusive casos de mãos e até duas cabeças decepadas deixadas em locais de votação na cidade de Tijuana, na fronteira com os Estados Unidos. 

Outros países correm o mesmo perigo, inclusive o Brasil. 

segunda-feira, 7 de junho de 2021

Da série 'Filósofos estudam o Brasil', parte 5

Santo Agostinho de Hipona viveu entre 354 e 430, no norte da África, então submetido ao jugo de Roma, que, em sua época, estava em séria crise e cujo poder foi esfacelado com a morte de Teodósio, em 395 e a divisão do império em dois. A província da África, situada no litoral das atuais Argélia e Tunísia, ficaram com o Reino do Ocidente, governado por Honório, filho de Teodósio, fraco e incapaz de administrar a crise, permitindo a invasão e o saque de Roma pelos visigodos. Estes acontecimentos influenciaram o pensamento de Agostinho, juntamente com a filosofia dos neoplatônicos de Plotino e o maniqueísmo, mas tomando o cuidado de nunca abandonar a ortodoxia cristã. 

Santo Agostinho, por Antonello da Messina (1430-1479)

Existem muitos freis da Ordem de Santo Agostinho no Brasil, assim como há instituições de ensino criadas por eles, como o Colégio São José, no bairro do Belenzinho, e sites como a Província Agostiniana (ver AQUI) e a Família Agostiniana no Brasil (ver AQUI). O santo dava especial valor à pedagogia como forma de preparar o ser humano e aproveitar seu potencial, como a obra máxima da Criação. Curiosamente, o "pai" da Reforma protestante, Martinho Lutero (1483-1546), foi um monge agostiniano antes de se rebelar contra o papado, assim como o biólogo Gregor Mendel (1822-1884), nascido na Boêmia (então província do império austríaco) e estudioso da genética. O frei Santa Rita Durão (1722-1784), nascido no Brasil e literato, também era agostiniano. 

Recentemente, os agostinianos iniciaram uma campanha contra a insegurança alimentar agravada pela pandemia de COVID-19. 

Sobre o Brasil, como o bispo de Hipona iria analisá-lo?

Estudiosos da obra de Agostinho talvez pudessem analisar o nosso país por meio da sua obra máxima, De Civitate Dei (A Cidade de Deus), onde ele analisa o pensamento dos antigos e os refuta, para defender a doutrina cristã. Ele também faz uma alegoria de uma cidade onde os habitantes se dedicam às causas mais elevadas, deixando de lado os prazeres terrenos, enquanto a outra, chamada de Cidade Terrena (também conhecida como Cidade dos Homens ou Cidade do Mundo), continua envolvida nas causas mundanas, onde não há harmonia nem ordem, e está sempre exposta ao perigo de cair nas tentações impostas por Satanás, o príncipe dos demônios; eventualmente, ira sucumbir ao mal e se tornar a Cidade do Diabo. 

Para os agostinianos mais tradicionais, o Brasil e outros países estão muito afastados do ideal religioso, devido à separação entre Igreja e Estado, mas muitos brasileiros querem obter conforto espiritual, seja na Igreja Católica ou nos templos de outros movimentos religiosos, sobretudo os neopentecostais. Eles veem com preocupação as atuais linhas de pensamento dos ditos "progressistas", coniventes com as deturpações morais, para eles causa dos mais diversos males no país. Para eles, esses são ideais influenciados pelos inimigos de Cristo. Os mais liberais, sem desprezar os desafios e perigos da vida moderna, preferem destacar a importância das obras de caridade para minorar o sofrimento de famílias vulneráveis. 

Um frei agostiniano expressaria preocupação com tantos males provindos da fragilidade do espírito humano, inclusive do brasileiro, mas segundo ele Deus intervém de alguma forma para assegurar a vitória da Cidade de Deus, e um dia o Brasil e outros países do mundo serão livres do pecado, enquanto a Cidade do Diabo será destruída com a derrota de Satanás e a destruição dos maus valores.  

sexta-feira, 4 de junho de 2021

130 mil pontos

O índice Ibovespa bateu recorde hoje, superando os 130 mil pontos, por causa dos sinais de melhora no mercado de trabalho norte-americano. 

Esta tendência de alta constante começou no mês passado, com a divulgação do crescimento do PIB acima do esperado - 1,2% no primeiro trimestre - e os sinais de recuperação econômica após a pandemia. 

Devemos comemorar este recorde, mesmo sem ter ações na Bolsa? Em termos. O desemprego continua altíssimo e milhões de famílias estão em vulnerabilidade econômica, enquanto a COVID-19 continua a vitimar milhares de pessoas por dia. Mas ao mesmo tempo mostra que o Brasil é um país mais resiliente do que muitos pensam, dependendo fundamentalmente de si para obter índices mais robustos a médio e longo prazo. Ou seja, uma infra-estrutura melhor, segurança jurídica, melhor educação para o povo, menor dependência do agronegócio (que continua fundamental para a economia do nosso país) e ausência de atos estúpidos por parte das forças políticas. 

quarta-feira, 2 de junho de 2021

Será que a baunilha é baunilha?

Sabe-se que a baunilha usada nos bolos e nos sorvetes não é obtida da vagem da planta chamada baunilha, ou Vanilla planifolia, uma orquídea rara de Madagascar, sendo matéria prima cara demais - 1 ktg de vagens para a obtenção da vanilina, o princípio ativo do condimento para doces, custa algo em torno de 500 dólares - e portanto impossível de ser empregada em larga escala. 

A essência de baunilha, definitivamente, não utiliza as vagens da orquídea chamada baunilha (Celestial Garden/Reprodução)

Por isso, correm rumores de uma origem bem diferente, digamos, para produção da vanilina: o castóreo, extraído das glandulas anais de castores. Será mesmo?

Apesar dessa história ser divulgada amplamente na Internet, obter o produto dessa forma também sairia muito caro, e envolveria a matança de uma grande quantidade dos roedores encontrados no Hemisfério Norte. 

A matéria-prima para a deliciosa essência é o guaiacol, um álcool obtido a partir da metilação do catacol, componente do alcatrão de certas madeiras, como o eucalipto. Ou seja, é mais provável que utilizem madeira queimada malcheirosa. Pelo menos é melhor do que algo ainda mais fedorento retirado do traseiro de animais - para alívio dos veganos. 


N. do A.: No Iêmen, país da Ásia Ocidental devastado pela guerra civil, foi encontrado o cadáver de um cachalote, animal marinho cujo vômito é uma fonte do "ambar gris", material valioso usado - comprovadamente! - para a fabricação de alguns perfumes finos. Os pescadores que localizaram o corpo do cetáceo não perderam tempo e tiraram de suas entranhas cerca de 125 kg da substância, avaliada em cerca de US$ 1,5 milhão (ou 1,1 milhão de libras, segundo o jornal britânico Independent UK. Parte do dinheiro foi para famílias vulneráveis empobrecidas devido à guerra. 

terça-feira, 1 de junho de 2021

O ponto mais baixo da CPI

Assistir à CPI da Pandemia é uma perda de tempo, por ser um espetáculo grotesco onde parlamentares sedentos por protagonismo se dão ao direito de agir como juizes, a fim de mostrarem o quanto são "severos" contra a negligência do governo. 

Os participantes, notadamente o presidente Omar Aziz (PSD-AM) e o relator, o famigerado Renan Calheiros (MDB-AL), costumam intimidar os depoentes, convocados como testemunhas, como se fossem delegados de algum lugarejo, mas agora passaram dos limites. A doutora Nise Yamagushi foi tentar se explicar por que defende o tratamento precoce e o uso da hidroxicloroquina, e foi alvo da ferocidade dos senhores congressistas. 

"Não acreditem nela", disse o presidente da CPI. E todo o esforço foi feito para expô-la da pior forma. As falas da médica foram interrompidas com frequência, como foi feito principalmente com ela e a dra. Mayra Pinheiro, funcionária do ministério da Saúde apodada de "Capitã Cloroquina". Curiosamente, integrantes do movimento feminista falam de manterrupting, neologismo em inglês para homens machistas e mal educados que não deixam suas companheiras ou interlocutoras concluírem suas falas, mas não há nenhuma manifestação contrária do movimento feminista contra a CPI.

Chegou-se até a apontar, de forma irônica, sobre o tom de voz dela, calmo e pausado, ao contrário da maioria dos depoentes, que usaram tom quase tão assertivo quanto o dos integrantes da comissão (inclusive a dra. Mayra). 

A médica imunologista Nise Yamagushi depõe à CPI da Pandemia (Adriano Machado/Reuters)

Realmente a doutora Nise não foi convincente no seu depoimento, mostrando dados contraditórios e questionáveis a respeito do tratamento precoce, mas não justifica o tratamento grosseiro dispensado a ela. 

Este esforço em combater o descaso de Bolsonaro, seus ministros, funcionários e acólitos com a pandemia está dando aos telespectadores mais informações sobre os senhores senadores do que a respeito dos depoentes ou dos integrantes deste governo. 


N. do A.: As próximas postagens desta semana tratarão de temas menos explorados do que a pandemia, a política e o futebol. Já estão abordando o assunto ad nauseam em outros veículos da Internet. 

segunda-feira, 31 de maio de 2021

O Manchester City não ganhou...

Como foi escrito no blog, em forma de piada, o Manchester City ganhar a Champions League seria mais um sinal do fim dos tempos. 

O time parecia ter tudo para ganhar o torneio pela primeira vez, com uma atuação consistente e a visão estratégica de jogo do técnico espanhol Pep Guardiola. Eles demonstraram isso principalmente nas fases finais da Champions, contra o Borussia Dortmund e, depois, o PSG, outro eterno postulante ao título. Mas contra o velho rival Chelsea, jogando as finais no Estádio do Dragão, cidade do Porto (Portugal), Guardiola arriscou ao não reforçar o meio de campo e privilegiar o ataque. Sua filosofia de valorizar a posse de bola (o tiki-taka), tão elogiada e imitada, foi aplicada, mas nem tudo deu certo. Thomas Tuchel, técnico do Chelsea há apenas alguns meses, desde que foi dispensado pelo PSG, montou um esquema defensivo capaz de parar De Bruyne, Sterling, Mahrez e cia. 

Mesmo com a lesão e a saída de Thiago Silva, outro praticamente "escorraçado" pelo PSG no ano passado, os defensores e mais o volante N'Golo Kanté, impediram os avanços dos citizens. Por sua vez, o alemão Timo Werner perdia gols e coube a outro alemão, o jovem Karl Havertz, fazer o gol, ainda no primeiro tempo, aproveitando a pior falha dos rivais e um vacilo de Ederson, o goleiro da Seleção Brasileira. Durante a etapa final, o Manchester City tentou, mas não conseguiu, nem mesmo com os brasileiros, o volante Fernandinho no lugar de Bernardo Silva, e o atacante Gabriel Jesus, para substituir De Bruyne, seriamente machucado no rosto após uma dividida com Rudiger. Nem mesmo Aguero, em seu jogo de despedida, conseguiu. E o sonho de ganhar a Champions League pela primeira vez se foi novamente. 

Sem ter a badalação de um City, ou de um Bayern de Munique, o Chelsea chegou ao seu segundo título do torneio mais prestigiado do mundo. Foi a consagração de N'Golo Kanté, da Seleção Francesa (integrou o time vencedor da Copa de 2018) e filho de imigrantes malineses pobres, considerado o melhor jogador da partida, do técnico alemão Tuchel e do experiente mas difamado zagueiro Thiago Silva, que só agora conseguiu ganhar a "orelhuda", após ser acusado por muito tempo de ser instável emocionalmente e contribuir para os fracassos das equipes onde jogou (particularmente, o PSG, entre 2012 e 2020, e a Seleção Brasileira), mas ao mesmo tempo ser considerado um dos melhores beques da atualidade. 

O sinal do fim dos tempos não aconteceu no Estádio do Dragão, mas parece que vai ser aqui mesmo, no Brasil, com a Copa América sendo transferida após o local original, a Colômbia, estar às voltas com violentos protestos contra a reforma tributária, e depois a Argentina, que foi forçada a desistir do torneio continental de seleções com a piora na epidemia de coronavírus. Sem seguir a lógica, e atendendo aos anseios da CBF e do presidente brasileiro Jair Bolsonaro, mesmo com a pandemia também matando milhares de brasileiros por dia, a Conmebol aceitou os jogos em nossas plagas. 

Chelsea ganha a UEFA Champions League pela segunda vez, mesmo sem contar com superastros (Pierre-Philippe Marcou/Getty Images)

Após quase 13 anos na Europa, o veterano zagueiro Thiago Silva finalmente foi um dos brasileiros a ter o privilégio de colocar a mão na taça mais cobiçada da Europa (Divulgação/Instagram)


Por aqui, o jogo das finais foi ofuscado pelos protestos, no mesmo dia 29, contra o governo por suas falhas durante a crise causada pelo coronavírus. Milhares de pessoas foram às ruas nas grandes cidades, principalmente em São Paulo, exigindo vacinas e pedindo a renúncia ou o impeachment do presidente. A Avenida Paulista foi fechada e chegou a ter sete quarteirões ocupados pelos manifestantes, mesmo com o perigo representado pelo coronavírus. Isso mostra a crescente insatisfação com Bolsonaro, mas ao tempo tempo agrava a pandemia, pois houve aglomerações e nem todos usaram máscaras. 

No Brasil, muitos brasileiros mostram sua insatisfação com o governo Bolsonaro, principalmente os simpatizantes do ex-presidente Lula. Em São Paulo... (Ronaldo Silva/Futurapress/Estadão)


... e em Brasília, por exemplo, os protestos foram pacíficos e ordeiros, mas havia aglomerações, um cenário favorável à disseminação da COVID-19 (Ueslei Marcelino/Reuters)


Os protestos foram pacíficos, com exceção dos registrados em Recife, onde houve violência entre manifestantes e a polícia, que teria usado força desproporcional, ferindo duas pessoas com balas de borracha nos olhos. O comandante da PM de Pernambuco foi exonerado por ordem do governador Paulo Câmara (PSB). 

Da série 'Filósofos estudam o Brasil', parte 4

Santo Agostinho de Hipona será o próximo a tentar entender o Brasil, mas enquanto isso teremos uma discussão entre Sêneca, o representante dos estóicos, Epicuro, autor do pensamento que leva seu nome (o epicurismo), e Diógenes, o cínico. 

Lucius Annaeus Seneca, ou Sêneca (4 a.C.-65), filósofo romano nascido em Corduba, atual Córdoba, Espanha

Epicuro de Samos (341-270 a.C.), filósofo grego

Diógenes de Sínope (413-323 a.C.), filósofo grego

Eis um trecho do debate: 

(...)

Sêneca: Tu, ó Epicuro, parece ter muitos adeptos aqui no Brasil, e isto não me parece o caminho adequado para o progresso. 

Epicuro: Por que afirmas isso, caro Sêneca? Decerto leste algo a meu respeito, já que nasci há séculos antes de ti. 

Sêneca: Tua linha de pensamento prega a imoderação, enquanto eu penso o contrário: não podemos escapar dos sofrimentos que a vida nos inflige!

Epicuro: Meu pensamento fala dos prazeres, é certo, mas daqueles a que todo ser humano normal desfruta. Preocupamo-nos muito com os acontecimentos futuros, mas devemos viver o presente. Falo da libertação dos medos que atrapalham a vida. 

Sêneca: Decerto se refere também aos perigos que muitos brasileiros parecem não perceber, como este tal coronavírus...

Diógenes: Coronavírus! Bah! Desde que eu estou aqui neste país, sabe-se lá como, só ouvi falar disso!

Sêneca: Foste tu o autor da frase É calando que se aprende a ouvir, escutando que se aprende a falar; então, falando se aprende a calar? O vulgo preservou esta sentença atribuída a ti. 

Diógenes: Por Zeus, devo ter falado isto uma vez, mas... é porque não aguento falar neste tal de vírus. 

Sêneca: Aguarda tu o teu momento de falar!

Diógenes: (Murmura alguma coisa em voz baixa, resmungando, provavelmente umas palavras gregas intraduzíveis)

Sêneca: Continuando o meu colóquio, devemos nos ater à vida real, não se prendendo aos prazeres, mas cumprindo com os nossos deveres, evitando o que podemos evitar e aceitando o que não podemos. Agora, como estamos a tratar especificamente dos problemas deste país gigante e extremamente complexo, seria de muita ajuda se os habitantes deste enorme pedaço de terra agissem de forma mais racional e disciplinada. 

Diógenes: (Murmura que isso seria pedir demais). 

Epicuro: Parece ser da natureza deste povo a vida despreocupada, procurando viver o momento, mas defendo o uso cuidadoso dos prazeres, sem essas substâncias que muitos dos habitantes andam a tomar, prejudiciais à saúde física e mental. Nossa linha de pensamento não defende o uso de tais tóxicos. 

Diógenes: Muitos são os beneficiados pela comercialização de tais tóxicos, graças à conivência das autoridades deste país!

Epicuro: Bem lembrado, Diógenes. Ainda estás a procurar uma alma honesta com tua lanterna?

Diógenes: Por aqui seria um esforço inútil!

Sêneca: É possível divertir-se sem negligenciar os deveres, as obrigações e as leis. Pelas informações que recebi, não há muito cuidado em observar as leis, e elas, por sua vez, não são muito bem feitas, procurando atender a interesses específicos. Isso quando as leis são feitas por quem tem o dever de fazê-las, ou seja, os legisladores, porque também há muitos decretos, emitidos pelo chefe de governo, que em tese não é um legislador. 

Diógenes: E nem são legisladores uns caras de toga que fazem o papel de tribunal supremo. Cada um parece querer agir como os ephoros (*) e os gerontes (**) de Esparta. 

Epicuro: O que preocupa é a doença e a pobreza que assolam esta imensa pátria. 

Sêneca: Este é um problema gigantesco que deve ser enfrentado pelos seus habitantes e por aqueles que os governam. Mas parece que os governantes tem outras prioridades. 

Diógenes: Este país é um belo monte de skatá (***), mesmo! Hi! Hi! Hi!

(...)


(*) fiscais da vida pública espartana, exercem o cargo por um ano

(**) membros do conselho de anciãos de Esparta; elegem os éforos e são apontados como os verdadeiros donos do poder naquela antiga cidade. 

(***) me**a