Num exercício de imaginação em tempos incertos, onde qualquer acontecimento pertrubador envolvendo guerras, violência ou, mais recentemente, o Hantavirus, vira um pretexto para se discutir sobre o fim da humanidade e o Juízo Final, alguém poderia misturar a escatologia abrâmica e suas diferentes versões e as mitologias ditas "pagãs".
Considere um cenário onde o Irã consegue provocar a Terceira Guerra Mundial com o intuito de evocar o décimo segundo Imã, responsável pelo julgamento final para, segundo os muçulmanos xiitas, mandar os fieis seguidores de Alá e do Imã para o Paraíso e os inimigos para a danação eterna. Por outro lado, os cristãos rezam para terem suas almas julgadas por Deus em Sua pessoa para mandar os seguidores de Jesus para o Reino ou os infiéis para o "lago de fogo". E quem (ainda) acredita na existência das divindades egípcias diz que tanto os xiitas quanto os cristãos estão errados, e quem decidiu o destino da humanidade é Sekhmet, a deusa impiedosa da guerra com cabeça de leoa.
| Sekhmet, a deusa implacável da guerra segundo os antigos egípcios (Templo de Kom Ombo) |
| Anúbis e a fera Ammit, próximos do sábio deus Toth (à direita) |
Uma quantidade incalculável teria o coração mais pesado que a pena usada como adorno por Maat, a esposa de Anúbis. Então, o coração de cada um dos infelizes serviria de alimento para a feroz Ammit, a criatura com cabeça de crocodilo, juba, peito e garras de leão, e abdome de hipopótamo, as três feras sanguinárias responsáveis pela morte de muitos egípcios na Antiguidade. O resto das vítimas seria colocado no esquecimento.
Muitos não aguentarão ver a aparência de Ammit, e talvez não merecessem destino cruel assim. Então Osíris os faria encarar um de seus auxiliares, o deus Medjed. Essa figura aparentemente engraçada de alguém metido num lençol como se fosse um fantasma de festa a fantasia já virou até cult entre os japoneses, que o acham "kawaii". Contudo, o nome da criatura significa "O Castigador", e ele solta raios pelos olhos, para atormentar as almas.
| A figura esquisita ao centro é Medjed (parte do papiro de Greenfield) |
Quem restava, ou seja, as almas justas, teria como destino o "Campo dos Juncos", o Sekhet-Aaru, uma espécie de dimensão superior onde não haveria fome nem doenças, a terra seria sempre fértil e sem pragas, e haveria comunicação mais fácil com os deuses. É algo como o Reino para onde iriam os justos segundo o Apocalipse, porém com características mais terrenas.
| O "Paraíso" da mitologia egípcia seria um oásis eterno para as almas após o julgamento de Osíris (Reprodução) |