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segunda-feira, 19 de maio de 2025

Mais perto da unificação das teorias físicas?

 Um sonho antigo dos físicos é a unificação da mecânica, por meio de uma teoria geral que englobasse os aspectos macroscópicos e microscópicos, explicados pelas leis newtonianas e a mecânica quântica, respectivamente. 

Os finlandeses David Tong, Jukka Tulkki e Mikko Partanen, da universidade de Aalto, fizeram uma publicação no jornal Report on Progress in Physics, tentando explicar a gravidade utilizando a teoria quântica dos campos (QFT, na sigla em inglês), que explica as interações entre as diversas partículas subatômicas formadoras da matéria. Essa teoria não foi aplicada antes para aspectos considerados da "mecânica newtoniana", ou "mecânica clássica", como a gravidade. 

Essa abordagem pode redefinir todo o aprendizado da física como um todo, e levar à desejada unificação das teorias, levando seus descobridores a serem considerados ao lado de Issac Newton, Albert Einstein, Max Planck e outros gigantes. Porém, os estudos ainda estão em estágio inicial e necessitam de comprovação, levando os estudiosos a passarem ainda alguns bons anos estudando o assunto. Caso os experimentos forem considerados consistentes, eles poderão levar seus autores a ganhar o Nobel da Física e fazer as escolas e universidades reformularem todo o ensino desta disciplina. 

Este conceito em vias de elaboração concorre com outras teorias consolidadas, como a das cordas, que também visa unir a gravitação com a mecânica quântica, estabelecendo o conceito de "graviton", partícula (ou onda) subatômica responsável pela formação das "cordas" vibrantes responsáveis pela atração entre dois corpos. A teoria das cordas requer o uso de mais de quatro dimensões, além do espaço-tempo, algo não visto como necessário para os autores finlandeses do estudo. 

Mikko Partanen (esq.) e Jukka Tulkki, dois dos estudiosos da nova forma de abordar a gravidade (Matti Ahlgren/Universidade de Aalto)


terça-feira, 8 de abril de 2025

Romulus, Remus e Khaleesi

Estes foram os nomes dados a três filhotes de lobo geneticamente modificados com o genoma de uma espécie extinta há 10 mil anos, o Aenocyon dirus, ou o "lobo terrível". 

Romulus e Remus nasceram há seis meses e são dois exemplares brancos, aparentemente saudáveis e se comportando como lobos normais, vivendo numa reserva florestal em local não divulgado da América do Norte, provavelmente no Canadá. Devido à idade, ainda não desenvolveram as supostas características de um lobo terrível, como a musculatura mais desenvolvida e o comportamento de um animal capaz de disputar os bisões e os filhotes de mamute, suas prováveis presas, com os tigres dentes-de-sabre de sua época. Mas já são notavelmente maiores do que um pastor alemão de mesma idade. 

Os dois foram batizados com os nomes dos lendários fundadores de Roma, irmãos amamentados por uma loba segundo a mitologia. 

A empresa Colossal Biosciences fez grande alarde neste mês sobre os três "lobos terríveis" (Colossal Biosciences)

Khaleesi é uma fêmea com apenas dois meses, batizada com o nome da heroína criadora de dragões da série Game of Thrones, cuja história se passa numa terra onde vivem "lobos terríveis" e outras feras. 

Ao contrário do alardeado pela empresa responsável pela criação desses filhotes, a Colossal Biosciences não "recriou" o Aenocyon dirus, apenas decodificou o genoma e implantou o material genético extraído de dentes e ossos do predador em células endoteliais (presentes nas paredes internas dos vasos sanguíneos) de lobos comuns para usá-las como base de estudo. Depois, o núcleo da célula modificada, onde se concentra todo o DNA modificado, foi transferido para um óvulo, e uma cachorra serviu como "barriga de aluguel" para fazer a gestação dos filhotes em 65 dias. Romulus e Remus cresceram sob os cuidados da mãe de aluguel como se fossem cãezinhos, mas eles não conseguem latir como se assim fossem. 

Essa técnica ainda não ganhou o respaldo dos zoólogos e paleontólogos. Mesmo assim, com ela a Colossal Biosciences está querendo "recriar" o lobo marsupial da Tasmânia, extinto em 1937, assim como o passaro dodô das Ilhas Maurício, exterminado no século XVII, e o mamute. 

sexta-feira, 28 de março de 2025

Prólogo sobre uma nova série

A Biologia,  como outras ciências, modifica-se caso haver conceitos novos capazes de corrigir os antigos.  Assim, periodicamente os livros didáticos se tornam obsoletos com muita frequencia, devido às frequentes mudanças na classificação dos seres vivos. 

Já se tornou totalmente ultrapassado e pueril classificar os seres vivos apenas em dois reinos: o animal e o vegetal, considerando também um reino mineral. Agora, se fala em seis, sete ou até oito reinos, incluindo fungos, organismos unicelulares (protistas), bactérias e vírus. Os organismos unicelulares dividem-se em dois ramos, ou para alguns dois reinos: protistas propriamente ditos, todos incapazes de fazer fotossíntese, e os cromistas. Já as bactérias podem constituir mais de um reino, devido à presença de formas parasitárias muito diferentes das formas comuns, que geralmente não invadem outras células: as rickettsias causadoras do tifo e da febra maculosa. Estes organismos microscópicos são muito complicados de se abordar agora. 

Este blog vai se dedicar, por ora, apenas aos animais. Possivelmente, serão abordados os vegetais e, mais para o futuro, os outros seres vivos. 

De início, haverá comentários sobre os vertebrados, a começar pelos mamíferos, o grupo dos seres humanos, cães, vacas, ratos, baleias e outros. Depois, será a vez dos invertebrados deuterostômios, onde o ânus é formado primeiro na fase embrionária, antes da boca, como os protocordados e os equinodermos (estrelas-do-mar, ouriços-do-mar). Os outros invertebrados são protostômios, onde a boca é formada antes do ânus. Parece curioso, principalmente para quem não prestou atenção ou faltou às aulas de Zoologia, a parte da Biologia associada aos animais. 

E os zoólogos parecem fazer questão de causar mais confusão nas cabeças dos estudantes, colocando os ratos como mais aparentados com os humanos do que os cães ou os cavalos. Isso será comentado melhor, mas parece estranho. 

terça-feira, 11 de março de 2025

Neurologista brasileiro contra o autismo irá ao espaço

Alysson Muotri, professor da Universidade da Califórnia em San Diego, tinha uma motivação para prosseguir com as suas pesquisas: seu próprio filho, Ivan, sofre de autismo severo de grau 3. 

Para entender o cérebro dos autistas e minorar seu sofrimento, melhorando a interação com outras pessoas, ele desenvolveu minicérebros a partir de células tronco pluripotentes extraídas de várias fontes, como sangue e polpa dentária, para estudar o desenvolvimento dos neurônios nos estados iniciais da formação cerebral. Ele observou a formação dos minicérebros, cada um do tamanho de grãos de cereais, de diferentes procedências. Aqueles derivados de células tronco extraídas de autistas apresentam neurônios com menor número de conexões entre eles, as sinapses, em relação aos minicérebros de células colhidas de pessoas sem autismo. 

Alysson Muotri examina seus minicérebros (Canalautismo.com.br)


Seus minicérebros foram enviados ao espaço para estudos na Estação Espacial Internacional e ele próprio está se preparando para ir até lá pessoalmente, a convite da NASA em conjunto com a SpaceX, de Elon Musk, para acompanhar suas criações. A viagem está prevista para o ano que vem. 

Curiosamente, Muotri nunca recebeu grande atenção da mídia, apesar de seus vários anos de desenvolvimento e divulgação de seus feitos. Este blog só conheceu agora a sua trajetória. 

terça-feira, 14 de janeiro de 2025

Classificação biológica: proposta de uma série sobre um tema complicado

Para o ser humano, o termo Homo sapiens é familiar desde o ensino fundamental. Segundo a moderna classificação biológica, somos os "homens que sabem" (embora muitos duvidem disso), da ordem dos Primatas, derivado do latim Primates ("principal"), mamíferos (animais produtores de leite) como os macacos e os lêmures, com inteligência elevada, visão estereoscópica (olhos voltados para a frente) e presença de polegar em cada mão. 

Para outros animais, assim como outras formas de vida, a situação fica menos clara. A classificação biológica em questão, feita por Karl von Linné, ou Carolus Linneaus, dito Lineu (1707-1778), biólogo sueco, sofreu várias modificações, capazes de provocar confusão mental em quem se atreve a estudá-las a fundo. 

Por que a classificação dos seres vivos precisava ser em grego ou latim, com um primeiro nome científico, ou gênero, em maiúsculas, e o segundo nome, ou espécie, em minúsculas? Isso era costume dos naturalistas do século XVIII, como Lineu, onde a regra era empregar linguagens acadêmicas, e não as dos povos. Era a nomenclatura binomial, divulgada desde o século anterior pelo naturalista suíço Gaspard Bauhin (1560-1624), em seu livro Pinax Theatri Botanici (1622), classificando vários tipos de plantas. 

E são justamente a classificação das plantas a mais confusa de todas, apesar de ser sistematizada antes de qualquer outro reino biológico. Isso será visto ao longo do tempo. Primeiro, este blog vai abordar os mamíferos, onde já existe muita complicação, questionando aquele livro didático empregado na sua escola. Esta série sobre classificação de seres vivos vai se estender ao longo deste ano. 

Lineu fez uma classificação minuciosa dos seres vivos, adaptada ao longo do tempo pelos avanços científicos desde o século XVIII (Retrato de Carl von Linné por Alexander Roslin)


quinta-feira, 4 de abril de 2024

A série do momento e o motivo de seu título

Na Netflix, a série mais comentada é "O Problema dos Três Corpos", sobre uma intrincada história envolvendo crimes, tentativas de contatos com alienígenas e a Revolução Cultural da China nos anos 1970, pois o roteiro original é do chinês Lin Cixin. 

O título se refere a um enigma ainda não resolvido satisfatoriamente pelos físicos. Os corpos seriam corpos celestes, como estrelas e planetas. Com dois corpos interagindo entre si pela força gravitacional, os movimentos são previsíveis. Quando estão próximos, formam um sistema binário, com uma trajetória elíptica bidimensional. 

Já com apenas um corpo a mais, a situação se torna muito complicada, ainda mais considerando que, em muitos casos concretos, os três corpos em questão não podem ter sua massa desprezada, e ainda há o princípio da conservação de energia, ou seja, não se pode considerar uma fonte para fornecer uma energia para manter a trajetória dos objetos em questão em harmonia. Assim, é grande a possibilidade de movimentos caóticos. 

Tudo piora quando se considera mais corpos interagindo próximos, aumentando a chance de haver o caos. 

Para muitos ufólogos e alguns chamados "teóricos de conspirações", a falta de capacidade para resolver um problema aparentemente simples de mecânica celeste é um exemplo da limitação do conhecimento da civilização "terráquea" frente ao dos extraterrestres. Há especulações sobre um iminente contato com eles, em meio ao caos que pode vir a ocorrer, com conflitos, guerras e catástrofes climáticas provocadas por tempestades solares e ações humanas. Em caso de um debacle da humanidade, os representantes de outros planetas poderiam intervir em último caso para salvar uma parte dela. Ou, para os mais pessimistas, capturar essa parte e torná-la parte de experimentos da ciência alienígena certamente menos inofensivos do que o estudo dos corpos celestes. 

Uma possível solução envolvendo três corpos com massas semelhantes entre si e girando em torno do centro de massa do sistema, chamado de baricentro (Divulgação/Wikimedia Commons)



N. do A.: Existe ainda uma versão chinesa, mais fiel ao original e sem tantos elementos mirabolantes, disponível em outros streamings, como a Apple TV. 

quinta-feira, 17 de agosto de 2023

Indiana Jones não vai gostar

Recém descoberta no Parque Nacional Otishi, no Peru, uma espécie de cobra foi batizada de Tachymenoides harrisonfordi, em homenagem ao ator Harrison Ford, também ativista das causas ambientais. 

Curiosamente, o personagem mais famoso vivido pelo ator, o aventureiro Indiana Jones, tinha muito medo de cobras, daí a ironia. 

Não há razão para temer esta espécie de cerca de 40 cm, sendo um colubrídeo pequeno e inofensivo, sem dentes inoculadores de peçonha. Nem mesmo Indy, embora ele não gostaria de encontrar uma espécie dessas caso resolver ir ao Peru para uma de suas aventuras envolvendo arqueologia e mistério. 

A espécie foi catalogada pelo herpetologista Edgar Lehr (Conservation Internationa)

Infelizmente, talvez seja melhor para o velho Indy encarar esta serpente ou qualquer outra do que as críticas e a repercussão de seu último filme, Indiana Jones e a Relíquia do Destino, lançada no último mês de junho e indigna de encerrar a série de longas com o aventureiro, mesmo com a direção de James Mangold (Logan) e a supervisão do próprio Steven Spielberg.


terça-feira, 11 de julho de 2023

Lago do Canadá pode definir nossa atual época geológica

A classificação geológica da Terra está ultimamente confusa, depois das revisões recentes. Antes, definia-se a era atual como a Quaternária, em oposição à era Terciária (dos mamíferos e aves gigantes), Secundária (dos dinossauros) e Primária (dos invertebrados e peixes). Depois, convencionou-se chamar as eras de Proterozoico, Paleozoico, Mesozoico e Cenozoico (a era atual, iniciada com a extinção dos dinossauros e outros animais, há 66 milhões de anos).. As eras são divididas em períodos. Definiu-se o período atual como Neógeno, na época (subdivisão de um período) chamada de Holoceno. 

Mais recentemente, falava-se em um período chamado Quaternário, englobando as últimas épocas, ainda englobando o Pleistoceno, quando havia vários períodos glaciais, os homens viviam em cavernas e não haviam inventado a roda. E, finalmente, estaríamos vivendo numa era chamada de Neozoico, dividido em um único período, o Quaternário. 

Agora os sinais achados nos sedimentos de um lago no Canadá podem ser motivos para o AWG (Antropocene Work Group) definir uma nova época geológica, o Antropoceno. Ainda falta definir os limites entre o Holoceno e o Antropoceno, mas enquanto alguns paleontólogos querem fixar o início do Império Romano (30 a.C.) como o começo, outros empurram a data de início para a Revolução Industrial no século XVIII. Os mais tradicionais querem definir o marco para englobar a idade climática do Subatlântico, quando mudanças climáticas forçaram o deslocamento de várias tribos nômades, com destaque para os hunos, que foram para o oeste em busca de terras mais férteis, causando o medo por onde passavam. Isso aconteceu por volta do ano 500 a.C.

Vista aérea do lago Crawford, onde pesquisadores de duas universidades, a Carleton e a Brock, coletaram amostras do lodo subaquático. 

No Lago Crawford, localizado na província de Toronto, foram encontrados contaminantes como cinzas decorrentes de emissões industriais, como queima de petróleo e carvão, microplásticos e até vestígios de explosões nucleares, alterando de forma paradoxal a composição do solo abaixo do lago. Isso parece respaldar a tese do químico Paul Crutzen, ganhador do Nobel de 2002, que havia proposto o termo "época dos humanos". 

Ainda há resistências, pois o Holoceno já é uma época muito curta em termos geológicos, começando há aproximadamente 11.000 anos, após o término da última "idade do gelo". O Pleistoceno durou muito mais (2 milhões de anos), enquanto outras épocas do Cenozoico foram ainda mais prolongadas. Isso porque não havia uma espécie capaz de alterar todo o ecossistema. 

quarta-feira, 14 de junho de 2023

Boas notícias (e uma nem tanto)

 Hoje, uma das grandes agências de classificação de risco, a S&P, mudou a perspectiva da dívida brasileira de "neutra" para "positiva", gerando reações na Bovespa e no dólar. A Bolsa subiu 1,99% e o dólar caiu para o valor mais baixo do ano: R$ 4,80. A agência viu melhorias no cenário fiscal, apesar dos temores de um descontrole no quadro inflacionário e da desconfiança na capacidade do atual governo conciliar a gestão da economia com as suas convicções ideológicas. 

As agências de classificação de risco voltaram a ser faladas no Brasil, mas com bons presságios (Brandon McDermid/Reuters)

Nesta semana, aliás, houve a descoberta de uma planta contendo o canabidiol, substância receitada para controle de surtos epiléticos. A Trema micrantha blume foi estudada por biólogos da UFRJ e não tem os efeitos nocivos da maconha, principal fornecedora do medicamento, por não ter o THC, o princípio ativo causador de tantos males à saúde. 

Além disso, a Anvisa aprovou um remédio contra a AIDS, o cabotegravir (apretude), fabricado pela farmacêutica britânica GSK, reduzindo consideravelmente a contaminação pelo vírus. Ele apresenta a vantagem de ter efeito mais prolongado, em comparação aos comprimidos tradicionais usados para prevenção dos sintomas, mas a desvantagem de ser injetável, o que só reforça a necessidade de medidas profiláticas como o uso de camisinha nas relações sexuais. 

E. para os fãs dos quadrinhos, uma notícia triste: a morte de John Romita, um dos grandes criadores da Marvel, autor de ilustrações para as histórias do Homem-Aranha e um dos criadores do personagem Wolverine. 

quinta-feira, 30 de março de 2023

Dois trabalhos envolvendo animais extintos

Pesquisadores fizeram alguns trabalhos sobre animais extintos. Um deles foi num laboratório de empresa australiana, e outro foi feito a partir de fósseis recolhidos na remota ilha de Spitsbergen, na Noruega. 

Primeiro, a empresa Vow anunciou, em Amsterdam, na Holanda, onde ela possui uma fábrica, uma carne desenvolvida em laboratório, feita a partir de células de ovelha geneticamente modificadas com DNA extraído de mioglobina de mamute, complementadas com genes retirados de elefantes africanos. Quem colaborou para o desenvolvimento e reprodução das células são bioengenheiros da Universidade de Queensland. O resultado foi a produção de uma almôndega anunciada como sendo de "carne de mamute", mas ainda não foi aprovada para consumo humano, requerendo mais estudos para alguém pagar uma pequena fortuna para saborear algum animal extinto. A empresa quer ainda desenvolver carnes vendidas como sendo de animais exóticos (existentes) como alpacas e codornas japonesas. 

A intenção da empresa Vow é contribuir para o desenvolvimento de carnes de laboratório, aquelas obtidas sem o abate de animais (Reuters)


Um trabalho menos interessante para as mídias e redes sociais é a datação de fósseis de ictiossauros, répteis marinhos parecidos com os atuais golfinhos. Segundo os dados, os animais teriam surgido muito antes do que se pensava. As amostras foram datadas em 250 milhões de anos atrás, próximo da grande extinção entre o Permiano, último período da era Paleozóica, e o Triássico, o período mais antigo da era Mesozóica. Eles seriam muito mais velhos do que os dinossauros, surgidos há cerca de 230 milhões de anos. Os estudos sugerem que o surgimento desses estranhos animais marinhos aconteceu antes da grande extinção, quando mais de 95% das espécies foram extintas. 

Um representante dos ictiossauros, que viveram entre o Triássico (ou Permiano?) e o Cretáceo e eram contemporâneos dos dinossauros (Divulgação)


Se formos comparar os dois trabalhos, muitos considerariam que apenas um deles teria relevância científica, enquanto o outro seria mais um grande esforço midiático e comercial envolvendo técnicas genéticas. Já outros discordam, e falam em um futuro sem sofrimento animal, com opções para quem não abandonar o hábito de comer carne, mas sem falar nos preços das amostras crescidas em laboratórios - alimentos do futuro a partir de animais do passado? 

segunda-feira, 10 de outubro de 2022

Difiodontia é mais antiga do que se pensava

A difiodontia é a troca da dentição apenas uma vez, quando o animal jovem substitui os dentes de leite pelos permanentes. Esta é uma caracterísitca apontada como evidência de lactação, uma das características dos mamíferos, descoberta em um animal contemporâneo dos primeiros dinossauros, o Brasilodon quadrangularis, em estudo recente publicado no Journal of Anatomy no último mês de setembro (ver AQUI), pelo paleontologista Sérgio Furtado Cabreira e seus colaboradores. 

O animalzinho de apenas 12 cm de comprimento é mais antigo do que o Morganucodon, apontado como o primeiro animal a trocar os dentes uma vez apenas na vida, já citado neste blog. Isso indica maior eficiência na mastigação e dentes mais fortes, decorrentes de uma alimentação rica em cálcio nos primeiros estágios de vida, mas é um problema se um dente for perdido por alguma causa (cárie, trauma dentário). Ele surgiu há 225 milhões de anos, entre 15 a 20 milhões antes do Morganucodon e também antes dos primeiros mamíferos propriamente ditos, com mandíbula única formada pelo osso dentário (os répteis possuem a mandíbula com vários ossos, o quadrado, o articular e a columela, que nos mamíferos se transformaram na bigorna, no martelo e no estribo, respectivamente). 

Esta criatura viveu no atual Rio Grande do Sul, onde foram encontrados fósseis (Formação Santa Maria). Infelizmente, pode não ser o bichinho mais antigo a amamentar os filhotes, pois há um outro candidato, considerado mais próximo dos mamíferos atuais, o Tikitherium, que viveu na atual Índia há 227 milhões de anos (2 milhões mais antigo que o Brasilodon), onde foram encontrados fragmentos de ossos e dentes, estes últimos parecidos com os encontrados nos mamaliformes docodontes (como o Castorocauda, um bicho semelhante a uma mistura de castor, lontra e ornitorrinco), normalmente encontrados bem mais tarde (entre 195 e 150 milhões de anos atrás). Seria o mais antigo docodonte conhecido, vivendo numa época onde os cinodontes (chamados antigamente de "répteis mamiferoides") eram obrigados a desenvolver recursos para a sobrevivência em meio às ameaças representadas pelos primeiros dinossauros e outros predadores. 

Por enquanto, não há evidências de trocas dentárias no animal "asiático", enquanto o artigo de Cabreira et al mostra algumas provas disso. Logo, o pequeno ser pode (por enquanto) ser considerado o mais antigo "mamífero" existente, mesmo faltando outros critérios para ser tratado como tal. 

O Brasilodon ainda não tem o ouvido médio típico dos mamíferos, além de provavelmente ser ovíparo, mas há evidências segundo as quais as fêmeas amamentavam os filhotes (Divulgação)


sexta-feira, 19 de agosto de 2022

Querem ressuscitar marsupial extinto

Em 1936, o último lobo da Tasmânia (Thylacinus cynocephalus), um marsupial carnívoro, morreu confinado num zoológico australiano. Ele já era raro quando os primeiros aborígenes habitaram a atual Austrália, e mesmo assim foi considerado uma praga em potencial durante a colonização europeia. Com isso, ele foi caçado até a extinção. 

Atualmente, alguns biólogos querem usar o material genético do animal e também células tronco do "parente" vivo mais próximo, o diabo-da-tasmânia, para trazê-lo de volta à vida, mas a comunidade científica ainda considera isso uma quimera, pois não há células vivas disponíveis e o genoma deste estranho mamífero ainda não está totalmente decodificado. Mesmo assim, a Universidade de Melbourne recebeu um donativo de R$ 5 milhões, de fontes não informadas, para continuar as pesquisas e tentar "ressuscitar" o bicho, que não tem parentesco algum com os lobos, e sim com os cangurus. 

Uma das últimas fotos de um Thylacinus cynocephalus vivo, há quase 100 anos atrás, no zoológico de Hobart, na Austrália (Divulgação)


Há alguns registros do comportamento do lobo da Tasmânia. Ele caçava sozinho ou em pares, atacando roedores, aves, cangurus e, às vezes, animais de criação, e sua mandíbula podia abrir-se largamente. Fazendeiros os acusavam de matar ovelhas, embora haja questionamentos sobre isso, pois estudos indicam que a mandíbula deste predador não era forte o bastante para abater animais grandes. Fora isso, eles eram noturnos, e as fêmeas mantinham os filhotes recém-nascidos em uma bolsa (marsúpio). Sua pelagem marrom-clara e listrada podia oferecer certa camuflagem, e devido às listras ele também foi chamado de tigre da Tasmânia. 

Sua "recriação" poderia ser um grande feito para o conhecimento humano, mas os críticos acham que os investimentos utilizados nesta aparente aventura seriam mais úteis para a preservação das espécies ainda vivas, mas ameaçadas de ter o mesmo triste destino deste curioso marsupial. 

segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

Mais uma produção brasileira

Pesquisadores de biotecnologia da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) publicaram na revista periódica Scientific Reports (leia AQUI) um trabalho sobre a eficácia de um composto de cobre potencialmente eficaz no tratamento do câncer. 

Estes compostos reagem quimicamente no organismo formando as chamadas espécies reativas de oxigênio, mais prejudiciais às células tumorais do que as saudáveis, atacando o DNA, a molécula essencial à vida celular. Este fenômeno é chamado de apoptose. Um dos tipos de câncer estudados foi o melanoma, muito comum no Brasil devido à exposição aos raios UV em peles suscetíveis. 

Pedro Henrique Alves Machado, autor principal do artigo publicado no dia 27 de dezembro último e divulgado nesta semana (Arquivo pessoal do autor)

Futuramente, o composto de cobre abordado no artigo será colocado em nanocápsulas, para serem injetadas diretamente nos tumores. Este procedimento, após concluído, terá boa chance de ser aplicado em maior escala, e posteriormente liberado como opção quimioterápica. 

quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

Enquete sobre o transplante com coração de porco

Há alguns dias, um americano chamado David Bennet foi submetido a um transplante com um coração de porco geneticamente modificado, inativando três genes ligados à rejeição do órgão. Diante disso: 

a) É um grande avanço da ciência! Isso mostra a capacidade humana para modificar genes de outros animais para salvar vidas de pessoas como o paciente operado em Maryland!

b) É uma crueldade! Usar um animal geneticamente modificado para ser morto e ter seu coração usado por uma pessoa!

c) É um mal necessário, pois existe uma escassez de órgãos para transplante em todo o mundo. 

d) É uma aberração! Torna o ser humano um criador, afrontando os preceitos religiosos!

e) Prefiro opinar sobre as falas do Bolsonaro ou do Lula, porque desse assunto não entendo.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

Maior crise na Capes está em curso

Hoje, mais 28 pesquisadores ligados à área de avaliação de cursos da CAPES, o programa de Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, renunciaram, na maior crise deste órgão nos últimos anos. 

Estes pesquisadores são da área de Química, e juntaram-se aos profissionais nas áreas de Matemática e Física, que também pediram desligamento. 

A crise na CAPES (e no CNPq) está ameaçando o futuro da pesquisa e desenvolvimento tecnológico no Brasil 

Isto significa uma ameaça aos programas de Pós-Graduação, essenciais para o desenvolvimento da ciência e da tecnologia no Brasil, além de representar perdas de talentos, os quais verão mais vantagens em trabalhar em outros países. 

Infelizmente, não há dinheiro para custear sequer a parte mais importante da educação - o ensino básico. Alega-se que é necessário racionalizar os custos, mas enquanto não há iniciativas para serem colocadas em prática neste sentido, o sistema educacional e a pesquisa acadêmica estão perigosamente disfuncionais. Assim, estamos com o futuro ameaçado. 

sexta-feira, 8 de outubro de 2021

Fonte para pesquisa seca de vez

Devido à crise econômica causada pela pandemia e agravada pela crônica má gestão do governo federal, a verba destinada à ciência encolheu ainda mais. 

Projeto do Ministério da Economia quer retirar 90% da verba destinada ao custeio da ciência, por meio das bolsas do CNPq e despesas para compras de insumos e manutenção de equipamentos. Restariam míseros R$ 55 milhões, insuficientes para fazer qualquer coisa séria. 

Para minorar essa situação, está prevista um crédito suplementar, mas oito entidades ligadas à pesquisa se manifestaram, solicitando ação do Senado. São elas: Associação Brasileira de Ciências, SBPC, Andifes, Confap, Conif, Confies, Consecti e IBCHIS.

Qualquer país com um mínimo de estrutura investe em pesquisa e desenvolvimento tecnológico, e isso é vital para evitar a fuga de talentos para outros países e a dependência de recursos vindos do exterior. Quem minimiza o problema ignora-o completamente, ou está alijado da realidade. 

segunda-feira, 26 de julho de 2021

Enquanto acontecem os Jogos

A imprensa tem dado destaque aos Jogos, mas alguns eventos menos edificantes surgiram. Continuam os confrontos violentos entre pessoas sem e com máscara durante a interminável pandemia de COVID-19, a agressão contra a deputada Joise Hasselmann há alguns dias, o atentado contra a estátua de Borba Gato por um obscuro grupo anarcossocialista não identificado e um menino de 13 anos foi morto com 15 tiros em São João de Itabapoana, no Rio de Janeiro. 

Pelo menos houve algumas notícias boas, como a jovem estudante de neurociências Isabelly Moraes Veríssimo dos Santos, de 19 anos, que conseguiu bolsa de trainee em Harvard, superando a infância pobre em Cubatão. 

Isabelly vai integrar grupo de pesquisa em neurociências na Universidade de Harvard; ela já conseguiu ser aprovada em sete universidades diferentes (Divulgação)


terça-feira, 20 de outubro de 2020

Continuam insistindo em Vênus

Há pouco tempo, o blog abordou a descoberta de traços de fosfina em Vênus, o planeta do Sistema Solar mais parecido com a Terra. 

Depois de alguns artigos científicos contestarem a hipótese da origem biológica da fosfina, sugerindo que ela teria se formado a partir de atividade vulcânica ou tempestades, outros estudos apontam para uma evidência mais convincente para uma suposta vida venusiana: detectaram a presença de glicina, um aminoácido, na atmosfera sufocante do planeta. 

O artigo Detection of simplest amino acid glycine in the atmosphere of the Venus (leia AQUI), escrito por astrofísicos indianos (Arijit Manna, da Midnapore College, é o principal autor), informa que o aminoácido, constituinte do DNA, foi encontrado por meio de espectroscopia na região equatorial de Vênus. Este artigo ainda está sob análise, mas já lança novas questões sobre atividade biológica em um lugar considerado extremamente hostil, e pode inclusive ajudar a compreender como a vida terrestre formou-se, há mais de 4 bilhões de anos atrás. 

A representação da molécula de glicina (NH2-CH2-COOH) (Divulgação)

N. do A.: Parece mais fácil descobrir um venusiano do que acreditar na inocência de Robinho, condenado por estuprar uma moça albanesa na Itália, ou o PSG conseguir conquistar, nesta temporada, a tão sonhada taça da Champions League. O time francês começou mal, perdendo do Manchester United por 2 a 1, mesmo com Neymar e Mbappé.

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

Breves de outubro

1. Começa o pré-cadastro para o Pix, o novo sistema de pagamentos para servir como nova opção, gratuita e rápida, para os tradicionais DOC e TED. No primeiro dia, mais de 3 milhões de pessoas já fizeram o procedimento, gerando instabilidades em aplicativos de bancos como o Itaú e o Bradesco, apesar do Pix só entrar em vigor a partir de 16 de novembro. As informações sobre como efetivar o pré-cadastro podem ser obtidas em várias fontes de informação confiáveis.

2. Donald Trump recebeu alta do hospital após contrair o coronavírus na semana passada e promete retomar plenamente as atividades de campanha, enquanto ele é alvo de críticas por seu passeio de ontem, quando ele saiu de carro e acenou para apoiadores nos arredores do hospital militar Walter Reed, em Washington. Também muito se falou sobre o tipo de tratamento recebido, com remdesivir e doses de oxigênio para ajudar na respiração, procedimento típico de pacientes graves da COVID-19. 

3. Enquanto isso, Jair Bolsonaro continua a desagradar parte dos seus apoiadores insistindo no nome de Kassio Nunes Marques, considerado longe demais do perfil "terrivelmente evangélico" para a vaga de Celso de Mello no STF, além de ser contra temas como a prisão em segunda instância. Piauiense, ele é malvisto também por ter ligações com o governador Wellington Dias (do PT) e ser garantista, isto é, defensor das prerrogativas de amplo direito de defesa por parte dos réus; esse perfil é parecido com o de Gilmar Mendes e Dias Toffoli. 

4. Na explosiva região do Cáucaso, entre a Rússia e a Ásia Ocidental, a guerra entre Armênia e Azerbaijão sai definitivamente do controle e ameaça se tornar mais um conflito de grandes proporções. Os russos apoiam a Armênia (mas tem importantes relações comerciais com o Azerbaijão, sendo os dois países beligerantes ex-soviéticos), enquanto a Turquia ajuda o governo azeri a debelar o separatismo na região de Nagorno Karabakh, de maioria armênia. A região é estrategicamente importante por abrigar oleodutos que conduzem o petróleo e o gás do Mar Cáspio para a Turquia, a qual, por sua vez, quer estender o fornecimento desses produtos para a Europa Ocidental. 

5. Enquanto o mundo sofre com uma pandemia viral, os microbiologistas Charles Rice, de Rockfeller University (Nova York), Harvey Alter, do Instituto Nacional de Saúde (Maryland), e Michael Houghton, da Alberta University (Edmonton, Canadá), ganharram o Prêmio Nobel da Medicina pela descoberta do vírus da hepatite C, em 1978, e estudos sobre a doença e seus meios de transmissão. Os estudos servem de alento para novas pesquisas sobre doenças virais como a COVID-19. 

Os americanos Alter (esquerda) e Rice (direita) e o britânico Houghton (meio) esperaram vários anos para serem premiados com o Nobel; a Academia começou hoje a anunciar os ganhadores (NIH History Office-Flickr / Alberta Univ. / Rockfeller Univ.)


segunda-feira, 14 de setembro de 2020

Estamos avançando no conhecimento

Embora estejamos sofrendo por causa de uma pandemia excessivamente prolongada, capaz de gerar questionamentos sobre a capacidade de sobrevivência da civilização, dois trabalhos exemplificam a capacidade humana de expandir o conhecimento. 

Vênus voltou a chamar a atenção dos "terráqueos" devido à concentração de fosfina em sua atmosfera - indício de vida extraterrena baseada em DNA (JAXA / ISAS / AKATSUKI PROJECT TEAM)

Comecemos pelo trabalho de alcance mundial: astrônomos e geoquímicos concluíram anos de estudo, utilizando o telescópio James C. Maxwell, no Havaí, e o Observatório Europeu do Sul, localizado no Chile. Por meio de análises por espectrofotometria, descobriram um gás aparentemente estranho para a atmosfera de Vênus, o planeta mais próximo da Terra e onde não se cogitava haver forma de vida alguma devido à atmosfera mortífera. O gás em questão é a fosfina (PH3), produto da decomposição de alguns fertilizantes à base de fósforo, e também usado na dopagem do silício para a produção de semicondutores. É incrivelmente instável, mortífero e explosivo. 

Foram encontradas concentrações da ordem de 20 partes de fosfina por bilhão (ppb), algo impossível de ser obtido por meios não biológicos. Altas concentrações de fosfina são encontradas, aqui, em lugares onde há micro-organismos anaeróbios (cuja vida não depende do oxigênio). 

O trabalho foi publicado na revista Nature Astronomy (Phosphine gas in the cloud decks of Venus), e deve despertar novas missões espaciais no planeta conhecido como "estrela d'alva". Missões americanas e soviéticas de curta duração foram feitas nas décadas de 1960 e 1970, e houve poucos trabalhos feitos por europeus (Venus Express) e japoneses (missão Akatsuki). 

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Outro trabalho chamou a atenção por aqui, e tem aplicação mais prática a curto prazo, pois envolve o famigerado coronavírus: químicos da UFMG desenvolveram um gel contendo INNIB-41, espécie de polioxoniobato, ou seja, um sal de nióbio. Testes mostraram eficácia do produto para desinfetar ambientes por 24 horas, destruindo ou inativando bactérias, vírus e outros micro-organismos. O nióbio é um metal muito estimado pelo presidente Jair Bolsonaro e seus seguidores, mas para outros fins, como ligas metálicas para a indústria aeroespacial. O solo brasileiro possui algumas das maiores reservas desse mineral. 

Utilizado em pequenas concentrações, diluído em água, seu custo de fabricação é considerado baixo, e será usado como higienizador de mãos e de máscaras (enquanto elas forem necessárias). 


N. do A.: Nossa capacidade científica e tecnológica ainda é limitada em muitos aspectos, principalmente no Brasil, onde há ainda frequentes quedas de sinal oferecidas pelas operadoras de banda larga. Na sexta-feira e hoje, houve instabilidades na banda larga fixa da Claro (NET), em São Paulo. Houve outros casos envolvendo também a Vivo, neste ano, em outros locais.