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quinta-feira, 20 de agosto de 2026

E o Sudão continua esquecido

De vez em quando este blog fala sobre a África, continente de onde vieram populações inteiras trazidas ao Brasil e ao restante da América, incluindo os Estados Unidos, como escravas. 

Não muito longe de um dos conflitos mais dignos de preocupação pelos ocidentais, o da Ásia Ocidental, existe, do outro lado do Mar Vermelho, um outro, praticamente ignorado pela mídia brasileira, americana, europeia ou mesmo chinesa. 

Continuam a matança provocada pela guerra entre o exército sudanês e os rebeldes das Forças de Apoio Rápido. De vez em quando, a capital do Sudão, Cartum, é atacada pelos insurgentes, liderados por Muhammad Dagalo, mais conhecido por Hemedji. Eles são apoiados pela Etiópia e pelos Emirados Árabes Unidos. Existe uma lista de suspeitos dando cobertura a eles, desde os outros vizinhos, Chade e Líbia, até países como Israel e Rússia (Grupo Wagner, combatentes atuando em toda a região do Sahel, responsável pela desestabilização política de vários países, todos miseráveis, devastados pela seca e governados por líderes corruptos, incompetentes e/ou ditatoriais). 

Por outro lado, o governo sudanês, uma ditadura militar comandada pelo general Abdel Fatah al-Burhan,  é apoiado pelo Egito, pela maioria da Liga Árabe (incluindo Arábia Saudita, Qatar, Marrocos, Argélia e Tunísia) e da União Africana (incluindo África do Sul, Nigéria e o ex-inimigo Sudão do Sul, independente desde 2011), e pela Turquia. 

Os rebeldes estão entrincheirados principalmente na província ocidental de Darfur, onde ambas as forças estavam juntas para reprimir separatistas da região, uma das mais miseráveis do mundo, e em Khordofan, no sul. Lá, os civis são tratados como presas pelos dois lados da guerra. 

Até agora, foram contabilizadas 14 milhões de pessoas saindo do país, um quarto da população, fugindo da guerra e engrossando a massa de refugiados africanos, muitos deles querendo ir para a Europa atravessando o Saara via Líbia. 

Refugiados sofrem com a guerra, a miséria e a seca, acumulados em Tawila, no Darfur do Norte ( © Ocha)

Há indícios de ser mais um guerra entre forças defendendo interesses estrangeiros. A ditadura sudanesa é apoiada pelo Egito e os guerrilheiros das Forças de Apoio Rápido, pela Etiópia. Como o Sudão, os dois países fazem parte da Bacia do Nilo, e a Etiópia construiu a maior represa do continente africano, no principal afluente do segundo mais comprido rio do mundo, o Nilo Azul. Sua barragem é chamada de Grande Barragem do Renascimento Etíope, represando milhões de toneladas de água. O Egito acusa a Etiópia de causar uma redução considerável na vazão do Nilo, prejudicando o abastecimento e a agricultura do país. Já se fala em um grande conflito pela água, e irá envolver todos os países dessa bacia, inclusive Quênia e Tanzânia, países conhecidos pelos safáris turísticos. Possivelmente, muita gente na África Oriental inteira irá sucumbir a uma guerra, antes que a ruptura no Vale do Rift, localizada na região, faça isso.  

Enquanto esse cenário apocalíptico não acontece, a catástrofe humanitária é bancada pelo povo sudanês. A ONU, acusada de inoperância, diz nada poder fazer pelos milhares de deslocados e pelos massacres. E a opinião pública do mundo dito "civilizado" continua a ignorar essa tragédia. 

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Tesouros arqueológicos em perigo

A terrível guerra civil no Sudão coloca em perigo o seu maior legado arqueológico, as pirâmides. Ao contrário do senso comum, o país abriga o maior número dessas estruturas no mundo, com 250, superando os 138 encontrados no vizinho Egito. 

As pirâmides do Sudão concentram-se em Meroé, no norte do país (Divulgação, a partir do link https://hectorruizgolobart.com/piramides-de-meroe/)

Embora sem o mesmo apelo turístico, por serem relativamente pequenas, as pirâmides de Meroé, localizadas no vale do Nilo, chamam a atenção pelo formato mais íngreme, servindo como túmulos para os antigos reis, chamados de "faraós negros", governantes do antigo império cuchita, entre o século VII a.C. e 300 d.C. Nem todas as pirâmides egípcias eram construídas para servirem apenas de enfeite mortuário: as grandes pirâmides teriam outras finalidades, ainda debatidas pelos egiptólogos, devido ao seu tamanho. 

A maior parte dessas construções está em ruínas, agravada por vandalismo recente. Em meados do século XIX, o mercenário italiano Giuseppe Ferlini teria saqueado e destruído várias delas, algumas em estado de conservação impecável até então, como aquela pertencente à rainha Amanishakheto, do século I d.C. Ferlini fez fortuna vendendo facilmente os tesouros encontrados na Europa, em meio ao interesse vigente em se apossar das riquezas da África. 

Arqueólogos temem o destino destes tesouros antigos por causa da guerra civil envolvendo o governo e os rebeldes da Força de Apoio Rápido, aumentando o risco de saques e bombardeios. Estudiosos ocidentais não confiam em nenhum dos dois lados, em parte pela velha ótica da pretensa superioridade europeia (ou americana, ou asiática) em relação aos africanos, vistos como incapazes de valorizarem seus monumentos, mas também pela preocupação legítima com este legado de valor inestimável. 

segunda-feira, 5 de junho de 2023

Uma das piores regiões do mundo para se viver

Existe uma vasta região na África, pior do que qualquer outro lugar para alguém morar. Muito se fala em outras regiões inóspitas, como o Saara, ou as savanas onde vivem feras perigosíssimas, mas o Sahel é pior do que isso. 

Este enorme cinturão separa o deserto do Saara das savanas mais próximas do Equador, ligando o noroeste ao nordeste do continente, entre o Senegal a oeste à Eritréia no leste, passando por outros nove países: Mauritânia, Mali, Burkina Fasso, Níger, Nigéria, Tchad, Sudão, Sudão do Sul e Etiópia. Gâmbia também estaria dentro do Sahel, mas ele é basicamente formado pelo vale do rio de mesmo nome, então não sofre com o clima seco desta enorme região. 

A Africa está cheia de lugares problemáticos, mas este enorme cinturão à beira do Saara é o pior deles (Fonte: Al-Saidi et al. - clique AQUI)

O Sudão, país que ganhou o noticiário recentemente, faz parte dessa região, e apesar das insistentes tentativas de estabelecer a paz, muitas vezes com a colaboração da Liga Árabe e dos Estados Unidos, a guerra e os morticínios continuam. Khartum, a capital do país, recebeu novo bombardeio vindo das forças rebeldes da FAR (Força de Apoio Rápido), com apoio dos mercenários russos do Grupo Wagner, os mesmos atuantes na guerra da Ucrânia. Darfur, no oeste do país, está recebendo intensos bombardeios de ambas as facções, e o governador local decretou "zona de catástrofe". Teme-se até pelas múmias e outras peças arqueológicas guardadas nos museus de Khartum. O país possui, aliás, pirâmides no vale do rio Nilo.

Recentemente, o país deixou de ser o maior da África com a independência do Sudão do Sul em 2011. Este país ainda é um dos mais miseráveis e falidos de todo o mundo, e também está em estado de guerra. O norte do país sofre desertificação, por ser parte do Sahel, e o sul, assim como partes do vale do Nilo Branco, paradoxalmente sofre com enchentes. Enquanto isso, o governo local oprime seu povo. 

Os outros países deste enorme cinturão também estão em péssima situação. A Eritréia e a Etiópia, ambos vizinhos do Sudão pertencentes à península da África Oriental conhecida como "Chifre da África", estão em guerra um contra o outro, com o envolvimento de rebeldes da província de Tigré, na fronteira entre os dois países. Os guerrilheiros querem a separação da Etiópia e os confrontos geraram milhares de mortes. Há relatos de hienas e outros carniceiros se banqueteando com os cadáveres. 

Na Nigéria e seus vizinhos, há o flagelo do grupo extremista islâmico Boko Haram, que continua sua sanha de instituir um estado islâmico em volta do lago Tchad, e querer impor a Sharia em todo o norte do país mais populoso da África. Para conseguirem seu intento sequestram mulheres e crianças, e matam tantas pessoas quanto possível. 

O Tchad está entre a Nigéria e o Sudão e é afetado severamente pelos dois conflitos, e seu território às vezes é alvo de ataques de insurgentes e radicais do Boko Haram. Existe uma região totalmente no Saara, o Tibesti, onde há um movimento separatista apoiado até há pouco tempo pela vizinha Líbia, esta agora mergulhada na guerra civil, e o Grupo Wagner também ameaça a paz no país. 

Este grupo também está atuando para desestabilizar o Burkina Faso e o Mali, países assolados pelo terrorismo islâmico de grupos ligados à Al Qaeda e do Estado Islâmico e pela crescente seca que toma boa parte desses países. A razão disso é a presença de minérios valiosos presentes em boa parte da região. 

Aliás, a desertificação de vastas áreas de todos os países do Sahel e a miséria de sua população também são um flagelo demonstrando o fracasso das potências mundiais neste ponto. As mesmas que empreenderam várias colônias na região: Senegal, Mauritânia, Mali, Burkina, Niger e Tchad foram tomadas pela França até o século XX. O Sudão (incluindo o Sudão do Sul) foi colônia inglesa e estado vassalo do Egito. A Etiópia mantinha sua independência mas chegou a ser invadida pela Itália fascista na década de 1930.

Também é terrível a situação de certos países no entorno desta região, como Camarões (onde também há ataques do Boko Haram), República Centro-Africana (Guerra civil, incursões do Grupo Wagner, miséria generalizada) e Somália (sem governo formal, com ataques de piratas e radicais islâmicos). 

É uma verdadeira vergonha para o humanidade tolerar tanto sofrimento numa área tão vasta. Mostra galhardamente o nosso fracasso como espécie.