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sexta-feira, 3 de julho de 2026

250 anos dos Estados Unidos

Neste sábado os Estados Unidos, a democracia mais pujante e poderosa fo mundo, completam 250 anos de independência em relação à Grã-Bretanha. 

Enquanto o Brasil era uma colônia de Portugal onde as ideias de independência ainda não afloraram totalmente, Portugal, por sua vez, era administrada pelo implacável Marquês de Pombal, a Prússia tinha como senhor Frederico, o Grande, e os outros países, como a França e o Sacro Império Romano-Germânico, eram governados por monarcas absolutos. A própria Grã-Bretanha era uma monarquia constitucional, embora longe da democracia, no reinado de Jorge III, considerado um rei insano. 

Thomas Jefferson, John Adams e Benjamim Franklin redigiram a Declaração de Independência, assinada por eles e por outros políticos emancipacionistas, como John Hancock, em Filadélfia. O general George Washington comandava a resistência contra os britânicos, numa guerra ainda em curso. Eles só se tornaram realmente independentes após a rendição dos antigos colonizadores. 

O dia 4 de julho de 1776 mudou a História dos Estados Unidos - e do mundo; Thomas Jefferson (ao centro) viria a ser eleito presidente em 1800 (quadro de John Trumbull)


No texto, já havia as bases para a futura democracia norte-americana, defendendo a liberdade como direito natural dos cidadãos das então Treze Colônias. De acordo com os princípios iluministas, abraçados pelos americanos mas temidos pelas cabeças coroadas do outro lado do Atlântico, estava definido um sistema de governo com três poderes separados e certa igualdade jurídica. O voto masculino, ainda definido segundo as suas propriedades de terras (escravos eram proibidos de votar) e os Colégios Eleitorais seriam regulamentados na Constituição de 1787. Dois anos após a promulgação da Carta, vigente até hoje, George Washington foi eleito presidente e John Adams foi eleito em pleito separado, como vice-presidente. 

Desde então os Estados Unidos tornaram-se uma nação progressivamente mais livre, solidificando suas instituições e garantindo os direitos individuais, embora seu sistema político-eleitoral, baseado na autonomia dos Estados e dos colégios eleitorais, ainda esteja longe da perfeição, e haja muitas sequelas de práticas nefastas como a segregação racial (que permaneceu mesmo muito depois da abolição da escravidão durante a Guerra Civil). Mas é muito melhor do que certas "democracias" surgidas bem depois, como as de outros países americanos (Brasil, inclusive), vulneráveis à corrupção, ao populismo e à falta de responsabilidade quanto à observância das leis e das reais necessidades de seus povos. 

E o que dizer das várias tiranias, como a do Irã, e de regimes autoritários, como os da China, da Rússia, dos países africanos e asiáticos, ainda firmes e fortes?

quinta-feira, 8 de maio de 2025

Iam habemus papam

Depois de um dos conclaves mais rápidos da História, os cardeais já elegeram um papa, o americano Robert Prevost, considerado um nome pouco cotado pela mídia, mas próximo do falecido papa Francisco. Recebeu a maioria (mais de dois terços) dos votos após quatro escrutínios, um processo bastante breve. Quando houve a fumaça branca, houve comemoração de milhares a acompanhar a votação próximos à Basílica de São Pedro, e muitos outros fora do Vaticano. 

A fumaça branca saiu por volta das 18h no horário de Roma (Vatican News)

Será um pontificado potencialmente longo, pois Prevost, agora o papa Leão XIV em homenagem ao grande Leão XIII (1810-1903), está com 70 anos incompletos e aparenta não ter nenhum problema de saúde. Não chega a ser tão novo quanto foi São João Paulo II, eleito aos 58 anos após um conclave também bastante rápido (2 dias). 

O novo papa foi nomeado cardeal apenas dois anos antes, em 2023. Até 2014, era sacerdote e missionário agostiniano em Chicago, indo para o Peru, na América do Sul, vizinho do nosso país, em 1985. Tornou-se dirigente do seminário agostiniano em Trujillo. Quando o papa já era Francisco, ele se tornou bispo em Chiclayo, e a partir daí passou a acumular mais responsabilidades, como membro da Congregação para o Clero e presidente da Comissão para a Educação e Cultura, e entrou no radar de Francisco, para ser prefeito do Dicastério para os Bispos, aproximando-se da Cúria romana antes de se tornar cardeal e membro da Cúria. Ficou apenas dois anos no cargo, até a surpreendente eleição. 

Durante o tempo de episcopado, ele adquiriu a cidadania peruana. Logo, além de ser o primeiro americano no trono de São Pedro, é também o primeiro peruano. 

No entanto, ele continua a ser um filho da América, acompanhava a política e, considerado progressista, como Francisco, defensor da responsabilidade humana sobre as questões ambientais e crítico das políticas migratórias durante os dois mandatos de Donald Trump, e também tinha como alvos os aliados de seu compatriota. Porém, o presidente americano foi um dos primeiros a se manifestar sobre o resultado do conclave, e disse querer se reunir com Leão XIV. 

Selo comemorativo do novo papa Leão XIV (Santuário do Pai das Misericórdias/Canção Nova)

Este dia 8 de maio de 2025 já entrou para a História, marcando um novo pontificado. Ainda é cedo para afirmar sobre os rumos da Igreja Católica, mas a promessa é de continuidade da obra de Francisco. Pode-se esperar alguma de mudança de rumos, no entanto, de acordo com os acontecimentos neste ano, em meio ao crescimento das tensões no mundo, onde todos estão ouvindo falar de "guerras e rumores de guerras" (Mateus 24:6). 

segunda-feira, 8 de julho de 2024

Os 10 anos da "tragédia"

Hoje fez 10 anos do episódio mais grotesco na história das Copas, tido como uma gigantesca tragédia, mas também como uma colossal comédia mambembe: o 7 a 1 sofrido pela Seleção Brasileira diante dos alemães na Copa do Mundo realizada em terra brasilis. 

A data amaldiçoada pelo futebol mundial completa 10 anos (do jornal Extra.com)


Muitos tentam explicar o ocorrido e só conseguem constatar algo óbvio: o elenco brasileiro é medonhamente sem talentos no geral, com o maior craque, Neymar, sendo mais uma celebridade da mídia do que um jogador profissional. E isso continua. O time principal só conquistou uma Copa América neste meio tempo, fracassando nas Copas do Mundo de 2018 e 2022. Houve as medalhas de ouro nas Olimpíadas de 2016 e 2020, a primeira muito comemorada por ser inédita e ser à custa dos alemães num simulacro de "vingança", mas é um time diferente. 

E, recentemente, foi eliminado pelo Uruguai após um jogo sonolento e sem gols, apesar da superioridade numérica dos canarinhos nos minutos finais, devido à expulsão de Nandez por falta violenta em Rodrygo. Tudo foi decidido nos pênaltis, com Eder Militão e Douglas Luiz desperdiçando suas chances. 

A mediocridade do time brasileiro só foi realçada pela campanha dos alemães após o 8/7, conseguindo fracassar em TODOS os principais eventos. A campanha germânica nas Copas de 2018 e 2022 conseguiu ser ainda mais feia, e também recentemente os nossos "algozes" foram presas relativamente fáceis para os espanhois nas quartas-de-final na Eurocopa. 

Com campanhas assim, nenhuma dessas duas equipes tem muitas chances de ir longe na Copa de 2026.

Pelo menos o episódio grotesco e merecedor do escárnio universal rendeu muitos memes e piadas, e será lembrado para sempre. Também deu um chacoalhão na CBF, vista como uma entidade corrupta e degenerada, principalmente durante as investigações que resultaram em punição para os ex-dirigentes Ricardo Teixeira, José Maria Marin e Marco Polo del Nero. Agora o relativamente apagado Ednardo Rodrigues até agora não foi lembrado em fazer nenhuma negociata escandalosa, geralmente envolvendo a Nike, fornecedora do uniforme para o time. 

quarta-feira, 7 de setembro de 2022

Da série "Brasil 200", parte 3 - Quem quer ver o Brasil deixar de ser um país independente?

Não houve uma festa digna para o Brasil nos 200 anos da Independência. Os desfiles, que deveriam realçar a grandeza do evento, foram um espetáculo grotesco, ignóbil, próprio de uma nação sem o suficiente apreço pela sua própria história. O presidente Jair Bolsonaro, em Brasília e no Rio de Janeiro, transformou tudo num comício para mobilizar seus correligionários. E nem houve o esperado para muitos deles, mais radicais, cujos sonhos envolvem a derrubada dos ministros do STF sem ser pela via das "quatro linhas da Constituição" (ou seja, um processo de impeachment promovido pela Senado) ou até a volta da monarquia. 

O presidente Jair Bolsonaro, em foto com a mulher Michelle durante os desfiles em Brasília, foi acusado pela oposição e pela imprensa de se apropriar das comemorações do Bicentenário (Divulgação/JP)


Ainda há quem queira fazer do Brasil uma colônia. Boa parte deles não declara isso oficialmente, pois sabem que tais ideias são impraticáveis, falsamente utópicas (na verdade, distópicas) ou motivadas por ressentimento. 

- Os que sonham em algum povo mais tecnologicamente e culturalmente avançado para administrar o nosso país, ou povoar certas regiões para desenvolvê-las. Não valorizam o povo, considerado preguiçoso, hedonista e pouco afeito ao progresso. Também envolve conceitos explicitamente racistas, por ser a população formada pela miscigenação de várias etnias indígenas, europeias e africanas. 

- Os partidários deste ou daquele país, a ponto de garantir vantagens indevidas ou afrouxar a legislação para favorecer seus produtos. No passado, haviam os casos da Grã-Bretanha, dos Estados Unidos, da União Soviética. Agora, é a China. 

- Os defensores de uma intervenção da ONU no Brasil por não aceitarem, por exemplo, o resultado das eleições para presidente. Entre eles, os partidários da tese do "golpe" aplicado em 2016 para destituir a então presidente Dilma Rousseff, e consideram o atual presidente como, praticamente, um "usurpador", "extremista" e "reacionário". 

- Os adeptos de um governo global, onde não há espaço para nacionalismos. Embora não sejam tantos para justificar os defensores de teorias conspiratórias, eles existem, e a maior parte nem é por má fé, mas por uma esperança de um futuro melhor sem fronteiras. Trotskistas estão entre eles. Utopistas e adeptos da chamada "Nova Era", também. 

- Os que defendem a internacionalização da Amazônia ou não tomam providências para assegurar a soberania da parte brasileira, beneficiando traficantes de drogas, animais e plantas, ou então madeireiros e garimpeiros ilegais, ou certas ONGs (não todas) com atividades irregulares e sem a devida regulamentação. 

O Brasil tem vários problemas de difícil solução, e há outros meios de resolvê-los sem envolver a perda da soberania ou da integralidade. Porém, isso envolve um trabalho consistente e nem sempre estimulante. Um verdadeiro desafio para nós. 


quarta-feira, 24 de agosto de 2022

O que teria a ver a Escola Naval com a noite de São Bartolomeu

A Escola Naval do Rio de Janeiro, uma das mais tradicionais instituições de ensino superior do Brasil, é também uma das mais antigas. Era a Academia Real dos Guardas-Marinhas, fundada em 1782 por ordem da rainha de Portugal D. Maria I em Lisboa, depois transferida para o Rio de Janeiro com a vinda da família real portuguesa em 1808, recebendo o nome atual em 1887. Em 1938, foi transferida para a ilha de Villegagnon, próxima ao Aeroporto Santos Dumont, onde estava o antigo Forte Coligny. 

Esse forte foi construído pelos invasores franceses, comandados por Nicolas Durand de Villegagnon (1510-1571), vice-almirante que seguia ordens do prestigiado almirante Gaspard de Coligny (1519-1572), como parte da "França Antártica". Na época, a ilha era chamada de Sirijipe (lugar dos siris, em tupi). 

A Escola Naval, na ilha de Villegagnon, Rio de Janeiro (Divulgação)

Coligny, durante a instalação dos franceses no Rio de Janeiro, foi capturado e preso pelos espanhóis, entre 1557 e 1559, convertendo-se ao calvinismo. Libertado do cárcere, tornou-se o mais destacado dos chefes huguenotes, chamados assim porque eram partidários de Hugo Capeto, da casa dos Bourbons, e a maioria deles seguia o culto calvinista. 

As lutas religiosas entre a maioria católica e os huguenotes enfraqueceram a unidade francesa, e isso refletiu na "França Antártica". Os franceses não conseguiram se estabelecer plenamente, mesmo com o apoio dos índios tupinambás, cansados da perseguição movida pelos portugueses. Em 1560, os portugueses, comandados por Estácio de Sá (1520-1568) com o apoio do cacique Araribóia (c. 1525-1589), inimigo dos tupinambás (também chamados de tamoios), tomaram o Forte Coligny. 

Quanto ao almirante que batizou o nome do forte, ele passou a ter grande influência no reino. Carlos IX (1550-1574), o rei, era jovem e fraco de espírito, manipulado tanto pela mãe, a poderosa Catarina de Medicis (1519-1589), quanto pelos nobres, que chefiavam os grupos católicos e protestantes. Coligny era temido por seu poder, costurando alianças com a Inglaterra e a Holanda, em manobras desconhecidas até pela rainha Catarina. 

Os chefes católicos, instigados por Henrique de Guise (1550-1588), herdeiro político do duque de Guise (1519-1563), cujo assassinato teria sido a mando de Coligny, tentaram matá-lo a tiros no dia 22 de agosto de 1572, na época do casamento entre a irmã do rei, a católica Margarida de Valois (1553-1615) e o jovem nobre huguenote Henrique de Bourbon (1553-1610), então soberano do antigo reino ibérico de Navarra. Coligny sobreviveu, mas estava bastante ferido nos dois braços, e os mandantes do crime, temerosos por uma vingança dos protestantes, resolveram antecipar-se, ordenando a morte de vários líderes inimigos, e convencendo o rei Carlos IX a apoiá-los. 

O almirante, convalescendo das feridas em seu castelo, foi surpreendido em seu leito e esfaqueado por um partidário de Henrique de Guise. Seu corpo foi defenestrado, depois emasculado e decapitado. Isso e mais a perseguição aos líderes huguenotes despertou um verdadeiro frenesi em Paris, a "Noite de São Bartolomeu", em homenagem ao apóstolo de Jesus vítima, também, de uma morte terrível (ele foi esfolado vivo, segundo a tradição católica), e sua data é comemorada no dia 24 de agosto. 

Mataram tantos calvinistas, homens, mulheres e crianças, a ponto de manchar Paris com o sangue deles, inclusive o rio Sena, tingido de vermelho quando ele recebeu mais de mil cadáveres. No total, estima-se em cerca de 3.000 mortos apenas na capital francesa, enquanto em outras cidades também houve massacres entre agosto e outubro, totalizando dezenas de milhares de cadáveres (entre 10.000 e 30.000, não se sabe ao certo). Henrique de Bourbon foi um dos poucos calvinistas a escapar, e mais tarde viria a ser o rei Henrique IV, e sua esposa, da qual iria separar-se (por anulação do matrimônio), seria conhecida como "a rainha Margot". 

Tentaram trazer a cabeça do almirante Coligny para o papa, Gregório XIII (1502-1585), na esperança de conseguir o apoio do Vaticano à causa contra os "hereges". O resto mortal não cruzou as fronteiras da França. Mesmo assim, o papa encomendou um afresco a Giorgio Vasari (1511-1574), para enfeitar a sala régia do Vaticano. Nesta obra, foi representado o corpo morto de Coligny sendo jogado pela janela de seu aposento enquanto os católicos "cuidavam" dos "inimigos do papa". Foi rezado um Te Deum, como forma de louvar o rei da França e a rainha-mãe. Carlos IX mandou cunhar uma medalha comemorativa onde ele era representado como Hércules combatendo a hidra (os huguenotes). (*)

Afresco de Vasari relembrando os acontecimentos da noite de São Bartolomeu, ocorrida há exatos 450 anos (Giorgio Vasari/Domínio Público)

Assim foi o horrendo acontecimento que completa hoje 450 anos, movido pelo extremismo político (que era visto como normal na época) e pela intolerância religiosa. 

No outro lado do Atlântico, a "França Antártica" já havia perecido faz tempo, em circunstâncias bem menos dramáticas. Os franceses tentaram resistir, mas estavam divididos entre as facções católica e huguenote, e as forças de Estácio de Sá e de Araribóia conseguiram derrotá-los. Villegagnon já havia entregado o comando antes da queda do forte Coligny, pressionado pelos calvinistas, que o acusam de atrocidades contra eles. Em 1565, Estácio de Sá fundou a cidade do Rio de Janeiro, mas dois anos depois morreu em confronto com os tamoios, quando os últimos franceses foram expulsos. Mais tarde, o cacique recebeu terras no outro lado da baía de Guanabara, e sua tribo, os temiminós, fundaram uma vila, São Lourenço dos Índios, a futura cidade de Niterói. Novas invasões francesas viriam a ocorrer, no século XVII, no Maranhão (forte de São Luís, em homenagem a Luís XIII, filho do já citado Henrique IV). 

Quanto ao forte Coligny, suas ruínas deram lugar às instalações da fortaleza de São Francisco Xavier no século XVIII, aproveitada depois para abrigar a Escola Naval, responsável pela formação de vários oficiais da Marinha brasileira. 



(*) N. do A.: Os conflitos religiosos perduraram após os massacres de 1572. Após a morte precoce de Carlos IX, seu irmão Henrique III, mal visto por ser homossexual, porém bem mais firme no comando do reino, tentou se desvencilhar da influência dos chefes das duas facções em confronto, chegou a mandar matar vários deles (inclusive Henrique de Guise) e acabou sendo assassinado por um católico extremista em agosto de 1589. Catarina de Medicis perdeu influência e saúde no reinado de Henrique III, morrendo poucos meses antes do assassinato do filho. Henrique de Bourbon foi escolhido para sucedê-lo, tornou-se o rei Henrique IV, conseguiu pacificar o país com o Edito de Nantes (1598), garantindo liberdade de culto. Porém, também foi assassinado por outro fanático católico, em 1610. A paz entre católicos e calvinistas sempre foi precária, mas foi defendida por Luís XIII (e seu primeiro-ministro, o cardeal Richelieu). Seu filho e sucessor Luís XIV, o "Rei-Sol", terminou de submeter os nobres à autoridade real, mas já não tinha a mesma tolerância em relação aos huguenotes. Em 1685, vários deles, perseguidos pelo rei, fugiram do país e foram para a Inglaterra, a Prússia e outros países de religião protestante. 

terça-feira, 26 de julho de 2022

Moedas comemorativas do Bicentenário

Foram lançadas as moedas comemorativas para o Bicentenário da Independência, cujo valor nominal é de R$ 2 na versão de liga de níquel e cobre (cuproníquel), e R$ 5 para a moeda feita totalmente em prata. Os valores de aquisição saltam para R$ 34 e R$ 420, respectivamente, para serem adquiridos por colecionadores via site do Clube da Medalha da Casa da Moeda do Brasil. 

Num dos lados, nos anversos, há a reprodução de quadros históricos aludindo ao tema da Independência. A moeda de R$ 5 apresenta a "Sessão do Conselho de Estado", de Georgina de Albuquerque, pintado em 1922, durante o Centenário. Na moeda de R$ 2, temos o famosíssimo e romântico quadro de Pedro Américo, "Independência ou Morte". 

A bandeira do Brasil aparece no reverso, onde o valor de cinco reais é grafado, em cima da primeira estrofe do Hino da Independência. O mesmo trecho também é reproduzido na moeda de menor valor, mas há um detalhe interessante, que pode fazer esta moeda tornar-se disputada com o tempo: a faixa imperial é reproduzida em cores. O verde e amarelo foram pintados, fazendo desta moeda a primeira com detalhes coloridos na História do Brasil. 

As duas moedas comemorativas já podem ser adquiridas pelos aficcionados (Divulgação/Agência Brasil)


quinta-feira, 6 de agosto de 2020

75 anos de algo indesejável

Não permitamos mais o uso da bomba de fissão nuclear, como aquela que devastou Hiroshima há 75 anos, ou de qualquer outra arma de destruição em massa como essa.  

Quem vivenciou a explosão sabe do poder destrutivo de uma invenção como essa. Os Estados Unidos foram os criadores do engenho, mas a Rússia possui o maior número, inclusive a terrível e semilendária "Bomba Czar". Outras nações, como o Reino Unido, a França, a China e países vistos como perigosos à comunidade internacional, como a Coréia do Norte, possuem um arsenal atômico, capaz de ameaçar não só a humanidade, mas toda a vida no planeta. Há acusações contra a Bélgica, a Turquia e a Itália neste sentido. 

Número de armas atômicas em cada país onde elas se encontram (Fonte: Gazeta do Povo)


Os países sabem que é uma loucura suprema cogitar usar uma bomba com estas características. No máximo, limitam-se a fazer ameaças, a fim de dissuadir os inimigos. Mas é sabido do potencial de certas pessoas para cometer atos destrutivos, e as tendências a estes atos parecem aflorar em mais gente, com o acirramento das animosidades ideológicas, agravadas pela pandemia iniciada na China. 

Não se pode ignorar o perigo das armas nucleares caírem em mãos de terroristas filiados aos mais diversos grupos para quererem impor seus pensamentos por meio do ódio e do pavor. 

A simples menção a favor do uso desses artefatos, sob qualquer pretexto, coloca em dúvida o capacidade de nossa espécie de assegurar um futuro viável. 

Não sejamos capazes de reproduzir a triste história de Hiroshima, que perdeu 150.000 pessoas na explosão única do "Little Boy", ou Nagasaki, onde uma segunda explosão, a do "Fat Man", levou à perda de 80.000 vidas, a pretexto de impor a rendição do império fascista japonês, no final da II Guerra Mundial. 

O pioneiro "Little Boy", detonado a 6 de agosto de 1945


Não sejamos loucos a este ponto. 

sexta-feira, 19 de julho de 2019

Os 50 anos do pouso da Apollo 11

That's a small step for a man, one giant leap for mankind!

(Isso é um pequeno passo para um homem, e um gigantesco salto para a humanidade!)

Com estas palavras, o chefe da missão Apollo 11, Neil Armstrong, definiu a missão realizada no dia 20 de julho de 1969, a serviço da Nasa, a agência espacial americana, durante a grande corrida espacial entre as duas superpotências da Guerra Fria. 
Armstrong, Buzz Aldrin e Michael Collins entraram para a História como os primeiros seres humanos a pisarem na Lua. Apesar das teorias de conspiração tentando provar o contrário, dizendo que o homem nunca pousou lá, existe um farto material sobre o feito, os problemas para aterrissar na Lua, os contatos entre o trio e os membros da base, as orientações do projetista da missão (o engenheiro alemão e antigo colaborador do nazismo, Werner von Braun), as análises do solo lunar, as fotos tiradas do local, os registros de Armstrong e depois Aldrin na superfície do satélite (Collins permaneceu na cápsula), a viagem de retorno e o resgate do trio de volta à Terra no dia 24. 

Armstrong, Collins e Aldrin, os pioneiros na viagem à Lua (Nasa)




Depois de um período de isolamento, onde eles foram mantidos incomunicáveis após serem recolhidos da cápsula que foi resgatada no Oceano Atlântico, eles pouco tocaram no assunto, alimentando os rumores de quem não acreditava nos registros da viagem. E pouco progresso foi obtido nas viagens espaciais, apesar do enorme avanço tecnológico. 

Armstrong e Aldrin fincam a bandeira americana na superfície da Lua

Muitos produtos atuais estavam engatinhando naquela época. Os computadores, sensores, processadores, equipamentos de comunicação, materiais para isolamento térmico e contra os efeitos da radioatividade (os chamados "raios cósmicos"), tudo isso foi utilizado e desenvolvido para a missão, e depois aperfeiçoado para uso pelos cidadãos comuns impossibilitados sequer de pensar em repetir o feito do trio de astronautas. 

Neil Armstrong morreu em 2012. Os demais foram hoje à Casa Branca, para um encontro com o presidente Donald Trump. acompanhados do chefe da Nasa, Kim Brindenstine. Trump quer retomar os programas de viagens espaciais. E ele não é o único: o polêmico Elon Musk quer financiar viagens para a Lua e para Marte, com a SpaceX. 

50 anos depois do primeiro pouso à Lua, será que conseguiremos realizar o sonho de colonizá-la?

quinta-feira, 6 de junho de 2019

75 anos do dia D

Líderes das potências ocidentais foram comemorar os 75 anos do dia D, evento que marcou decisivamente o rumo da II Guerra Mundial. 

No dia 6 de junho de 1944, tropas aliadas compostas por forças da Resistência Francesa, e tropas americanas, britânicas, canadenses e de outros países componentes dos Aliados, desembarcaram na Normandia, vindos da Inglaterra (Portsmouth) via Canal da Mancha, e iniciaram em território francês a Operação Overlord.

Parte do território francês estava anexada ao III Reich e a outra parte era governada por meio de um governo colaboracionista, conhecido como regime de Vichy. Em toda a França ocupada havia um grande contingente de tropas alemãs, comandadas pelo famoso Marechal Rommel (1894-1944), o "Raposa do Deserto".

As forças aliadas foram constituídas de dois exércitos, o primeiro comandado pelo general americano Omar Bradley (1893-1981) e o segundo, pelo general britânico Sir Miles Dempsey (1896-1969), recebendo ordens diretas dos comandantes Dwight Eisenhower (1890-1969) e Bernard Montgomery (1887-1975). Levaram algum tempo para desenvolver uma estratégia muito bem feita, pois precisavam vencer a forte presença dos alemães no território a ser reconquistado, e expulsar os invasores da França.

De início, sofreram muitos revezes e muito sangue aliado foi derramado na difícil missão, e apenas depois de meses de luta conseguiram libertar o território francês. Paris só foi libertada em 25 de agosto de 1944. Enquanto isso, os alemães, cercados também pelos soviéticos na Frente Oriental, foram aos poucos sendo minados, inclusive politicamente, resultando em um atentado contra Hitler naquele mesmo ano (20 de julho). Rommel, ferido nos combates da Normandia e implicado na conspiração, foi forçado a cometer suicídio, em outubro. 

75 anos depois, ainda havia sobreviventes da luta pela libertação da França, e eles participaram das festividades, apesar da nonagenários. A maior parte dos veteranos era de origem norte-americana. Eles foram homenageados e condecorados com a Légion D'Honneur pelo presidente francês Emmanuel Macron, na presença de Donald Trump, do primeiro-ministro canadense Justin Trudeau e da demissionária primeira-ministra britânica Thereza May, que deve deixar o cargo amanhã. 

A cerimônia representou uma pausa nas discussões sobre o Brexit, evento que desgastou politicamente a Grã-Bretanha e provocou o fim do mandato de May, que se viu obrigada a renunciar no dia 24 de maio. Boris Johnson é o favorito, no Partido Conservador, para disputar as eleições governamentais, e conta com o apoio nada discreto de Trump por sua posição aguerridamente pró-saída da União Européia, mas Johnson demonstra não ter a mesma simpatia pelo governante americano. Em 2015, um vídeo mostrava o então prefeito de Londres dizendo que o candidato à presidência pelo Partido Republicano era de uma "ignorância estonteante". Mas isso tudo ficou esquecido em território francês, por algumas horas, em prol de um evento que marcou o começo do fim de um conflito que marcou a humanidade para sempre. 

Macron (esq.) e Trump (mais ao centro) junto aos veteranos do dia D, em Colleville-sur-Mer, na Normandia (Reuters)

segunda-feira, 14 de maio de 2018

Israel comemorou 70 anos com nova embaixada americana


Donald Trump mandou inaugurar a nova embaixada americana em Jerusalém, como prometeu - agradando a Benjamin Netanyahu (na foto à direita de 2017 junto com Trump - fonte: Ronen Zvulan/Reuters)

No dia 14 de maio de 1948, Israel voltou a ser um país independente após um período de dominação romana seguido de séculos de exílio após as grandes campanhas de destruição de Jerusalém em 70 e 135. 

Para os israelitas, o dia foi glorioso, pois foi o fim de uma grande luta por um Estado independente. Para os árabes, que estavam ocupando as terras desde o século VII, era um acontecimento terrível, daí o dia da fundação do Estado Hebreu ser considerado o Nakba, o "dia da catástrofe". 

Desde então, Jerusalém se tornou um palco de disputas religiosas e políticas, pois hebreus e muçulmanos palestinos consideram-na como sua capital indissolúvel. Os cristãos consideram a cidade e todo o seu entorno como a Terra Santa, pois Jesus Cristo nasceu na região (em Belém, na atual Cisjordânia, segundo a tradição) e passou sua vida a pregar em várias cidades, até a sua execução nos arredores da "grande cidade sagrada". 

Para não piorar ainda mais os conflitos na região, que sofreu com pelo menos três grandes guerras (o conflito árabe-israelense ainda em 1948, a Guerra dos Seis Dias de 1967 e a Guerra de Yon Kippur de 1973), os outros países instalaram suas embaixadas em Tel Aviv, a maior cidade de Israel. Porém, em um gesto nada diplomático, o presidente americano Donald Trump anunciou a transferência de sua embaixada para o bairro de Amona, na parte ocidental de Jerusalém, a capital de Israel segundo o governo de Benjamin Netanyahu, grande aliado de Trump e entusiasta da transferência. 

Hoje, quando o moderno estado de Israel completa 70 anos, Trump cumpriu sua promessa. Por causa disso, milhares de palestinos tentaram cruzar o muro da fronteira de Gaza, instigados pelo Hamas, partido que governa o pequeno território e nunca reconheceu a existência do "país inimigo". As forças israelenses responderam ferozmente e pelo menos 58 pessoas foram mortas e, segundo fontes árabes, mais de 2.200 foram feridos. 

Outros países enviaram representantes para participar do gesto de Trump, mas boa parte dos países ocidentais, mesmo aliados como Reino Unido, França e Espanha, boicotaram a cerimônia. Logicamente, todos os países muçulmanos não tiveram ninguém para representá-los. E o Brasil também se negou a mandar alguém para lá. 


N. do A.: Para boa parte do que ainda resta da torcida pela Seleção Brasileira, e também para muitos jogadores que aguardavam a chamada, o "dia da catástrofe" chegou. Tite anunciou os convocados, e se a maioria não gerou grande surpresa - Neymar, Gabriel Jesus, Philippe Coutinho, Roberto Firmino, Marcelo e outros foram mesmo colocados na lista da Copa, como era esperado - alguns nomes desagradaram, como Fred e Taison, ambos do Shakhtar Donetsk, no lugar de, por exemplo, Luan e Arthur, do Grêmio. Outros jogadores que não agradam a muitos, como Fagner e Ederson, também estão na lista. Nomes até então frequentes, como Rodrigo Caio, Diego, Diego Souza, Alex Sandro, Rafinha Alcântara e Giuliano, ficaram de fora. E outros, como Gabriel Barbosa (o "Gabigol") e o goleiro Weverton, considerado um dos heróis da campanha do ouro olímpico de 2016, tinham chances reduzidas e a lista de hoje só confirmou isso. Pelo menos Tite fez justiça para alguns jogadores como Geromel, que irão à Rússia. 

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Poucos comemoraram 100 anos da Revolução Russa

Até mesmo na Rússia, poucos comemoraram os 100 anos da Revolução Bolchevique, movimento de socialistas radicais, chefiados por Lênin e Trotsky, que depõs o governo provisório moderado instalado em fevereiro, chamado de "menchevique", após a renúncia do czar Nicolau II. Tudo foi tratado de maneira meio formal, na Praça Vermelha, com uma parada militar pouco divulgada pela imprensa internacional.

Discreta lembrança dos 100 anos da Revolução Russa na Praça Vermelha de Moscou (Yuri Kadobnov/AFP)
Por aqui, só algumas publicações de cunho marxista se lembraram do aniversário da chamada "revolução de outubro", que aconteceu no dia 7 de novembro de 1917, pois naquela época o gigante eurasiano, visto como atrasado e semifeudal pelo Ocidente, ainda usava o calendário juliano. 

É difícil, aliás, encontrar alguma notícia sobre o tema com viés positivo. Só se lembram de como o regime comunista, nascido a partir do descontentamento dos russos com a miséria e o envolvimento do país na I Guerra Mundial, não tardou para se transformar numa ditadura. Primeiro, um período de guerra civil entre os "vermelhos", defensores do regime e partidários do chamado "bolchevismo", e os "brancos", partidários tanto do czarismo quanto dos "mencheviques", e ambas as forças espoliaram o povo. Depois, a consolidação do poder dos "vermelhos", chefiados por Lênin, e a criação da União Soviética, ou URSS, em 1922. 

Após a morte do antigo líder (1924), seu sucessor Stalin recrudesceu a ditadura e foi o responsável pelos gulags, os campos de trabalho forçado, e pela morte ou desaparecimento de mais de 20 milhões de pessoas, além da humilhação sofrida pelas forças de Hitler, que invadiram o país durante a II Guerra Mundial (para depois serem rechaçados energicamente pelo Exército Vermelho, à custa de mais outros milhões de mortos, entre soviéticos e forças inimigas, em batalhas sangrentas como as de Moscou e Stalingrado, atual Volgogrado).

Os crimes do stalinismo foram renegados depois da morte do tirano, em 1953, mas os métodos discricionários continuaram, embora não com a força assassina de antes, até o movimento reformista de Gorbachev (a perestroika), de 1985, que não surtiu o efeito esperado, apesar da aclamação no Ocidente, e a dissolução da URSS em 1991, com a renúncia de "Gorbi", como o líder carismático dos soviéticos eram conhecido informalmente. 

Por causa da falência de todos os regimes influenciados pelos soviéticos, poucos se animam em comemorar esta data. Sem surpresa, apenas o ditador venezuelano Nicolas Maduro, segundo publicações como o La Nación, da Argentina, saudou a memória dos bolcheviques. A China, oficialmente um regime socialista, não dedicou atenção oficial à data. Não há notícias acerca de manifestações vindas da Coréia do Norte ou de Cuba, as outras ditaduras socialistas remanescentes.

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

E se Lutero não tivesse feito a Reforma?

Martinho Lutero, o líder da Reforma que mudou o mundo (Divulgação)

Este blog cogitou algumas possibilidades na História do Brasil e agora, às vésperas dos 500 anos da Reforma Protestante, passou a imaginar, em poucas linhas, o que aconteceria se o monge agostiniano Martinho Lutero tivesse desistido no meio do caminho. 

Neste caso, ele poderia ser simplesmente preso e queimado na fogueira da Inquisição. Mas outros abalariam a Igreja Católica de forma irremediável, como o outro reformador da época, Jean Calvin. Outros teólogos poderiam, aliás, mobilizar-se em caso de condenação de Lutero, e transformá-lo num mártir. Dificilmente os eleitores, como eram chamados os nobres mais ricos e influentes dos Estados alemães - a Alemanha não existia como país - não iriam aderir, pois estavam já furiosos com o fato de enviar parte de suas riquezas a Roma, e da mesma forma a Igreja estaria ameaçada. 

Mas Lutero não tinha o perfil de alguém que recuasse tão fácil. Ele iria mesmo contestar os desvios de uma Igreja corrompida. Ele poderia, então, tomar outro rumo: poderia, ao invés de publicar as suas 95 teses no dia 31 de outubro de 1517, submetê-las previamente a outros teólogos. Isso se existirem mesmo as teses, contestadas pelos historiadores. Neste caso, poderia até ter apoio maior às suas causas, com a suavização de algumas de suas ideias ou até mesmo o embasamento delas para algo ainda mais enérgico e incontestável. Ele era protegido de um eleitor influente da Saxônia, Friedrich III, conhecido como "o Sábio", que poderia dar mais apoio ao monge. Assim, a Reforma dificilmente não viria, e poderia ser um movimento ainda mais organizado da nobreza alemã. 

Os abusos cometidos pela cúpula da Igreja Católica eram muito flagrantes: venda de indulgências, fazendo os fiéis comprarem absurdos como ovos de pomba como se fossem do "Espírito Santo" e uma dissolução dos costumes flagrante. Era o tempo de papas corruptos, como Alexandre VI (o pai do infame Cesare Borgia, inspirador de "O Príncipe" de Maquiavel) e Júlio II. Além disso, a Igreja precisava arrecadar dinheiro para a reforma da Basílica de São Pedro (e parte desse montante seria facilmente desviado). Por conta disso, revoltas violentas fatalmente aconteceriam, e não evitariam a situação atual: várias igrejas cristãs que não consideram o papa como representante de Cristo na Terra e condenam a veneração das imagens de santos. Muitas delas tão corrompidas, em termos de doutrina, quanto o catolicismo daquela época. 

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Revoltas e revoluções

1381. Os camponeses da Inglaterra se revoltam contra a injustiça social sob a liderança de Wat Tyler, e até obtiveram algum sucesso, aproveitando-se da fraqueza do governo, chefiado por um rei adolescente de 14 anos, Richard II. A nobreza dotada de privilégios feudais reagiu e matou Tyler e outros líderes, esvaziando o movimento. 

1492. Após a morte de Lorenzo de Médici o já citado neste blog Girolamo Savonarola instituiu um governo moralista para combater a corrupção vigente em Florença, cidade da Toscana (a Itália não existia). Esta história já foi contada antes. 

1525. Os camponeses se revoltaram nas cidades alemãs, tomando ideias do reformador Martin Luther. Conseguiram apavorar bastante os poderosos com suas táticas de luta, e desencadearam uma guerra terrível, mas não só não conseguiram seus objetivos como milhares deles foram mortos. Os líderes sofreram martírios terríveis. 

1689. Desta vez uma revolução deu certo: a Gloriosa, na Inglaterra, que depôs James II, cuja sede de poder e religião católica o tornaram impopular. Ele tentou reimplantar o catolicismo e o absolutismo, mas não conseguiu, e os seus inimigos, chefiados por William de Orange, o depuseram após batalhas com um número relativamente baixo de mortes. A partir daí, a Inglaterra firmou o regime parlamentarista e se tornou uma nação próspera. 

1776. Outra revolução deu certo: os americanos conseguiram se libertar graças a uma tenaz guerra contra os ingleses. O general George Washington liderou o exército das Treze Colônias, enquanto estadistas como Benjamim Franklin e Thomas Jefferson assinaram a Declaração de Independência. Mais tarde, Washington se tornou o primeiro presidente e a jovem nação sofreu um pouco até se tornar um grande país, conseguindo se tornar mais tarde a grande potência de hoje. 

1788. O Brasil começou a viver uma época de revoltas pela emancipação política, com a Inconfidência Mineira, malograda antes de realmente ter começado, e a Conjuração Baiana, que mobilizou muito mais gente. Em ambas, a revolta com uma nobreza parasitária que concentrava os privilégios políticos e sugava o dinheiro dos impostos, e o fracasso que resultou no enforcamento de Tiradentes e dos quatro mártires baianos, enquanto os privilégios foram mantidos. 

1789. Surgiu a Revolução Francesa, que depôs o rei Louis XVI e implantou a República, de início implantando a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, mas degenerando mais tarde em conflitos políticos e o Terror jacobino, que tentou implantar ideias radicais com o pretexto de destruir os privilégios da nobreza, do clero e dos inimigos políticos, os girondinos representantes da alta burguesia; a Revolução se tornou um festival de mortes na guilhotina e foi perdendo apoio até degenerar na ditadura napoleônica, em 1799. 

1804. No Haiti, uma revolução expulsou os franceses do país e implantou uma breve monarquia sob Jacques I, um ex-escravo e partidário do líder e mártir Toussaint L'Ouverture, capturado pelos franceses em 1802. Seria a primeira nação de ex-escravos, mas deu errado: Jacques I foi assassinado e o país conheceu uma série de ditaduras e governos fracos, enquanto permanecia na miséria e na ignorância, até a dolorosa situação atual. 

Início do século XIX. Na América Latina, houve uma série de revoluções para expulsar os europeus e transferir os privilégios destes para a nova elite nativa, chamada de criolla, enquanto a maior parte da população livre, embora entusiasta da independência, continuava na pobreza, sem falar nos escravos. Simón Bolívar foi o grande chefe revolucionário, ao lado de San Martin na Argentina, Artigas no Uruguai e Bernardo O'Higgins no Chile. Os países continuaram dependentes economicamente e não resolveram suas mazelas de forma satisfatória. 

1817. No Brasil, surgiram revoluções contra os privilégios da elite escravista e da nobreza em torno dos monarcas, em boa parte com o intuito de implantar repúblicas nos Estados de origem, como a Revolução Pernambucana e, mais tarde, a Confederação do Equador no Nordeste, a Cabanagem no Pará, a Sabinada na Bahia, a Farroupilha no Rio Grande do Sul, a Balaiada no Maranhão e a Praieira novamente em Pernambuco. Todos estes movimentos anti-monarquia fracassaram. 

1830. Na mesma França, houve uma revolta contra o rei Charles X, irmão de Louis XVI (a dinastia dos Bourbons foi restaurada após a queda de Napoleão em 1814-1815) e que representava a manutenção dos privilégios dados aos nobres. Conseguiram depô-lo sem muito esforço, para colocar no lugar Louis Philip, que atendeu aos anseios da incipiente indústria francesa, mas manteve os privilégios e os políticos corruptos, até...

1848. O rei Louis Philip é derrubado numa série de revoltas populares, insatisfeitos com a enorme desigualdade social que teimava em persistir na França. Foi instituída uma nova República, a "Segunda", que não durou muito tempo e permitiu a ascensão de um salvacionista, sobrinho de Napoleão Bonaparte, coroado mais tarde com o nome de Napoleão III (o II, filho do primeiro, nunca foi efetivamente um monarca, morrendo muito jovem) e fez um governo desastroso. 

1871. Ainda na França, sempre ela, Napoleão III foi derrotado na guerra contra a Prússia e obrigado a abandonar o poder. Houve uma revolta chamada de "Comuna de Paris", muito exaltada pelos marxistas até hoje, mas fracassada. Tentaram implantar o socialismo a partir de uma Paris cercada por barricadas, mas logo as elites recobraram o controle e instituíram a Terceira República. 

1910. No México, uma Revolução derrubou a ditadura de Porfírio Diaz e tentou corrigir a corrupção e a imensa desigualdade social vigentes, mas houve um período de forte instabilidade política, com governantes depostos e mortos, ou simplesmente assassinados enquanto exerciam o poder, até a normalização política, com o PRI, Partido Revolucionário Institucional, que não significou o fim dos problemas na vida mexicana. Ainda houve líderes guerrilheiros como Emiliano Zapata e Pancho Villa, fatores de instabilidade institucional e alimentados pela miséria e desespero do povo. 

1911. A China derruba uma monarquia decadente, representada por uma criança, Pu'Yi, e implanta um regime nacionalista, chefiado por Sun Yat Sen, que tenta resolver os gravíssimos problemas sociais do país, ainda ameaçado pelas intervenções das potências ocidentais e do Japão. Logo, houve conflitos entre os nacionalistas e os comunistas, com a vitória destes últimos após a invasão japonesa e a II Guerra Mundial, com a consequente expulsão dos invasores. Mao Tsé Tung implantou um regime que minorou sensivelmente as desigualdades sociais, mas à custa de uma tirania onde as liberdades políticas não tinham espaço, e a morte de milhões de pessoas. 

1917. Na Rússia, a carcomida monarquia absolutista dos czares foi derrubada pelos socialistas: é a conhecida Revolução Russa. Após breve governo dos moderados "mencheviques", os "bolcheviques" os tiraram do poder e, com Lênin, criaram a União Soviética, a maior potência comunista. A opressão dos czares deu lugar à do Partido Comunista, e isso piorou muito com a ascensão de Stalin, responsável pelos expurgos e pela coletivização forçada na economia, resultando em milhões de mortes. 

1936. Na Espanha, os socialistas e anarquistas tentaram implantar um governo pretensamente igualitário após a queda da monarquia, mas houve a reação dos falangistas, nacionalistas alimentados pela ideologia nazi-fascista, e a revolução se transformou na Guerra Civil Espanhola, vencida pela Falange. Francisco Franco veio a ser o ditador do país por quase 40 anos, sufocando a liberdade.

1956. Na Hungria, estudantes queriam liberalizar o regime comunista, e depois de uma revolta severamente reprimida, conseguiram derrubar o governo. A União Soviética interveio e esmagou a Revolução, colocando um político leal à Moscou, Janos Kadar. Imre Nagy, apoiado pelos revolucionários, acabou fuzilado.

1959. Para derrubar uma ditadura cleptocrática, os revolucionários cubanos se mobilizaram sob a chefia de Fidel Castro. Fulgêncio Baptista refugiou-se na República Dominicana, para depois embarcar para a Espanha franquista, enquanto Fidel, de libertador, tornou-se um ditador, prendendo e fuzilando vários opositores, enquanto a ilha passou a sofrer um embargo imposto pelos Estados Unidos.

1968. Em outro país socialista, a então Tchecoslováquia, realizaram a Primavera de Praga, um movimento para democratizar o regime, comandado por Alexander Dubcek. A liberdade durou pouco, e tropas soviéticas invadiram o país, massacrando centenas de pessoas. Gustav Husák tomou o poder, e Dubcek foi abduzido pelas forças de Moscou, retornando anos depois sem direitos políticos.

1974. Após anos de ditadura sufocante, os portugueses organizaram a Revolução dos Cravos, uma revolta pacífica que colocou em fuga o sucessor de Antônio Salazar e fez voltar a democracia no país. Portugal ainda hoje se ressente do atraso imposto pelo regime salazarista, e mesmo integrado à União Européia é um dos membros mais frágeis, social e economicamente.

1979. Setores progressistas da sociedade iraniana tiveram de se aliar aos islâmicos xiitas para derrubarem o corrupto e ditatorial xá Reza Pahlevi, governante do Irã. A roubalheira do antigo regime deu lugar a uma teocracia anti-ocidental e moralmente rígida, abolindo quase todos os costumes ocidentais. O chefe xiita, aiatolá Khomeini, tornou-se inimigo do Ocidente e fez o país entrar em guerra com o Iraque, governado pelo ditador Saddam Hussein, aliado dos ocidentais.

1989. No mundo socialista, vários países quiseram se libertar do jugo soviético, e conseguiram. Queriam o direito de se expressarem livremente, terem liberdade política e econômica, como nos países ocidentais, e estavam cansados dos abusos de poder enquanto a maioria da população estava na pobreza, apesar do apregoado "igualitarianismo socialista". Na Alemanha Oriental, derrubaram o Muro de Berlim. Na Tchecoslováquia, a Revolução de Veludo. Na Polônia, o movimento Solidariedade derrubou o governo. Somente na Romênia houve violência, com a execução do tirano Nicolae Ceaucescu. Estes países se livraram do comunismo, mas ainda permaneceram muito atrasados em relação ao Ocidente e seus povos não se livraram da corrupção política e dos abusos, apesar dos progressos.

Década de 2010. A "Primavera Árabe" tomou conta de muitos países da Ásia Ocidental e da África, derrubando regimes de força como o de Zine El Abidine Ben Ali, na Tunísia, Muhammar Ghaddafi na Líbia e Hosni Mubarak no Egito. Porém, ao invés da democracia, até agora só conseguiram a anarquia, criando vácuos de poder e dando espaço a movimentos fundamentalistas islâmicos como a al-Qaeda e o Daesh, vulgo "Estado Islâmico". Um dos regimes que resistem à liberalização, o da Síria, se vale do genocídio contra seu povo. A Arábia Saudita resiste em manter sua teocracia islâmica, e o Iêmen está na mão dos xiitas houthis, sendo submetido aos bombardeios sauditas.



N. do A.: Diante deste quadro, é necessário pensar e refletir muito bem antes de querer fazer uma revolução no Brasil. A tentação é muito grande, e não faltam motivos para isso. A corrupção, o desprezo pelos eleitores, a desfaçatez mais deslavada, a demagogia e as atitudes mais vis e torpes cometidas por quem deveria zelar pela sociedade mas acabam por quererem manter suas regalias a qualquer custo induzem os brasileiros a quererem vingança e pensarem num salvador da pátria. Contudo, as consequências, como se pode ler acima, podem ser terríveis. 

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

9 de novembro de 2016

Donald Trump venceu e foi eleito o novo presidente dos Estados Unidos. Isto é fato, apesar dos institutos de pesquisa apontarem até ontem a vitória de Hillary Clinton. 

O presidente eleito da América (Chris O'Meara/AP)

Foi a vitória de um candidato sem experiência política que desafiou o establishment americano e, com seus discursos radicais, populistas e extremistas, atraiu milhões de pessoas, desde trabalhadores industriais sem emprego devido à concorrência chinesa até aqueles insatisfeitos com as conquistas sociais obtidas pelas mulheres, imigrantes, homossexuais e minorias raciais, passando pelos insatisfeitos com a política externa feita por Barack Obama, ineficaz contra os conflitos no Oriente Médio e afrontada por China, Rússia e extremistas de toda sorte, principalmente muçulmanos. 

Obama apegou-se a algumas iniciativas de sua gestão, como aderir aos tratados ambientais e dar um passo mais decisivo contra o anacrônico e inútil embargo econômico a Cuba, tiranizada pelos irmãos Castro, mas o Affordable Care Act, medidas para facilitar o acesso dos mais pobres ao sistema de saúde conhecidas como "Obamacare", gerou muita insatisfação por não atingir seus objetivos e ainda ser parte de uma política mais intervencionista do que os americanos estão acostumados. Muito pior do que isso é a má qualidade dos empregos e a perda dos postos de trabalho para os imigrantes de origem latino-americana, muitos deles entrando de forma ilegal, motivando a promessa - inviável - feita por Trump, segundo a qual será feito um muro na fronteira com o México, cuja construção será paga pelos vizinhos do sul. 

Uma outra fonte de insatisfação é a política ambígua de Obama em relação aos muçulmanos e os desastres das intervenções americanas no Afeganistão, Iraque e Síria, criando vácuos de poder ocupados por extremistas como o Daesh. Muitos americanos acharam a política externa atual muito permissiva com o terrorismo e fraca demais para se impor a Pequim e Moscou, tomados por ditaduras. 

Hillary Clinton representava a continuidade de Obama, mesmo porque ela foi Secretária de Estado entre 2009 e 2013. Apesar de ser a primeira mulher candidata à Presidência, o que era visto favoravelmente no mundo ocidental, ela foi acusada de usar indevidamente e-mails oficiais, algo investigado pelo FBI. Outro fator de desgaste foi o afloramento de escândalos de corrupção como o caso Whitewater, que teria desviado milhões de dólares dos impostos pagos pelos americanos em 1992, e os desvios feitos supostamente pela Fundação Clinton em anos recentes. 

Contudo, parecia que nada disso iria fazer os americanos e os delegados dos Colégios Eleitorais votarem num candidato visto com tantos maus adjetivos: racista, misógino, antissemita, xenófobo, desastrado, falastrão, narcisista, sem tato no tratamento com as pessoas e que conseguiu falir seu vasto império quatro vezes (1991, 1992, 2004 e 2009), manobrando para driblar os credores e continuar bilionário. Desconsideraram a empatia de milhões de americanos com o seu discurso, e a falta de identificação da política tradicional com os seus eleitores, algo também visto em países como a França e o Brasil. Como consequência disso houve praticamente um empate no voto popular (com ínfima vantagem para Hillary: 47,7% contra 47,5% até agora, segundo o site da CNN) e os votos que realmente contam no curioso sistema eleitoral americano - dos delegados eleitorais - foram bem mais para Trump: 290 contra 228, ganhos em Estados cruciais como o Texas e a Flórida. 

Para quem desprezava Trump e o consideravam meramente um bufão excêntrico, só resta lamentar, embora tenham que aceitar o resultado. Mas isso não é garantia de um futuro apocalipse, pois como já foi escrito aqui o vencedor terá de se ajustar à realidade e às instituições para poder governar, ou seja, provavelmente não veremos muro algum na fronteira nem em 2020. O jeito é usar o bom humor, por meio dos memes: um deles compara a atual data, 9/11 (11/9, na notação americana, que coloca o mês antes do dia), com o 11/9 (9/11, pelo motivo anterior). De fato, depois das Torres Gêmeas explodindo em Nova York, o mundo não foi mais o mesmo. Com Trump presidente, idem. 

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Dilma saiu, mas a bagunça continua



Por 61 votos a 20, o Senado cassou o mandato de Dilma Rousseff, como a maioria da população esperava. O que não se esperava era a forma com que isso foi feito.

Por uma decisão de última hora, a partir de uma ideia do petista Humberto Costa, e aceita, estranhamente, pelo presidente do STF Ricardo Lewandowski, a votação foi dividida em dois: cassar o mandato e votar pela suspensão dos direitos políticos.

Boa parte do PMDB, inclusive o presidente do Senado Renan Calheiros, fez a vontade do PT e votou pela manutenção dos direitos políticos. Não caíram numa armadilha. Parecia algo deliberado, para criar um precedente perigoso: cassar o mandato de parlamentares e governantes, mas dando-lhes o direito de se elegerem na próxima eleição.

É uma ameaça ao povo brasileiro e a Constituição!

Isso é golpe, mas não como a ex-presidente argumenta. Cumpriram a lei até agora, mas no último ato fizeram-na em pedacinhos e deixaram a palavra final para o Supremo e a Justiça Eleitoral, que pode impugnar a candidatura não só de Dilma, mas também a de Temer, eleito vice-presidente na chapa dela em 2014. Ficou algo como uma briga entre a Camorra e a Cosa Nostra.

Além disso, a artimanha fez a base aliada rachar. O PSDB e o DEM ameaçam dificultar o governo Temer como se voltassem para a oposição. Enquanto isso, o PT vai fazer oposição cerrada.

Temer, que viajará para a China e deixará a presidência para Rodrigo Maia, perdeu definitivamente o direito de fazer um mau governo, mesmo porque do jeito que está poderemos lamentar não termos votado na monarquia naquele plebiscito de 1993. Aliás, o regime monárquico foi derrubado por um golpe (atenção: este blog defende a república parlamentarista).

segunda-feira, 14 de março de 2016

Ainda sobre as manifestações

Nunca se viu um movimento tão grande organizado por cidadãos no sentido estrito da palavra em nosso país, desde as Diretas Já. 

Segundo as estimativas, com números muito diversos entre si, foram entre 1 e 6 milhões às ruas. Tudo dentro da ordem, pacificamente. Embora alguns ainda defendam ideias esdrúxulas já expostas em outras passeatas, como a tal intervenção militar, e tenham apoiado certas pessoas que não casam bem com a democracia, como é o caso do deputado Jair Bolsonaro, são minoria perto de uma multidão indignada com a roubalheira e as recorrentes violações à lei e à Constituição por parte de membros do atual governo, do PT e seus aliados. 

Mesmo assim, houve quem enxergasse os movimentos de outra forma, como Rui Falcão, líder do governo. Ele disse que as oposições orquestraram o movimento - o que não é verdade - e o fato de muitos oposicionistas como Aécio Neves e Geraldo Alckmin serem hostilizados - como de fato aconteceu - era sinal de descontrole. Citou os "21 anos de ditadura sangrenta", demonstrando estar apavorado com o povo. É praticamente insinuar que a multidão é "fascista", quando os políticos oposicionistas foram vaiados por algumas centenas - enquanto centenas de milhares vaiam o governo. 

Rui Falcão e outros petistas parecem aterrorizados com tantos descontentes. Continuam a reagir mal, apressando o processo de colocar Lula num ministério, praticamente expondo galhardamente o seu medo de ver seu grande líder novamente tendo de prestar contas à Justiça, e assumindo mais do que nunca a falta de relevância de Dilma, a presidente que abandonou suas obrigações como governante (algo que, segundo muitos, nunca exerceu efetivamente). 

Analistas ainda estão divididos. Uns festejam a manifestação de cidadania e civismo, outros fazem alusão à Operação Mãos Limpas na Itália, para mais tarde colocarem um populista, o milionário Sílvio Berlusconi. São os mesmos que temem a aparição de alguém parecido (como o candidato republicano dos Estados Unidos Donald Trump) por culpa de um "salvacionista" como o juiz Sérgio Moro. A maioria, porém, louva o chefe da Polícia Federal e só o vê como um zeloso cumpridor da lei, embora tivesse cometido alguns excessos contra os réus, empreiteiros e políticos. 

Mas agora chega de tanto texto. As imagens mostram melhor o grande acontecimento de ontem: 

Rio de Janeiro (Tânia Rego/Ag. Brasil)


São Paulo (Divulgação)

Brasília (Adriano Machado/Época)

Recife (Sumaia Vilela/Ag. Brasil)

Salvador (O Popular/Divulgação)

Belo Horizonte (Divulgação)


Porto Alegre (Lucas Abati/Rádio Gaúcha)


Curitiba (Gazeta do Povo)


Belém - Gil Sóter/G1


Campinas (SP) - Gustavo Magnusson/G1

Garanhuns (PE) - Márcio Bastos/UOL

domingo, 13 de março de 2016

13 de março de 2016 - um dia memorável

13 de março foi o dia em que centenas de milhares de pessoas foram às ruas protestar contra os desmandos do governo e a corrupção política que impede o Brasil de se tornar um país digno de orgulho para os seus habitantes. 

Tudo foi feito dentro da ordem e sem extremismos, apesar de partidários do governo disserem que não passava de uma reunião de classe média - como se apenas os pobres (e os aliados, muitos deles extremamente ricos) fossem dignos de consideração. 

Na próxima postagem, quando houver tempo, vou entrar em mais detalhes. 

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Genocídio armênio é tabu na Turquia

Não existe sequer um país do mundo que não tenha sua história maculada por guerras, massacres e atos considerados repulsivos e monstruosos para os padrões atuais, mas vistos na época como necessários ou justificáveis. 

No entanto, a maioria dos países cometeu crimes oficiais em tempos bem mais remotos do que 100 anos, quando o império turco fez uma "limpeza étnica" no que restava de seu território, à beira do desmembramento. Comandando um regime decadente e corrompido que logo iria ruir, o sultão turco foi o responsável pelo extermínio de 1,5 milhão de armênios. 

O genocídio armênio foi apenas o primeiro do século XX. Logo viriam o Holocausto, o stalinismo, o regime de Pol Pot, a "Revolução Cultural" na China, as "limpezas étnicas" na Sérvia e em Ruanda, etc. 

Um dos responsáveis pelos atos cruéis, relatados por vários historiadores, foi o coronel Mustafá Kemal, que mais tarde iria derrubar a monarquia e adotar o pseudônimo de Atatürk, "Pai dos Turcos", como ditador do país entre 1923 e 1938. Atatürk foi a base do pensamento político da Turquia moderna: secularização e vínculos com o Ocidente. Mesmo um islâmico como Tayyip Erdogan segue muitos desses princípios. 

O presidente turco vem combatendo tenazmente todos aqueles que relembram o massacre dos armênios, desde o Papa Francisco até o Parlamento Europeu, que pressiona Ancara para reconhecer o genocídio. 

Erdogan alega que reconhecer a barbárie cometida pelo governo turco contra os armênios daria pretexto a outro povo, os curdos, para as suas aspirações a um Estado independente. A maior parte do Curdistão se encontra em território turco. Outro motivo seria por sentimentos supostamente nacionalistas. 

Por outro lado, outros povos cometeram atrocidades semelhantes, como os alemães no Holocausto, e os russos no stalinismo, e reconheceram seus erros. Muitos turcos acham que seria melhor para a imagem de Erdogan e da nação turca fazer o mesmo. 

E é bom que outros países também reconheçam esta "limpeza étnica". Não fazem isso para preservarem as relações econômicas e políticas com a Turquia, como é o caso dos Estados Unidos e do Brasil. Apenas 20 nações, além da própria Armênia (reduzida a um território minúsculo no Cáucaso, a leste da Turquia), admitem um ato que não pode se repetir novamente em nenhuma parte do mundo: Alemanha, Argentina, Bélgica, Chile, Chipre, Canadá, Eslováquia, França, Grécia, Holanda, Itália, Líbano, Lituânia, Polónia, Rússia, Suiça, Suécia, Uruguai, Vaticano e Venezuela.

Hoje, 100 anos depois, o mundo relembra este triste episódio. Em Yerevan, capital da Armênia, autoridades da Europa Ocidental e da Rússia prestaram homenagem simbólica às vítimas. Muitos sobreviventes fugiram para outros países. No Brasil, há uma comunidade armênia importante, que também relembra o episódio e espera uma posição oficial mais favorável por parte de nosso governo. 

terça-feira, 7 de abril de 2015

7 de abril

Pode parecer estranho postar algo sobre o 7 de abril. É uma data a mais, dizem. No máximo, faz lembrar o nome de uma rua do centro da cidade, entre as estações Anhangabaú e República do metrô. 

Por que o 7 de abril se tornou uma data lembrável?

Porque, há 184 anos, em 1831, o imperador D. Pedro I renunciou ao trono brasileiro. Ele não foi encarado exatamente como um herói, como os livros didáticos tentaram mostrar até pouco tempo atrás, e sim um governante absoluto cercado de uma corte inepta e corrupta, formada na maior parte de portugueses natos. 

Apesar de ser o responsável pela independência do Brasil, ele sempre foi ligado às suas origens na família real portuguesa, e aprendeu a sua visão sobre o país e o modo de governar pelos pais, D. João VI e Da. Carlota Joaquina, assim como os ministros de Estado. Logo, segundo ele, um rei deve mandar e os súditos devem obedecer, como nas monarquias absolutas da Europa. 

Embora não fosse exatamente um tirano, em seus últimos anos era visto como um mau governante. As oligarquias brasileiras o detestavam por seu favorecimento aos lusitanos. Os liberais, pela centralização do poder e falta de liberdades públicas. Todos o achavam despreparado para governar, por sua impulsividade e pouca habilidade política. D. Pedro I achava que sempre estava fazendo o certo, quando na verdade cometia erros políticos que o deixaram isolado no governo. 

Fora isso, a economia ia mal. Excesso de burocracia e dependência de uma agricultura escravista voltada para a exportação, sobretudo o plantio da cana para a produção de açúcar e aguardente, mas também o café, que começava a despontar. Não havia praticamente manufaturas no país, naquela época, e a industrialização só ganhou corpo com a República. A infra-estrutura era precária, por estradas de terra e uso de animais de tração e escravos. Ferrovias, invenções muito recentes em 1831, só viriam depois, no reinado de D. Pedro II. 

Na Europa, os governantes absolutos eram mal tolerados, principalmente na França, que já experimentou uma revolução, que descambou para o uso sistemático da guilhotina (inclusive contra o rei Luís XVI), a ascensão de Napoleão e a volta da família real deposta, os Bourbons. O último rei absoluto da França, Carlos X, irmão de Luís XVI, foi deposto no ano anterior (1830). 

Diante disso, muitos queriam D. Pedro I fora do poder. Protestavam. Houve inclusive violência, como na "Noite das Garrafadas" (13 de março de 1831)

Sem saída, ele teve de abdicar, voltando para a Europa. O Brasil passaria por um relativamente longo período regencial, pois o filho do imperador, D. Pedro II, tinha pouco mais de cinco anos. Viria a reinar com 14, em 1840. 

Arnaud Julién Palière (1784-1862), discípulo do pintor oficial do Império em seus primeiros anos, Jean-Baptiste Debret, retratou D. Pedro II na época da abdicação do pai. 

Essa falta de apoio político e a precariedade de um governo com falhas graves lembra a situação atual. Dilma Roussef está tentando reatar relações com o PMDB, que vinha a ser uma grande ameaça a seu governo, colocando o vice Michel Temer na articulação política. Porém, boa parte da opinião pública está descontente com ela e a economia está mal, encolhendo e assolada por uma inflação que pode ultrapassar 8% segundo as estimativas. 

Dilma tem muitas diferenças em relação a D. Pedro I, entre as quais os fatos (alguns bem óbvios) de ser mulher, eleita pelo povo e (até certo ponto) respeitar as liberdades públicas, que seus colegas do PT estão querendo limitar a pretexto de calar os "golpistas". Estes querem ver a "rainha" sofrer o mesmo destino do antigo soberano: a "abdicação" ao cargo.