Mostrando postagens com marcador História. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador História. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 27 de abril de 2026

40 anos de Chernobyl

Uma das piores tragédias da segunda metade do século XX ainda devasta áreas inteiras até hoje, mesmo 40 anos depois do ocorrido. A explosão da usina nuclear de Chernobyl ocorreu há exatos 40 anos, mas seu impacto econômico e simbólico ainda persiste. 

No dia 26 de abril de 1986, as falhas de controle da usina durante um teste de segurança resultaram na explosão do reator número 4, liberando toneladas de gases radioativos provenientes da decomposição de compostos como Iodo-131, Estrôncio-190 e Césio-137. Na explosão, um número incerto de trabalhadores morreu. Encarregados da limpeza dos destroços também foram afetados. O número oficial de vítimas imediatas era 31, mas podem ter sido muito mais. A cidade próxima, Pripyat, foi evacuada, mas os efeitos se fizeram sentir em uma área significativamente maior. Estima-se que a nuvem radioativa atingiu áreas de Belarus (então república soviética da Bielorrússia) e da Rússia com doses perigosas, mas ela alcançou até mesmo a Escandinávia e as Ilhas Britânicas. Houve traços da nuvem no Atlântico Norte e nos Estados Unidos. 

Técnicos apontaram falhas estruturais na construção da usina, e procedimentos de segurança inoperantes para conter o material radioativo e proteger os trabalhadores. 

A seguir, uma simulação computacional do ocorrido (canal Higgsino Physics), mostrando os efeitos dos nèutrons (os pontos móveis pretos) liberados pelo vazamento inicial, gerando a reação em cadeia. 



Atualmente, uma área de aproximadamente 2.700 km² está isolada, onde apenas físicos podem pesquisar após autorização prévia. Nenhuma habitação pode ficar num raio de 30 km. E há o problema  dos animais contaminados, quando o lugar foi ocupado pela vida selvagem. Espécies não territoriais, como javalis, migram para outros locais e ajudam a espalhar a contaminação, enquanto outras acabam por ter alterações genéticas. Existe o caso dos "cães azuis", mas estes ficaram tingidos não pela radiação, mas por tintas e substâncias químicas como o sulfato de cobre usado na desinfecção de banheiros. 

Não há previsão de quando o lugar passará a ter índices seguros de radiação, mas por um bom tempo Chernobyl será um exemplo de catástrofes causadas pelo mau uso da energia nuclear. 

quinta-feira, 2 de outubro de 2025

Quem se lembra da coleção "Grandes personagens da História Universal"?

O autor deste blog às vezes se dedica a estudar biografias de grandes personalidades, e possuía uma coleção chamada de Grandes Personagens da História Universal, da então Abril Cultural, uma coletânea de biografias de personalidades entre a Idade Antiga e o Século XIX, abordando desde Buda até a Rainha Vitória. Havia também Júlio César, Dante, Joana D'Arc, Leonardo da Vinci, Shakespeare, George Washington, Napoleão, entre outros. 

Ainda havia um complemento com pequenas biografias dos contemporâneos de cada um dos biografados. Curiosamente, não havia alguns nomes relevantes, como os sábios Platão e Arquimedes, nem qualquer dos apóstolos de Jesus Cristo, ou alguns dos grandes nomes das ciências exatas (Leibniz, Lagrande, Gauss, Maxwell, Mendeleev, entre outros) ou da música, como Mozart. E também o século XX não foi abordado, embora fosse uma obra de 1970. 

A coleção Grandes Personagens da História Universal foi uma fonte de consulta para estudantes durante o regime militar (Divulgação, pelo site Flavia Cardoso Soares Leilões)


Esta coletânea era um complemento de outra, chamada Grandes Personagens da Nossa História, com nomes como Cabral, Tiradentes, os imperadores D. Pedro I e D. Pedro II, Duque de Caxias, Marechal Deodoro, Machado de Assis e Santos Dumont. Também se restringia muito no século XX, parando em 1930, quando Getúlio Vargas derrubou a Velha República. 

As coleções foram intensamente consultadas para leitura, quando o autor do blog era criança, a partir dos 11 anos de idade. Isso despertou o interesse por biografias, suas realizações, vidas pessoais e as épocas nos quais viveram. E também os sofrimentos, as circunstâncias das mortes, e o legado para a posteridade. 

Se a Abril ou qualquer outra editora fizesse uma continuação, quais nomes seriam abordados? Obrigatoriamente, teriam de ser nomes do século XX, com alguma concessão ao nosso tempo. Quem faria parte? Freud? Gandhi? Einstein? Roosevelt? Kennedy? João Paulo II? E aquele austríaco de bigodinho não poderia faltar. Isso fica para quem se interessar na publicação. 

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

A sádica execução de gente sádica

Na História, os nazistas foram retratados muitas vezes como sádicos, dispostos a tudo para extrair o máximo de sofrimento de seus inimigos, principalmente os judeus, quando eles são capturados e enviados aos campos de concentração e de extermínio. Embora isso não corresponda, essencialmente, à realidade, pois a maioria deles era composta de pessoas apenas cumprindo ordens dos líderes sob pena de algum castigo, a imagem de depravação moral ficou, e até hoje os alemães sofrem com isso. 

O mundo comemora, nesta semana, os 80 anos do fim da II Guerra Mundial. A China organizou hoje um grande desfile militar, na presença de Vladimir Putin e Kim Jong-un. 

Mais tarde, os líderes nazistas foram capturados. Uns foram parar nas mãos dos soviéticos, e outros, nas dos ocidentais. No caso dos últimos, os piores elementos acabaram julgados no tribunal de Nuremberg, organizado por oficiais americanos. Após serem submetidos às regras do Direito internacional, em um processo considerado bem mais rigoroso do que o arbítrio nazista, embora não desprovido de falhas por deixarem muitos algozes do III Reich escaparem ou serem absolvidos apesar de provas concretas, doze prisioneiros foram condenados à morte. Desses, Hermann Göring (1893-1945) escapou tomando cianureto, e Martin Bormann (1900-1945), foragido, teria supostamente morrido meses antes, embora haja indícios de que ele tenha fugido da Europa rumo à Argentina. 

Eram gente considerada sádica, responsável pelos piores crimes cometidos contra a Humanidade. Muitos, principalmente os defensores da pena de morte, consideram as execuções justas. A forca, e não o pelotão de fuzilamento, como queriam alguns dos sentenciados, foi o método escolhido.

Os réus tiveram amplo direito de defesa, de acordo com a mídia da época; a maioria foi condenada à prisão ou foi absolvida, mas 12 foram considerados merecedores da forca (United States Holocaust Memorial Museum)


Mas elas foram mal executadas, por um carrasco inexperiente, o sargento-mestre do Exército americano John C. Woods (1911-1950). Ele teria, de propósito, calculado mal o comprimento das cordas, de tal forma a não permitir uma morte rápida, por fratura da coluna. Segundo a documentação existente, no caso dos condenados representantes do odioso regime totalitário de Hitler (1889-1945), todos morreram estrangulados:

Joachim Von Ribbentropp (1893-1946), ministro das Relações Exteriores do regime nazista, foi enforcado e levou 19-20 minutos para morrer nas mãos de John C. Woods. 

Wilhelm Keitel (1882-1946), chefe das Forças Armadas do Reich, levou nada menos que 28 minutos para morrer na forca, e ainda teve concussão na cabeça ao cair no alçapão.

Ernst Kalterbrunner (1903-1946), major-general da SS, era o mais jovem e robusto a enfrentar a forca, mas foi o que menos tempo levou para morrer sufocado pela corda: sete minutos, quando uma execução considerada bem feita levava no máximo dois.

Alfred Rosenberg (1893-1946), principal teórico do nazismo e do Holocausto, pereceu após 14 minutos pendurado na forca.

Hans Frank (1900-1946), governador fantoche da Polônia e cúmplice do Holocausto, teve a segunda morte mais rápida (ou menos lenta), com 11 minutos agonizantes na forca. Ele se converteu ao cristianismo, e se disse arrependido dos crimes.

Wilhelm Frick (1877-1946), ministro do Interior, tinha quase 70 anos e levou 12 minutos para morrer, após machucar a cabeça no alçapão e lutar pela vida no cadafalso.

Julius Streicher (1885-1946), chefe do Parlamento do Reich, também bateu a cabeça no alçapão e sua execução durou longos 15 minutos. Ele desafiou a platéia gritando “Heil Hitler”.

Fritz Sauckel (1894-1946), general envolvido no extermínio de judeus, morre após 14 minutos em convulsão e com a cabeça fraturada após bater no alçapão; ele chorou alegando “inocência” antes disso.

Alfred Jodl (1890-1946), um dos mais altos oficiais de Hitler, morreu após 18 minutos de agonia, debatendo-se freneticamente.

Alfred Seyss-Inquart (1892-1946), chanceler fantoche da Áustria, levou 14 minutos para morrer caindo do alto do patíbulo.


N. do A.: A maioria dos apoiadores do governo diz ser contra a pena de morte, mas iria adorar ver o ex-presidente e capitão reformado Jair Bolsonaro nas mãos do sargento "desastrado" que executou gente com a qual os apoiadores que gritam "Mito" são às vezes comparados. 

quarta-feira, 6 de agosto de 2025

Mapa de 1513 já mostrava a Antártida

Já foi citado o nome de Piri Reis (1470?-1553), um cartógrafo turco do século XVI, autor de um mapa de 1513 usado pelos navegantes de seu país. O termo "Reis" não se refere a nenhum sobrenome, mas a uma designação para comandantes de navios ou de esquadras, para o império turco. Hajji Ahmed Muhiddin Piri, seu nome real, foi um comandante militar de grande respeito, mas caiu em desgraça devido aos fracassos nos seus últimos confrontos com os europeus, e foi decapitado sem piedade, por ordem do sultão Solimão, o Magnífico. O velho comandante teria mais de 80 anos. 

O mapa continua informações sobre o recém descoberto continente americano, e foi elaborado com base em informações de outros cartógrafos, conhecimentos antigos e mesmo lendas. Um fato curioso é ser talvez o primeiro a mostrar um continente ao sul, somente descoberto no século XIX por navegantes russos e britânicos. Esta viria a ser conhecida como Terra Australis Incognita pelos europeus, e depois por Antártida ou Antártica. 

Existe ainda muita especulação sobre os detalhes deste continente misterioso, mas já citado por Ptolomeu, o geógrafo grego do século II. Restou apenas um fragmento, exposto no museu Topkapi, em Istambul. 

Fragmento preservado do mapa de Piri Reis mostrando a América, a África, o Oceano Atlântico e um grande território ao sul (Reprodução)

Piri Reis poderia ser considerado um mártir do conhecimento do século XVI, mas ele foi morto por seus trabalhos como militar, de acordo com a história oficial turca. Ele não poderia ser associado a outros sábios da mesma época, como Giordano Bruno, o teólogo que defendia não só o heliocentrismo, mas a presença de outros sistemas como o nosso, com planetas habitáveis orbitando em torno de estrelas, portanto, defendendo a presença de seres extraterrestres. Isso lhe valeu perseguições e a execução na fogueira à vista de todos na Praça Campo de Fiori, em Roma. Mas isso ficaria para uma outra postagem. 

quinta-feira, 29 de maio de 2025

Quando uma vida longa não termina bem

Costuma-se pensar que quem teve uma vida longa teve uma morte tranquila em sua residência, cercado por familiares chorando, pela fraqueza extrema devido à idade. Porém, existem exceções, e elas ficam mais numerosas conforme a expectativa de vida se expande. Ou seja, é mais provável aquela pessoa de 90, 95 anos, falecer de causas ditas "não naturais" (por exemplo, uma queda ou outro tipo de acidente, ou qualquer outro motivo não decorrente de alguma doença) em tempos recentes, embora antigamente haja registros famosos. 

Atenção: este é um dos temas mais pesados a serem explorados neste blog. Quem for muito sensível deve parar por aqui. 

Existem rumores sobre Pitágoras de Samos, o famoso matemático grego do século V a.C., ter morrido assassinado por extremistas políticos. Os pitagóricos, grupos estudiosos de matemática, música e arte, eram vistos como inimigos da democracia, por serem na maioria vindos da aristocracia, camada social com mais facilidade para acessar os estudos. Numa das reuniões feitas em cerca de 495 a.C., uma turba incendiou o local, e Pitágoras, então com uma idade entre 74 e 80 anos (alguns registros falam em 90) não conseguiu escapar do fogo, mas é mais provável que ele conseguisse escapar com a ajuda de alguns discípulos, para morrer mais tarde, refugiado numa cidade chamada de Metaponto. 

Outros relatos são menos especulativos e ilustram alguns casos de vida longa com final trágico. Não serão citados casos de queda acidental, algo relativamente comum, sendo a maior causa de morte "não natural" de pessoas em idade avançada, disputando com acidentes de trânsito, e uma das maiores causas de morte em geral, ficando entre o sexto e o nono lugar, dependendo das estatísticas recentes. Também não serão citadas doenças causadoras de sofrimento, como câncer ou diabetes, ou epidemias. 

Houve o caso recente de Jean-Luc Godard, o famoso cineasta francês que se matou em 2022 aos 91 anos, numa clínica de suicídio assistido na Suíça. 

Também na Suíça Sigmund Freud teria abreviado seu sofrimento administrando uma dose letal de morfina para aliviar as dores causadas por um câncer terminal na laringe. O "pai da psicanálise" tinha 83 anos em 1939, e estava refugiado, fugindo da tirania nazista. 

Sigmund Freud (1856-1939) teve uma vida bastante longa, mas, martirizado por um câncer, resolver abreviar seu sofrimento

Por falar em nazismo, um dos mais conhecidos criminosos nazistas, Rudolf Hess, enforcou-se na prisão aos 93 anos, em 1987, após ter um pedido de soltura negado. Ele foi condenado à prisão perpétua. 

Uma vítima do nazismo foi o matemático judeu Isaak Bacharach, co-autor do teorema de Cayley-Bacharach, morto no campo de concentração de Theresienstadt, em 1942, aos 87 anos.

Na Espanha do século XVIII, queimavam-se hereges pela Inquisição, e uma dessas vítimas foi uma mulher de 95 anos, Maria Bárbara Carillo, executada em 1721. 

A Revolução Francesa também produziu inúmeras vítiimas. Há registros de uma freira de 93 anos guilhotinada durante o regime do Terror, em 1794. Um chefe militar, o marechal Augustin-Joseph de Mailly, foi decapitado dessa forma aos 86 anos. 

Um preso de 83 anos nos Estados Unidos, Walter Moody Jr., ficou conhecido por ser o homem mais velho a ser executado em tempos recentes, em 2018, por ter matado um juiz federal muitos anos antes.

Também nos Estados Unidos, uma mulher de 100 anos, Elizabeth Barrow, ficou conhecida no momento de sua morte, estrangulada em 2009 por uma colega de quarto, sendo uma das pessoas mais longevas a ser assassinada. 

A baronesa Lady Brabourne, aristocrata britânica, foi morta na explosão de um barco onde também estava o sogro de seu filho Louis, o poderoso político Lord Mountbatten, em 1979. Brabourne tinha 83 anos, e Mountbatten, 79, vítimas de um atentado terrorista causado pelo grupo irlandês IRA. 

Muitos anos antes, no Japão, um antigo primeiro-ministro, Takahashi Korekiyo, foi morto a tiros em 1936, aos 82 anos, durante uma série de atentados políticos que desencadariam num regime fascista e todos os acontecimentos dramáticos da II Guerra Mundial até a explosão da bomba nuclear em Hiroshima. 

O genial teatrólogo brasileiro Zé Celso morreu num incêndio em sua casa, aos 86 anos, em 2023. 

Esta foi a causa da morte de uma famosa atriz americana, e uma das primeiras negras a ter reconhecimento por sua participação no filme ...E o Vento Levou. Butterfly McQueen tinha 84 anos, em 1995. 

John Nash, o genial matemático americano, morreu após um acidente de carro em 2015, quando estava para completar 87 anos. 

Um dos atores mais queridos do Brasil no século XX, Walmor Chagas atirou contra si próprio aos 82 anos, em 2013. 

Seu colega, Flávio Migliaccio, enforcou-se anos mais tarde, em 2020, após uma crise de depressão provocada pelo isolamento devido à pandemia de COVID-19. O ator estava com 85 anos. 

Mário Monicelli, cineasta italiano, jogou-se da janela de um hospital aos 95 anos, em 2010, para não ter uma morte ainda mais sofrida por um câncer. 

Um escritor famoso da África do Sul por sua luta contra o apartheid, Peter Abrahams foi espancado até a morte na Jamaica aos 97 anos, em 2017. 

Em tempos antigos, onde falecer idoso era incomum, Santa Eugênia foi decapitada com presumiveis 80 anos, no dia de natal de 258, em uma das várias perseguições aos cristãos pelo Império Romano. 

São Policarpo foi morto em 155 na cidade de Esmirna, na atual Turquia, a golpes de espada após ser forçado pelas autoridades a renegar o Cristianismo. Ele tinha 86 anos. 

Havia no século XVI um dos maiores cartógrafos da época, o turco Piri Reis, autor de um mapa múndi usado pelos navegantes de seu país e também das nações européias. Ele também era corsário do sultão Suleyman e foi decapitado em 1553 pela derrota humilhante dos turcos pelos portugueses na batalha de Ormuz. Algumas fontes dizem que ele nasceu em 1465, outros em 1470. Dessa forma, sua morte ignominiosa se deu quando ele tinha entre 82 e 88 anos. 

Estes são apenas alguns exemplos de como a morte pode acontecer de uma forma brutal, em qualquer idade. 

quinta-feira, 12 de dezembro de 2024

Franco da Rocha e a chaga do Juquery

Franco da Rocha era o nome de um psiquiatra brasileiro, fundador de um hospital no antigo município de Juquery, em 1896. 

O psiquiatra Francisco Franco da Rocha (1864-1933)

Nesta instituição, cujo prédio é de autoria do afamado Francisco de Paula Ramos de Azevedo, ele tentou empregar métodos modernos para a época, inspirados na teoria psicanalítica de Sigmund Freud, ao mesmo tempo que procurava estudar os diversos casos de transtornos psíquicos, e ao mesmo tempo se preocupava com a chamada questão do "aperfeiçoamento racial", como era costume da época. Atualmente, isso seria execrado. 

O médico faleceu em 1933, quando um certo governante europeu começou a empregar um método próprio de aperfeiçoar a raça dita "ariana", descampando anos mais tarde para o extermínio das "raças inferiores". Naquele tempo, o hospital do Juquery não era conhecido por tentar nenhum método considerado absurdo para tratar os pacientes. Na verdade, eles ficavam em liberdade vigiada, trabalhando na colônia agrícola do sanatório. 

Isso viria a mudar com a implantação do Estado Novo, quatro anos após a morte do ilustre doutor. O interventor, isto é, o governador nomeado pela ditadura de Getúlio Vargas, Adhemar de Barros, mandou colocar os criminosos considerados insanos no hospital de Juquery. A colônia agrícola deixou de funcionar, e o prédio se tornou, praticamente, um depósito de gente. Os métodos empregados pelo doutor Franco da Rocha foram abandonados, para dar lugar a algo parecido com os já aludidos procedimentos impostos para tratar os "indesejáveis". Chegava-se ao cúmulo de empregar a chamada "malarioterapia", inoculando o parasita Plasmodium vivax, o da malária, sob o pretexto de auxiliar na cura da sífilis, uma das causas comuns de transtornos mentais, mas atualmente considerada um método de tortura. E nem todos eram propriamente "loucos", mas muitos sofriam com alcoolismo ou eram considerados "desviados" sexuais (eram homossexuais), ou foram abandonados pelas famílias por diversos motivos. 

Depois da divisão do município de Juquery, a situação piorou. O local onde estava o hospital adotou o nome do médico, Franco da Rocha, por volta de 1944. A outra porção se tornou o município de Mairiporã, abandonando o velho nome, já associado ao manicômio. E o local se consagrou como um depósito de pessoas abandonadas à própria sorte, submetidas a eletrochoques, lobotomias, maus tratos e agressões. Franco da Rocha encolheu, perdendo Caieiras em 1958 e Francisco Morato em 1965. Na década de 1970, durante o regime militar, o local era uma sucursal do inferno, com mais de 10.000 internos. Havia denúncias do uso de escolopamina, a mesma substância para tratar dores abdominais, mas empregada em doses muito superiores às terapêuticas para induzir a vítima à inconsciência. O cemitério clandestino nos arredores do local recebia cadáveres com frequência, estimando o número deles em dezenas ou até centenas de milhares. Avanços mesmo só na grafia do nome, perdendo o "y" final para dar lugar ao "i". 

As atrocidades prejudicavam Franco da Rocha, chegando a ser chamada de "cidade dos loucos". Após a redemocratização, começaram a pressionar para a desativação do complexo do Juqueri. Aos poucos, o hospital psiquiátrico foi abandonando o passado de horrores. Em 2005, um incêndio no setor administrativo do prédio destruiu vários livros e documentos sobre a história do lugar, gerando até rumores sobre a destruição desse acervo ter sido premeditada, dificultando a apuração das irregularidades e das mortes. Somente em 2021, durante a pandemia de COVID-19, o hospital foi fechado e os últimos nove pacientes, tratados em condições bem mais próximas da decência, foram liberados. 

Agora, o local é o palco dos festivais anuais "Soy loco por ti Juquery", realizados desde 2018. Em setembro último, houve a sexta edição. Isso ameniza as sequelas em Franco da Rocha, uma cidade que nunca esquecerá seu passado traumático.

quarta-feira, 27 de março de 2024

Registros sobre Jesus na Antiguidade

Muitos ateus justificam sua falta de fé em Deus, acusando a Bíblia de ser comparável aos contos de fadas, com muitas lendas e relatos sem base nas descobertas arqueológicas. Eles apontam a maioria dos personagens das Escrituras como invenções criadas pela tradição oral hebraica, e um deles é Jesus Cristo. 

Entretanto, as próprias descobertas arqueológicas parecem reforçar a existência de Jesus. Uma fonte citou 31 documentos comprovando a existência Daquele que foi louvado como o Cordeiro de Deus e o Salvador (ver AQUI). Boa parte das fontes faz críticas, às vezes ferozes, contra os cristãos, e algumas delas são ainda do século I, pouco depois da passagem de Jesus pelas terras da Judéia, mas não nega a Sua existência. Outros, como as do famoso historiador hebreu Josef ben Mattiyahu, mais tarde tornado cidadão romano com o nome de Flavius Josephus, são mais benevolentes. 

Mosaico da época bizantina (Idade Média) retratando Jesus (Divulgação)



Pode-se argumentar que o texto do site Graça Maior é enviesado, por ser de conteúdo cristão, mas veículos da grande mídia também divulgam os conteúdos de documentos antigos descobertos pelos trabalhos dos arqueólogos, inclusive os evangelhos não-canônicos de Tomé e Maria Madalena, que apontam para Tiago, tradicionalmente considerado um apóstolo, como irmão de Jesus. 

Até mesmo historiadores ateus comprovam a existência do "homem mais influente da História", mesmo Lhe negando a natureza ou a inspiração divina. 

Por fim, existem mais registros de Jesus do que figuras consagradas como Pitágoras ou Sócrates, de acordo com o historiador Rodrigo Silva (ver AQUI). 

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023

Qual foi o destino do homenageado pela campeã do Carnaval paulistano?

Registros históricos antigos são complicados em qualquer lugar do mundo, ainda mais em locais como o Japão feudal, onde a história em boa parte se confunde com os rumores aceitos pelos historiadores como sendo verdade. 

Yasuke, o primeiro samurai de origem estrangeira, e o único africano, possivelmente de origem etíope, onde o sobrenome Yasufe era comum, embora os países de língua portuguesa falem em Moçambique como terra natal do guerreiro de 1,88 m, um gigante perto dos japoneses da época. Após um período como servidor, possivelmente escravo, de missionários europeus, como o jesuíta italiano Alessandro Valignano, recebeu a atenção dos japoneses, impressionados com seu porte e sua valentia. Ele serviu ao mais poderoso daimyo (governante feudal) Oda Nobunaga (1538-1582), virtual governante de boa parte do Japão, nos últimos anos de seu mandato, lutou sob seu comando com ferocidade, segundo relatos da época, derrotando os inimigos do seu mestre. Por isso, teve privilégios como sentar-se à mesa de Nobunaga. Porém, os oponentes conseguiram vencer a resistência e derrotaram as forças do daimyo, forçado a cometer seppuku em 1582 como medida honrosa. Yasuke teria presenciado esta dramática morte. 

Representação de Yasuke, o "samurai negro" do século XVI; a estátua foi construída muitos anos após sua morte em data desconhecida (Divulgação)

Oda Nobutada (1557-1582), filho de Nobunaga, reinou por pouco tempo, também cometendo o suicídio ritual, e foi sucedido pelo inimigo, Akechi Mitsuhide (1527-1582), cujo mandato também durou pouco, derrotado e morto pelas forças de Toyotomi Hideyoshi (1537-1598). Este tomou o poder e não quis saber de Yasuke, que chegou a oferecer sua espada para Mitsuhide. sendo desprezado e chamado de "fera". Esta atitude do chefe japonês era vista como normal diante de um homem tão diferente, mas agora considerada como racismo. 

Dizem que o samurai africano abandonou a carreira, e voltou-se para os jesuítas. Neste caso, é duvidoso dizer se ele voltou à condição de escravo. Possivelmente ele continuou a sua carreira de guerreiro, mas agora não mais subordinado diretamente ao poder central. Houve registros da presença de guerreiros negros na batalha de Okitanawate (1584), e um deles possivelmente seria Yasuke. Em 1593, um "vassalo" de Hideyoshi, Kato Kiyomasa (1562-1611), teria dado instruções aos chefes de sua guarda, e um deles era chamado de kurobo (*). Um termo semelhante era kuronbo, palavra atribuída às pessoas negras. Provavelmente, ele estava se referindo a Yasuke. Não existem mais indícios de sua vida após essa data. 

Passados mais de quatro séculos, houve um projeto para filmar a vida do lendário guerreiro, e ele seria interpretado por nada menos que Chadwick Boseman, o Pantera Negra da Marvel. Porém, a morte deste em 2020 interrompeu os planos. A Netflix fez um anime com várias incorreções históricas e muita ficção, em 2021. Neste ano, a Mocidade Alegre ganhou o Carnaval paulistano tendo Yasuke como tema, misturando motivos africanos e japoneses, e se deu muito bem, voltando a obter um título depois de nove anos de jejum na apuração, sem perder um único décimo de ponto. 

Desfile da Mocidade Alegre (Canal Novidades do Samba / Youtube)



(*) T. Lockley, G. Girard - Yasuke: The true story of the legendary African Samurai, 2019

terça-feira, 30 de agosto de 2022

Da série "Oitentolatria", parte 33, e "Noventolatria"', parte 30 - Gorby

Mikhail Gorbachev (1931-2022) chegou a ser o estadista mais popular entre o final dos anos 1980 e 1990. Com seu carisma e afabilidade, ele rompeu com a tradição dos secretários-gerais da antiga União Soviética de serem mal-humorados e temidos. Ele também foi o último dirigente do "império" comunista, entre 1985 e 1991. 

Gorbachev morreu aos 91 anos (Pascal Guyot/AFP)

Durante essa época, muito se falou em "Glasnost", a política da transparência nas decisões do governo soviético, e "Perestroika", a reconstrução econômica, com maior abertura para os produtos vindos da Europa Ocidental e dos Estados Unidos. Isso funcionou mais como uma propaganda para angariar a simpatia dos ocidentais do que como uma melhoria real, pois a situação do povo nas repúblicas soviéticas, em geral, era precária. Essas repúblicas incluíam a Ucrânia, agora ameaçada novamente em sua soberania, as repúblicas bálticas (Lituânia, Letônia e Estônia), a Bielorússia (atual Belarus), a Moldávia (atual Moldova), os países do Cáucaso (Armênia, Geórgia e Azerbaijão) e as afastadas nações da Ásia Central (Cazaquistão, Turcomenistão, Uzbequistão, Quirguistão, Taidjiquistão). 

Mesmo assim, a liderança de "Gorby", como foi apelidado, contribuiu para a destruição da Guerra Fria, com maior pressão por liberdade nos antigos países socialistas da Europa Central e Oriental, dissolvendo a chamada "Cortina de Ferro", fronteira entre os países ocidentais e orientais. Assinou importantes acordos com Ronald Reagan, o ex-ator e presidente norte-americano, lembrado por oitentólatras (governou entre 1981 e 1989) e defensores do conservadorismo, para arrefecer a produção de artefatos nucleares, resolver os conflitos na Ásia Ocidental (Guerra Irã-Iraque) e o apartheid, o regime racista na África do Sul. Também contribuiu para a quebra (literal) do Muro de Berlim, em novembro de 1989, e as manifestações contra a ditadura chinesa em maio do mesmo ano. Ganhou o Prêmio Nobel da Paz em 1990, a maior prova de reconhecimento por seu trabalho, quando a Guerra Fria estava praticamente morta. 

Gorbachev sofreu uma tentativa de golpe de Estado em agosto de 1991, provocado por quem procurava restaurar o antigo regime de força do gigante comunista. Resistiu graças à ajuda de Bóris Yeltsin, o presidente da Rússia. Percebendo que seu poder estava irremediavelmente abalado, e renunciou em dezembro. Sem ele, a União Soviética desmoronou, e as repúblicas proclamaram suas independências, mas com o compromisso de estarem filiadas à Comunidade dos Estados Independentes, a CEI. As repúblicas bálticas, primeiras a recobrarem sua plena autonomia, recusaram-se a integrar esse novo grupo. 

Também num mês de agosto veio a falecer o mais popular dos dirigentes vermelhos, mais comentado pela sua careca enfeitada com uma mancha na pele, do que pelas carrancas feitas por seus antecessores, responsáveis por tornar o comunismo um pesadelo, a partir do sonho de igualdade pregado pelos líderes da Revolução Bolchevique de 1917. Ele também foi uma das personalidades mais queridas pelos saudosistas das décadas de 1980 e 1990. 

quarta-feira, 24 de agosto de 2022

O que teria a ver a Escola Naval com a noite de São Bartolomeu

A Escola Naval do Rio de Janeiro, uma das mais tradicionais instituições de ensino superior do Brasil, é também uma das mais antigas. Era a Academia Real dos Guardas-Marinhas, fundada em 1782 por ordem da rainha de Portugal D. Maria I em Lisboa, depois transferida para o Rio de Janeiro com a vinda da família real portuguesa em 1808, recebendo o nome atual em 1887. Em 1938, foi transferida para a ilha de Villegagnon, próxima ao Aeroporto Santos Dumont, onde estava o antigo Forte Coligny. 

Esse forte foi construído pelos invasores franceses, comandados por Nicolas Durand de Villegagnon (1510-1571), vice-almirante que seguia ordens do prestigiado almirante Gaspard de Coligny (1519-1572), como parte da "França Antártica". Na época, a ilha era chamada de Sirijipe (lugar dos siris, em tupi). 

A Escola Naval, na ilha de Villegagnon, Rio de Janeiro (Divulgação)

Coligny, durante a instalação dos franceses no Rio de Janeiro, foi capturado e preso pelos espanhóis, entre 1557 e 1559, convertendo-se ao calvinismo. Libertado do cárcere, tornou-se o mais destacado dos chefes huguenotes, chamados assim porque eram partidários de Hugo Capeto, da casa dos Bourbons, e a maioria deles seguia o culto calvinista. 

As lutas religiosas entre a maioria católica e os huguenotes enfraqueceram a unidade francesa, e isso refletiu na "França Antártica". Os franceses não conseguiram se estabelecer plenamente, mesmo com o apoio dos índios tupinambás, cansados da perseguição movida pelos portugueses. Em 1560, os portugueses, comandados por Estácio de Sá (1520-1568) com o apoio do cacique Araribóia (c. 1525-1589), inimigo dos tupinambás (também chamados de tamoios), tomaram o Forte Coligny. 

Quanto ao almirante que batizou o nome do forte, ele passou a ter grande influência no reino. Carlos IX (1550-1574), o rei, era jovem e fraco de espírito, manipulado tanto pela mãe, a poderosa Catarina de Medicis (1519-1589), quanto pelos nobres, que chefiavam os grupos católicos e protestantes. Coligny era temido por seu poder, costurando alianças com a Inglaterra e a Holanda, em manobras desconhecidas até pela rainha Catarina. 

Os chefes católicos, instigados por Henrique de Guise (1550-1588), herdeiro político do duque de Guise (1519-1563), cujo assassinato teria sido a mando de Coligny, tentaram matá-lo a tiros no dia 22 de agosto de 1572, na época do casamento entre a irmã do rei, a católica Margarida de Valois (1553-1615) e o jovem nobre huguenote Henrique de Bourbon (1553-1610), então soberano do antigo reino ibérico de Navarra. Coligny sobreviveu, mas estava bastante ferido nos dois braços, e os mandantes do crime, temerosos por uma vingança dos protestantes, resolveram antecipar-se, ordenando a morte de vários líderes inimigos, e convencendo o rei Carlos IX a apoiá-los. 

O almirante, convalescendo das feridas em seu castelo, foi surpreendido em seu leito e esfaqueado por um partidário de Henrique de Guise. Seu corpo foi defenestrado, depois emasculado e decapitado. Isso e mais a perseguição aos líderes huguenotes despertou um verdadeiro frenesi em Paris, a "Noite de São Bartolomeu", em homenagem ao apóstolo de Jesus vítima, também, de uma morte terrível (ele foi esfolado vivo, segundo a tradição católica), e sua data é comemorada no dia 24 de agosto. 

Mataram tantos calvinistas, homens, mulheres e crianças, a ponto de manchar Paris com o sangue deles, inclusive o rio Sena, tingido de vermelho quando ele recebeu mais de mil cadáveres. No total, estima-se em cerca de 3.000 mortos apenas na capital francesa, enquanto em outras cidades também houve massacres entre agosto e outubro, totalizando dezenas de milhares de cadáveres (entre 10.000 e 30.000, não se sabe ao certo). Henrique de Bourbon foi um dos poucos calvinistas a escapar, e mais tarde viria a ser o rei Henrique IV, e sua esposa, da qual iria separar-se (por anulação do matrimônio), seria conhecida como "a rainha Margot". 

Tentaram trazer a cabeça do almirante Coligny para o papa, Gregório XIII (1502-1585), na esperança de conseguir o apoio do Vaticano à causa contra os "hereges". O resto mortal não cruzou as fronteiras da França. Mesmo assim, o papa encomendou um afresco a Giorgio Vasari (1511-1574), para enfeitar a sala régia do Vaticano. Nesta obra, foi representado o corpo morto de Coligny sendo jogado pela janela de seu aposento enquanto os católicos "cuidavam" dos "inimigos do papa". Foi rezado um Te Deum, como forma de louvar o rei da França e a rainha-mãe. Carlos IX mandou cunhar uma medalha comemorativa onde ele era representado como Hércules combatendo a hidra (os huguenotes). (*)

Afresco de Vasari relembrando os acontecimentos da noite de São Bartolomeu, ocorrida há exatos 450 anos (Giorgio Vasari/Domínio Público)

Assim foi o horrendo acontecimento que completa hoje 450 anos, movido pelo extremismo político (que era visto como normal na época) e pela intolerância religiosa. 

No outro lado do Atlântico, a "França Antártica" já havia perecido faz tempo, em circunstâncias bem menos dramáticas. Os franceses tentaram resistir, mas estavam divididos entre as facções católica e huguenote, e as forças de Estácio de Sá e de Araribóia conseguiram derrotá-los. Villegagnon já havia entregado o comando antes da queda do forte Coligny, pressionado pelos calvinistas, que o acusam de atrocidades contra eles. Em 1565, Estácio de Sá fundou a cidade do Rio de Janeiro, mas dois anos depois morreu em confronto com os tamoios, quando os últimos franceses foram expulsos. Mais tarde, o cacique recebeu terras no outro lado da baía de Guanabara, e sua tribo, os temiminós, fundaram uma vila, São Lourenço dos Índios, a futura cidade de Niterói. Novas invasões francesas viriam a ocorrer, no século XVII, no Maranhão (forte de São Luís, em homenagem a Luís XIII, filho do já citado Henrique IV). 

Quanto ao forte Coligny, suas ruínas deram lugar às instalações da fortaleza de São Francisco Xavier no século XVIII, aproveitada depois para abrigar a Escola Naval, responsável pela formação de vários oficiais da Marinha brasileira. 



(*) N. do A.: Os conflitos religiosos perduraram após os massacres de 1572. Após a morte precoce de Carlos IX, seu irmão Henrique III, mal visto por ser homossexual, porém bem mais firme no comando do reino, tentou se desvencilhar da influência dos chefes das duas facções em confronto, chegou a mandar matar vários deles (inclusive Henrique de Guise) e acabou sendo assassinado por um católico extremista em agosto de 1589. Catarina de Medicis perdeu influência e saúde no reinado de Henrique III, morrendo poucos meses antes do assassinato do filho. Henrique de Bourbon foi escolhido para sucedê-lo, tornou-se o rei Henrique IV, conseguiu pacificar o país com o Edito de Nantes (1598), garantindo liberdade de culto. Porém, também foi assassinado por outro fanático católico, em 1610. A paz entre católicos e calvinistas sempre foi precária, mas foi defendida por Luís XIII (e seu primeiro-ministro, o cardeal Richelieu). Seu filho e sucessor Luís XIV, o "Rei-Sol", terminou de submeter os nobres à autoridade real, mas já não tinha a mesma tolerância em relação aos huguenotes. Em 1685, vários deles, perseguidos pelo rei, fugiram do país e foram para a Inglaterra, a Prússia e outros países de religião protestante. 

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

100 anos da Semana de Arte Moderna

No dia 13 de fevereiro de 1922, portanto há quase cem anos, São Paulo recebeu o maior choque cultural de sua História com a Semana de Arte Moderna. 

Acostumado com o academismo nas artes plásticas, o parnasianismo na literatura e o romantismo musical, o público ficou estarrecido com as obras expostas. O primeiro dia da exposição foi marcado por uma conferência dada pelo poeta Graça Aranha, "A Emoção Estética da Arte Moderna". O poeta maranhense, então membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), era um dos representantes da transição do Parnasianismo para o Modernismo, sendo um dos poucos a romper com a ABL, dois anos depois de ter participado deste evento. 

Três cartazes feitos por Di Cavalcanti para a divulgação do evento, e uma charge com caricaturas irreverentes dos expoentes do evento feita por Belmonte, o criador do Juca Pato

Depois, o estranhamento só piorou. Muitos torceram o nariz para obras como "Cabeça de Mulher", escultura de Victor Brecheret, "A Estudante", pintura de Anita Malfatti, e outros trabalhos "futuristas", como fizeram questão de frisar a mídia da época. Mário de Andrade deixou muita gente furiosa com o recital de seu poema Ode ao Burguês, e Ronald de Carvalho foi alvo de escárnio por fazer o mesmo com Os Sapos, de Manuel Bandeira, que não compareceu pessoalmente. Ainda havia a música de Heitor Villa Lobos, que apresentou obras como Girassol, Danças Africanas e Terceiro Quarteto, que não agradaram os ouvintes. Guiomar Novaes tentou se recusar a tocar a obra Embriões Dissecados, de Eric Satie, uma paródia de Chopin, e foi elogiada pela imprensa ao tocar obras de Claude Debussy, já falecido na época. 

Não foi só aí que o público foi obrigado a engolir os "futuristas", pois haveria novas obras para consolidar o movimento modernista, entre as quais o famoso Abaporu, pintado por Tarsila do Amaral em 1928. Romperam-se os laços com o tradicionalismo herdado da Europa, principalmente da França, e surgiram o Manifesto Antropofágico de Mário e Oswald de Andrade, e o Verde-Amarelismo de Plínio Salgado e Menotti del Picchia. 

quinta-feira, 2 de setembro de 2021

Museu do Ipiranga vai finalmente reabrir

Depois de uma restauração iniciada após ter fechado ao público em 2013, o Museu Paulista, ou Museu do Ipiranga, agora com 70% do trabalho concluído, vai reabrir no mês de setembro de 2022, bem na data do bicentenário da Independência. Até lá, a pandemia terá regredido e o museu poderá ficar aberto à visitação logo após a reabertura. 

O Museu Paulista, no Ipiranga, próximo de onde D. Pedro I proclamou a Independência em 1822 (Marcos Santos/USP)



O espaço foi ampliado, com novos equipamentos de segurança, elevadores e um novo sistema de ar-condicionado. e o acervo foi também incluído na restauração. Há peças datadas do tempo da Independência, como mobília, objetos de porcelana e veículos, além do famoso quadro "Independência ou Morte (O grito do Ipiranga)", de Pedro Américo. 

Espera-se que em 2022, no bicentenário da emancipação política do nosso país, haja condições para visitar o museu e conhecer o passado. O lugar escapou de ser destruído por falta de cuidados, como aconteceu com o Museu Nacional, vítima de um incêndio em 2018, 



N. do A.: Há quem tema um país "incendiado" após as manifestações do próximo 7 de setembro, mas provavelmente não haverá grandes tumultos, e sim uma grande massa de descontentes. De um lado, os descontentes com os governadores, o Congresso e o Judiciário, somados aos defensores de "!intervenção militar" e outras aberrações. De outro, os defensores do antigo status quo, esperançosos com a volta de Lula, ou sonhando com um improvável impeachment do presidente. 

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

A versão desconhecida do Hino da Independência

Existiu uma versão do Hino da Independência musicado por Marcos Portugal, compositor português que veio ao Brasil quando a família real portuguesa estava estabelecida no Brasil, fugindo das forças napoleônicas e seguindo o plano estabelecido pela Corte com a colaboração britânica. 

Inicialmente, ele serviu como professor de música para o jovem príncipe D. Pedro, além de compositor oficial do príncipe regente D. João, mais tarde D. João VI. Depois, com a partida deste para Portugal, pressionado pelo Parlamento que exigia a volta de Sua Majestade, Marcos Portugal passou a servir ao príncipe D. Pedro, que não aceitava a imposição das Cortes de Lisboa. 

Marcos Portugal (1762-1830) musicou a primeira versão do Hino da Independência, logo esquecida em favor da obra feita pelo seu discípulo, o príncipe D. Pedro, antes de ser coroado como D. Pedro I.

Em 1822, durante o processo de Independência do Brasil, o compositor português musicou a letra de Evaristo da Veiga. Sendo um representante tardio da música do século XVIII, não conseguiu popularidade. A seguir, uma interpretação do pianista Alfredo Duarte, tocando em um piano moderno, e do barítono Luiz Carlos Rodrigues de Almeida (canal IME_ EXÉRCITO).

 

D. Pedro, seu aluno, compôs uma melodia bem mais simples e não tão elaborada, porém de grande apelo, passando a ser usada no Hino da Independência a partir de 1824. O príncipe teve contato com outros compositores, como o austríaco Sigismund von Neukomm (discípulo do grande Joseph Haydn), e os brasileiros José Maurício Nunes Garcia e Francisco Manuel da Silva (sua música seria usada para o Hino Nacional Brasileiro, elaborado muito mais tarde, em 1909 por Osório Duque Estrada e oficializado em 1922, no centenário da Independência). 

Curiosamente, tanto Marcos Portugal quanto D. Pedro usaram, além do piano da época, um instrumento de teclado chamado espineta, presente ainda na corte brasileira, mas em desuso na Europa. A espineta era uma espécie de versão menor do antigo cravo, visto como ultrapassado por sua dinâmica ser considerada muito limitada, ou seja, não tocar notas fortes ou fracas, ao contrário do piano.

Com o trabalho feito por D. Pedro, a melodia rebuscada de Marcos Portugal logo ficou esquecida, e em 1830, o mestre do primeiro imperador brasileiro faleceu, no Rio de Janeiro, e também teve o mesmo destino de sua obra. 

 

N. do A.: Este blog, em nome de uma diversificação maior dos assuntos, não escreveu sobre a notícia avidamente comentada hoje: o presidente Jair Bolsonaro mais uma vez ignorou a pandemia e compareceu à cerimônia do 7 de setembro sem máscara, induzindo os presentes em Brasília a fazerem aglomerações, condição propícia para a contaminação pelo coronavírus, ainda não devidamente controlado em nossa terra.

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

A consciência negra de José do Patrocínio

No dia 29 de janeiro de 1905, morreu José do Patrocínio, um dos maiores abolicionistas. 

Alegoria de José do Patrocínio, por Rodolfo Amoêdo

Sofreu na pele os horrores da escravidão, pois nasceu na senzala, filho de uma jovem escrava, no dia 9 de outubro de 1853. Portanto, teve uma vida curta mesmo para a época, apenas 51 anos. Conseguiu a liberdade aos 14 anos, após sofrer nas mãos do pai, um sacerdote católico, que, no entanto, deixou-o ir ao Rio de Janeiro, onde passou a trabalhar como servente. Apesar dos preconceitos, não se deixou abater e se tornou jornalista, farmacêutico, político e ativista. 

Como jornalista, exerceu intensa pressão para acabar com uma vergonha nacional da época. O Brasil, em sua época, era o único país oficialmente escravista das Américas. Conta-se que, após a assinatura da Lei Áurea, ele fez breve discurso e exclamou aos presentes: "Meu Deus! Meu Deus! Está extinta a escravidão!". Também foi um divulgador dos ideais republicanos. Durante uma reunião do Conselho Municipal do Rio de Janeiro, logo após o marechal Deodoro mandar prender o primeiro-ministro, visconde de Ouro Preto, durante o golpe militar do dia 15 de novembro de 1889, Patrocínio declarou que estava instalada a República no Brasil. Sofreu, porém, com o regime, pois foi preso por ordem do Marechal Floriano Peixoto, sucessor de Deodoro, por atrever-se a fazer oposição aberta ao governo, considerado uma tirania. Em 1896, colaborou para a fundação da Academia Brasileira de Letras, junto com outro famoso descendente de escravos - Machado de Assis - e seu companheiro de lutas pela Abolição - Joaquim Nabuco. 

Seu último artigo não tratava de política, e nem do racismo. Em um artigo no jornal A Notícia, ele escreveu, prenunciando outra causa para ser debatida muitos anos depois, os direitos dos animais: 

“Fala-se na organização de uma sociedade protetora dos animais. Tenho pelos animais um respeito egípcio. Penso que eles têm alma, ainda que rudimentar, e que têm conscientemente revoltas contra a injustiça humana. Já vi um burro suspirar depois de brutalmente espancado por um carroceiro que atulhava a carroça com carga para uma quadriga, e que queria que o mísero animal a arrancasse do atoleiro...”

Consta-se que ele, pobre e tuberculoso, não terminou o artigo acima. Teria morrido após uma forte hemorragia. Foi chamado de "O Tigre da Abolição", por um jornal da época (ler AQUI). 

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

Woodstock e o nosso tempo


O poster oficial do Festival de Woodstock, em 1969

Nos dias 15, 16, 17 e 18 de agosto de 1969, milhares de jovens se reuniram para fazer uma festa movida a "sexo, drogas e rock'n roll", de acordo com o famoso clichê da época. Eles celebravam a "Era de Aquário", quando não haveria guerra e o amor reinava. Não queriam saber da "caretice" da Guerra Fria e nem dos combates no Vietnã. Só queriam se sujar de lama, fazer sexo à vontade, experimentar o LSD e outras substâncias para viagens loucas e, the last but not the least, ouvir o velho rock'n roll, este gênero que marcou o fim do século XX. 

O principal nome foi Jimmi Hendrix, no auge da carreira, antes de sucumbir aos 27 anos por causa das drogas (27 anos é uma idade "maldita" para os artistas). Mas para lá foram Joan Baez (grávida), Santana, Ravi Shankar, Johnny Winter, Joe Cocker e a incrível Janis Joplin, também próxima dos 27 anos, idade durante a qual ela (adivinhem) morreu.

Logicamente, trata-se de Woodstock, o evento que não aconteceu nesta cidade no Estado de Nova York, mas a uma hora e meia de carro daí, numa fazenda da zona rural de Bethel, no mesmo Estado.

50 anos depois, não haveria ambiente para fazer algo assim. O gênero rock'n roll está restrito a um nicho, apesar de termos mais um Rock in Rio neste ano, a partir do dia 27 de setembro, com atrações muito além do velho estilo. A "Era de Aquário", com base na posição da nascente (ponto onde o Sol aparece no horizonte), próxima à Constelação de Aquário, é só uma teoria esotérica, até prova em contrário. A moda do "paz e amor", própria dos hippies, terminou ainda na década de 1970, apesar de haver adeptos entre os que passaram a juventude naquela época - os hipsters, influenciados pelos velhos ripongas, em geral não adotam o desapego aos bens materiais e nem o consumo de drogas para verem outros mundos. Ficar ao ar livre e se sujar de lama não é algo agradável para a atual geração criada em apartamentos e acostumada aos smartphones e videogames. 


N. do A.: Agora, principalmente entre os espíritas adeptos do kardecismo, fala-se numa nova era marcada pela paz e pela elevação espiritual, combinada com o avanço tecnológico cada vez mais acelerado. Chico Xavier teria previsto isso com base na chamada "data limite", 20 de julho de 2019, cinquenta anos depois da chegada de Neil Armstrong e seus companheiros à Lua, caso não houvesse (e não houve) um conflito nuclear. Muitos misturaram esta manifestação do médium com outras pautas esotéricas ou escatológicas, como a chegada do Apocalipse, de extraterrestres ou de entidades cósmicas como o tal Nibiru, um estranho planeta cuja órbita iria coincidir com a da Terra.

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

20 razões para agradecer por não estarmos na Idade Média


Dois cavaleiros armados de espadas brigando por uma donzela? Isso só acontecia em ambiente da nobreza. A vida das pessoas comuns era muito mais difícil e violenta (de uma pintura medieval feita no séc. XIII)


A Idade Média é uma época muito difamada desde que ela terminou, com a tomada de Constantinopla pelos turcos, as descobertas de outros continentes pelos europeus e o florescimento das artes com o Renascimento. Consideram-na uma época de ignorância, obscurantismo, tirania exercida pela nobreza e pela igreja contra o resto da população - a maior parte dela vivendo em condições realmente difíceis. 

Existiram fatos que comprovavam esta visão ruim desta época, de acordo com o site List25 (leia o original, em inglês, AQUI). Alguns itens foram retirados porque eram considerados apenas pitorescos, não terríveis, como a contagem dos minutos, o tipo de vestuário e a composição dos nomes naquela época trevosa:


1. Não tinha essa de "felizes para sempre" no casamento
 
O casamento na época medieval era muito diferente do que definiríamos como “casamento” hoje. As mulheres não tinham escolha e nem conheciam o homem antes de se casarem. Simplificando, o casamento não foi baseado em amor e romance, como muitos ingenuamente pensam.


2. A mulher não tinha direitos

Mesmo que o estupro fosse considerado um crime na maior parte da Europa medieval, a mulher era sempre considerada a grande culpada, por se deixar entregar ao agressor. Uma esposa não podia recusar legalmente as demandas sexuais do marido, mas o marido também não podia recusar os avanços da esposa. A crença popular era que as mulheres estavam sempre desejando sexo, e que era ruim para a saúde não ter relações sexuais regularmente. Naquela época, as mulheres eram vistas (e usadas) como estritamente para fins de sexo, geração de filhos, preparação da comida e da limpeza. 


3. A cadeia era verdadeiramente terrível

O sistema penitenciário da época não era tão civilizado e humano quanto o atual na maior parte do Ocidente. Se você acabou perdendo sua liberdade, o inferno estava esperando por você. Cadeias foram as primeiras masmorras em castelos ou fortificações como a Torre de Londres. Um prisioneiro não se alimentava e não tomava água todos os dias e, claro, não havia atividades sociais ou sol. A maioria dos prisioneiros eram acorrentadas m suas celas para evitar tentativas de fuga e muitos deles morriam de fome ou doença. Os presídios de agora, mesmo no Brasil, pareceriam hotéis perto das cadeias medievais. 


4. Ruas pavimentadas eram uma raridade

Na maioria das grandes cidades medievais não havia pavimento e as pessoas tinham que andar na terra nua. Aliás, não exatamente, pois a maior parte do solo estava coberta de excrementos, assim como entranhas de animais e comida apodrecida.


5. Os loucos eram tratados como escória

Ter problemas mentais na Idade Média era um problema real. Os espancamentos eram administrados como punição aos doentes mentais que agiam por causa dos distúrbios causados ​​por seu comportamento e como meio de “ensinar” os indivíduos a sairem de suas doenças. Outros que eram considerados perigosos sofriam espancamentos, eram expulsos das cidades, jogados na cadeia, ou executados pelo crime de possessão demoníaca. Tempos felizes!


6. A comida era horrível

A violência da Idade Média levou a uma sociedade primitiva sem elegância e refinamento. Comida medieval era muito simples e os ingredientes eram obtidos nos lugares de origem, com poucos locais onde se comercializavam produtos de fora. As massas comiam muito pão, muitas vezes mofado, carne de baixa qualidade (principalmente porco), enquanto havia uma séria falta de frutas e vegetais. E a falta de higiene ao comer era regra.

7.  A medicina era baseada na superstição

Um diagnóstico médico durante os tempos medievais envolvia astrologia e outras teorias que hoje seriam consideradas absurdas. Por exemplo, a sangria era um dos métodos de tratamento mais amplamente aceitos e respeitados, uma vez que a maioria dos médicos acreditava que o corpo se livraria de todas as doenças ou enfermidades se o "sangue ruim" fosse removido.


8. Ter uma longa vida era uma raridade

A expectativa média de vida de um homem nascido no Reino Unido entre 1276 e 1300 era de cerca de trinta e um anos, e no resto da Europa as coisas não eram melhores. A "meia-idade" naquela época era a adolescência, sendo que as mulheres já estavam em idade reprodutiva. Gravidez na adolescência não era vista como um problema.


9. Água era rara e imunda; as bebidas alcoólicas eram mais seguras

A água raramente era bebida nos tempos medievais devido às dificuldades em obter água limpa. Se a água tivesse que ser bebida, a de nascente era preferida, pois era menos provável que causasse doença do que se fosse colhida do rio. Acreditava-se também que a água era ruim para a digestão e, por todas essas razões, as pessoas consumiam grandes porções de vinho, cerveja, cidra, cerveja, etc. Era, aliás, menos perigoso se embebedar do que morrer em decorrência de parasitoses vindas da água. 


10. As pessoas não tomavam banho

Embora os banhos públicos e os métodos sanitários fossem comuns em Roma, Atenas e na maioria das grandes cidades da Europa, tudo isso mudou nos tempos medievais. Os cristãos foram proibidos de tomar banho por causa da nudez, e portanto a Igreja proclamou que banhos públicos levavam à imoralidade, sexo promíscuo e doenças. Essas “leis não escritas” da religião tornaram-se parte da vida cotidiana da maioria dos cidadãos que lentamente começaram a evitar qualquer tipo de autolimpeza.


11. Viver nas cidades era uma sujeira

Estima-se que os habitantes da Londres medieval produziam cinquenta toneladas de excrementos humanos e animais por dia. Eles eram descartados em qualquer lugar, até do alto das casas mais altas (e ai de quem passava perto delas).


12. Viver de entretenimento era um risco

Hoje em dia, atores, cantores, atletas e personalidades da TV podem ser algumas das pessoas mais bem-sucedidas e mais respeitadas do mundo, mas, na época medieval, as coisas não eram ótimas para elas. Se um artista não fizesse o rei ou um senhor feudal feliz, ele poderia ser executado por não ser bom em seu trabalho e não, isso não é apenas uma história que você viu nos filmes.


13. O pão era um perigo para a saúde e podia até ser alucinógeno

Pão era alimento essencial na Idade Média. No entanto, durante o verão, fazer pão era uma tarefa particularmente difícil para os aldeões, uma vez que ficavam sem grãos e a nova cultura não estava pronta para ser colhida. Por essa razão, eles foram forçados a fazer pão de centeio velho infestado com um fungo chamado ergot, que tem os mesmos efeitos do LSD.


14. Havia guerras e mais guerras

Viver na Idade Média era conviver com a violência e precisar se sujeitar aos interesses dos senhores feudais e dos reis, que entravam em guerra por qualquer motivo, inclusive questões de honra familiar, mas principalmente devido às disputas pelos tronos (esta é uma causa da Guerra dos Cem Anos entre os reinos franceses - haviam vários - e a Inglaterra, entre 1337 e 1450). As famosas Cruzadas nem sempre foram motivadas pela Igreja para "libertar" Jerusalém, mas também por questões comerciais. Os cavaleiros medievais, mesmo os cruzados, muitas vezes não se comportavam como... cavalheiros, agindo muitas vezes com selvageria. E ser um guerreiro na Idade Média não era fácil, pois para matar o inimigo era preciso enfrentá-lo em combate direto; os nobres raramente o faziam, pois era difícil carregar elmos e armaduras pesadas, enquanto os soldados comuns muitas vezes usavam o que tinham em mãos; não havia a praticidade das armas de fogo e dos mísseis de longo alcance, enquanto as balestras eram o máximo de sofisticação bélica da época.


15. A peste e outras doenças eram sentenças de morte

A peste negra foi registrada como uma das pragas mais mortíferas da história da humanidade. De acordo com relatos históricos, a peste negra matou cerca de metade da população da Europa em apenas três anos, o que significa que se você vivesse na Europa medieval por volta de 1340, teria 50% de chance de morrer com ela. Não era só a peste que matava, mas a malária era um flagelo principalmente na Itália, onde milhares de pessoas morriam todo ano por causa dessa doença. Havia registros de outras enfermidades temíveis, como o Mal des ardents (ou "Fogo de Santo Antônio"), forma perigosa da intoxicação pelo já citado ergot, onde as pessoas sentiam-se como se pegassem fogo e sofriam com a má circulação do sangue e até gangrena.


16. Boas maneiras eram quase inexistentes

Excluindo a maioria das famílias reais e algumas pessoas da nobreza, a grande maioria das pessoas não sabia o que eram boas maneiras. A maioria deles usava palavrões regularmente, eles consideravam a bondade uma coisa ruim, e tinham modos horríveis à mesa. Para ter uma ideia mais clara, era considerado legal arrotar em voz alta enquanto jantava e jogava ossos e restos no chão.


17. Os animais eram tratados como gente, mas só quando eram castigados

Sob a lei medieval, os animais poderiam ser julgados e sentenciados por crimes, como se fossem pessoas. Existem registros de animais de fazenda sendo julgados por ferir ou matar pessoas. Não é um bom momento ou lugar para os animais ou as pessoas que os amam.


18. Anestesia? Que anestesia?

Hoje nós tomamos anestesia, seja no consultório de um dentista ou em um hospital. No entanto, este não foi o caso na Idade Média. Os cirurgiões tinham uma compreensão muito pobre da anatomia humana, dos anestésicos e das técnicas antissépticas para manter feridas e incisões livres de infecções, o que resultou em muitas mortes e muita dor. Além disso, o tratamento para a maioria das cáries era mesmo o boticão, gerando multidões de desdentados.


19. Universidades eram um privilégio e a regra era ser analfabeto

Na Idade Média, surgiram as primeiras universidades, como as de Sorbonne, de Bologna e de Oxford, onde algumas famílias de posses podiam estudar. Não eram um primor e estavam muito longe de transmitirem os conhecimentos como atualmente, mas eram verdadeiros oásis, cercados de ignorância. A maioria das pessoas não sabiam ler nem escrever. As universidades eram derivadas de estabelecimentos religiosos, e desde o início da Idade Média a Igreja era a maior fonte de cultura. 


20. Havia poucas opções de lazer

Na Idade Média, os esportes eram pouco conhecidos e coisas como torneios de cavalaria, justas (duelos entre dois cavaleiros e três tipos de armas por disputa), treinamentos com bonecos armados (estafermos) e corridas de cavalos eram restritos aos senhores feudais, e aos quais o populacho não podia nem sequer pensar em assistir. Havia um tipo de esporte parecido com o futebol, chamado de Calcio (até hoje o esporte moderno é chamado assim na Itália), mas era visto com maus olhos pelas autoridades. Além disso, uma fonte de divertimento era assistir às execuções públicas e participar dos castigos contra delinquentes e ladrões, que eram perseguidos, amarrados, espancados e tratados como alvos para brincadeiras de mau gosto.


Se você está lamentando a vida difícil, o risco de recessão global, a falta de verbas nas universidades, o dólar de novo acima de R$ 4,00, o desemprego, a violência, o governo Bolsonaro, a derrota do seu time ou a ida ao dentista, pode parar de mimimi e agradecer de joelhos por estar vivendo no século XXI, e não na Idade Média!

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Decisões e dilemas: não fuja disso!

Todos precisamos tomar alguma decisão importante na vida. Faz parte do nosso crescimento moral e cognitivo. 

Precisamos decidir sobre a escola para colocar nossos filhos, propostas feitas pelo chefe para atuar em outra área profissional, aceitar ou não os convites dos amigos para sair no fim de semana...

Às vezes o resultado das nossas decisões não afeta somente a nossa vida pessoal e dos nossos amigos, familiares e colegas, mas também pode alterar os rumos da História. 

Júlio César, o general romano, poderia ter cedido e não atravessado o rio Rubicão e nem ter dito aquela frase Alea jacta est (A sorte está lançada) para enfrentar o Senado, vencê-lo e se tornar governante dos amplos domínios de Roma. 

Mahatma Gandhi iria optar por um conflito violento para libertar a Índia, ocupada pelos britânicos? Os resultados poderiam ser catastróficos, ou então a Índia poderia se libertar mais rapidamente, mas à custa de muito mais sangue derramado, e ele não seria conhecido como pacifista. 

Beethoven estava prestes a se matar por causa do agravamento de sua surdez, mas resolveu viver e compor as suas sinfonias, sonatas e quartetos monumentais. 

D. Pedro, o príncipe português, decidiu ficar no Brasil para depois ser protagonista do processo de independência em relação à sua pátria-mãe, Portugal. E se ele resolvesse ceder às pressões das Cortes portuguesas para voltar?

Às vezes, as escolhas são tão ruins que não se fala em tomada de decisão, mas em resolver dilemas. 

Um dos dilemas mais duros são tomados por refugiados: ficarem em seus países e serem perseguidos ou morrerem de fome, ou saírem para tentarem a sorte em outros países, correndo o risco de serem expulsos ou morrerem no caminho. 

Policiais armados podem escolher entre atirar nos criminosos e correrem o risco de serem mortos ou atingirem inocentes, ou não atirar, e serem mortos do mesmo jeito pelos criminosos, ou permitirem sua fuga. 

Ou a velha questão: se estiver na janela de uma casa em chamas, você pula ou espera por socorro?

Pois o dia 28 nos reserva uma decisão difícil. Ou melhor, um dilema. 

Escolher entre o PT e Jair Bolsonaro. E suportar as consequências. Ou não votar em nenhum deles, para sofrer depois, do mesmo jeito...


N. do A.: Não se pode negar a popularidade e a força da figura de Jair Bolsonaro, nas manifestações de ontem, reunindo milhares de pessoas em várias cidades, inclusive São Paulo e Rio de Janeiro. Em pronunciamento transmitido na Av. Paulista, ele teve a explícita intenção de arrancar aplausos da multidão ao dizer que "os marginais vermelhos serão banidos" e "Lula vai apodrecer na cadeia". O PT reagiu às ameaças, dizendo que isso era "pior do que Hitler", nas palavras de Gleisi Hoffmann, como se Bolsonaro já estivesse mobilizando forças para invadir a Venezuela ou massacrar os índios e quilombolas em campos de extermínio. Ainda por cima, Eduardo Bolsonaro veio com uma frase hedionda, dizendo que "basta um soldado e um cabo para fechar o STF". Por outro lado, no Maranhão, Fernando Haddad comparou os Bolsonaro a milicianos, como aqueles que aterrorizam o Rio de Janeiro, enquanto fala em benefícios como segurar o preço do gás de cozinha. Eles querem mesmo melhorar o Brasil?

segunda-feira, 14 de maio de 2018

Israel comemorou 70 anos com nova embaixada americana


Donald Trump mandou inaugurar a nova embaixada americana em Jerusalém, como prometeu - agradando a Benjamin Netanyahu (na foto à direita de 2017 junto com Trump - fonte: Ronen Zvulan/Reuters)

No dia 14 de maio de 1948, Israel voltou a ser um país independente após um período de dominação romana seguido de séculos de exílio após as grandes campanhas de destruição de Jerusalém em 70 e 135. 

Para os israelitas, o dia foi glorioso, pois foi o fim de uma grande luta por um Estado independente. Para os árabes, que estavam ocupando as terras desde o século VII, era um acontecimento terrível, daí o dia da fundação do Estado Hebreu ser considerado o Nakba, o "dia da catástrofe". 

Desde então, Jerusalém se tornou um palco de disputas religiosas e políticas, pois hebreus e muçulmanos palestinos consideram-na como sua capital indissolúvel. Os cristãos consideram a cidade e todo o seu entorno como a Terra Santa, pois Jesus Cristo nasceu na região (em Belém, na atual Cisjordânia, segundo a tradição) e passou sua vida a pregar em várias cidades, até a sua execução nos arredores da "grande cidade sagrada". 

Para não piorar ainda mais os conflitos na região, que sofreu com pelo menos três grandes guerras (o conflito árabe-israelense ainda em 1948, a Guerra dos Seis Dias de 1967 e a Guerra de Yon Kippur de 1973), os outros países instalaram suas embaixadas em Tel Aviv, a maior cidade de Israel. Porém, em um gesto nada diplomático, o presidente americano Donald Trump anunciou a transferência de sua embaixada para o bairro de Amona, na parte ocidental de Jerusalém, a capital de Israel segundo o governo de Benjamin Netanyahu, grande aliado de Trump e entusiasta da transferência. 

Hoje, quando o moderno estado de Israel completa 70 anos, Trump cumpriu sua promessa. Por causa disso, milhares de palestinos tentaram cruzar o muro da fronteira de Gaza, instigados pelo Hamas, partido que governa o pequeno território e nunca reconheceu a existência do "país inimigo". As forças israelenses responderam ferozmente e pelo menos 58 pessoas foram mortas e, segundo fontes árabes, mais de 2.200 foram feridos. 

Outros países enviaram representantes para participar do gesto de Trump, mas boa parte dos países ocidentais, mesmo aliados como Reino Unido, França e Espanha, boicotaram a cerimônia. Logicamente, todos os países muçulmanos não tiveram ninguém para representá-los. E o Brasil também se negou a mandar alguém para lá. 


N. do A.: Para boa parte do que ainda resta da torcida pela Seleção Brasileira, e também para muitos jogadores que aguardavam a chamada, o "dia da catástrofe" chegou. Tite anunciou os convocados, e se a maioria não gerou grande surpresa - Neymar, Gabriel Jesus, Philippe Coutinho, Roberto Firmino, Marcelo e outros foram mesmo colocados na lista da Copa, como era esperado - alguns nomes desagradaram, como Fred e Taison, ambos do Shakhtar Donetsk, no lugar de, por exemplo, Luan e Arthur, do Grêmio. Outros jogadores que não agradam a muitos, como Fagner e Ederson, também estão na lista. Nomes até então frequentes, como Rodrigo Caio, Diego, Diego Souza, Alex Sandro, Rafinha Alcântara e Giuliano, ficaram de fora. E outros, como Gabriel Barbosa (o "Gabigol") e o goleiro Weverton, considerado um dos heróis da campanha do ouro olímpico de 2016, tinham chances reduzidas e a lista de hoje só confirmou isso. Pelo menos Tite fez justiça para alguns jogadores como Geromel, que irão à Rússia. 

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Poucos comemoraram 100 anos da Revolução Russa

Até mesmo na Rússia, poucos comemoraram os 100 anos da Revolução Bolchevique, movimento de socialistas radicais, chefiados por Lênin e Trotsky, que depõs o governo provisório moderado instalado em fevereiro, chamado de "menchevique", após a renúncia do czar Nicolau II. Tudo foi tratado de maneira meio formal, na Praça Vermelha, com uma parada militar pouco divulgada pela imprensa internacional.

Discreta lembrança dos 100 anos da Revolução Russa na Praça Vermelha de Moscou (Yuri Kadobnov/AFP)
Por aqui, só algumas publicações de cunho marxista se lembraram do aniversário da chamada "revolução de outubro", que aconteceu no dia 7 de novembro de 1917, pois naquela época o gigante eurasiano, visto como atrasado e semifeudal pelo Ocidente, ainda usava o calendário juliano. 

É difícil, aliás, encontrar alguma notícia sobre o tema com viés positivo. Só se lembram de como o regime comunista, nascido a partir do descontentamento dos russos com a miséria e o envolvimento do país na I Guerra Mundial, não tardou para se transformar numa ditadura. Primeiro, um período de guerra civil entre os "vermelhos", defensores do regime e partidários do chamado "bolchevismo", e os "brancos", partidários tanto do czarismo quanto dos "mencheviques", e ambas as forças espoliaram o povo. Depois, a consolidação do poder dos "vermelhos", chefiados por Lênin, e a criação da União Soviética, ou URSS, em 1922. 

Após a morte do antigo líder (1924), seu sucessor Stalin recrudesceu a ditadura e foi o responsável pelos gulags, os campos de trabalho forçado, e pela morte ou desaparecimento de mais de 20 milhões de pessoas, além da humilhação sofrida pelas forças de Hitler, que invadiram o país durante a II Guerra Mundial (para depois serem rechaçados energicamente pelo Exército Vermelho, à custa de mais outros milhões de mortos, entre soviéticos e forças inimigas, em batalhas sangrentas como as de Moscou e Stalingrado, atual Volgogrado).

Os crimes do stalinismo foram renegados depois da morte do tirano, em 1953, mas os métodos discricionários continuaram, embora não com a força assassina de antes, até o movimento reformista de Gorbachev (a perestroika), de 1985, que não surtiu o efeito esperado, apesar da aclamação no Ocidente, e a dissolução da URSS em 1991, com a renúncia de "Gorbi", como o líder carismático dos soviéticos eram conhecido informalmente. 

Por causa da falência de todos os regimes influenciados pelos soviéticos, poucos se animam em comemorar esta data. Sem surpresa, apenas o ditador venezuelano Nicolas Maduro, segundo publicações como o La Nación, da Argentina, saudou a memória dos bolcheviques. A China, oficialmente um regime socialista, não dedicou atenção oficial à data. Não há notícias acerca de manifestações vindas da Coréia do Norte ou de Cuba, as outras ditaduras socialistas remanescentes.