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sábado, 30 de dezembro de 2023

Da série 'Grandes Varejistas do Passado'', parte 15 - Redes absorvidas por outras

Na série que se encerra hoje, faltaram algumas varejistas que não faliram, mas foram absorvidas por outras. 

É o caso da Barateiro, uma das redes de supermercados mais importantes do século passado. Quando foi comprada pelo Pão de Açúcar, em 1998, estava mal financeiramente, como a maioria das lojas do setor, mas tinha 32 lojas e não se cogitava recuperação judicial. O grupo de Abílio Diniz prometeu manter o nome, mas não cumpriu a promessa, e o Barateiro se tornou o Compre Bem, marca extinta neste ano. 

A rede Barateiro era uma gigante do varejo, até ser adquirida pelos Diniz

Outra rede de supermercados comprada pelo Pão de Açúcar foi a Sendas, fundada no Rio de Janeiro por Arthur Sendas em 1960. Era uma rede de hipermercados pujante, espalhada nas principais cidades do Brasil, mas em 2011 foi comprada pelo grupo dos Diniz, e sua marca viria progressivamente a dar lugar ao Assaí. Até recentemente, essa rede tinha a razão social de Sendas Distribuidora. Abaixo, um anúncio de 1992, quando o Sendas parecia inabalável mesmo em tempos de inflação galopante (canal do Égon Bonfim no Youtube): 


Outras vítimas da expansão do Pão de Açúcar foi o tradicional Paes Mendonça, uma das mais respeitadas redes de supermercados do Brasil, nascida em Sergipe, por obra de Mamede Paes Mendonça (1915-1985). A rede nasceu em Ribeirópolis em 1936 como um pequeno armazém, mas depois expandiu-se e chegou a Salvador, na Bahia. Em pouco tempo, 156 lojas se espalharam em quatro Estados: Bahia, São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, sendo que na "Cidade Maravilhosa" ela se tornou muito prestigiada. Adquiriu em 1990 a afamada rede de supermercados Disco, fundada em 1952 e também muito poderosa, com várias lojas em São Paulo e Minas Gerais, mas em grave crise financeira. Ironicamente, a própria Paes Mendonça não aguentou a concorrência e as sucessivas crises econômicas na década de 1990, e se tornou presa do grupo dos Diniz. 

A outrora poderosa rede de supermercados Disco foi comprada pela...

..... Paes Mendonça, que mais tarde fez parte de uma "cadeia alimentar", engolida pelo Pão de Açúcar

O grupo, aliás, tinha outras marcas muito conhecidas, como a Jumbo, rede de hipermercados. Com a aquisição da Eletroradiobraz em 1976, a marca se tornou Jumbo Eletro, Era famoso o jingle: "É o Jumbo... Eletro e ninguém mais", com uma musiquinha singela adotada mais tarde pelas Lojas Marabraz. A marca Jumbo Eletro deixou de existir em 1993, com o lançamento da rede Extra. Abaixo, um comercial empregando a musiquinha (Canal ADILSONCFC8090): 


O grupo Pão de Açúcar tinha outras marcas de grande expressão, como a Sandiz, muito famosa em meados dos anos 1980, como uma respeitável mas efêmera loja de departamentos. A Susa holandesa adquiriu a Sandiz em 1987, e depois a extinguiu. 

Uma concorrente do Paes Mendonça no Nordeste foi a Bompreço, fundada por Pedro Paes Mendonça, irmão de Mamede, também em Ribeirópolis. Tomou rumo diferente, concentrando-se em Pernambuco e outros Estados nordestinos, e também no Pará. A Bompreço Supermercados do Nordeste, ou BIG Bompreço, foi adquirida pelo Walmart em 1998, sofrendo dos mesmos efeitos econômicos que vitimaram a Paes Mendonça. Porém, a Walmart preservou a marca, e depois a vendeu para o Carrefour, em 2021. 

As Casas Buri, fundadas por Mário Bussab e Paulo Ribeiro em 1947. chegaram a ter 300 lojas espalhadas no sul e sudeste do Brasil, mas quando foram compradas pelo Ponto Frio em 1992, tinham "apenas" 114. O lema era "tudo para você e seu lar". A origem do nome foram as iniciais dos fundadores, não sendo inspirada no nome de uma cidade do interior paulista, no vale do Paranapanema. Abaixo, um comercial quando as Casas Buri ainda tinham força no mercado, nos famigerados anos 1980 (Canal Flashback):  


Algumas redes regionais conhecidas, como a Dudony, do Paraná, fundada em 1988 e com mais de 100 lojas concentradas no norte do Estado em seus tempos áureos, foram impiedosamente "comidas" pelas varejistas de maior expressão. A Dudony foi comprada pelo grupo Sílvio Santos. que já tinha as Lojas do Baú, grande rede adquirida mais tarde (2011) pela Magazine Luiza, e a Tamakavy, uma loja de móveis cuja marca era uma empresa agropecuária comprada por Sílvio Santos em 1972; essas lojas ficaram muito famosas em anúncios, e não só no SBT, mas duraram pouco tempo, sendo absorvidas pelo grupo Sílvio Santos por volta de 1989. 

Futuramente, haverá novas falências ou aquisições de varejistas, encerrando o legado de marcas que conquistaram o coração dos brasileiros. Para algumas delas, como a Marisa e mesmo as Casas Bahia e as Lojas Americanas (estas últimas motivaram o blog a fazer esta série), parece ser questão de tempo. 

sábado, 9 de dezembro de 2023

Da série "Grandes varejistas do passado", parte 14 - Ultralar

 Num caso raro de varejista do passado falida, mas cujo conglomerado ainda existe e é atuante, temos o caso da Ultralar, as lojas de eletrodomésticos do grupo Ultra, comandado no passado por Ernesto Igel (1893-1966), imigrante austríaco naturalizado brasileiro e um dos grandes empreendedores do século passado. 

Após a fundação da famosa empresa de botijões, a Ultragaz, Igel resolveu popularizar o uso do fogão a gás, e em 1956 criou a Ultralar com esta missão. As primeiras lojas foram abertas no Rio de Janeiro, com o intuito de fazer os consumidores verem as vantagens de se usar o "bujão" no lugar da lenha. O marketing em torno do fogão a gás deu certo, e logo os negócios se expandiram. Como não podia depender de apenas um produto, a Ultralar vendia também muitos outros utensílios domésticos, como panelas, armários e outros móveis para cozinha. Ernesto Igel, porém, logo passou o controle da corporação para o filho, Pery (1921-1998), em 1959, e anos depois faleceu. 

Em 1965, graças à amizade com Roberto Marinho, Ernesto Igel conseguiu veicular um programa chamado "Ultra Notícias" na então recém-inaugurada TV Globo. Logo a Ultralar se expandiu para São Paulo e outras grandes cidades. O Grupo Ultra estava em franca ascensão, com o surgimento da Ultrafertil (fertilizantes), logo vendida para a Petrobras em 1974, e da Transultra, atual Ultracargo (armazenagem de líquidos). A expansão foi ainda maior durante o "milagre econômico", com a expansão econômica e a explosão nas vendas de produtos, beneficiando o comércio em geral. 

Anúncio da Ultralar no início da década de 1970

Ajudando na expansão, os comerciais vinculados principalmente na Rede Globo traziam Jô Soares como o Capitão Lar, paródia roliça do Superman e do Shazam, nos anos 1970 (um dos comerciais pode ser visto abaixo, no canal de Doni Amaro). Depois, os anúncios na televisão foram mais impessoais, embora ainda frequentes. 


A Ultralar fazia frente a todas as outras grandes lojas, desde o Jumbo Eletro (do grupo Pão de Açúcar) até o Mappin e a Mesbla, passando pelo Ponto Frio e as Casas Bahia. No entanto, os mesmos problemas enfrentados por todos esses gigantes afetaram a Ultralar. Esses problemas foram abordados durante a série e nos artigos precedentes que tratam sobre o problema do varejo. 

Nos anos 1990, a Ultralar passou para o grupo Susa Vendex, quando já contava com 44 lojas, espalhadas entre Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Grande do Sul. Este grupo já tinha a Sandiz e a Sears, e sob sua gestão todas as varejistas entraram em crise e desapareceram, graças à má gestão, à concorrência intensa no setor e à crise asiática de 1997. 

Em 2000, as últimas lojas Ultralar foram fechadas e incorporadas às Casas Bahia, após uma tentativa de vendê-las para a Ponto Frio. Neste século, pouca gente se lembrava da marca, e da sua antiga vinculação à famosa Ultragaz, que continua a disputar a liderança no mercado de botijões. 

sexta-feira, 17 de novembro de 2023

Da série "Grandes varejistas do passado", parte 13 - Pakalolo

Quem viveu aquelas infames duas últimas décadas do século XX abordadas nas outras séries, "Oitentolatria" e "Noventolatria", já ouviu o slogan "Pakalolo de bem com a vida". Passavam geralmente nos domingos durante os reclames do "Plim-Plim", como dizia o Faustão nessa época. 

A Pakalolo foi fundada em 1987, pelo empresário Humberto Nastari, com a finalidade de ser uma opção para os jovens da época. Ela teve uma ascensão meteórica, e antes dos sete anos de idade já contava com 49 lojas espalhadas principalmente nos shopping centers do Estado de São Paulo, vendendo camisetas, calças jeans, minissaias e bermudas. 

Folheto da Pakalolo no início de 1993 (Divulgação)

Esta rede conseguiu bastante projeção mesmo com um nome estranho, extraído do idioma havaiano, significando... maconha. O termo nunca foi explicado oficialmente. 

Parecia ser uma rede sólida, resistindo aos seguidos planos econômicos, mas a rápida expansão também significou um alto endividamento. Com a crise asiática de 1997 e a concorrência tanto formal quanto informal, a Pakalolo foi desaparecendo dos shoppings e em pouco tempo a rede se tornou apenas uma lembrança. 

Uma das distribuidoras da marca, a Marisol, empresa de malhas catarinense, adquiriu os direitos da marca e chegou, anos mais tarde, a lançar algumas lojas, mas por pouco tempo, devido às baixas vendas. Os clientes não se identificavam com esta "nova" Pakalolo, envolvida com os problemas de gestão da nova proprietária. Mais tarde, as lojas foram abandonadas, e só a marca foi aproveitada, para batizar, neste ano, uma linha fitness, a Soul. 

terça-feira, 31 de outubro de 2023

Da série "Grandes varejistas do passado", parte 12 - Lojas Manlec

Aproveitando o mote do Halloween, é assustador constatar o número de falências de lojas, grandes ou pequenas, no Brasil. Não é por praga de bruxa ou arte do Saci Pererê: é uma combinação desastrosa de falhas administrativas, dependência de capital de giro e instabilidade econômica, uma receita para o desastre poucas vezes superada. 

Hoje, temos uma loja muito conhecida no Rio Grande do Sul, e em menor escala no Paraná e em Santa Catarina, as Lojas Manlec, uma das mais longevas e bem conhecidas da Região Sul. Foi fundada pelo empreendendor Atílio Manzoli, juntamente com Felipe Lechtman, em 1953, e só faliu em 2017, após disputas judiciais com ex-empregados e prejuízos durante boa parte de sua vida relativamente longa. Começou como uma pequena loja de móveis, mas expandiu os negócios e passou prograssivamente a vender eletrodomésticos e depois eletrônicos. Funcionou por tempo suficiente para sustentar televendas e comércio eletrônico, algo que varejistas mais famosas como o Mappin e a Mesbla não conseguiram. 

Uma das lojas Manlec, famosa vendedora de produtos eletro-eletrônicos do Rio Grande do Sul (Divulgação)

Até sua falência, a empresa cujo nome social era Manzoli S.A. Comércio e Indústria era querida e estimada no Rio Grande do Sul. Parecia forte, com até um vídeo institucional de 2013 destacando as 46 lojas da rede, espalhadas quase totalmente no território gaúcho. Eles fizeram questão de esconder os problemas financeiros, naquela época, enquanto salientava o orgulho local pela rede (assistir AQUI). 

A Manlec conseguiu sobreviver aos percalços econômicos e aos problemas de gestão enfrentados por outras varejistas, durante o regime militar e a redemocratização. Aproveitou o "milagre econômico", sofreu com os planos econômicos, enfrentou crises, comércio informal e até o e-commerce da China. Disso tudo teve sequelas, e sucumbiu a elas. Começou a atrasar os salários e demitir funcionários, enfrentando a Justiça e os mais de R$ 100 milhões de prejuízos. Nessa época o veterano Atílio Manzoli, fundador da empresa, faleceu em 2016, embora já deixasse o comando da rede para o filho de mesmo nome, Atílio Manzoli Jr. No ano seguinte, foi a vez da rede perecer. E agora ela se tornou uma lembrança para os gaúchos. 

quarta-feira, 18 de outubro de 2023

Da série "Grandes varejistas do passado", parte 11 - Lojas Pirani (estas são das antigas)

Quem tem mais de 60 anos e for de São Paulo deve se lembrar das Casas Pirani, que tinham pelo menos duas grandes lojas em São Paulo, uma no Brás, na Av. Celso Garcia, próximo à área onde se instalaria o grande templo da Igreja Universal, e outro no centro histórico, sendo este o famoso edifício Andraus, na rua Pedro Américo, esquina com a Avenida São João. 

Loja das Casas Pirani, no Brás (Eu Conheço São Paulo II / Facebook)

A Pirani teve vida bem curta, mas marcante. Fundada em 1952, por Rodolfo Pirani (de acordo com fontes, como AQUI), empresário falecido em 1964 e homenageado com o nome de um bairro da Zona Leste (Jardim Rodolfo Pirani), não chegava a ser uma rede de departamentos, mas a pujança de suas lojas impressionava. Destacava-se pela variedade de produtos e pela decoração natalina nos finais de ano. 

Era chamada de "A Gigante de São Paulo", recebendo milhares de clientes e empregando centenas de trabalhadores. Foi pioneira no uso de escadas rolantes, poucos anos depois da instalação da primeira no pavilhão da Bienal do Ibirapuera. 

Provavelmente teria um final menos dramático, embora mais doloroso, como outras varejistas, mas o incêndio no edifício Andraus, em fevereiro de 1972, abreviou sua carreira. Causada por uma rede elétrica mal concebida, a tragédia até hoje marca a história de São Paulo. O edifício abrigava sedes de grandes empresas transnacionais, como a alemã Henkel, cujo presidente, Paul Jurgen Pondorf, foi uma das 16 vítimas fatais. Houve 330 feridos ou intoxicados pela fumaça, e só não houve um número maior de fatalidades porque muitos resolveram subir até o pavimento no topo do prédio e esperaram por ajuda, vinda de um helicóptero dos Bombeiros, pois as escadas de emergência foram também consumidas pelo fogo. 

Responsabilizada pelo incêndio, a Pirani precisou pagar as vítimas e os danos causados pelo prédio, e meses depois decretou falência, causando muita consternação na época. Até hoje o edifício Andraus, reconstruído e transformado em sede de várias repartições, como os Correios, e de algumas empresas como a construtora Themag, é conhecido como o "prédio da Pirani". 

quarta-feira, 27 de setembro de 2023

Da série "Grandes varejistas do passado", parte 10 - Magazine Pelicano

Aproveitando que as Casas Bahia estão tendo dificuldades para convencer os credores a respeito da capacidade de pagar sua dívida, este blog vai continuar a série sobre as antigas empresas do setor. 

Uma loja da rede Pelicano, com a fachada marcada pelo logotipo em fundo branco e enfeitado com círculos coloridos (Divulgação/Facebook)



Em São Paulo, era muito conhecida a Magazine Pelicano, motivo de alegria para a classe média baixa. As lojas exibiam confecções, calçados, tecidos e outros produtos como se fosse numa feira, de "baciada", como se costuma dizer. No final do século XX, havia dezenas delas nos bairros e nas cidades paulistas, frequentadas por quem não pode ou não quer pagar caro. Nas escolas, era comum falar de "padrão O.P." para muitas roupas usadas pela garotada, usando a sigla de uma marca badalada da época, a "Ocean Pacific". Na verdade, muitos aproveitavam as "ofertas Pelicano". 

O autor deste blog se lembra de uma loja Pelicano em Santana, na esquina da rua Voluntários da Pátria com a Alfredo Pujol. 

Apesar de ser tão conhecida, a história da Pelicano é bem difícil de se achar. Não se sabe o ano de sua criação, nem quem foi o fundador. Consta-se que foi mais uma rede de lojas a aproveitar o chamado "Milagre Econômico" durante o regime militar, quando o poder aquisitivo da população aumentou consideravelmente. Também sofreu com a crise inflacionária, a expansão rápida demais e a forte concorrência do setor. Uma das lojas a disputar mercado com a Pelicano foi a Pakalolo. Esta será a próxima loja a ser abordada. 

Foi uma das poucas redes a não investir em marketing na televisão, embora anúncios aparecessem esporadicamente nos jornais da época. 

Na virada do século, a Pelicano sofria com o boom dos ambulantes, vendendo produtos contrabandeados ou de origem asiática. Isso agravou a situação financeira da rede, que, como as outras já abordadas por aqui, acabou falindo. Aconteceu em 2008, para consternação de muitos. 

Existem algumas lojas chamadas de Magazine Pelicano, inclusive na região da Avenida Paulista, mas sem relação com a rede do passado. 

quarta-feira, 13 de setembro de 2023

Da série "Grandes varejistas do passado", parte 9 - Lojas Hermes Macedo

 Na última postagem, foi abordada uma rede conhecida pelos paranaenses, e, continuando nessa linha, vamos mostrar mais uma varejista nascida em Curitiba, a nacionalmente conhecida Hermes Macedo, conhecida como HM. 

Não confundir com a H&M, a loja de departamentos sueca especializada em moda, e nem com a HM Móveis ou a HM Pneus (possivelmente, no caso dessas duas últimas lojas, o nome é uma homenagem). A HM curitibana tinha como principais produtos acessórios automotivos. Começou como uma pequena loja de autopeças importadas para caminhões, quando a indústria automobilística nem existia, em 1932, por um jovem mal saído da adolescência, Hermes Faria de Macedo (1914-1993). 

Um dos últimos logotipos das lojas HM


Hermes e seu irmão Astrogildo começaram a expandir seus negócios, passando a vender também eletrodomésticos. Após se formar em Ciências Jurídicas e Sociais pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), o empresário mandou montar lojas para fora de Curitiba. Assim, em 1942, surgiu a primeira loja em Ponta Grossa. 

Fachada da primeira loja em Curitiba (Divulgação)

Depois de abrirem lojas nas principais cidades do norte do Estado (Londrina e Maringá), os Macedo se arriscaram a vender seus produtos em São Paulo. Em 1957, instalaram-se num prédio de dez andares na Avenida São João. Por aqui na capital paulista, a HM era mais conhecida pelas suas autopeças, sendo uma das maiores distribuidoras dos pneus Goodyear. 

À semelhança de outros casos, a HM, com o nome de "Hermes Macedo S/A Importação e Comércio", passou a fazer parte de um conglomerado que incluia uma financeira, mais tarde o Banco HM, e HM Náutica e outras empresas, como a Alfa Serviços de Crédito e Informática. 

Em 1981, de acordo com um artigo de Aramis Millarch, jornalista do Estado do Paraná, em 1981 (leia AQUI) a HM chegou a ser a maior varejista do país, aproveitando uma queda no patrimônio líquido da Mesbla, outra gigante agora morta. Na década de 1980, chegou a ter 285 lojas. 

Abaixo, um dos comerciais famosos da varejista, datado de 1973 (Canal POAPARTS), durante o chamado "Milagre Econômico", que favoreceu as grandes lojas com o aquecimento da economia e o aumento do consumo: 


Aproveitando o sucesso, o grupo fundou s Loja Garcez, para um público de maior poder aquisitivo. A iniciativa logo fracassou. 

Na década de 1990, o Plano Collor dificultou a vida das varejistas com o confisco dos ativos, fazendo muitos consumidores deixaram de comprar. Disputas familiares se acirraram com a morte da mulher de Hermes Faria de Macedo, e, pouco tempo depois, em 1993, o próprio morreria, aos 79 anos. Incapazes de enfrentar os desafios da concorrência interna, dos produtos chineses e da grande crise asiática de 1997, o conglomerado ruiu, nesse mesmo ano. 


sexta-feira, 25 de agosto de 2023

Da série "Grandes varejistas do passado", parte 8 - Lojas Disapel

Após vários dias sem postar nada na série dos varejistas do passado, este blog vai falar sobre as lojas Disapel, muito conhecidas principalmente para quem mora no Sul do Brasil. 

Esta rede varejista foi fundada em 1964 pelo empresário descendente de imigrantes poloneses Mário Turkiewicz em Curitiba, como Distribuidora de Aparelhos Eletrodomésticos Ltda., daí a sigla Disapel. A primeira loja foi erguida próximo à Praça Santos Andrade, nas vizinhanças da Universidade Federal do Paraná. 

Com o chamado "milagre econômico" da década de 1970, a rede começou a expandir-se para outros locais fora de Curitiba, vendendo eletrodomésticos e outros equipamentos para o lar. No Paraná, chegou a ser a mais querida loja de departamentos, superando a concorrência, em sua maioria vinda de outros Estados como São Paulo e Rio de Janeiro. 

Em seu auge, a Disapel chegou a ter 110 lojas espalhadas em todo o Brasil, principalmente nos estados da Região Sul: além do Paraná, havia lojas em Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Em São Paulo, nunca teve grande expressão, mas na década de 1990, durante o boom de consumo devido ao início do Plano Real, ficou conhecida como a loja do "beija-flor de entrada". Isso porque a primeira parcela dos produtos podia valer até mesmo R$ 1, cuja cédula tem a estampa da ave. 

A rede varejista mais famosa do Paraná chegou a suplantar as grandes concorrentes no Sul do país (Divulgação)

Paulo Turkiewicz, filho do fundador da rede, chegou a ser considerado o empresário do ano no Paraná, e a varejeira foi "Top of Mind" no Estado. Seu faturamento chegou a R$ 500 milhões por ano. Introduziu a marca Sundown, de bicicletas, em todo o país, e foi uma das maiores revendedoras das marcas CCE, Philips e Walita. 

Infelizmente, a crise asiática e a inadimplência pegaram muitas varejistas de jeito, como já foi mostrado em outros casos de falência, e a Disapel acumulou milhões em prejuízos. Sem condições de quitá-los, ela decretou falência em 2000, para tristeza e consternação dos paranaenses, motivo de orgulho para eles. As lojas acabaram vendidas para a rede Ponto Frio, num total de R$ 12,1 milhões, insuficientes para cobrir o rombo. 

Para encerrar a tragédia, o filho do presidente da empresa, Paulo Gustavo de Freitas Turkiewicz, foi assassinado a tiros em 2003, três anos após a falência. O crime chocou o Paraná, e houve o julgamento dos acusados anos mais tarde. 


segunda-feira, 17 de julho de 2023

Da série "Grandes varejistas do passado", parte 7 - Lojas Brasileiras (Lobras)

Hoje nesta série vamos falar sobre as Lojas Brasileiras, uma das mais conhecidas na famigerada década de 1990. 

Ao contrário do que alguns pensam, esta rede varejista não é recente. Fundada em 1944, por Adolfo Basbaum, para concorrer com as Lojas Americanas, as Brasileiras, conhecidas também como Lobras, nunca tiveram o mesmo sucesso, embora chegassem a ter uma rede de lojas bastante robusta em seus melhores dias. A rivalidade entre as lojas chegava às raias do folclore, pois cada nova filial das Brasileiras precisava ficar próxima a uma loja das Americanas. Isso era prática desde a sua primeira loja, em São Paulo. Depois, houve uma expansão para todo o país. 

As Lojas Brasileiras chegaram a ter dezenas de lojas, sempre próximas às Americanas (Divulgação)

Como a grande rival, a empresa do senor Basbaum apostava na difersificação do portfólio, vendendo produtos variados. Ela aproveitou o boom de consumo após o milagre econômico na década de 1970, e também investia nas vendas com pagamentos a prazo, apesar dos juros elevados. Em 1982, as Brasileiras passaram para o controle dos Goldfarb, donos também das Lojas Marisa. Assim, a história da varejista ficou intimamente ligada a outras duas redes atualmente vivendo tempos difíceis. 

Durante o longo e louco período inflacionário, com a nova administração, a Lobras seguia a mesma receita dos concorrentes, procurando manter a liquidez elevada mesmo às custas de endividamento, ou seja, vender produtos com preços agressivos, em boa parte das vezes facilitando o pagamento a prazo. Após a liberação das importações, todo o setor sofreu forte concorrência dos camelôs, e quem estava com a situação financeira comprometida quebrava mesmo. Foi exatamente o caso das Brasileiras, apesar de, nos últimos anos, tentar se manter na mídia, veiculando propagandas como esta: 

Este comercial era muito conhecido, quando as Brasileiras já estavam próximas do fim. Curiosamente, a música nada tinha de brasileira, e sim uma adaptação da canção cubana "Guantanamera"


E eles também não economizaram na hora de contratar celebridades para seus anúncios. Hebe Camargo, o grupo É o Tchan, a atriz Luísa Tomé, foram algumas delas. Nem parecia uma varejista endividada em R$ 100 milhões. 

Finalmente, em 1999, a aventura acabou, e os Goldfarb resolveram encerrar as atividades das Brasileiras. As Americanas continuaram, para, atualmente, seguir o mesmo triste caminho. E a Marisa, antiga dona, também. 

segunda-feira, 3 de julho de 2023

Da série "Grandes varejistas do passado", parte 6 - Kolumbus Móveis

Existiu uma grande varejista de móveis chamada Kolumbus, muito famosa na virada do século, quando dava trabalho para as Casas Bahia e as Lojas Marabraz. 

A Kolumbus Móveis foi fundada em 1982, como uma pequena loja na Zona Leste de São Paulo, mais especificamente em São Miguel Paulista. Existem poucos registros do começo de suas atividades, mas no final dos anos 1990 começou a aparecer com certa frequência nos comerciais de televisão. Como outras redes, teve uma ascensão bastante rápida, e chegou a ter 57 lojas, a maioria nas cidades paulistas. 

Disputava o público das classes C e D, interessado em móveis de baixo custo, principalmente armários, estantes, cozinhas, estofados e cadeiras. Exatamente o mesmo público das varejistas mais tradicionais, com mais tempo de mercado.  

Não conseguiu sustentar sua expansão e a concorrência, e fechou suas portas em 2007, após vender parte das lojas para o grupo de investimentos Safibel. Sua dívida era estimada em R$ 30 milhões. 

Abaixo, uma das propagandas veiculadas no início deste século (do canal Propaganda e Música by Lalala): 



sexta-feira, 16 de junho de 2023

Da série 'Grandes varejistas do passado', parte 5 - G. Aronson

Uma das varejistas mais conhecidas no final do século XX, principalmente nas loucas décadas de 1980 e 1990, foi a G. Aronson, cujo slogan é lembrado até hoje: "O inimigo número 1 dos preços altos". 

Seu fundador foi um dos mais conhecidos empreendedores do país. O imigrante lituano Girz Aronson (1917-2008) veio para o Brasil com apenas 2 anos de idade, e demonstrou sua perícia para ganhar dinheiro desde quando vendia bilhetes de loteria no Paraná ainda criança, a partir de 1929. Em 1944, instalado em São Paulo, fundou uma loja de peles na rua Conselheiro Crispiniano - era a G. Aronson. 

Inicialmente vendendo produtos à base de pele de animais, como casacos e bolsas, resolveu diversificar os negócios. Um dos "causos" que ele teria contado é quando vendia fogões da marca Paterno por 460 mil réis. O Mappin oferecia o mesmo produto por 390 mil reais. Ao saber disso, Girz mandou baixar o preço para 350 mil, arrscando ficar no prejuízo. Em seguida, formou-se uma fila de compradores. Para atender a demanda, Aronson pediu ao fabricante 400 fogões, e foi atendido, pagando com desconto o fotnecimento e conseguindo atender os clientes. 

A saudosa G. Aronson, "inimiga número 1 dos preços altos" (Divulgação)


Assim, foi consolidado o modus operandi, com estoques sempre altos e baixa margem de lucro por unidade. Além disso, foi usado o velho expediente, usado por muitas outras varejistas, de facilitar o pagamento via vendas a prazo. 

A rede expandiu-se rapidamente, chegando a ter 34 lojas, inclusive em shopping centers, e faturava milhões em moeda corrente - cruzeiros, cruzados, reais - durante a sua existência em meio a um cenário turbulento e com alto risco para os negócios. Para complementar, havia a Gurilândia, loja de produtos infantis, mas de curta duração, fechando antes da rede principal. 

Havia propagandas frequentes nas mídias disponíveis durante a segunda metade do século XX, com o famoso slogan e a fama de "rei do varejo" do senhor Girz foi consolidada. Mas os desafios foram apenas aumentando. 

Um dos comerciais veiculados na TV, em 1990 (do canal Comerciais Antigos)


Hiperinflação, incertezas, planos governamentais seguidos, concorrentes poderosos (porém igualmente vulneráveis, como é o caso do Mappin e das várias lojas citadas nesta série), variação violenta no poder de compra dos brasileiros, tudo isso gerava muitas armadilhas para o varejo em geral, e a G. Aronson caiu nelas. A expansão rápida e sem planejamento, instalando filiais em locais com menor demanda ou sem condições de sustentar os altos estoques de produtos, também cobrou seu preço. Assim, a rede passou a gerar prejuízos ao invés de lucros. Em 1991, a G. Aronson devia o equivalente a US$ 20 milhões aos credores. Conseguiu saldá-la, mas não conseguiu evitar novos endividamentos, agravados com a crise asiática, quando houve alto índice de inadimplência, e a concorrência de produtos de origem duvidosa vendidos pelos camelôs.

1998 foi annus horribilis para o idoso mas incansável Girz Aronson, que estava às voltas com uma dívida gigantesca (em torno dos 65 milhões de reais) e, para piorar, ele foi sequestrado, ficando 14 dias em cativeiro. Espancado e posto em condições que poriam risco à vida de um senhor com a idade dele (na época, 81 anos), sua família era pressionada a pagar um resgate de R$ 1 milhão. Mas no final foram pagos R$ 117 mil, e ele foi libertado. 

A G. Aronson não suportou, e ela entrou em falência. As lojas foram fechadas, e apenas três delas foram vendidas à rede Loja do Gugu. 

Seu fundador teve forças para fundar uma rede de quatro lojas, a G. A. Utilidades Domésticas, em 2000, tendo como matriz o mesmo local onde surgiu a finada varejista. Porém, a morte veio, em 2008, aos 91 anos, e os sucessores não conseguiram manter o legado. Agora, restam as lembranças de uma rede com uma rica história a ser contada para as gerações que talvez nunca venham a presenciar uma rede de lojas como a G. Aronson. 

sexta-feira, 26 de maio de 2023

Da série "Grandes varejistas do passado", parte 4 - Lojas Ducal

Prosseguindo com a série das grandes lojas "falecidas" no Brasil, uma das mais conhecidas no ramo do vestuário, na segunda metade do século XX, foi a Ducal. 

Ela ficou conhecida principalmente nas décadas de 1950, 1960 e 1970 por sua política de preços agressivas e pela promoção: compre um paletó e uma calça e ganhe outra calça. Aliás, o significado da marca é Duas Calças. 

A história da Ducal é mais ou menos parecida com a das varejistas já abordadas, começando com uma iniciativa de um empreendedor demonstrando seu tino para os negócios. No caso, José Vasconcelos de Carvalho, fundador da empresa em 1950, com apenas 29 anos. 

Após fazer cursos de especialização nos Estados Unidos e ganhar experiência nas lojas "A Exposição", propriedade de seu pai, o jovem José montou uma loja de roupas no centro do Rio e passou a vender as duas calças pelo preço de uma, comprando um paletó no conjunto, com direito a parcelar em 24 vezes. Assim, a fama se consolidou e novas lojas foram surgindo, para formar a rede e tornar a Ducal um sinônimo de roupa popular com certo cuidado no acabamento. Com o tempo, ela explorou os mercados de São Paulo e Minas Gerais, com grande sucesso. Passou a utilizar a razão social "Companhia Brasileira de Roupas". 

Uma das lojas da Ducal, recebendo vários clientes na época (Divulgação)

No entanto, a empresa enfrentava dificuldades por causa da inflação e da falta de correção monetária para as parcelas, deteriorando seu valor real com o tempo. Se isso foi bom para garantir a liquidez, passou a ser um veneno para o balanço financeiro. Foram tentadas parcerias para contornar isso, como a feita com a rede de eletrodomésticos Bemoreira, e investimentos com publicidade, usando como modelos grandes ídolos da época, como Pelé e Emerson Fittipaldi. Fazer parte de um império empresarial maior, formado por outros empreendimentos começados com "D" (Demison, Decasa, Daviga, etc.) também ajudou na sobrevida. 

O então jovem Pelé, já conhecido como o maior jogador de futebol do mundo, virou garoto-propaganda da loja (Divulgação)

Na década de 1980, a Ducal ainda era conhecida, mas não vendia mais como antes e sumiu da mídia. Ela definhou até fechar sua última loja, no Rio de Janeiro, em 1986. Provavelmente, não "viveria" por muito mais tempo, pois as interpéries da economia permaneceram por mais oito anos, e com a estabilidade conquistada pelo Plano Real, haveria a forte concorrência dos produtos vindos da China e outros mercados estrangeiros. 

Funcionou por tempo suficiente para ser lembrada pelo pessoal agora com mais de 50 anos, residente no Rio, São Paulo ou Belo Horizonte. 


quinta-feira, 18 de maio de 2023

Da série "Grandes varejistas do passado", parte 3 - DB

A DB Brinquedos foi uma varejista muito famosa no final do século XX. Suas propagandas foram bastante veiculadas na televisão, sobretudo na Rede Globo e no Shop Tour. 

Teve uma vida muito breve, de apenas 17 anos. De acordo com algumas fontes, como AQUI, a DB foi fundada com a razão social Play Store Comercial Ltda. no dia 7 de janeiro de 1980. Faliu em 1997, mas durante esse espaço de tempo teve uma expansão bastante rápida, chegando a ter 35 lojas, espalhadas principalmente em São Paulo (sede) e estados do Sul do Brasil. 

Existem bem poucos registros desta varejista, mas muitos se lembram dela, principalmente os "oitentólatras" e "noventólatras", cuja infância se passou nessa época agitada. A DB teve lojas enormes, verdadeiros hipermercados de brinquedos, das mais variadas marcas famosas na época, como Estrela, Grow, Tec Toy, Mimo, Glasslite e outras. 

Os responsáveis pela empresa foram Adelino Pimentel e sua esposa Maria Lúcia, que aproveitaram a então alta demanda por bonecas, carrinhos, patinetes e os então recentes videogames, mesmo em meio à hiperinflação. Foram dessa época as campanhas mais criativas para vender produtos infantis (quem não se lembra daqueles comerciais da Estrela?). A razão social passou a ser DB Brinquedos S/A, quando eles abriram o capital. 

No entanto, a liberação das importações acabou com a festa. Surgiu uma verdadeira infestação de barracas de camelõs, vendendo brinquedos de qualidade e procedência duvidosa, porém muito mais baratos do que nas lojas oficiais. As fabricantes instaladas no Brasil tiveram sérios problemas, e para cobrirem suas dívidas em relação aos seus fornecedores precisaram forçar a cobrança das varejistas devedoras. A DB devia mais de R$ 36 milhões, por causa de sua expansão exageradamente rápida, mesmo considerando a alta demanda por brinquedos na época. Para custear a manutenção de suas lojas, ela precisou recorrer a empréstimos bancários. Tentou acordos com o Unibanco e o Banco de Crédito Nacional (BCN), até vender parte das ações (35%) para a J.P. Morgan. Existem rumores segundo os quais os Pimentel aproveitavam o alto faturamento para gastos com objetos de luxo e viagens. 

Sem outra saída, a DB Brinquedos faliu e não deixou sucessores. Surgiram empresas menos ambiciosas, como a Ri-Happy, e aos poucos o segmento encolheu de vez porque as crianças passaram a se interessar mais em telefones celulares. Uma vida breve mas marcante de uma varejista especializada em agradar as crianças. Prova de sua popularidade, principalmente no sul do Brasil, foi a criação de um site chamado DB, de uma empresa catarinense, para vender bonecos de animais. 

Uma das propagandas veiculadas pelo Shop Tour às vésperas da falência da DB (1996)


quarta-feira, 10 de maio de 2023

Da série "Grandes varejistas do passado", parte 2 - Casas da Banha

Outra grande varejista foram as famosas "Casas da Banha", ou CB, fundada em 1955, no Rio de Janeiro, por Climério Veloso, um dos membros de uma famosa familia de empreendedores. 

As "Casas da Banha" começaram, de fato, vendendo produtos de porco, e depois passaram a diversificar seus produtos. A partir da década de 1970, passou a expandir vertiginosamente, passando a ter várias filiais no Estado do Rio, e depois para outros Estados, como São Paulo, Minas Gerais, Distrito Federal, Bahia (na capital Salvador) e até Amazonas (em Manaus). 

Durante essa época, patrocinava a Discoteca do Chacrinha, na TV Tupi, e o bacalhau (pelo menos de acordo com o Velho Guerreiro) era fornecido pela varejista. Outros artistas, como Hebe Camargo, Marília Gabriela e alguns atores do elenco da Globo fizeram comerciais veiculados principalmente na Rede Globo. Contudo, os comerciais mais famosos eram com os porquinhos representantes da marca: 


Surgiu também o primeiro hipermercado do Brasil, o Porcão. Indiretamente, foi responsável pelo surgimento das também nacionalmente famosas Churrascarias Porcão - que não pertenciam ao conglomerado dos Velloso. Tornou-se um marco na Avenida Brasil, com seu relógio imponente. 

As Casas da Banha ganharam notoriedade e viraram até tema de uma canção de Raul Seixas, de 1975, com aquela frase: “Não posso sentir cheiro de lasanha/me lembro logo das Casas da Banha/onde íamos nos divertir”. 

Na década de 1980, auge dos negócios, a rede chegou a ter 18 mil empregados, distribuídos entre as várias lojas do Brasil, o hipermercado Porcão e a CB Eletro, de curta duração, para vender eletrodomésticos e eletrônicos. Os Veloso compraram vários concorrentes menores, como a Merci, também muito conhecida pelos cariocas. Também adquiriram o Jornal dos Sports, que misturava esportes com a violência urbana, uma espécie de Notícias Populares do Rio. 

A crise econômica provocada pela hiperinflação desarrumou as contas da rede, e os seguidos planos econômicos só pioraram tudo, fazendo as Casas da Banha se dissolverem aos poucos. O Plano Collor foi o pior deles, e com o confisco dos ativos financeiros os brasileiros precisaram economizar nos gêneros alimentícios, algo terrível para o setor de supermercados em geral. Aculumando dívidas trabalhistas, a empresa precisou vender boa parte de suas lojas e fechar outras, entre as quais o hipermercado. Perdendo o controle das finanças, os Velloso tiveram que aceitar a decretação da falência, em 1999. 

No entanto, as Casas da Banha nunca foram esquecidas completamente. O "tcha-tcha-tcha" característico dos comerciais mostrando os porquinhos virou tema de uma canção de Rogério Skylab, em 2008. Atualmente, existe um site da banha PigLeve, que se apropriou da história desta rede (clique AQUI). 


N. do A.: As varejistas adquiridas por outras empresas serão abordadas mais adiante. Este blog vai mostrar, primeiramente, aquelas que faliram. 

quinta-feira, 20 de abril de 2023

Da série "Grandes varejistas do passado", parte 1 - Arapuã

A Arapuã continua a ser lembrada por muita gente, apesar de um rumoroso processo de falência iniciado em 1998. E vai inaugurar a série de empresas do varejo para fazer doer o coração dos saudosistas. 

Como já existe uma história contada e recontada por vários sites como, por exemplo, o da Gazeta do Rio, com uma reportagem assinada por Leonardo Ribeiro (ver AQUI), este blog não vai se estender muito. 

O logotipo da Arapuã e seu slogan imortalizado (Divulgação)

Fundada em 1957 por um jovem chamado Jorge Wilson Silveira Jacob, herdeiro da loja de tecidos Nossa Senhora Aparecida em Lins, então uma pequena cidade a 450 km da capital paulista, a história da grande varejista começou quando o adolescente, mostrando tino comercial, resolveu mudar o nome da razão social da loja, mudando-o para Arapuã, aumentando as vendas com melhorias na qualidade dos produtos e adotando preços agressivos para aumentar as vendas e o faturamento, conseguindo pagar os credores. Com mais dinheiro e crédito, começou a expandir seus negócios, instalando uma segunda loja em Araçatuba, também no interior paulista. 

Cansado de só vender roupas, o Sr. Jacob, como era conhecido o dono da Arapuã, passou a vender também eletrodomésticos, passando a ser um comercializador fiel dos produtos Walita, quando a marca ainda não pertencia à Philips, que também passou a ser parceira das lojas por vários anos. Depois de anos de dificuldades, a varejista começou a se expandir, chegando até a capital. Passou a vender também móveis e outros bens de consumo duráveis. Foi pioneira nas vendas com pagamento a prazo, estratégia logo seguida por concorrentes como as Casas Bahia e o Mappin. 

Durante o chamado "Milagre Econômico", o Sr. Jacob resolveu aventurar-se no ramo da construção civil (Construtora Lótus). Mais tarde, já nos anos 1980, adquiriu a também saudosa fábrica de biscoitos Duchen, aquela cujo prédio foi projetado por Oscar Niemeyer e instalado às margens da via Dutra, na Zona Norte de São Paulo. Não satisfeito, ainda comprou a Neugebauer, empresa de chocolates conhecida pelo Stick, vendido até hoje, e a Etti, fábrica de produtos de tomate, na mesma época. Investiu em propaganda, fazendo aparecer até uma mascote, Arapinha, um pica-pau de cor amarela, embora o nome da empresa fosse, provavelmente, inspirado em outra ave, a aracuã. O slogan "Ligadona em você" acabou grudando como chiclete na cabeça do povo brasileiro. 

O mascote Arapinha, divulgado em uma revista em quadrinhos nos anos 1980 (Divulgação)

A Arapuã prosperava, com suas centenas de lojas em todo o Brasil e um portfólio vasto, mas antes mesmo do Plano Collor, o Sr. Jacob foi até os Estados Unidos e voltou disposto a modernizar o seu império. Ao voltar, mandou fechar lojas consideradas não rentáveis, e concentrou a atenção nos eletroeletrônicos, como os televisores da Mitsubishi. Foi implantado um sistema moderno (para a época) de informatização, agilizando a venda dos produtos e aumentando o capital de giro, fazendo a marca sobreviver às tormentas da hiperinflação e do Plano Collor. Com o Plano Real, a situação pareceu melhorar, e a Arapuã abriu seu capital, chegando a ter valorização de 140% nas suas ações em apenas 15 meses, entre 1995 e 1996. 

Uma das famosas propagandas da Arapuã, feita em 1995, quando a empresa parecia imbatível (Propagandas Históricas/Youtube)


Porém, uma das causas da expansão dos negócios, a venda a prazo, foi seriamente afetada pela crise asiática em 1997, fazendo muitas empresas quebrarem. A Arapuã era fortemente dependente dessa modalidade de vendas, e com a inadimplência, o faturamento desabou. A dívida aumentou drasticamente, e só a parte dos créditos em atraso somava cerca de R$ 550 milhões, levando a empresa a pedir concordata. Descobriu-se que o banco do grupo, o Fenícia, era o responsável pela concessão dos créditos às lojas, o que era (e é) um procedimento ilegal. As mesmas marcas favorecidas pela ex-gigante do varejo - a Philips e a Mitsubishi - passaram a se voltar contra ela, contestando o plano de recuperação judicial. 

Apesar das tentativas de reação, chegando a estampar até a camisa do São Paulo (um dos gigantes do futebol paulista) em 2001, e do processo ter chegado ao STF e ao STJ, a novela foi se arrastando. O império foi esfacelado com a venda da Fenícia, da Etti e da Neugebauer. Em 2002 foi decretada a falência por quebra nos termos da concordata, quando as lojas já não operavam. A decisão foi revertida, para ser confirmada mais tarde, em 2009, pelo mesmo motivo alegado sete anos atrás. 

Os Jacob não desistiram de trabalhar, apesar de condenações à prisão nunca cumpridas, e um dos filhos do Sr. Jacob, Renato, tentou abrir lojas nas periferias de São Paulo e Belo Horizonte, vendendo roupas, como no início desta amarga história. Não deu certo, e eles foram obrigados a mudar o nome para Sette Bello, e depois fecharam boa parte das lojas. Uma última tentativa de satisfazer os instintos capitalistas da família foi a aquisição de 20% das ações da Rio, uma empresa de bebidas, em 2017. Ao contrário da Arapuã, a Rio ("Beba Rio") continua pequena e relativamente desconhecida, embora atuante no mercado. 

Atualmente, pouquíssimas pessoas conseguem imaginar as relações entre esta modesta fabricante, a nanica rede de lojas Sette Bello e a ex-titã do varejo brasileiro, parte de um império gigantesco, agora destruída após décadas de serviços aos brasileiros, interrompidos por um final triste e doloroso.