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sexta-feira, 9 de setembro de 2022

Da série "Brasil 200", parte 5 - Quem se destacava na época da Independência

Em 1822, havia muitas personalidades de destaque, além do príncipe D. Pedro (1798-1834). Ele era casado com Dona Leopoldina (1797-1826), princesa que teve participação ativa no processo de independência, além do patriarca José Bonifácio (1763-1838), considerado um dos principais articuladores, ao lado dos irmãos Antônio Carlos (1773-1848) e Martim Francisco (1776-1844). 

Havia uma série de personagens de destaque: o poeta Evaristo da Veiga (1799-1837), o jornalista Hipólito José da Costa (1774-1823), os políticos Joaquim Gonçalves Ledo (1781-1847), Januário da Cunha Barbosa (1780-1846), Cipriano Barata (1762-1838) e José Clemente Pereira (1787-1854), o economista pioneiro do liberalismo José da Silva Lisboa (1756-1835), futuro visconde de Cairu, o revolucionário Frei Caneca (1779-1825), entre outros. 

Nossos vizinhos da América Latina estavam em processo de libertação contra o governo espanhol. O principal nome é Simón Bolívar (1783-1830), cujo ideal de unificação da América do Sul seria deturpado mais tarde pelos governos marxistas e chavistas da região quase dois séculos mais tarde. Bernardo O'Higgins (1778-1844) já havia libertado o Chile, José de San Martín (1778-1850) foi o herói da emancipação argentina e José Artigas (1764-1850) estava exilado após tentar a independência da Cisplatina. Seis anos depois, esse território, então pertencente ao Brasil, tornou-se o Uruguai. José Gaspar de Francia (1766-1840) era o ditador do Paraguai. 

Na América do Norte, o presidente James Monroe (1758-1831) estava a elaborar uma política externa mais tarde conhecida como "Doutrina Monroe", segundo a qual a América deve garantir a sua independência em relação a qualquer país europeu. Mais tarde, este governo iria reconhecer a soberania do Brasil (1824). No México, que incluía a então província da Califórnia e o Texas, o proclamador da independência local era o imperador Agustin I Itúrbide (1783-1824). 

No exterior, predominavam as cabeças coroadas na Europa, como D. João VI (1767-1826), o rei de Portugal que voltou para Lisboa a fim de resolver a insatisfação manifestada pela Revolução Liberal do Porto dois anos antes. Havia o rei da Espanha, Fernando VII (1784-1833), Luís XVIII (1755-1824) na França, czar Alexandre I (1777-1825) na Rússia, sultão Mahmud (1784-1839) no império turco (que ocupava a península Balcânica, inclusive a Grécia em processo de luta pela independência), Frederico Guilherme (1770-1840) na Prússia, então reino independente e principal território alemão fora do Império Austríaco, regido por Francisco I (1768-1835), pai da princesa Leopoldina. O Império Britânico era encabeçado por George IV (1762-1830), pouco estimado pelos súditos, ao contrário da recém-falecida rainha Elizabeth II. O papa da época era Pio VII (1742-1823). 

A política europeia era um território manipulado pelas mentes (consideradas maquiavélicas) do alemão Clemens von Metternich (1773-1859), primeiro-ministro do Império Austríaco e do francês Charles de Talleyrand (1754-1838), ex-fortmuladores do Congresso de Viena de 1814, aberto após a derrota de Napoleão (1769-1821), então já falecido. 

Fora da Europa, o vice-rei do Egito Mehmet Ali (1769-1849) se destacava em sua política de modernização. Na África do Sul havia o guerreiro e chefe zulu Xhaka (1787-1828). Na Indonésia, havia a insatisfação contra o domínio holandês, tendo como um dos rebeldes o príncipe Diponegoro (1785-1855). 

Fora da política, havia grandes gênios na matemática, como Karl Gauss (1777-1855) e Augustin Louis Cauchy (1789-1857). Na física e astronomia, Amadeo Avogadro (1776-1856), Lazare Carnot (1754-1824) e o marquês de Laplace (1749-1827). A química era representada por Berzelius (1779-1848) e John Dalton (1766-1844), que há muitos anos atrás foi o precursor da teoria atômica. Havia naturalistas de renome como Auguste de Saint-Hilaire (1779-1853) e Alexander von Humboldt (1769-1859), Georges Cuvier (1769-1832) e Lamarck (1744-1829), entre outros. Outros eram mais polêmicos, como o pai da homeopatia, Samuel Hahnemann (1755-1843). 

As descobertas paleontológicas estavam em alta, e um pesquisador se destacava: Jean-François Champollion, francês que estava decodificando, em 1822, a pedra da Roseta, a mais famosa a conter hieróglifos egípcios. 

Havia algumas inovações tecnológicas, como o desenvolvimento das primeiras locomotivas a vapor de George Stephenson (1781-1848) e o pioneiro na técnica da fotografia, com Samuel Niepce (1765-1833). Na educação, ainda trabalhava o pioneiro no ensino moderno, o suíço Pestalozzi (1746-1827). 

O Duque de Wellington (1769-1852), considerado herói de Waterloo, ainda era conhecido dessa forma, mas viria a ser mais tarde primeiro-ministro britânico. Lord Cochrane (1775-1860) atuou no processo de Independência do Brasil. O general prussiano Carl von Clausewitz (1780-1831) já era conhecido não pelas campanhas militares que participou e saiu vitorioso, mas pelo livro Vom Kriege (Da Guerra), considerada a obra-prima moderna da estratégia bélica. 

Nas artes, o neoclassicismo era substituído pelo romantismo. A velha guarda era representada por Ingres (1780-1867), Jacques-Louis David (1748-1825) e o moribundo escultor Antonio Canova (1757-1822), contra os românticos, como o jovem Delacroix (1798-1863) e o já consagrado Théodore Gericault (1791-1824). O caso de Francisco de Goya (1746-1828) era sui generis, por ser ele um precursor de tendências mais modernas, como o expressionismo do início do século XX em suas pinturas nigras. Aqui nestas terras recentemente emancipadas, um francês, Debret (1768-1848), estava pintando o cotidiano do povo naquele tempo. 

Também a música estava em processo de inovação, com Beethoven (1770-1827), tendo os primeiros românticos como Franz Schubert (1797-1828) e Carl Maria von Weber (1786-1826), mas ainda havia músicos da chamada "Era Clássica", como Luigi Cherubini (1760-1842). Um dos mais famosos operistas era Gioachino Rossini (1792-1868). No Brasil, destacava-se o padre José Maurício Nunes Garcia (1767-1830). 

A literatura também começava a consolidar o estilo romântico. Goethe (1749-1832) ainda era o maior literato da época, mas já havia outros talentos, como Mary Shelley (1797-1851), Walter Scott (1771-1832), Chateaubriand (1768-1848), Stendhal (1783-1842), entre outros. Os irmãos Grimm eram afamados por seus contos infantis. Na filosofia, havia Hegel (1770-1831), além dos irmãos Schlegel e Schelling (1775-1854). 

Também havia jovens que brilhariam mais tarde em suas carreiras, como o Duque de Caxias (1803-1880) e o Almirante Tamandaré (1807-1897) no Brasil, além de Abraham Lincoln (1809-1865), Giuseppe Garibaldi (1807-1882), Charles Darwin (1809-1882), Victor Hugo (1802-1885), só para citar alguns exemplos. Outros ainda eram muito crianças, e se destacariam depois, como o futuro Barão de Mauá (1813-1889), a princesa Maria, filha de D. Pedro e futura rainha de Portugal Maria II (1819-1853), Richard Wagner (1813-1883), Otto von Bismarck (1815-1898), a futura rainha Vitória (1819-1901) e Karl Marx (1818-1883), entre outros. 

quinta-feira, 8 de setembro de 2022

Da série "Brasil 200", parte 4 - São Paulo nos tempos do Grito

A reabertura do Museu da Independência em São Paulo, no Ipiranga, relembra-nos o local onde o então príncipe D. Pedro teria bradado a famosa e lendária frase "Independência ou Morte!" às margens do rio Ipiranga. 

Naquela época, em 1822, a cidade não era nem de longe tão grande quanto o Rio de Janeiro. Segundo o portal da Prefeitura, correspondia tão somente ao Centro Velho. Havia uma pequena vila ao sul da cidade, que mais tarde viria a ser um município independente, Santo Amaro. Somente em 1935, o lugar foi incorporado a São Paulo. 

O rio Tietê, atualmente retificado, era caudaloso e provocava algumas enchentes preocupantes, mas os estragos eram localizados. O vale do rio era ocupado por fazendas, pois estava em zona rural ao norte do município. 

Havia vários estabelecimentos religiosos espalhados ao longo dos arredores, sendo o mais famoso o Mosteiro da Luz, onde estava na época um frade idoso e doente (morreria poucos meses depois, em dezembro do mesmo ano), chamado Antônio de Sant'Anna Galvão, já com fama de milagreiro. D. Pedro, porém, havia visitado outra igreja, a Matriz da Nossa Senhora da Penha, bem mais distante, em agosto. 

O Museu da Independência foi inaugurado bem mais tarde, em 1895, e hoje abriga um acervo considerável de objetos utilizados no Primeiro Reinado, além de abrigar a cripta imperial, onde está enterrado o corpo do imperador morto em 1834. Seu coração embalsamado, no momento, está a caminho de onde estava, o Convento da Nossa Senhora da Lapa, na cidade do Porto, após ficar exposto até o dia 5 de setembro. Em agosto, foi recebido no Palácio do Itamaraty após receber honras de chefe de Estado por ordem do atual governante, o presidente Jair Bolsonaro. 

quarta-feira, 7 de setembro de 2022

Da série "Brasil 200", parte 3 - Quem quer ver o Brasil deixar de ser um país independente?

Não houve uma festa digna para o Brasil nos 200 anos da Independência. Os desfiles, que deveriam realçar a grandeza do evento, foram um espetáculo grotesco, ignóbil, próprio de uma nação sem o suficiente apreço pela sua própria história. O presidente Jair Bolsonaro, em Brasília e no Rio de Janeiro, transformou tudo num comício para mobilizar seus correligionários. E nem houve o esperado para muitos deles, mais radicais, cujos sonhos envolvem a derrubada dos ministros do STF sem ser pela via das "quatro linhas da Constituição" (ou seja, um processo de impeachment promovido pela Senado) ou até a volta da monarquia. 

O presidente Jair Bolsonaro, em foto com a mulher Michelle durante os desfiles em Brasília, foi acusado pela oposição e pela imprensa de se apropriar das comemorações do Bicentenário (Divulgação/JP)


Ainda há quem queira fazer do Brasil uma colônia. Boa parte deles não declara isso oficialmente, pois sabem que tais ideias são impraticáveis, falsamente utópicas (na verdade, distópicas) ou motivadas por ressentimento. 

- Os que sonham em algum povo mais tecnologicamente e culturalmente avançado para administrar o nosso país, ou povoar certas regiões para desenvolvê-las. Não valorizam o povo, considerado preguiçoso, hedonista e pouco afeito ao progresso. Também envolve conceitos explicitamente racistas, por ser a população formada pela miscigenação de várias etnias indígenas, europeias e africanas. 

- Os partidários deste ou daquele país, a ponto de garantir vantagens indevidas ou afrouxar a legislação para favorecer seus produtos. No passado, haviam os casos da Grã-Bretanha, dos Estados Unidos, da União Soviética. Agora, é a China. 

- Os defensores de uma intervenção da ONU no Brasil por não aceitarem, por exemplo, o resultado das eleições para presidente. Entre eles, os partidários da tese do "golpe" aplicado em 2016 para destituir a então presidente Dilma Rousseff, e consideram o atual presidente como, praticamente, um "usurpador", "extremista" e "reacionário". 

- Os adeptos de um governo global, onde não há espaço para nacionalismos. Embora não sejam tantos para justificar os defensores de teorias conspiratórias, eles existem, e a maior parte nem é por má fé, mas por uma esperança de um futuro melhor sem fronteiras. Trotskistas estão entre eles. Utopistas e adeptos da chamada "Nova Era", também. 

- Os que defendem a internacionalização da Amazônia ou não tomam providências para assegurar a soberania da parte brasileira, beneficiando traficantes de drogas, animais e plantas, ou então madeireiros e garimpeiros ilegais, ou certas ONGs (não todas) com atividades irregulares e sem a devida regulamentação. 

O Brasil tem vários problemas de difícil solução, e há outros meios de resolvê-los sem envolver a perda da soberania ou da integralidade. Porém, isso envolve um trabalho consistente e nem sempre estimulante. Um verdadeiro desafio para nós. 


terça-feira, 6 de setembro de 2022

Da série "Brasil 200", parte 2 - As práticas desportivas no tempo do Grito

Hoje, em São Paulo, cidade do palco do Grito do Ipiranga, o Palmeiras foi eliminado da Copa Libertadores da América pelo Athletico, perdendo a chance de disputar o tricampeonato seguido na competição. Fez o resultado até o início do segundo tempo no Allianz Parque, pois precisava fazer dois gols, e realmente eles aconteceram com Gustavo Scarpa e Gustavo Gomez bem nos inícios dos tempos regulamentares, mas o time paranaense correu atrás e empatou com Pablo e Terans, no segundo tempo, aproveitando a vantagem numérica após a expulsão de Murilo pouco antes do intervalo. No primeiro jogo das semifinais, o "Furacão" havia vencido por 1 a 0 na Arena da Baixada. 

200 anos atrás, não havia nada disso. Nem Palmeiras, Athletico, e muito menos estádios de futebol. Não havia sequer futebol. A maior parte dos esportes foi desenvolvida só em tempos mais recentes. 

As documentações da época eram bastante escassas, mas haviam relatos sobre práticas comuns na elite da época, como a equitação e a esgrima. Porém, a maior parte da população, boa parte dela indígena, praticava natação, canoagem, arco e flecha e corridas. Entre os escravos negros, já era muito corrente a prática da capoeira, como forma de exercitar o corpo e autodefesa, pois muitos fugiam do cativeiro e eram caçados pelos "capitães do mato" e suas tropas. 

Não havia sequer um documento formal, pois o primeiro deles foi escrito no ano seguinte à proclamação, em 1823, com o "Tratado de Educação Física e Moral dos Meninos", cujo autor foi Joaquim Antônio Serpa, destacando a importância das atividades esportivas para o desenvolvimento corporal e mental. 

segunda-feira, 5 de setembro de 2022

Da série "Brasil 200", parte 1 - O hino da independência como foi concebido

No Rio de Janeiro, está havendo o Rock in Rio, mas na imprensa pouco se fala a respeito do gênero "que errou", de acordo com a letra de um dos representantes no Brasil, Lobão. A imprensa destaca as vaias e xingamentos contra o presidente Jair Bolsonaro, além de músicos pouco a ver com a temática, como o famigerado Justin Bieber. 

Mas neste artigo a música é outra: o Hino da Independência composto pelo próprio D. Pedro I (1798-1834) com letra de Evaristo da Veiga (1799-1837), escrita em agosto de 1822 (antes mesmo do grito do Ipiranga, portanto). O primeiro imperador do Brasil escreveu a música mais tarde, em 1824. 

A primeira música para o hino foi feita a partir de um trabalho de Marcos Antônio da Fonseca Portugal (1762-1830). Teve uma vida bastante curta, superada facilmente pela versão do imperador. Esta história foi em uma postagem anterior, de dois anos atrás (ver AQUI). 

Curiosamente, Marcos Portugal era um compositor erudito afamado, enquanto o monarca era um diletante, que tocava bem o pianoforte (nome dado aos pianos da época, com corpo totalmente em madeira e sem o mecanismo sofisticado dos instrumentos modernos, visando tornar o som mais encorpado) e o cravo, um instrumento parecido mas cujo som é feito por plectros tocando as cordas, e não martelos como no instrumento mais atual. O mesmo mecanismo do cravo é utilizado na espineta, instrumento apreciado no Brasil há 200 anos atrás. 

Houve modificações com o tempo, principalmente nos intervalos entre as estrofes, como se pode ouvir no vídeo a seguir. A versão no Youtube (canal Musica Brasilis) mostra, sob a forma de trecho de uma peça teatral, um ator interpretando D. Pedro I acompanhado de uma formação comum em sua época: um trio formado por um pianoforte, um violino e um violoncelo.