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segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Multiverso

Recentemente, desde antes do filme Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo, fala-se em realidades paralelas. Você decide fazer algo importante, isto é, investir um milhão de dólares em ações num banco brasileiro ou em imóveis na China. Para o senso comum, é só uma decisão. Para a teoria da criação de novas realidades, ele está criando uma realidade nova, onde ele investe no banco em uma realidade A, e ele deposita seu dinheiro em apartamentos chineses em uma realidade B. 

Todas as pessoas criam realidades a partir de tomadas de decisão, como ir ou não ir para um lugar interessante, e acabar conhecendo uma mulher (ou um homem) interessante e iniciar um namoro, ou quando muda de emprego. Assim, bilhões de realidades paralelas acontecem. 

É um assunto abordado na ficção, e também em certos estudos teóricos envolvendo a Mecânica Quântica, normalmente estudada para fenômenos subatômicos, aplicada para corpos macroscópicos. 

Com o envolvimento de eventos de duas ou mais escolhas, com certa probabilidade de acontecer, diz-se que cada um é responsável pela co-criação de um número incontável de Universos. 

Os múltiplos Universos não ocorreriam apenas dessa forma, mas também há, pela expansão da realidade desde o Big Bang, a formação de "ilhas" de realidades, as chamadas "universos-bolhas", onde as leis físicas, hipoteticamente, podem ser diferentes entre si. Esses "universos-bolhas" podem se arranjar em "branas", fragmentos tridimensionais de uma realidade multidimensional, de acordo com a Teoria das Cordas, onde os elementos subatômicos não são pontos, mas cordas interagindo entre si, numa forma de tentar conciliar a Mecânica Quântica com outros ramos da física. Assim, poderia haver um outro universo distante onde a lei da gravidade funciona de maneira totalmente diferente, ou nem mesmo existir. 

Parece maluquice, mas não são poucos os defensores dessas ideias. 

Voltando ao investidor do começo da história, digamos que, agora, ele iniciou uma "árvore" de realidades paralelas, e dentro de cada ramo, acontecesse algo. 

Num dos ramos, a crise imobiliária chinesa aconteceu nos diversos cenários e, em cada um deles, o investidor tinha tomado uma decisão anterior, podendo ter ou não ter vendido os apartamentos a tempo de não perder dinheiro. Nas realidades onde ele decidiu por não vender, ele teve que administrar seu prejuízo, lamentando (ou não) por ter esbanjado tanta grana que poderia ter ido para as ações no banco, enquanto houve versões existentes onde ele estava feliz por ter escapado deste (mau) negócio da China. 

Em certa parte de outro ramo, em cada realidade, o sujeito tinha comprado as ações do banco ao invés de gastar em prédios no exterior, e, no dia 25 de outubro de 2026, não vendeu as ações a tempo. O TSE intervém na eleição entre Flávio Bolsonaro e Lula, acontecem dúvidas sobre se houve ou não processos de fraude por causa disso e, num desses cenários quaisquer, Lula venceu, e as ações do banco, no dia seguinte, derreteram. Cada um dos investidores estaria pensando na tolice de não ter vendido as ações, enquanto outras versões ficaram aliviadas por justamente terem feito isso. Quantos deles estariam esbravejando e alegando fraude nas eleições? E o que dizer de outras realidades, onde cada Flávio Bolsonaro ganhou a disputa, nesse 25 de outubro? Isso geraria outros cenários, bem diferentes. 

Como arrumar essa bagunça toda? Os teóricos ainda estão tentando explicar como, mas sempre há um problema, esbarrando em questões simples como a lei de conservação de massa. Mesmo que a probabilidade de dado universo existir seja praticamente nula, outros inúmeros universos de mesma origem ainda continuariam. E cada universo teria uma determinada massa, nada pequena. 

Ainda vai levar algum tempo para alguém conceber uma teoria viável, mas enquanto isso há algumas narrativas interessantes explorando o assunto, rendendo filmes e livros. 

O multiverso, tal como as bruxas do Halloween, é questão de crença, como lembra aquele ditado espanhol (ou será galego?), onde se diz: "Yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay". 

A existência de um Multiverso não foi provada a contento, mas muitos não descartam essa possibilidade (Divulgação/Canaltech)



quarta-feira, 30 de setembro de 2026

O Brasil que queremos

Nosso país ainda está tentando procurar um rumo, e ele necessariamente deve começar nas eleições. Não só o presidente, mas os governadores, os deputados e os senadores influenciam nossas vidas, enquanto nós não aprendemos a nos virar sem eles. 

Certamente não queremos o Brasil como está, com miséria, analfabetismo, desindustrialização, dívida pública, hospitais públicos assemelhados a matadouros, corrupção, tráfico de influência, violência, crime organizado, Estado paralelo, desarmonia entre os Poderes, judicialização da política, politicagem na Justiça, desmatamentos ilegais, etc. Não podemos voltar ao tempo que havia tudo isso, mas pelo menos o futebol dava alegria ao povo e havia música popular audível. E nem querer um futuro onde o Brasil vá a ser alguma colônia chinesa ou americana. 

Afinal, o que queremos? Um Brasil melhor, sem nenhuma das desgraças acima. Mas isso não se constroi em um ou mesmo cinco mandatos, mas deve começar a progredir em direção a isso. E, apesar do nosso sistema político-eleitoral merecedor das mais severas críticas, projetado para impedir o povo de ser um verdadeiro protagonista, não devemos nos desanimar. É preciso votar no próximo domingo. Vamos decidir na urna. Se porventura se confirmar que ela foi programada para a fraude, como pregam muitos que defendem o voto impresso ou mesmo o retorno do papel, a culpa não é nossa, e caberá a nós decidir o que fazer depois. Mas, na hipótese da urna refletir a vontade da população, estará definido o começo do nosso caminho. 

Que ele nos leve a um Brasil melhor. 

quarta-feira, 22 de julho de 2026

E o que nós entendemos por democracia?

No Brasil, ainda há o velho hábito de pensar em democracia como a existência de eleições livres, onde se pode votar no político de sua preferência, na esperança de haver melhorias em pautas específicas, como segurança, saúde pública, educação, infra-estrutura. 

Quem tem um pouco mais de vínculo com a política, entendimento de como ela funciona, em geral está atrelado a ideologias políticas. Os adeptos de Lula o defendem, mesmo quando suas medidas visam exclusivamente o interesse eleitoral, como o Bolsa Família, ou são "cortina de fumaça" para não atacar os verdadeiros problemas nacionais, como o programa Brasil Soberano, para responder às tarifas impostas pelo governo americano sobre os produtos brasileiros. Já os oposicionistas apontam os ataques à liberdade feitos pelo governo e também pelo STF, acusado de estar excessivamente vinculado ao Executivo, como o irregular processo contra os manifestantes do 8/1 e contra o ex-presidente Jair Bolsonaro. 

O ex-capitão ora é visto como um "inimigo da democracia" pelos lulistas, ora é visto como o maior representante do povo brasileiro pelos seus adeptos. 

Há alguns fatores que afetam a noção de como enxergamos a democracia no Brasil, como a necessidade de coligações para manter a governabilidade, uma característica dos regimes onde o presidente é a maior autoridade política. E isso envolve o Centrão, uma importante base política formada por pessoas hábeis em manter-se influentes, mantendo suas bases eleitorais (pejorativamente chamadas de "currais") e conseguindo cargos importantes nos núcleos do poder, principalmente em Brasília. O sistema eleitoral com partidos políticos sem maior compromisso com o progresso e o amadurecimento da nação, e as urnas eletrônicas, ainda vistas como fáceis de fraudar e chamadas de "caixinhas mágicas" pelos inimigos delas (pelo menos as antigas urnas de papel davam sinais mais claros de manipulação), também poderiam ser objeto de msis debates por quem possuem tempo e argumentos para fazê-los. 

E ainda quem sonhe com regimes de governo mais perfeitos, para apressar as mudanças no país, pois nossa "democracia" é imperfeita demais e não favorece o progresso almejado por esta grande Nação. Mas as alternativas conhecidas já foram tentadas, como o autoritarismo (militar ou civil) ou a monarquia. E as desconhecidas, como a IA ou os extraterrestres, ainda não fazem parte de discussões sérias. 

quinta-feira, 2 de julho de 2026

O mundo é o que é

Queremos que o mundo seja justo e equilibrado, mas ele não foi feito para atender as vontades de cada um. 

Lamentamos quando os fortes abusam e os fracos não conseguem se erguer. Por que os bons morrem cedo enquanto os maus sucumbem de velhice? Como aquele gato foi comer aquela ninhada de passarinhos? Por que uma civilização adiantada acabou enquanto impérios sanguinários progridem?

Dizem que o mundo é dos fortes ou dos astutos, mas isso não cobre toda a verdade. Porque muitas vezes o forte sente o peso dos anos e o astuto pode deixar de considerar um ou outro detalhe importante em suas maquinações, e ser punido ou vencido justamente por causa disso. Charles Darwin considerou isso ao proferir sua frase: "Não é o mais forte que sobrevive, nem o mais inteligente, mas sim o que melhor se adapta às mudanças". Mas, talvez, isso não seja abrangente o bastante quando se trata do destino humano, pois houve exceções, como os inexplicáveis casos de boa ou má sorte, ou quando as mudanças ocorrem de maneira muito rápida, dificultando as adaptações. Muitos apontam os casos da IA e dos fenômenos climáticos, que impõem desafios talvez difíceis demais para a imensa maioria de nós. 

Queremos que a realidade se molde aos nossos desejos. Mas isso geralmente não acontece. Então é mais sensato fazer nossos desejos se moldarem à realidade. Não adianta bancar a torcida. É necessário ser o agente ativo deste jogo. 

Isso lembra os resultados da Copa do Mundo. Ontem muitos torceram pela República Democrática do Congo ou para Senegal, que tiveram chance contra a Inglaterra e a Bélgica, respectivamente. Reclamam dos "países colonizadores", como se a questão fosse de justiça e não de futebol. E, em outro caso, lamentam hoje que a Croácia não tivesse vencido Portugal, pois para muitos ela teria jogado melhor. Em todos esses casos, os resultados foram determinados pelos jogadores e pelos árbitros (incluindo o VAR), nunca pelas torcidas. 

E o mundo segue seu caminho. 


N. do A.: Muito se fala de um conluio entre federações, grandes empresas e um poder obscuro, capaz de transformar cada um de nós em meras peças de um imenso tabuleiro. Mas isso é uma especulação. 

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Você quer mesmo democracia?

Sistemas políticos, todos eles, são estruturas complexas que lembram, em maior ou menor grau, à produção industrial de certos produtos, como salsichas, nuggets de frango ou gelatina. Geralmente muito longe de serem coisas agradáveis e, em alguns casos, de acordo com os controles de qualidade.

Pois a nossa democracia, como está agora, parece uma estrovenga movida a interesses muito mais influentes do que a vontade popular. O povo, mesmo, está mais para um bando de figurantes do que um grupo de protagonistas. Está certo, em qualquer país, mesmo nos Estados Unidos, Singapura ou Finlândia, é assim. Mas no caso do Brasil, estamos perigosamente próximos da irrelevância absoluta.

Ainda chamamos de democracia porque há eleições livres em tese, com instituições funcionais e uma pessoa comum ainda não pode ser presa por qualquer motivo não previsto em lei. Mas há questionamentos sobre a lisura das urnas eletrônicas, acusando-as de serem fraudadas (embora seja mais simples fraudar urnas em papel), o funcionamento das instituições é comprometido pelo comportamento disfuncional dos Três Poderes e pela corrupção sistêmica, e certos grupos correm mais risco de serem perseguidos pelas autoridades oficiais, em relação a outros. 

Se alguém quer democracia, precisa se posicionar a respeito da nossa realidade. Isso exige uma postura pró-ativa, e informação de qualidade, algo escasso no país. Ou senão corre mais risco de aceitar tudo como fato consumado. 


quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

Um vídeo para reflexão

 Dentre os diversos vídeos do Youtube, alguns são particularmente incômodos, justamente por dizerem verdades inconvenientes. 

Enquanto os membros das instituições se julgam capazes de fazerem o que quiserem, apenas porque estão no poder (vide o caso de um ilustre ministro do STF atribuindo apenas à PGR a prerrogativa de abrir um processo de impeachment, dando a outros o trabalho de encontrar alguma base legal para esta decisão), os brasileiros sofrem, ignorando ou fingindo ignorar o seu triste papel neste jogo. 

O autor deste vídeo é dono do canal O Labirinto, um dos espaços no Youtube com certa preocupação em não abordar temas superficiais, procurando explicar a origem de certas situações incômodas e difíceis de resolver, como a miséria do povo enquanto os seus supostos representantes eleitos por ele abusam de seus privilégios.  





sexta-feira, 22 de agosto de 2025

Diferentes pautas?

Estava para escrever algo sobre os anfíbios, para dar continuidade à série sobre a classificação animal, mas iria ser duas postagens seguidas abordando pautas semelhantes, sobre formas de vida. 

Depois, estava recordando sobre os 80 anos do fim da II Guerra Mundial, mas o tema é terrivelmente pesado, não só pela monstruosidade das bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki, mas pela maldade humana expressada principalmente pelos seguidores da ideologia mais merecedora de asco e repulsa: o nacional-socialiamo, vulgo n@zism*. A época era propicia para atos maquiavélicos, não só dos seguidores dessa verdadeira seita política, mas também dos líderes aliados, que viam-se obrigados a empregarem astúcia, estratégia e sangue frio para planos nem sempre heroicos, mas necessários para a vitória. Sem esquecer dos crimes na então União Soviética, onde o comunismo exibia a sua face mais cruel, sob a forma da tirania de Stalin, e mesmo os cometidos pelos americanos, franceses (incluindo a a Resistance) e britânicos, tidos como os "mocinhos" da Grande Guerra.

Tal tema exigiria algo diferente do senso comum, pois soaria como algo ruim do passado, quando o assunto precisa ser tratado como um lição para todos nós. 

Também não pode ser tratada com leviandade a preocupação com o futuro da humanidade, e o crescente movimento para um "despertar da consciência", defendido também por influenciados sérios, não só por aqueles vistos como excêntricos e malucos. Isso precisa eer abordado em breve.

Outras pautas diferentes virão, e serão necessárias para este blog fazer jus ao nome.

sexta-feira, 13 de junho de 2025

O que seria mais letal para a humanidade?

Não é mais uma enquete, mas uma reflexão breve. 

Estamos vendo um ataque sem precedentes entre duas potências regionais, cujo poderio militar não é totalmente revelado para o mundo. Israel e Irã guardam muitos segredos, por receio de uma reação capaz de destruir un ao outro, levando países terceiros junto. Os dois possuem conhecimentos e tecnologias, mas não revelam todo o seu potencial. É mais fácil avaliar o poderio de Israel, a única democracia da região, devido à sua transparência bem maior (embora opaca demais para os padrões ocidentais), mas o Irã, tiranizado pelos aiatolás, tem cartas demais escondidas nas mangas destes e de seu pessoal atuante nas usinas de fissão nuclear e nas casamatas. 

Vale menos avaliar as razões pelas quais esta troca de mísseis começou, e ela está apenas no começo. É mais valioso o resto do mundo se preparar e agir, para impedir a escalada, ou muitos inocentes morrerão, o comércio marítimo ficará terrivelmente arriscado e a energia necessária para mover o mundo, vinda em boa parte dos derivados de petróleo e gás natural, ficará ainda imais cara. 

No entanto, não é só o uso do poder militar inimigo um fator de ruína de uma civilização. É a estupidez de seu povo. No Palazzo Maffei em Verona, um homem se desequilibra ao fingir se sentar numa das obras de arte para uma foto. Ele cai e destroi o objeto, uma valiosa cadeira de cristais feita por Nicola Bolla, inspirada na pintura de Van Gogh. 

Em um museu de Verona, homem viralizou nas redes sociais ao quebrar uma cadeira de cristais (Reprodução)

Pode parecer engraçado, uma trapalhada qualquer, mas é uma amostra de como um ser humano tem a capacidade de causar prejuízo imenso, aos outros e a si próprio. A tendência é relevar o fato, pois a cadeira foi restaurada. Mas o custo disso foi alto. 

O historiador Carlo Cipolla, já tratado neste blog em um artigo, considerava tais tipos mais perigosos do que os canalhas, por serem mais numerosos e ainda mais difíceis de controlar por meio de leis e normas (muitas das quais, ao tentarem penalizar esses indivíduos, se tornam tão idiotizadas e inúteis quanto os seus alvos). Nelson Rodrigues, também citado algumas vezes aqui, preocupava-se com a quantidade de lorpas e entrevados mentais, cujos atos menos danosos é depauperar os recursos para poderem sobreviver, sem uma contrapartida. E inúmeros outros estudiosos apontam a estupidez como a causa da decadência das civilizações, e um exemplo repetido à exaustão é a política do "pão e circo" no poderoso Império Romano, poucos séculos antes de sua total destruição. Não foram os governantes fanáticos e sanguinários os maiores responsáveis, e sim a imensa massa de gente privada de sua capacidade de fazer algo útil. Para piorar, até mesmo o restante da população, supostamente mais esclarecida, não está isenta de cometer atos imbecis. 

Nossa atual civilização deve ficar atenta não só aos governantes, mas a muitos desgovernados por natureza. 


N. do A.: A tragédia dos mísseis e a comédia da cadeira de cristal quebrada aconteceram na sexta-feira 13. Não se pode atribuir nenhum desses casos ao azar. Será que o planeta Terra é que teria azar em abrigar uma espécie tão capaz de criar problemas sem saber resolvê-los decentemente?

sexta-feira, 7 de março de 2025

Gurdjieff além do eneagrama

George Gurdjieff (1872?-1949) foi um místico e estudioso armênio de origem grega, mais conhecido pelo seu método de avaliação de personalidade chamado "eneagrama", o qual foi exposto AQUI. O eneagrama é uma figura em forma de estrela de nove pontas, cada uma representando um tipo de personalidade, inscrita em uma circunferência indicando as ligações entre uma ponta e a vizinha. A figura é dividida em três regiões, onde predominam a emoção (pontas 2, 3 e 4), a mente (5, 6 e 7) e o instinto ou ação motora (8, 9 e 1).

George Gurjieff era conhecido também por "Mestre G" por seus seguidores

Gurdjieff considera estas três regiões como os "cérebros", interligados entre si, e cujo equilíbrio entre eles é necessário para o desenvolvimento da consciência e o autoconhecimento. Essas ideias foram desenvolvidas a partir de filosofias orientais, que também influenciaram mentes como Schopenhauer (1788-1860), Nietzsche (1844-1900) e Schrödinger (1887-1961). 

A finalidade dos ensinamentos de Gurdjieff, transmitidos por Piotr D. Ouspensky (1878-1947) na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos, é a libertação do homem e seu despertar, pois a maioria dos seres humanos está adormecida, condicionada a movimentos e ações automatizadas, como se estivessem agindo como máquinas. Isso os torna escravos, sem a necessidade de grilhões, suscetíveis à manipulação e à opressão. Ele viveu numa época onde a humanidade estava abolindo a escravidão (o Brasil foi o último país a fazê-lo) e desenvolvendo sistemas de governo regidas pela economia (capitalismo e comunismo) e pela política (democracia, totalitarismo fascista/nazista/bolchevista). As regras formuladas por esses sistemas tendem a ser mais restritivas, afastando as pessoas delas próprias em nome do coletivo. 

Para a libertação e o despertar da consciência, deve-se equilibrar razão, emoção e instinto, e trilhar o chamado "quarto caminho", por onde será possível curar-se de traumas sofridos no passado, melhorar o condicionamento físico, ter mais clareza de raciocínio e conectar-se com o Universo. Este é o título do principal livro de Ouspensky, que chamava seu mestre simplesmente de "G". 

terça-feira, 5 de março de 2024

A destruição como pauta

Estamos numa era de angústias e incertezas, onde com mais frequência se discute sobre apocalipse, fim de mundo, desastres globais, teorias conspiratórias misturando extraterrestres e escatologia, e uma sensação de impotência insuportável. 

Temos a angústia a tomar conta das mentes, imaginando o vir a ser. 

Será necessário relembrar a importância do agora, para as nossas vidas? Pois se houver uma destruição a nível planetário, teremos como controlar as circunstâncias a fim de fazermos parte dos sobreviventes? 

Amparados na nossa era tecnológica, muitos imaginam algo capaz de destruir o conforto dos videogames, computadores e celulares, como uma tempestade solar a afetar os satélites e as comunicações. 

Por outro lado, há exceções, baseadas em conceitos filosóficos como o estoicismo e religiosos como a imortalidade da alma. Também há quem se apoie na ideia de uma transformação de uma era marcada pelo materialismo e cobiça para outra mais espiritualizada. Para haver essa transformação, muitas mudanças devem ser feitas dentro e fora da Terra, de acordo com os propagadores dessas ideias. 

Tudo isso está regado com a sensação de que não se fala a verdade, apenas "narrativas", misturando fatos pontuais amarrados com suposições, invenções ou conceitos errôneos, de forma intencional ou não. Assim, governos e a grande mídia, por exemplo, deturpam as informações, como forma de manterem o controle sobre o povo, acusados de manipularem o medo coletivo, ora escondendo a verdade para não assustarem, ou fomentando o pânico com rumores e boatos. 

E não faltam os influenciadores das mídias sociais induzindo seus seguidores a fazerem A e não B para respaldarem seus pontos de vista. 

Nesses tempos onde o medo do futuro, parece mais sensato "cuidar do nosso jardim", para não enlouquecer de tanto sofrimento, esperando catástrofes futuras, ainda no terreno das probabilidades. Pois estamos, a princípio, não destruindo, mas construindo nossas vidas. 

sábado, 30 de setembro de 2023

O que veremos no final de 2023?

 2023 parece, a muitos, um pesadelo cheio de acontecimentos ruins. Felizmente, estamos nos aproximando dos três meses finais, onde vários daqueles que estão sofrendo com os infortúnios e ainda precisam aguentar a enxurrada de notícias ruins vislumbram tempos melhores. 

Há quem tem esperança por acontecimentos maravilhosos, capazes de repercutir a longo prazo para o benefício da espécie humana, mas, por outro lado, não falta gente a temer por uma guerra mundial ou por um desastre natural ou mesmo cósmico de proporções nunca vistas na História da humanidade. Em todos esses casos, é um exercício de futurologia ou imaginação do "vir a ser". 

Fala-se de um Brasil tomando rumos por aqui e por ali, de mais passos para a humanidade se tornar predominantemente formada por cyborgs, como chegou a falar o bilionário Elon Musk, ou de uma nova pandemia viral, ou de novos acontecimentos ligados à construção de uma "nova ordem". 

Esses fatos imaginados, vistos como parte de um suposto futuro, não existem, a não ser que eles aconteçam de fato e, portanto, se tornem parte do presente. No máximo, podem ser projetados em função de vários fatores, x, y ou z, e muitos deles ou são ignorados, ou não estão no controle de quem os estuda. 

Cada um pode, no máximo, controlar aspectos de suas vidas onde isso é possível, e se preparar para eventuais cenários. Ao mesmo tempo, precisam viver, e garantir os meios para isso. E apenas o presente pode ser vivido, não o futuro. 

quarta-feira, 30 de agosto de 2023

Um ensaio sobre pensamentos e benefícios

Recentemente este blog escreveu a respeito das quatro categorias de pessoas segundo Carlo Cipolla (1922-2000), historiador italiano: os criminosos, os estúpidos, os incautos e os inteligentes. Esses grupos foram classificados em termos de benefícios a si próprios e aos outros. Assim: 

- Criminosos lesam os outros em benefício próprio; 
- Incautos: geram benefícios aos outros em prejuízo próprio; 
- Inteligentes: geram benefícios aos outros e também se beneficiam; 
- Estúpidos: lesam os outros e a si próprios. 

Assim, poderíamos enquadrar as diversas matizes dos pensamentos políticos e econômicos. Tendo como parâmetros o bem estar e as liberdades individuais e coletivas como benefícios a serem desfrutados pelos cidadãos, podemos destacar algumas dessas linhas de pensamento. 

Para os defensores do capitalismo, a liberdade econômica para os negócios é um benefício para ser desfrutado. Os capitalistas transformam bens que serão comercializados para os demais, e estes eventualmente fornecem mão-de-obra para ser absorvida pelas empresas. Essa geração e comercialização de valores acaba gerando riqueza e benefícios para todos. Os donos do capital, assim, agem de forma inteligente, assim como os clientes e fornecedores, enquanto a mão de obra poderia ser considerada crédula neste caso, mas também se beneficiando no caso de agirem ativamente pelo bem da empresa, sendo recompensados com promoções e reconhecimento. Os críticos do capitalismo, notadamente os defensores do comunismo, criticam o capitalismo como concentrador de riquezas nas mãos de poucos, ou seja, uns se beneficiando à custa de outros. Os capitalistas seriam criminosos, enquanto o resto da sociedade faz o papel da parte lesada e explorada. 

Então, segundo os defensores do comunismo, os meios de produção concentrados nas mãos do Estado são benéficos para controlar as desigualdades econômicas. O Estado seria o regulador das necessidades das pessoas, distribuindo serviços e produtos, até ser considerado desnecessário com o tempo graças à educação e a conscientização dos cidadãos. A liberdade econômica é restrita para coibir a exploração dos trabalhadores, que se tornam colaboradores de toda uma coletividade. Também há restrições em certas liberdades individuais em favor das liberdades coletivas, e a pessoa abre mão de certas prorrogativas em prol de seu grupo no qual pertence. Críticos do comunismo apontam as falhas do sistema, considerando o Estado como suscetível a abusar do poder concedido aos cidadãos, suprimindo as liberdades e apossando-se das riquezas. Além disso, por ser geralmente um mau gestor, não gera riquezas suficientes para a população. Assim, o Estado comunista se torna um criminoso, lesando seu povo. 

Não se deve considerar o comunismo como sinônimo de totalitarismo, onde há a figura de um dirigente e seu círculo de poder para imporem uma ideologia oficial à sociedade, embora a maior parte dos regimes comunistas sejam, na prática, totalitários. Na verdade, existem estados considerados capitalistas e totalitários ao mesmo tempo, como a Itália fascista, a Alemanha nazista e a Espanha franquista. Neste caso, seria mais conveniente faar em autoritarismo, pois nem sempre há uma linha de pensamento político definida. No autoritarismo, os governantes consideram as pessoas como intrinsicamente inclinadas ao mal, lesando os outros em benefício próprio, caso não haja leis para regulamentar a vida delas. No totalitarismo, além disso, quem discordar da ideologia oficial é considerado nocivo à pátria. Para isso, essas formas antidemocráticas, chamadas pelo termo genérico de ditaduras, valem-se da repressão dos considerados criminosos, julgando favorecer a sociedade por meio da garantia da ordem e da paz. Críticos das ditaduras, os liberais criticam a falta de liberdades para os cidadãos, e consideram esta estrutura política como prejudizial a todos em benefício de poucos, os governantes e seus associados. 

Já no caso do liberalismo, a liberdade é um benefício, e os governantes, ao garantirem o direito das pessoas de fazerem algo que elas julgam ser mais conveniente, são inteligentes quando, por sua vez, conseguem obter a espontânea colaboração de seus governados para garantirem a ordem e a paz, com base em uma legislação justa e equilibrada. Críticos do liberalismo apontam a permissividade, principalmente quando os dirigentes são fracos e se deixam explorar por grupos de interesse, sendo frequentemente lesados em benefício deles. Ou então uma legislação excessivamente branda pode favorecer políticos corruptos, dispostos a enriquecer à custa da população. É mais frequente os países liberais serem capitalistas, onde não há tantas regras a serem seguidas como no caso dos países comunistas. 

Em todos estes casos, só foram abordados, mais ou menos, os criminosos, os incautos e os inteligentes. Já a estupidez é um veneno para qualquer sistema político ou econômico. 

No caso do capitalismo, os estúpidos representados por gestores, trabalhadores, fornecedores ou clientes ineptos acabam sendo postos à margem, embora quando a estupidez é muito difundida, ela representaria a falência da sociedade, presa fácil das nações inimigas ou daquelas mais hábeis nos negócios. 

No comunismo, a má gestão dos dirigentes leva ao empobrecimento geral da sociedade, alimentando o descontentamento. Quando um dirigente se mostra incapaz, ele se torna rapidamente impopular, e está sujeito a ser alvo de ataques, quando não tem capacidade suficiente para usar a repressão ou a influência política. Da mesma forma, quando uma boa parte das pessoas não é capaz de beneficiar as outras pelo trabalho ou pelas boas ideias, ela condena todos à pobreza. 

Da mesma forma, o autoritarismo e o totalitarismo podem representar a ruína geral quando os dirigentes se mostram incompetentes, levando a uma situação de revolta, empobrecimento e violência, contornadas ora com um nível de repressão suficientemente alto ou com a queda do regime. De qualquer forma, governantes ou pessoas estúpidas neste meio são um perigo à estrutura da nação. 

Os países onde o liberalismo impera também estão suscetíveis aos idiotas, principalmente quando eles estão no poder, levando a uma sensação de anarquia e falta de controle. Não é preciso repetir o que uma sociedade onde o número de pessoas com pouca inteligência pode fazer em termos de prejudicar uma nação. 

quinta-feira, 29 de junho de 2023

Por que cultuar coisas antigas

Apesar de toda a tecnologia, ainda nos lembramos de elementos do passado. Gostamos de carros, trens, ônibus, ambientes, objetos, filmes, animações, músicas antigas, a despeito de tudo o que é produzido de mais moderno, com recursos mais sofisticados. 

Isso também vale para pensamentos e ideias, vistos pelos "progressistas" como ultrapassados e obsoletos. 

Por que gostar do antigo? Tome-se um exemplo. Os carros modernos são mais econômicos e contam com mais tecnologia e itens de conforto, embora sejam muito "iguais" uns em relação aos outros. Por outro lado, fala-se muito em "alma" ou de uma "personalidade" de um veículo, como se ele fosse um ser vivo - o que ele não é, pois depende de um condutor para funcionar. É difícil não simpatizar com o Fusca, apesar de seus defeitos, seu motor barulhento e pouco potente, seu desconforto ao rodar, em comparação a um dos seus "sucessores" na Volkswagen, o Golf. Por outro lado, não há nada parecido com o velho "besouro", em termos de formas, popularidade e "carisma", nem mesmo as tentativas de recriá-lo (as novas gerações ou "New Beetle"). 

Outro exemplo está nas produções do cinema. Antigamente tudo era mais limitado, dependendo dos recursos dos atores e dos diretores. Agora isso é facilitado pelo uso de efeitos especiais e verbas bem mais generosas. Por que os filmes do século passado ainda são tão cultuados, enquanto muitos desprezam as produções atuais, consideradas como "porcarias", onde o enredo é atropelado pela computação gráfica. Antes, as produções conseguiam entreter e causar emoções fortes nos espectadores sem gastar milhões, e agora parece haver um esforço maior para conseguir manter o público nas salas. Aliás, elas estão mais concentradas nos shopping centers, um cenário bem diferente das salas dedicadas em prédios e nos estacionamentos drive in. 

Muito se tem pensado a respeito e as discussões sobre o assunto prometem continuar enquanto existir a humanidade. Será o gosto pela infância, quando tudo era diferente de agora? Ou a insatisfação com o moderno, considerado falho e incapaz de resolver certos problemas como se fazia antigamente? 

É sempre bom aprender com as técnicas e pensamentos dos antigos, embora não seja salutar se apegar a eles. Tampouco é prudente desprezar o "velho" em favor do "novo", pensando no futuro como se ele fosse uma época superior para destruir a "obsolescência" e a "imperfeição". Vivemos no presente, usando o passado como referência para a construção do futuro. 

segunda-feira, 27 de março de 2023

DEIXAI TODA A ESPERANÇA, VÓS QUE ENTRAIS!

Parafraseando Dante Alighieri, na entrada do inferno, parece que entramos há tempos numa época de horrores, onde as pessoas ficam condicionadas a ficarem aterrorizadas e com uma sensação horrível de impotência. Esta época é o século XXI. 

Também poderemos fazer alusão a quem se aventura a ler os portais de notícias da Internet em um começo de semana, lendo coisas como o ataque às escolas em São Paulo e em Nashville, no estado americano do Tennessee. É preciso deixar bem claro que vivenciar essas barbáries é muito pior do que simplesmente lê-las. Aceitar isso como normal é sinal de uma mente moralmente deteriorada. Punir os culpados e evitar tragédias como essas é um dever para as autoridades e para nós, cidadãos!

Ilustração encontrada numa edição de 1477 de A Divina Comédia, de Dante, escrita no século anterior (século XIV)

Aliás, será que esta frase sinistra pode ser aplicada a quem começa a nascer, ou, metaforicamente, entrar nesta vida aqui no Brasil? Há tempos se fala em um país do futuro, onde não se faz o bastante para garantí-lo. Estamos governados por quem não tem apreço à lei, e estimula a perder tempo com ninharias como culpar Paulo Freire pela falência educacional de um lado, e querer debater linguagem neutra de outro. Quem quer se dar bem por aqui, dizem, precisa entrar em diversos grupos como a política ou o crime organizado, onde também vale a máxima imortalizada por Dante. 

Os pessimistas podem dizer por aí que veremos esta frase ao deixarmos este mundo no Apocalipse, quando alguém tiver a coragem de apertar um botão, um asteróide cair por aqui ou uma tempestade eletromagnética vinda de algum ponto da galáxia envolver todo este planetinha. Aí já não se pode ter tanta certeza, pois isso é um dos vários cenários especulativos referentes à escatologia. 

Já os otimistas considerariam tudo isso um apanhado de bobagens, pois sempre há espaço para a esperança, mesmo em tempos difíceis como os atuais, com tantas tragédias e notícias ruins. Valeria a pena esperar por dias melhores, quando não tivermos mais professoras ou crianças sendo esfaqueadas em nenhum lugar, muito menos em escolas. 

O tempo há de mostrar quem estará certo. 

quinta-feira, 16 de março de 2023

Pensamento estoico em alta

Encarando notícias terríveis como a crise no Credit Suisse logo em seguida à falência de dois bancos importantes americanos, e uma possível bancarrota em todo o setor bancário mundial, quem acompanha as notícias econômicas está impelido a se desesperar. 

Isto é um erro, segundo o pensamento estoico, formulado pelo filósofo grego Zenão de Kiteus no século III a.C. e cujos principais representantes eram o pensador Sêneca e o imperador Marco Aurélio, ambos representantes do Império Romano. Para os estoicos, é necessário agir com acontecimentos passíveis de serem controlados pela pessoa, deixando de se preocupar com fatos não controláveis. Para a pessoa alcançar a plenitude da vida, é necessário desapegar-se de relações familiares ou de amizade, bens terrenos e convicções. Isso não significa abandonar tudo, e sim estar ciente de sua finitude, de ser algo não passível de acontecer, existir e ficar imutável apenas por nossa vontade. 

Os estoicos assimilaram os conceitos de Aristóteles sobre ética e valores morais, que devem ser cultivados, e eram críticos do idealismo platônico. É preciso enfrentar os desafios da vida usando-se de quatro valores fundamentais: sabedoria, coragem, temperança e justiça. Estas ferramentas permitem usufruir de oportunidades, encarar os perigos e transformar contrariedades em aprendizado. 

Pensadores brasileiros modernos como Luiz Felipe Pondé e Leandro Karnal abordaram o estoicismo recentemente, enquanto livros como A vida dos estoicos, de Ryan Holiday, explica como podemos utilizar a filosofia estoica para nossas atividades. 



quinta-feira, 9 de junho de 2022

Anglicismos

A intelectualidade brasileira sempre acusa o povo de se sujeitar demais aos termos em inglês, elaborando teses sobre a nossa suposta pobreza vernacular, a desvalorização da língua pátria, a ignorância, a subserviência a culturas mais avançadas tecnologicamente ou ao viralatismo (aludindo ao "complexo de vira-lata" do Nelson Rodrigues). 

Antes, usavam-se termos ingleses para substituir os franceses, após a ascensão dos Estados Unidos como grande potência, no começo do século passado. Deixou de ser tão chic usar o galicismo como no século XIX. O uso de termos como "futebol" (de football), cowboy (ao invés de vaqueiro), "checagem" (de check), "carro" (de car, no lugar de automóvel), shampoo, entre outras palavras, vem de décadas. 

Depois, com a globalização e o uso da internet, houve maior emprego de palavras em inglês, pois o mundo dos negócios (business) e para o virtual, este é praticamente o idioma oficial. Ninguém fala sobre ratos na mesa, tempestade de ideias para fazer um projeto render ou paradas para o café durante o trabalho. Usa-se mouse, brainstorming e coffee-break. 

A pandemia de COVID-19 (outro termo originário do inglês) popularizou termos como home office, delivery, "testagem" e lockdown. Como o número de mortes está diminuindo, também não é tão comum ler essas palavras, mas teme-se a volta das práticas relacionadas a elas, caso houver uma nova variante do vírus que já matou gente demais no mundo. 

Modernamente, com a disseminação do "politicamente correto", os antigos críticos do chamado imperialismo "ianque" (de yankee) estão usando termos como "stalkear", bullying, woke, cringe, gaslighting, fake news, "trolagem" (de troll), para denunciar o racismo, o machismo, a perseguição contra grupos considerados oprimidos, o mau comportamento nas redes sociais, e por aí vai. Chega-se ao exagero de adotar comportamentos intolerantes e extremistas, a pretexto de combater a... intolerância e o extremismo. 

Não vai adiantar levantar velhas bandeiras ufanistas ou denunciar o Tio Sam como uma espécie de demônio escravizador. O uso de palavras e termos modistas em inglês reflete a necessidade de se expressar para determinadas pessoas, principalmente nos grupos dentro dos quais os indivíduos convivem. Como tudo nesta vida, é necessário bom senso para empregar tais palavras, principalmente em provas, avaliações e concursos. OK?


sexta-feira, 20 de maio de 2022

Pontos de vista

A respeito da visita de Elon Musk ao Brasil. 

Oposição a Bolsonaro (inclui a maior parte da imprensa): Elon Musk veio apenas para negócios e vai receber informações privilegiadas do governo brasileiro para expansão da SpaceX e da Starlink, sob pretexto de usar tecnologia para vigiar a Amazônia, que bate recordes em desmatamento. A visita guarda muitos segredos. 

Socialistas (parte mais radical do grupo acima): O sul-africano quer ganhar mais dinheiro, e os US$ 44 bilhões gastos na compra do Twitter serviriam para aliviar a fome no mundo. Além disso, ele é um negacionista que não acredita nas medidas contra o coronavírus. 

Bolsonaristas: A visita de Musk serve para mostrar que o Brasil não está isolado do mundo e não é um pária internacional, e ele irá saber da verdade sobre a Amazônia. Será uma oportunidade para o homem mais rico do mundo investir no Brasil, o mesmo que vai tornar o Twitter uma rede social para exercer a liberdade de expressão. 

O presidente brasileiro Jair Bolsonaro com o magnata Elon Musk durante o evento Conecta Amazônia. Comemore, ou receie, dependendo de sua ideologia política (Reprodução/Twitter)

Consumidores de revistas de fofocas: A visita ao Brasil serve como cortina de fumaça para encobrir as acusações de assédio sexual a uma funcionária da SpaceX. 

Teorico da conspiração (a favor de Musk): Musk e Bolsonaro estão fazendo negócios e vão unir forças para o Brasil integrar uma grande reação conservadora contra a ameaça globalista movida pelos seguidores de Marx, Gramsci, Adorno e outros vermelhos. 

Teórico da conspiração (contra Musk): O bilionário é um alienígena reptiliano e/ou possui recursos de sobra para manipular o mundo inteiro, e sua rede de negócios expande seus tentáculos para o Brasil. Ele faz parte de uma elite Illuminati que controla o dinheiro e o poder, e suas divergências com os globalistas é mero teatro. 

terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

Para pensar sobre os limites da liberdade de expressão

Nossa Constituição assegura a liberdade de expressão, de acordo com o artigo 5, inciso IV, da Constituição: 

IV - É livre a manifestação de pensamento, sendo vedado o anonimato

Por isso, enquanto não se revoga esta Carta por meio de uma Assembleia Constituinte, o direito de opinar sobre algo, mesmo sem um conhecimento prévio do assunto, é assegurado. 

Muitos querem calar quem, por exemplo, fala sobre supostos perigos das vacinas contra a COVID-19, taxando-os com termos genéricos como "negacionista", insulto dirigido, antes desta pandemia, a quem nega o Holocausto infligido pelo governo nazista de Adolf Htiler para exterminar os judeus. O uso de palavras-chave para criticar acaba não ajudando a desmascarar a estupidez dos alvos, mas pode revelar as limitações na capacidade de argumentação do crítico. 

Por falar em Holocausto, veio à tona uma discussão acerca do Flow Podcast e do youtuber Bruno Aiub, o Monark, que, ontem, se manifestou durante debate entre os deputados Kim Kataguiri (DEM-SP) e Tábata Amaral (PDT-SP), e fez observações sobre a proibição do nazismo, chamado por ele de "direita radical", enquanto a "esquerda radical" (o comunismo) tem atividades consideradas legais no Brasil. Ele teria defendido o direito de ser "anti-judeu". Mais tarde, ele tentou se retratar, mas foi inútil: Monark foi obrigado a abandonar o Flow Podcast após o Sportsbet e o Insider suspenderem o patrocínio a esta empresa de mídia digital. 

Aqui no Brasil poucos se atreveram a ir tão longe na defesa da ideologia de Hitler, quando há farta documentação e provas a respeito de sua devastadora atividade criminosa. 

Em boa parte do mundo civilizado, inclusive na Alemanha, os partidos nazistas estão fora da lei, embora não os neofascistas, declaradamente xenófobos e defensores de uma pretensa "superioridade racial" (pois, ao contrário do Brasil, alguns países não proíbem o racismo). O nazismo defendia abertamente o extermínio de minorias étnicas e foi responsável por milhões de mortes e pela eclosão da II Guerra Mundial. Além disso, trata-se de um regime onde as vozes discordantes eram silenciadas. 

Por outro lado, não se pode negar que as ditaduras comunistas também mataram milhões e igualmente calavam os críticos à força, mas os partidos comunistas não têm sua existência proibida, e muito menos gente critica quem defenda Cuba ou Venezuela, velhos fantasmas apregoados por quem tem sincero horror ao comunismo, mesmo com a constatação segundo a qual o Brasil, sendo muito maior e bem mais complexo do que esses países, não decairia tão facilmente a um estado de ruína como os países citados. 

Isso porque os partidos comunistas moldaram-se às exigências da lei e não pregam explicitamente a destruição do inimigo, enquanto os nazistas, via de regra, são mais intransigentes na adoção de métodos violentos e antidemocráticos. 

Por fim, nossa Constituição deixa clara que existem vários tipos de liberdades, e estas devem coexistir, impedindo que o mau uso de uma prejudique as demais. 

sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

O avanço da mídia conservadora

O Brasil possui vários veículos de imprensa, sendo a maioria defensora das ideias liberais, do capitalismo e da democracia. Esta tendência começou a firmar-se durante a abertura política (a partir de 1979), no fim do regime militar, quando muitos se cansavam do autoritarismo vigente, mas ao mesmo tempo constatavam o atraso do Brasil, frente aos países mais avançados na América do Norte e na Europa, e às economias em rápido crescimento na Ásia. Vivíamos num país fechado, com terrível desvalorização no poder de compra, desejoso de ter mais liberdades públicas e direitos fundamentais como o de votar em seus representantes. 

Com os governos seguintes, o Brasil conseguiu a democracia, e a abertura econômica, culminando no Plano Real, que domou a hiperinflação. A imprensa foi favorável a este status quo, embora estivesse atenta aos desmandos dos governantes, principalmente Fernando Collor, punido por corrupção. 

Mais tarde, durante os governos do PT (Lula e Dilma), as ideias moderadas perderam espaço. De um lado, as mídias autoproclamadas "independentes", mas alinhadas ideologicamente com a situação, e favoráveis às ideias consideradas "progressistas". Por outro lado, a mídia tradicional voltou a ter uma postura mais combativa, após a constatação das várias falcatruas cometidas por setores do governo, com a conivência oficial, principalmente o Petrolão, um dos maiores escândalos de corrupção da História recente. 

Muitos não estavam contentes com a abordagem da grande imprensa, considerada conivente com o petismo devido aos avanços sociais, obtidos à custa da roubalheira e do populismo, segundo a visão destes críticos. Os conservadores, defensores dos valores religiosos e contrários aos que consideravam excessos, como o aborto, a liberação no consumo de drogas e a divulgação de costumes homossexuais, estavam até então marginalizados, embora sejam uma parcela importante da população brasileira. Eles ganharam força como uma oposição mais convicta ao petismo, exigindo moralidade e respeito aos valores consagrados ao longo de séculos. Apoiaram fervorosamente a Operação Lava Jato e, depois, a candidatura de Jair Bolsonaro, visto como um defensor do tradicionalismo, apesar de seu passado como capitão rebelde do Exército. 

Esta tendência não surgiu sem motivo, pois parte expressiva da população se incomodou com a rápida mudança nos costumes em poucas décadas (a partir dos anos 1950) e a desvalorização de noções arraigadas como o pátrio poder e a desigualdade como fator inerente à natureza. Eles também estão cansados das políticas de segurança adotados pelos governos, considerados frouxos contra a criminalidade, e sempre foram menos tolerantes com desvios de conduta, querendo punições severas ou até a pena de morte para casos graves como estupro ou homicídio. Esta parcela não tinha apoio dos meios de comunicação, que defendiam as inovações e, em maior ou menor grau, desvalorizavam aspectos como a religião, ridicularizavam a falta de cultura (boa parte da sociedade não tinha e ainda não tem acesso adequado à educação) e comparavam os tradicionalistas (de forma generalizada) com os fascistas do passado. 

Com a ascensão de Donald Trump em 2016, os grupos conservadores ganharam ainda mais alento, e passou-se a fazer críticas mais abertas ao "politicamente correto", visto como costume progressista e fomentador do vitimismo de alguns grupos sociais que se consideram marginalizados. Alguns, mais radicais, fizeram a associação do "politicamente correto" com supostas campanhas dos "progressistas" para destruírem os valores tradicionais e tentarem novas formas de implantar o socialismo, submetendo os cidadãos a um governo totalitário e implementador de um falso regime de igualdade, em detrimento da liberdade. 

A eleição de Jair Bolsonaro foi ainda mais favorável à "direita" defensora do liberalismo econômico clássico combinado com o tradicionalismo cultural e social, e mesmo à "extrema-direita" defensora de atos violentos para consertar os estragos feitos pelo petismo (reais ou não). Veículos de imprensa assumiram-se claramente conservadores, como o jornal Gazeta do Povo e a rádio Jovem Pan. Surgiram revistas como a Oeste. Blogs e espaços na Internet tornaram-se mais populares, como o Brasil Paralelo. Mais jornalistas assumiram-se defensores da tradição e passaram a se expressar mais claramente neste sentido, sem medo de serem apontados como "reacionários", "golpistas" ou "(neo)fascistas" pelos colegas, como acontecia na época de Lula ou Dilma. Alguns até mostraram admiração por polemistas como o recém falecido Olavo de Carvalho, ou radicais como Steve Bannon, defensores de uma ruptura contra os sistemas políticos, para eles infestados de burocratas. 

A revista Oeste é porta-voz do conservadorismo, destoando do teor liberal ou progressista das concorrentes (Divulgação/Revista Oeste)

Atualmente, estes veículos tendem a apontar a pandemia como uma manobra dos adeptos do regime chinês, muito admirado como exemplo de pujança econômica e combate à miséria, mas criticado pela ausência de liberdade e pelo dirigismo sobre o cotidiano das pessoas. Os lockdowns adotados em países da Europa e a palavra-chave "Fique em casa" são vistos como uma tentativa de fazer as pessoas abrirem mão de sua liberdade e obedecerem às imposições estatais, tal como ocorre dentro da ditadura chinesa. Acham exagerados os temores contra o coronavírus, principalmente a variante ômicron, cuja taxa de letalidade está se revelando menor em relação às das outras cepas. Chega-se ao ponto de ignorar o perigo deste parasita, ou mesmo defender o "direito de morrer exercendo sua liberdade". 

Não há nada a fazer contra a divulgação de tais pensamentos, porque as leis garantem plena liberdade de expressão. A defesa dos "cancelamentos" e dos fechamentos de contas por parte das mídias sociais ferem o espírito democrático e alimentam as acusações de totalitarismo, ainda mais porque os defensores do marxismo ou mesmo do terror como forma de "combate à opressão" não sofrem tantas retaliações. E a tendência é pela consolidação das vozes "anti-progressistas", ainda mais quando a pandemia terminar. 

É saudável um ambiente com vários pontos de vista e debates entre ideologias diferentes, desde que estejam dentro dos limites impostos pela Constituição. 

segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

O Brasil parece uma enorme família disfuncional

Em psicologia, uma família disfuncional é aquela onde a relação entre pais e filhos é abusiva ou permissiva, gerando sequelas no desenvolvimento destes últimos, os quais se tornam adultos muitas vezes infelizes e pouco produtivos. 

Por aqui no Brasil são os raras as pessoas que não vivenciam casos assim. "Fulano bebe demais e bate na mulher", "Sicrano é um rapaz sem juízo, vive se drogando e dando problema para os pais", "Beltrana saiu de casa e abandonou os filhos", e por aí vai. 

Conflitos familiares são inevitáveis, mas quando são muito frequentes podem resultar em desastre

Essas famílias possuem uma dinâmica curiosa, onde um dos pais assume o papel do "mau patrão", o tirano, controlador e pronto para culpar todo mundo, menos ele próprio porque está "sempre certo", e o outro, menos assertivo, faz o papel do "facilitador", que assume as tarefas para a manutenção da harmonia no ambiente familiar. Os filhos podem fazer diferentes papéis. 

Um deles é o do "filho bonzinho", submisso aos pais ou substituto destes quando estão ausentes. Assumem seus trabalhos com seriedade, muitas vezes sobrecarregando-se. 

O outro é o "bode expiatório", apontado como a causa maior dos problemas, por seu comportamento contestador. Desafia o status quo e é visto como problemático, briguento, escandaloso, etc. 

Existe também o "ausente", cuja presença mal é notada. É um indivíduo isolado, quieto e aparentemente autossuficiente. 

Também há o papel do "manipulador", aquele mais esperto ou oportunista, tentando obter vantagens à custa dos irmãos ou dos pais. 

Por fim, os mais espirituosos, fazendo o papel do "palhaço", ou do "mascote", para alívio cômico dos outros membros da família. 

Muitos enxergam os brasileiros como filhos da pátria, mas, independente da boa ou má fé, omitem os papéis de milhões desses filhos, sejam eles os trabalhadores exemplares, os "maus brasileiros" que vivem afrontando a lei, os sujeitos abandonados que engrossam a "massa sem voz nem vez", os espertalhões adeptos da "lei de Gerson" e os comediantes dispostos a fazer de tudo motivo de riso. Parece um retrato mais ou menos fiel da nossa sociedade. 

Tentar resolver os problemas de uma família disfuncional é algo muitas vezes infrutífero, porque depende fundamentalmente dos atores envolvidos neste drama. Há a necessidade de cada um enxergar os problemas e estar consciente de seus papeis, algo necessário (mas não suficiente) para uma melhoria efetiva, por meio de ações conjuntas. Do mesmo modo, consertar um país como o nosso é algo inviável, sem a colaboração dos próprios brasileiros. Eles, e não os políticos, os milionários, os estrangeiros, os ETs ou os "salvadores da pátria", poderão encaminhar o Brasil para um futuro mais promissor.