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segunda-feira, 29 de junho de 2026

Projeto Quagga

Todos estão comentando a Copa do Mundo, principalmente os jogos do Brasil x Japão e Alemanha x Paraguai. Mas vou abordar um assunto diferente. Comento sobre os jogos no final do texto. 

Há muito tempo, existe um projeto de "desextinção" de uma espécie extinta. O projeto Quagga existe desde 1987 para reviver a zebra Quagga, uma espécie do sul do continente africano com listras "meio apagadas", desaparecida em 1883 por causa da caça e da perda de habitat. 

Os zoólogos envolvidos estão cruzando espécimes de zebras das planícies (Equus quagga), o animal mais próximo do quagga (Equus quagga quagga), gerando indivíduos com listras cada vez menos aparentes na parte traseira, ficando mais próximos do objetivo. Todavia, os animais mais recentes gerados ainda não podem ser classificados como quaggas propriamente ditos. 

Um dos indivíduos mais recentes gerados pelo projeto; o verdadeiro Quagga tinha listras menos evidentes e de cor marrom. 

Zebras raras assim lembram alguns jogos, como Alemanha e Paraguai pela Copa do Mundo. Depois de um tempo normal onde Enciso abriu o placar para os sul-americanos e Karl Havertz empatou, o jogo acabou nas penalidades. O próprio Havertz desperdiçou, assim como Woltemade e Tah. Pelo lado paraguaio, Sanabria e o conhecido Fabián Balbuena também perderam, mas os demais (Kimmich, Musiala e Amiri pela Alemanha; Maurício, Gustavo Gómez, Galarza e Canale pelo Paraguai) converteram. E o time alemão amarga mais um vexame, como foi em 2018 e 2022, tornando-se piada mundial após o infame 8/7. Na verdade, eles não convenceram nem quando bateram o infeliz time de Curaçao pelo famigerado placar de 7 a 1, o que só torna a equipe mais cômica. Deram razão ao ex-jogador inglês Gary Lineker, que os criticou, dizendo ser um dos times mais fracos já vistos por ele. Agora, a zebra paraguaia vai esperar França (provavelmente) ou Suécia. 

E quase houve outra zebra, antes, com o Japão abrindo o placar com Kaishu Sano, com falha de Danilo. Para piorar, Casemiro tomou outro cartão amarelo. Ele se redimiu fazendo o gol de empate no segundo tempo, mas não joga nas oitavas-de-final contra a Noruega ou a Costa do Marfim. Gabriel Martinelli virou o placar no finalzinho, salvando a reputação da Seleção. 


sexta-feira, 28 de novembro de 2025

Da série "Classificação dos animais", parte 5 - Os peixes ósseos

Este blog até tentou entender algo além do básico sobre a classificação dos peixes ósseos, mas decidiu não se aprofundar muito, mesmo porque isso é tarefa dos especialistas em peixe, os tais "ictiologistas". 

Para os leigos, saber que é o grupo com maior número de espécies entre os vertebrados importa pouco ou nada. Ainda mais porque existem duas classes de peixes com ossos: os Sarcopterygii e os Actinopterygii. 

Os primeiros são aqueles peixes estranhos chamados de "celacantos", ditos fósseis vivos por existirem desde antes dos dinossauros, e outros bichos meio diferentões, como os peixes pulmonados capazes de respirar fora da água de vez em quando. No passado, um sarcopterígio primitivo deu origem aos tetrápodes, ou seja, o grupo dos vertebrados terrestres, num período da Era Paleozóica chamado de Devoniano, há quase 400 milhões de anos. Muito, muito antes de haver qualquer mísero projeto de dinossauro pela Criação. 

Já os actinopterígios são um grupo de peixes "normais", sem qualquer pretensão de querer se aventurar em terra. É uma confusão de ordens e familias, piorada com os estudos recentes que reclassificaram tudo. Parece um emaranhado de quebra-cabeças de dezenas de milhares de peças que alguém supostamente mais entendido do assunto desmanchou quase tudo para fazer um novo arranjo. 

Para os leigos, é tudo peixe com aquele tal de ômega-3. Para os ictiologistas, são espécies muito diferentes com classificações totalmente diversas com base em critérios que eles entendem (e mais ninguém)

Quem estaria disposto a querer saber a respeito das diversas subclasses desses seres aquáticos? Existe uma subclasse com peixes dotados de esqueleto parcialmente ossificado, e são aqueles esturjões produtores do caviar apreciado pelos ricaços e pelos metidos a besta metidos a ricos. A outra reúne todas as outras espécies, com uns grupos confusos, ainda mais depois das reformulações deste século. 

Existe uma turma com os pirarucus e aruanãs, esses peixes pré-históricos que parecem ter um osso na língua, daí o nome "osteoglossiforme", ou criatura com língua ossificada. Outros têm umas larvas esquisitas, parecidas com pequenas folhas de árvores, incluindo as enguias, moréias, bichos estranhos das profundezas com bocas enormes (Eurypharynx) e alguns peixes com formato normal e sem parecerem cobras, os tarpons. Outro grupo reune as sardinhas e também as carpas, piranhas, peixes-elétricos e bagres. Ainda há mais um com salmões, trutas e uns peixes feiosos chamados de lúcio (se alguém for feio e tiver nome de Lúcio, corre o risco de ser comparado com essa coisa). E existe um grupo maior, os "acantomorpha", ou peixes com nadadeiras espinhosas, onde a confusão é ainda maior, reunindo bacalhaus, serpentes marinhas que anunciam o apocalipse peixes-remo e um gigantesco agrupamento de peixes muito parecidos entre si, os Percomorpha (em forma de perca, um peixe que só os europeus conhecem). Aí se reúnem blênios, atuns, cavalos-marinhos, peixes-de-briga, peixes-arqueiro, peixes-vacas, peixes-piloto (aqueles que gostam de ficar com os tubarões só para comer os restos que eles deixam), linguados, tilápias, peixes-palhaço, baiacus, garoupas, etc., etc. e etc. (e bota etc. nisso). 

Principalmente nessa última reunião de dezenas de ordens de peixes a confusão reina. Antes, era uma ordem gigante, a dos Perciformes (peixes ainda mais em formato daquela tal de perca) e outra menores. Agora, os Perciformes foram separados em várias ordens menores, classificados por critérios bem pouco acessíveis aos leigos, baseados no formato das larvas quase microscópicas, ou por estudos genéticos válidos num ano e considerados questionáveis noutro. E para dizer quem é quem? Realmente, só os ictiólogos dizem saber, e nem eles mesmo parecem ter certeza. 

Não estão incluidos entre os peixes ósseos os tubarões e as raias, a serem comentados em um próximo post da série. 

sexta-feira, 19 de setembro de 2025

Da série "Classificaçáo dos animais", parte 4 - Anfíbios

Os anfíbios, assim como os répteis, são uma classe de animais vertebrados bem pouco compreendida. Também são estudados pelos herpetólogos, apenas por serem considerados seres rastejantes.

Na verdade, os sapos, rãs, salamandras e outros bichos pegajosos não tem parentesco com os lagartos, crocodilos, cobras e tartarugas. Multo menos com as outras classes. Não existe outro grupo terrestre que precise da água para a reprodução, pois os ovos não possuem casca e precisam estar sempre hidratados. E destes ovos surgem as formas que lembram dos antepassados, os peixes. São os girinos, que sacolejam dentro das águas de lagos e rios e depois desenvolvem os membros, antes da cauda regredir (ou não, no caso das salamandras). Assim, surgem as formas juvenis terrestres que crescem depois se tornam as formas tão (pouco) queridas, não raro citadas como ingredientes de poções de bruxas. Por outro lado, sem esses feiosinhos, talvez haveria uma maior infestação de pragas, pois os alimentos básicos deles são os insetos. 

O sapo-cururu é um representante dos anfíbios, essa classe de animais bem pouco popular para quem estuda Zoologia (Divulgação)

Os anfíbios viventes pertencem a um único grupo chamado de Lissamphibia, existente antes dos dinossauros, provavelmente surgindo antes da grande extinção que marcava o início da Era Mesozóica, há 251 milhões de anos. Para os estudiosos desses animaizinhos feios mas importantes para o ecossistema, isto facilita bastante. 

Basicamente, um grupo permaneceu com a cauda durante a vida toda, os chamados Urodela, ou Caudata, onde estão as salamandras, os tritões e um bichinho simpático mas meio estranho, chamado de axolotl, que permanece com brânquias a vida toda. Ou seja, é como o Peter Pan ou certas pessoas principalmente nas gerações Y e Z: não se tornam adultos. 

Já o outro grupo, forçado pela evolução, passou a perder a cauda quando se tornam terrestres e a dar seus pulos, às vezes bem impressionantes considerando o tamanho em geral pequeno. Os Anura são os famosos sapos, rãs e pererecas, e muita gente os confunde. Os sapos geralmente ficam na família dos Bufonidae, tendo a pele cheia de verrugas e glândulas de veneno saltadas perto da boca. As pererecas ficam em outra família, os Hylidae, e possuem ventosas nas mãos e pés, para ficarem o tempo todo pendurados em algum galho. As rãs típicas ficam mais próximas da água, têm pele lisa e são da família Ranidae, e algumas delas são comidas, embora muita gente torça o nariz. 

Ainda existem uns animaizinhos esquisitos da ordem Gymnophiona, confundidos ora com minhocas gigantes, ora com as cobras-cegas dos sauveiros. Estes seres receberam o nome de "cecílias", como uma "homenagem" estranha à Santa Cecília, que era cega. Ai de quem se chamasse Cecília nos tempos do colégio. 

quarta-feira, 17 de setembro de 2025

Peixes abissais bonitinhos?

Os livros sobre biologia marinha parecem ter prazer em mostrar os peixes abissais como horríveis, verdadeiros monstros apavorantes, habitantes do inferno, criados por Satanás e não por Deus. Uns são cheios de dentes, outros possuem órgãos semelhantes a lanternas para iluminarem o ambiente (e revelarem sua feiúra), e alguns possuem bocas enormes maiores do que as próprias cabeças. Isso no caso dos peixes. Existem também alguns outros tipos de animais igualmente apavorantes, como as lulas gigantes de 10 m e as lulas-vampiras de 10 cm (mas assustam do mesmo jeito que as suas primas avantajadas). 

São comparáveis aos políticos (ainda mais agora) ou aos membros do STF, mas essas pobres criaturas não merecem isso. 

Em contraste com isso, existem alguns animais que não são feios de doer. Na Baía de Monterrey, na Baixa Califórnia, México, foram encontrados peixes-caracol a 4 mil metros de profundidade. Mas eles não psrecem ser criadas para apavorar ninguém. Os peixes-caracol, como a espécie abaixo Careproctus collicoli, foram considerados até "fofos". 

O Careproctus collocoli é um peixe das profundezas, mas não parece (Mbari)

Graciosos ou não, os peixes das profundezas são adaptados ao ambiente onde vivem, e precisam resistir às altíssimas pressões e à dificuldade para obter alimentos em meio a uma escuridão quase completa. 

quinta-feira, 3 de julho de 2025

Da série 'Classificação dos animais', parte 3 - Répteis

Ao contrário das classes anteriores de animais, aves e mamíferos, os répteis não despertam tanto interesse. Na verdade, eles são considerados seres rastejantes, escamosos, asquerosos, horrorosos, desprezíveis, amaldiçoados, etc., etc. Por isso, existe até uma fobia específica para este tipo de criatura, a tal da herpetofobia. 

Estas "coisas" também não são complicadas de se classificar, aparentemente, quanto as aves, com quem tem um laço em comum: os dinossauros deram origem a elas, embora muitos ainda não engulam essa. 

Contudo, vamos nos ater aos répteis atuais. Os únicos aparentados com os referidos dinos são os crocodilianos, como os crocodilos sempre mostrados como comedores de gente e dotados daquela técnica especial de lidar com suas presas, chamadas de "giro da morte". Eles são da família Crocodilidae, enquanto que os jacarés, bem menos poderosos, e os aligatores, estes também capazes de incluir um humano no cardápio, são os aligatoridae. Não há muito drama nessa classificação. Drama mesmo é se encontrar com essas verdadeiras feras, que se mantiveram mais ou menos parecidas desde o fim do Cretáceo, ou seja, quando os dinossauros ainda reinavam. Apesar de parecerem mais primitivos que os dinos, por andarem de rasto enquanto os outros eram, muitas vezes, bípedes e corredores, eles conseguiram de alguma forma se esconder enquanto o asteroide dava cabo de seus "aparentados" famosos. Na verdade, não tão aparentados assim, pois eles são do grupo dos Pseudosuchia, um nome bem esquisito, ainda mais porque, traduzindo, seria "falso crocodilo", uma contradição evidente. Enquanto isso, os dinos, seus "descendentes" penosos e bicudos, e os pterossauros, formavam outro grupo, os Avemetatarsalia. 

Lagartos e serpentes são os Squamata, ou escamados. As serpentes, os mais odiados de todos os répteis, por causa da má reputação vinda desde a Bíblia, ocupa apenas uma das subordens de escamados, dentro do grupo Toxicofera, ou os produtores (em potencial) de veneno. Segundo os herpetólogos, ou seja, os estudiosos de seres rastejantes, quanto mais evoluída a serpente, mais ela tende a ser peçonhanta, e as mais evoluídas estariam na família Viperidae, a das víboras, cascaveis, surucucus, jararacas, urutus e outros nomes empregados para xingar alguém. Mas em geral essas serpentes não querem saber de briga, e só dão o bote para se defender. E quando fazem isso, usam seus dentes muito eficientes, a tal da dentição solenóglifa, ou de dentes com canal, para injetar a peçonha. As najas e as corais (Elapidae) não têm um sistema tão eficiente, pois suas presas são pequenas, típicas da dentição proteróglifa, mas tentam compensar isso com veneno mais forte e letal; boa parte delas têm cabeça redonda, olhos grandes e cauda comprida, para mostrar o quanto algumas das velhas cartilhas são uma furada neste ponto, pois só consideram as cobras parecidas com as víboras europeias como perigosas. Cabeça triangular e olhos pequenos são características também das cobras mais primitivas, dentro das famílias Pythonidae (pítons, cobras capazes de crescer a mais de 10 m) e Boidae (as sucuris e as jibóias), todas sem veneno e dentes usados só para morder, sendo áglifas. Outro grupo intermediário, este mais complicado de classificar, é o dos Colubridae, aquelas cobras que podem ser ou não perigosas, por terem uma glândula de líquido digestivo para injetar nas vítimas, a tal da "glândula de Duvernoy", com suas presas no fundo da boca, tendo uma dentição opistóglifa (esta é a última palavra grega terminada em -glifa no artigo). Uns falam de uma família em separado, os Dipsadidae, onde estão a cobra-cipó e a muçurana, a cobra que come cobra. O Google e a Wikipedia não se dão ao trabalho de explicar o porque disso, pois só os herpetólogos têm coragem de estudar as diferenças entre os Colubridae e os Dipsadidae. 

Ainda dentre os escamados, existem uns animaizinhos parecidos com minhocas, as "cobras-de-duas-cabeças", mas elas ficam no grupo dos Anfisbenidae. Esses bichos não despertam muito interesse, a não ser para quem tem problemas com saúvas, pois essas criaturas inofensivas gostam de se enfiar em locais bem escondidos e protegidos, como os sauveiros. 

O resto dos escamados são todos lagartos, mesmo aquelas coisas esquisitas sem patas, as "cobras de vidro", da família Anguidae, seres que costumam piscar (não é picar, é piscar mesmo, pois eles têm pálpebras) e soltar a cauda, como os lagartos "normais" fazem. 

E as tartarugas? Elas ficam num grupo separado, o dos Chelonia, ou quelônios (do grego Chelone, tartaruga), cujos antepassados se separaram do grupo dos arcossauros no meio do Triássico, quando nem os dinossauros existiram ainda. As cascudinhas, no entanto, só apareceram bem mais tarde, quando os dinos já reinavam sobre a Terra. A lentidão dessas criaturas calmas e já com a "casa embutida", como se diz popularmente, é mais própria dos jabutis (Testudinidae), que passaram a viver na Terra após a extinção dos dinossauros. Os outros grupos de quelônios preferem viver no mar ou nos rios (os cágados), onde são até bastante rápidas para escapar dos perigos. 

Esta serpente, a Oxybelis brevirostris, parece estar sorrindo forçado tentando achar graça deste artigo. Ela é um réptil escamado colubrídeo opistóglifo (mas considerado inofensivo)


quinta-feira, 22 de maio de 2025

Da série Classificação dos animais, parte 2 - Aves

Um dos assuntos mais recorrentes é a gripe aviária, cujos casos, isolados, provocam prejuízo de milhões de reais aos produtores. Isso foi abordado na postagem anterior. 

Tão complicado como lidar com uma doença grave transmitida por estas criaturas penadas emplumadas, é classificá-los. As aves, dentre os chamados amniotas (vertebrados nascidos a partir de ovos com casca incubados em terra, quando não são gerados no ventre materno), parecem ser a de classificação biológica mais complicada. São a classe de vertebrados com mais espécies, e possuem muitos detalhes além de terem penas, asas e bico sem dentes. 

O grupo dos frangos e seus "pais", os galos e galinhas, é um dos menos confusos. São os "galiformes" (em forma de galo), uma das várias ordens existentes. Os "passeriformes" (em forma de pardal) são a maior delas, com várias espécies, algumas conhecidas pelo seu canto, mas a classificação deles não é tão afinada. Na época de Lineu, parte deles era reunida na ordem "Coraciformes" (em forma de corvo), pois os corvos, gralhas e outros grandes pássaros notáveis por sua voz desagradável e comerem carniça, não eram considerados "parentes" dos sabiás e dos rouxinóis, mas, devido às suas características como formato dos dedos dos pés e formato da siringe, o órgão responsável pelos gorjeios (mas também pelos grasnidos horrorosos das gralhas), agora é consenso que são. 

Os "Coraciformes" ainda constituem um grupo válido, com os guarda-rios e os martins-pescadores. Outrora, também incluiam os calaus, aves estranhas das florestas asiáticas, parecidas com tucanos de dois bicos, sendo o "bico" de cima algo parecido com um chifre. Essas criaturas agora estão em outra ordem, a dos "Bucerotiformes" (algo como "em forma de criatura com chifre de boi"). Tanto os "Coraciformes" quanto os "Bucerotiformes" possuem algum antepassado comum com os nossos tucanos. Curiosamente, esses pássaros de bicos enormes são da mesma ordem dos pica-paus, que inspiraram Walter Lantz a fazer aquele personagem maluco dos desenhos animados. E os verdadeiros pica-paus têm bicos bem finos. De novo, os ornitólogos, responsáveis pelo estudo das aves, olharam para os pés dessas espécies, e as análises genéticas confirmaram o parentesco. 

Se os tucanos e os pica-paus são diferentes, mas estão na mesma ordem, o que dizer a respeito das aves de rapina diurnas, todas bastante parecidas porém formando duas ordens diferentes? Antes, eram todas "Falconiformes" (em forma de falcão), mas agora só os falcões propriamente ditos, mais os carcarás e os acauás, estão nesse grupo. As águias, os gaviões e os abutres do Velho Mundo são da ordem "Accipritiformes" (em forma de açor, um tipo de gavião). Os urubus tão conhecidos por aqui no Brasil estariam em uma terceira ordem, a dos "Cathartiformes". Para piorar, os ornitólogos estabelecem um supergrupo, o das aves de origem africana ("Afroaves"), onde estariam as águias, os tucanos e os martins-pescadores, e também as aves de rapina noturnas, as corujas ("Strigiformes"). Os falcões estariam em outro grupo separado, colocados junto com os passarinhos, os papagaios ("Psitaciformes") e as seriemas ("Cariamiformes"), aquelas aves pernaltas consideradas "descendentes" daquelas terríveis "aves do terror" que aterrorizaram a América do Sul antes dos seres humanos. 

O falcão peregrino (Falco peregrinus) é representante da habilidade das aves em voar, sendo o animal mais rápido do planeta (David Chamberlin)

Confuso? Pois uma taxonomia anterior, chamada de Sibley-Ahlquist, reunia todas as aves de rapina diurnas, mais os pelicanos, os pinguins, as gaivotas e os albatrozes na mesma ordem das cegonhas, as "Ciconiformes", com base em alguns estudos genéticos. Esta ordem gigante parecia um aviário com várias espécies diferentes, só tendo em comum as penas, o bico, as asas e o hábito de comer outros animais. Pois novos estudos desfizeram essa ordem, considerando-a parafilética (termo para dizer que esses seres não têm um ancestral comum). E as próprias "Ciconiformes" perderam representantes, pois os flamingos foram considerados muito diferentes das outras aves pernaltas e foram colocados no grupo dos "Phoenicopteriformes" (esse nome comprido significa ter "asas de fênix"). Já as garças e aquelas aves africanas esquisitas chamadas de "bico de tamanco" passaram a ser consideradas mais aparentadas aos pelicanos, colocadas na ordem "Pelecaniformes". Já os atobás e os cormorões saíram dos "Pelecaniformes" para formarem uma outra ordem, a "Suliformes" (em forma de atobá). 

Os grous, embora aves pernaltas, não foram considerados parentes das cegonhas nem mesmo na taxonomia de Sibley-Ahlquist, sendo considerados simplesmente "gruiformes". Nesse grupo as seriemas eram colocadas anteriormente, mas agora essas já citadas parentes das "aves do terror" estão no mesmo grupo dos falcões, aumentando a comparação com os pássaros secretários, parentes das águias, que também têm pernas compridas e comem cobras. 

Não terminou ainda: os beija-flores, chamados de "Apodiformes", ainda estão em um grupo totalmente separado dos outros, junto com os feios urutaus ("Caprimulgiformes", aqueles que mamam nas cabras). Eles teriam um antepassado comum com os cucos ("Cuculiformes"). Já os pombos ("Columbiformes") estão em outro grupo sem ligação próxima com os passarinhos, as cegonhas ou os pica-paus. Os extintos pássaros dodo, colocados como exemplo da ação predatória humana, ainda são considerados "parentes" dos pombos, apesar de sua aparência peculiar, bem pouco similar à da praga que insiste em defecar nas cabeças das pessoas. 

Ainda há as aves gigantes não voadoras, como as avestruzes, maiores aves viventes. Elas chegaram a ser consideradas parentes das emas brasileiras, e dos ferozes casuares australianos. Lineu os considerava da ordem dos "Struthioniformes", com formato de avestruz. Agora, formam ordens diferentes. Classificações modernas ainda colocam os "tinamiformes", como o macuco, entre essas gigantes, o que é estranho, pois os macucos sabem voar, embora muito mal. 

Os macucos antes eram colocados entre os "galiformes", mas a "dissidência" foi uma das poucas entre os galináceos, conhecidos por serem comida de gente desde a pré-História. Galos, faisões e perus eram perseguidos por causa da carne e ovos, e depois passaram a ser criados. É o mesmo destino dos patos, gansos e cisnes, os "Anseriformes" (em formato de ganso), cujo antepassado em comum com os galináceos, e com mais nenhuma outra ave, vivia no tempo dos últimos dinossauros. 

Aliás, atualmente se fala que as aves são dinossauros, contrariando o senso comum, pois o imaginário popular pensa nos dinos como lagartões monstruosos. Pois descobertas recentes sugerem a presença de penas em boa parte dos dinossauros, questionando inclusive sua classificação como répteis. Alguns deles, inclusive, podiam voar, como o terópode ("pés de fera") conhecido como Archaeopteryx lithographica, um animalzinho do tamanho de um frango novo, e já coberto de penas, mas ainda com dentes e cauda longa tipicamente reptiliana. Os dinossauros conhecidos como "avialae" pelos paleontólogos só se tornaram efetivamente aves quando passaram a ter cauda curta, chamada pelos ornitólogos como pigóstilo, além de desenvolverem o bico e as estruturas necessárias para um voo mais eficiente, como o osso conhecido como "quilha". Isso aconteceu ainda quando não havia alguns dos dinossauros mais conhecidos, como o tiranossauro, este também um terópode. Quando houve o fatídico meteoro colidindo na Terra para aniquilar os dinossauros, seus "descendentes" voadores puderam se esconder em abrigos para evitar a extinção, e se desenvolveram para dominar os ares. 

terça-feira, 29 de abril de 2025

Da série Classificação dos animais, parte 1 - Mamíferos

A classificação biológica é mesmo uma coisa aparentemente estranha. Primeiro, foi baseada em critérios morfológicos, ou seja, pela aparência externa. Depois, foi se norteando pelas características genéticas e evolucionistas, algo mais rigoroso e exato, mas capaz de chegar a conclusões bastante curiosas, para dizer o mínimo. 

Carl von Linné (1707-1778), ou Lineu, o famoso naturalista sueco e pioneiro na classificação binomial por gênero e espécie, fez a primeira grande classificação dos animais, destacando os macacos como aparentados aos seres humanos, como se pensa hoje, mas colocando rinocerontes e elefantes como membros da mesma ordem, a dos "paquidermes" (Pachydermata). Hoje se sabe que os rinocerontes pertencem à ordem Perissodactyla, animais ungulados ("de casco") com número ímpar de dedos nas patas, a mesma dos cavalos, enquanto os elefantes possuem uma ordem só deles, os Proboscida. 

Aliás, atualmente os rinocerontes e os elefantes estão ainda mais afastados do que se supunha. Recentemente, os rinocerontes foram colocados junto com os bois, os carnívoros e os morcegos no grupo Laurasiatheria, cujo ancestral comum viveu na Europa ou na Ásia ainda no tempo dos dinossauros, por volta dos 70 milhões de anos atrás. Os elefantes, os peixes-boi e alguns bichos estranhos como o aardvark, um animal parecido com um híbrido de porco com tamanduá, são descendentes de um animal de origem africana, daí serem chamados de Afrotheria. 

Os macacos e os humanos, curiosamente, estão mais ligados aos Laurasiatheria, embora tivessem origem possivelmente na África. Os primatas, como são conhecidos desde a época de Lineu, foram atualmente colocados juntamente com os roedores (ratos, castores, capivaras) e os lagomorfos (coelhos). Ou seja, nós temos mais parentesco com os ratos do que com a maioria dos ourros mamíferos. 

Entre o confuso grupo dos Laurasiatheria, temos os morcegos, antigamente considerados próximo dos ratos, mas agora mais ligados aos carnívoros e os animais de casco. Os carnivoros são realmente divididos entre os parentes dos cachorros e os dos gatos, e isso é sabido desde antes de Lineu, mas descobriu-se que as hienas, apesar da aparência canina, são geneticamente mais próximas dos felinos. Enquanto isso, os animais de casco reúnem não só os Artiodactyla, de dedos pares nas patas, e os Perissodactyla, já citados acima, mas várias outras ordens extintas, ainda não solidamente estabelecidas, embora antigamente se falasse numa ordem chamada de Condylarthra, que reunia ancestrais dos bois, dos cavalos e das baleias. Sim, as baleias, na antiguidade consideradas como enormes peixes, e só com o aumento na atividade baleeira (séculos XVI-XVII) foi se descobrindo serem mamíferos. Elas descendiam de animais de casco, terrestres, e têm afinidade genética com os hipopótamos, fazendo o grupo chamado de "Whippomorfa", dentro dos Artiodactyla, ser motivo de piadas "gordofóbicas". Outra implicação é constatar o parentesco próximo entre esses seres marinhos com as vacas. Ou seja, as baleias e seus pequenos e esbeltos "primos", os golfinhos, estão bem longe de serem peixes, embora tão parecidos com eles. 

Vaca, um típico mamífero (Divulgação)

Outra característica dos Artiodactyla é reunir animais com sistema digestório muito complicado, envolvendo três ou quatro estômagos, sendo o maior deles usado só para depositar o capim e outros alimentos vegetais até serem fermentados e voltarem para a boca, dando início ao processo de "ruminação", fazendo bois, vacas, cabras, camelos e veados ficarem mastigando por longos períodos ao estilo dos mascadores de chiclete. Depois tornam a engolir e o alimento é processado pelos outros estômagos e por um intestino bem longo, para absorção dos nutrientes e a eliminação da merda do esterco. Essa característica surgiu há mais de 50 milhões de anos, como forma de extrair energia de plantas aparentemente pouco nutritivas e evitar passar muito tempo pastando, minimizando o risco de serem vítimas dos predadores. 

O grupo dos Afrotheria parece uma daquelas junções meio esquisitas de animais, parecendo só terem em comum o fato de serem mamíferos. Os peixes-bois são parentes dos elefantes, e estes são aparentados com pequenos animais parecidos com preás, mas tendo cascos nas patas, os hiraxes. 

Existem ainda outros tipos de animais, como os outrora chamados "desdentados", mas agora constituindo duas ordens de mamíferos diferenres dos demais, os Cingulata (tatus) e os Pilosa (tamanduás e bichos-preguiça). Eram chamados "desdentados" por terem dentes muito fracos, no caso dos tatus e dos bichos-preguiça, ou serem ausentes, como os tamanduás. Esses animais têm ligação com os Afrotheria, embora sejam atualmente encontrados na América do Sul. Outros animais considerados outrora unidos são os "insetívoros", mas este grupo é artificial e agora existem diversas ordens com esses pequenos e aparentemente primitivos seres. Toupeiras, ouriços e musaranhos fazem parte dos Eulipotyphla, e não possuem nenhum parentesco próximo com os ratos, mas são tidos como Laurasiatheria com características "arcaicas". São bichinhos muito estranhos, incluindo uma espécie de toupeira com tentáculos no focinho e os musaranhos, dotados de peçonha (veneno!) como as serpentes. Existem outros bichos "insetivoros" agora considerados parentes dos macacos (tupaias) e os musaranhos-elefantes, com focinhos compridos, pertencente ao grupo dos Afrotheria junto com os elefantes. 

Não se pode esquecer dos marsupiais, antigamente considerados pertencentes a apenas uma ordem, mas agora constituídos de várias ordens. Os mais conhecidos são os cangurus e os coalas, da ordem Diprotodontia. Os estranhos e necrófagos diabos-da-tasmânia são os Dasyuromorpha, e os bandicoots que inspiraram o personagem de videojogos Crash são os Peramelemorphia, embora o Crash lembrasse mais uma raposa. 

Por fim, temos aquele grupo de mamíferos com características tão primitivas que muitos questionam se eles são realmente mamíferos. Afinal, os Monotremata (do latim "um orifício", ou seja, com uma cloaca, como os répteis e as aves, e não dois, o ânus e a genitália dos mamíferos "normais") possuem matabolismo mais lento pela insuficiente capacidade de termorregulação (manter a temperatura corporal constante) própria dos mamíferos. Além disso, possuem bicos como os patos e botam ovos de casca mole. São considerados mamíferos por produzirem leite, mas não possuem mamas, uma característica compartilhada com a maioria dos extintos ancestrais dos mamíferos, chamados de "mamaliformes", contemporâneos dos dinossauros mais antigos. 

Esses animais viviam escondidos e para poderem ficar longe das bocas dos dinos famntos precisavam cuidar dos filhotes e alimentá-los de alguma forma produzindo fluidos nutritivos, até desenvolverem o leite, caracteristica dos verdadeiros mamíferos. Com isso, também passariam a ter outras características como a mandíbula formada por um único osso (o "dentário"), e não formada por vários como os outros vertebrados, e a troca de dentes apenas uma vez durante a vida (difiodontia), embora elefantes e cangurus possam trocar a dentição várias vezes (polifiodontia). Os antepassados dos "mamaliformes" eram os terapsídeos cinodontes, animais esquisitos que já tinham pelos (outra característica mamífera) mas ainda tinham muito em comum com os répteis. Eles eram da linhagem de animais bem antigos, surgidos há 270 milhões de anos, e um deles, o Dimetrodon, era confundido com os dinossauros. O surgimento destas criaturas com uma só fenestra ("buraco") no crânio, os sinapsídeos, e também dos verdadeiros répteis, estes geralmente com duas fenestras, se deu há mais de 315 milhões de anos. 

Por falar em répteis e dinossauros, este blog vai falar um pouco sobre eles, para explicar a origem das aves, o próximo grupo animal a ser abordado. 


N. do A.: Muitos consideraram a ideia de inventar uma camisa da Seleção Brasileira na cor vermelha como verdadeira coisa de um perissodáctilo, seja ele um jumento ou uma anta. Outros veem isso como uma grande destruição dos valores brasileiros, colocando uma cor estranha, não pertencente à bandeira nacional, ou como uma alusão ao petismo, ou ao comunismo, sendo a CBF sempre envolvida em politicagem adesista. Mais uma atitude desconectada dos torcedores, por parte desta ilustre entidade e sua principal patrocinadora, a Nike, e veremos mais torcedores do time argentino do que do brasileiro. E a nossa Seleção não faz nada para evitar essa "calamidade".