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quarta-feira, 29 de outubro de 2025

Maurício de Sousa fez 90 anos

Nesta semana o mais famoso quadrinhista brasileiro fez 90 anos. Maurício de Sousa, o pai da Mônica e sua turma, foi homenageado pelos vários filhos em seu aniversário, no último dia 27. 

Antes, foi lançado o filme Bios-Maurício de Sousa, um documentário dirigido por Pedro Vasconcelos, ex-galã da Rede Globo, e com o filho Mauro Takeda fazendo o papel do protagonista. O trabalho teve razoável repercussão de crítica e público. O canal National Geographic, do grupo Disney, fez um outro documentário sobre o "pai" da Mônica e do Cebolinha, da Tina e do Horácio, do Astronauta e do Piteco, do Penadinho e do Anjinho. 

A festa dos 90 anos de Maurício reuniu os seus numerosos filhos. Houve alguns detalhes tristes, pois Maurício tem dificuldade para andar e um de seus filhos morreu em 2016 (Divulgação)

Maurício já foi comparado a Walt Disney por sua grande galeria de personagens, bem sucedidos tanto nos quadrinhos quanto no cinema e televisão. Ele foi amigo pessoal de Osamu Tesuka, o mestre do mangá, e de Stan Lee, o mago da Marvel. Personagens super-heróis da "Casa das Ideias" (Homem de Ferro, Capitão America, Thor, Homem Aranha, Hulk) e da "Distinta Concorrente", a DC (Batman, Superman, Mulher Maravilha, Capitão Marvel atual Shazam), apareciam nos quadrinhos da Mônica com frequência. Em 2018, houve uma parceria entre a DC e a Maurício de Sousa Produções, publicando histórias onde a turminha contracenava com a Liga da Justiça, mas o sucesso foi apenas relativo. 


N. do A.: Nem a força da Mônica, e nem a Liga, os Vingadores ou os X-Men, adiantariam para resolver a tragédia do Rio de Janeiro, aterrorizado pelo Comando Vermelho, o CV. Simplesmente porque são personagens ficcionais. Mais cadáveres apareceram, elevando o número de mortes para 121. Certos veículos de imprensa já comparam com o Massacre do Carandiru, mas a comparação é descabida, primeiro porque os bandidos estavam armados com um arsenal impressionante e estavam soltos em seu território, enquanto em 1992 os criminosos estavam presos e não reagiram, e segundo porque os cadáveres achados hoje possivelmente são de vítimas do CV, apontados como delatores ("X-9") ou familiares destes. 

Mau

sábado, 17 de agosto de 2024

17 de agosto inesquecível no mau sentido

Nunca mais esqueceremos o dia 17 de agosto de 2024, data da morte de Senor Abravanel, ou melhor, Sílvio Santos, o maior comunicador do Brasil, capaz de ter feito da TV, aos domingos, um local onde ele reinava. Seu programa contava com quadros inesquecíveis, como Show de Calouros, Show do Milhão, Namoro na TV, Porta da Esperança, Domingo no Parque, Topa Tudo por Dinheiro e Qual é a Música, todos com elementos atrativos para os telespectadores, em tempos sem Internet. Abaixo, um exemplo, com o Qual é a Música (canal #tvstbtSBT, que homenageia a emissora do homem do baú): 


Sua influência foi tanta que ele virou tema de música dos Titãs (Domingo), apareceu até em gibis antigos da Mônica (abaixo), foi parodiado em séries de humor e, logicamente, virou tema de Carnaval. 

Silvio Santos (1930-2024) era conhecido desde a juventude, chegando a virar personagem em uma historinha da Mônica em 1970, quando ele tinha 39 anos! (Divulgação/MSP)


Cheguei até a fazer algumas histórias em quadrinhos toscas mostrando ele concorrendo à Presidência junto com os outros, em 1989, mas infelizmente com personagens inventados por mim, totalmente desconhecidos e não publicados antes. Um deles era um coelho falante chamado Vanderlei... coisa de alguém de 15 anos com imaginação fértil. 

Sílvio foi o mestre de vários outros artistas, como Gugu, Eliana, Celso Portiolli, Mara Marvilha e até o infame Dudu Camargo. Foi apoiador de outros nomes como Hebe, e fonte de inspiração para outros, como Faustão, Rodrigo Faro, Luciano Huck, Xuxa, etc. Nenhum deles poderia substituir o dono de um império que inclui o Baú da Felicidade e os cosméticos Jequiti. Aliás, como ficará este conglomerado bilionário daqui por diante?

Esta notícia foi tão impactante que poucos comentaram sobre a saída do escritório da X no Brasil, motivada pela rixa entre Elon Musk e Alexandre de Moraes, por causa das fake news, cuja regulmentação nem foi feita ainda e é motivada mais por perseguição às opiniões consideradas pró-Bolsonaro, enquanto numa democracia de verdade as opiniões devem ser livres. Musk é considerado aliado de Donald Trump, o candidato republicano à Presidência dos Estados Unidos, admirado por boa parte dos bolsonaristas.  Por essa rusga, 40 profissionais da rede social foram demitidos. 


sexta-feira, 17 de maio de 2024

Da série 'Oitentolatria', parte 36 - Quem ouviu falar da "Thundera Comics"?

Em tempos recentes, uma editora de Buenos Aires, a Thundera Comics, resolveu satisfazer alguns saudosistas e lançar alguns títulos para lembrar os anos 1980. Para começar, o nome da editora já lembra bem essa época maluca. 

Eles começaram, em 2020, em plena pandemia, a lançar histórias dos - adivinhe quem - Thundercats. Havia histórias inéditas, não lançadas aqui, e outras mais antigas. 

Poucos até hoje sabem da Thundera Comics, a não ser alguns aficcionados por HQs (Thundera Comics/Guia dos Quadrinhos)


Outros títulos foram também de séries baseadas em desenhos dos anos 1980, como Transformers e GI Joe. Nenhum desses lançamentos deu muito certo. 

Também, para relembrar uma época boa para os quadrinhos, relançou o título "Heróis da TV". Havia na Abril duas versões, uma nos anos 1970, com personagens da Hanna Barbera, e outra nos anos 1980, com os heróis da Marvel. Os direitos de publicação destes últimos estão com a Panini, responsável também pelas histórias dos heróis da DC. Assim, os "Heróis da TV" acabaram sendo os da Hanna-Barbera mesmo, com alguns personagens a mais, como He-Man, She-Ra, Bravestarr e outros. 

Mais recentemente, a editora lançou um título chamado de "Sessão da Tarde", com histórias baseadas em antigos seriados. 

quarta-feira, 14 de junho de 2023

Boas notícias (e uma nem tanto)

 Hoje, uma das grandes agências de classificação de risco, a S&P, mudou a perspectiva da dívida brasileira de "neutra" para "positiva", gerando reações na Bovespa e no dólar. A Bolsa subiu 1,99% e o dólar caiu para o valor mais baixo do ano: R$ 4,80. A agência viu melhorias no cenário fiscal, apesar dos temores de um descontrole no quadro inflacionário e da desconfiança na capacidade do atual governo conciliar a gestão da economia com as suas convicções ideológicas. 

As agências de classificação de risco voltaram a ser faladas no Brasil, mas com bons presságios (Brandon McDermid/Reuters)

Nesta semana, aliás, houve a descoberta de uma planta contendo o canabidiol, substância receitada para controle de surtos epiléticos. A Trema micrantha blume foi estudada por biólogos da UFRJ e não tem os efeitos nocivos da maconha, principal fornecedora do medicamento, por não ter o THC, o princípio ativo causador de tantos males à saúde. 

Além disso, a Anvisa aprovou um remédio contra a AIDS, o cabotegravir (apretude), fabricado pela farmacêutica britânica GSK, reduzindo consideravelmente a contaminação pelo vírus. Ele apresenta a vantagem de ter efeito mais prolongado, em comparação aos comprimidos tradicionais usados para prevenção dos sintomas, mas a desvantagem de ser injetável, o que só reforça a necessidade de medidas profiláticas como o uso de camisinha nas relações sexuais. 

E. para os fãs dos quadrinhos, uma notícia triste: a morte de John Romita, um dos grandes criadores da Marvel, autor de ilustrações para as histórias do Homem-Aranha e um dos criadores do personagem Wolverine. 

sexta-feira, 19 de maio de 2023

Tudo para tentar vender mais quadrinhos!

Neste blog já houve uma série abordando a história dos quadrinhos, desde a Era de Platina, com os velhos estereótipos sobre mulheres e indivíduos não descendentes de europeus (como os negros e os índios) até a fase atual, onde se abusa dos valores "identários", em nome do "politicamente correto". 

Pois bem, a Marvel revoltou muita gente ao matar a personagem Kamala Khan, a heroína conhecida como Miss Marvel. Descendente de paquistaneses, ela conseguiu bastante destaque nos quadrinhos e até na televisão, com a série da Disney. Ainda por cima, ela não foi morta em uma revista dela ou da Capitã Marvel, com a qual está intimiamente ligada, sendo, digamos, parte da atual "Família Marvel", se considerarmos a história do nome que remete à Era de Ouro e ao Capitão Marvel original, agora ironicamente parte da DC Comics com o nome de Shazam. Sua morte será publicada em uma revista do Homem Aranha. E, mais uma vez, o teioso vai entrar numa crise psicológica, sentindo-se culpado pela tragédia. 

Muitos chegaram até a lembrar um conceito muito citado pelos leitores de quadrinhos "lacradores": a chamada "mulher na geladeira", devido a uma história de 1994, quando um dos Lanternas Verdes (da DC), o agora semi-esquecido Kyle Rayner, encontrou a namorada morta dentro de um refrigerador. Segundo eles, foi mais uma morte para explicar os dramas de um personagem masculino caucasiano. Isso também tem a ver com os 50 anos da morte da Gwen Stacy, nas mãos do mesmo Homem Aranha. 

Kamala Khan, uma das poucas heroínas asiáticas dos quadrinhos ocidentais, morre nos braços de Peter Parker, o Homem Aranha, sob olhares consternados do Quarteto Fantástico (Divulgação/Marvel Comics)


Sem querer dar razão aos "chatos", a "Casa das Ideias" só fez um truque velho, matar um personagem de destaque, para alavancar as vendas. A última vez foi bem recente, quando fizeram isso com o Doutor Estranho, às vésperas do lançamento do segundo filme dele. Ele ressuscitou, e a mesma coisa vai acontecer com Kamala Khan. Decerto, antes do filme das Marvels, onde ela aparecerá viva ao lado da Capitã Marvel e da Photon (Monica Rambeau, a primeira Capitã Marvel dos quadrinhos). 

quinta-feira, 23 de março de 2023

Maurício de Sousa concorre a vaga na ABL

Com a morte da decana da Academia Brasileira de Letras (ABL), Cleonice Berandinelli (1916-2023), abriu-se uma vaga à Academia Brasileira de Letras, cuja existência eles não fazem questão de justificar, ainda mais porque grandes escritores, como Érico Veríssimo (1905-1975), Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), Mário Quintana (1907-1994), Cecília Meireles (1901-1964), Jorge de Lima (1893-1953), Gilberto Freyre (1900-1987), Clarice Lispector (1925-1977), Nelson Rodrigues (1912-1980) e Graciliano Ramos (1892-1957) nunca vestiram o fardão e, nos últimos tempos, poucos membros são realmente literatos (José Sarney, FHC, Cacá Diegues, Gilberto Gil e Fernanda Montenegro, como já foi escrito aqui no blog, definitivamente não são). A falecida era uma das maiores estudiosas da língua portuguesa. 

Um dos postulantes para ocupar a vaga, de número 8, patrono Cláudio Manoel da Costa (1729-1789), é Maurício de Sousa, o criador da Turma da Mônica. Muitos questionam o alegado favoritismo, segundo muitos órgãos de imprensa, principalmente aqueles que consideram histórias em quadrinhos uma subcultura, responsável pelo desinteresse dos jovens nos livros. Outro candidato à vaga é o filólogo Ricardo Cavalieri, mais ortodoxo, embora isso não seja uma credencial a mais para a Academia, muito suscetível às influências de não-literatos. Há um terceiro nome, James Akel, jornalista e diretor de teatro. 

O criador da Mônica, Cebolinha, Bidu e Horácio vai vestir o fardão? (MSP / Divulgação)

Quem irá ocupar a vaga de Cleonice Berardinelli? Isso o Brasil vai saber no dia 27 de abril, quando os acadêmicos votarem. 

segunda-feira, 13 de março de 2023

O tema central do filme vencedor do Oscar

Nos últimos tempos, o Multiverso apareceu como tema de muitos filmes. A Disney, por meio do Universo Cinematográfico Marvel, resolveu abordar o tema em Doutor Estranho no Multiverso da Loucura e Homem-Formiga: Quantumania, além de outras produções para a televisão, como Loki, sem falar do Aranhaverso, mas isso é para explicar a existência de tantas versões dos inúmeros personagens da Casa das Ideias. Esse tipo de abordagem nem sempre gerou o resultado esperado, resultando em decepções nas bilheterias e críticas negativas. 

Os diretores Daniel Kwan e Daniel Scheinert - dois "xarás" - levaram o tema mais a sério para fazer o surpreendente Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo, onde uma modesta imigrante sino-americana, Evelyn Wang, vivida por Michele Yeoh, sonha em fugir de sua vida difícil como uma dona de uma pequena e mal cuidada lavanderia, até ser confrontada por uma agente da Receita Federal, interpretada por Jamie Lee Curtis. Depois, ela se encontra com um estranho homem, dizendo ser o marido de uma versão dela em outro Universo. capaz de viajar por várias realidades alternativas. Ela então passa a conhecer outras Evelyns, ou outras pessoas, não necessariamente mulheres, mais bem sucedidas devido às suas escolhas. Por outro lado, ela também descobre uma ameaça a todas elas, e também a todos os mundos onde elas vivem - a própria filha, Joy, disposta a acabar com todo o Multiverso. E. assim, Evelyn se vê forçada a tomar uma atitude para defender a existência das realidades, tornando-se uma heroína improvável. 

Evelyn Wong lidou melhor com o Multiverso do que o Doutor Estranho ou outro herói dos quadrinhos (Divulgação)


O filme mistura elementos de comédia escrachada, como os métodos para a mudança de realidades, com dramas reais, tornando-se uma mistura de "dramédia" com ficção científica. E. mesmo com orçamento bem mais limitado do que o disponível para os filmes da Marvel, conseguiu agradar mais o público e a crítica. 

Falar sobre realidades paralelas é algo contraverso, pois envolve acreditar em versões alternativas de pessoas, lugares, planetas, estrelas e galáxias, e isso confronta o conceito de um único Universo. Por outro lado, excita a imaginação ao pensar sobre o que aconteceria se a pessoa tomasse uma atitude diferente, como mudar de emprego ou casar-se. Se existe uma única realidade, as outras são meras ilusões. E se não forem? Ideias semelhantes foram apresentadas em outros trabalhos como Matrix, de 1999. 

Esta discussão promete se estender por anos, enquanto as pessoas não descobrirem a "verdadeira realidade", e para isso devem estar dispostas a abandonarem conceitos equivocados, enxergarem além das aparências e estarem dispostas a tomarem decisões difíceis para a busca da verdade. 

Porém, o filme Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo não se propõe a desafiar dogmas para criar outros no lugar. Fez o que se propõs, conduzir bem um enredo com atuações convincentes e histórias interessantes, e por isso ganhou sete Oscars, dentre os quais o de melhor roteiro original, atriz principal para Michele Yeoh, atriz coadjuvante para Jamie Lee Curtis, e diretor para a dupla de "Daniels". 


N. do A.: E a Warner Discovery também vai adotar o mesmo tema, no filme The Flash, onde o velocista escarlate da DC Comics (a "distinta concorrente" da Marvel) usa a sua supervelocidade, alterando o destino de todas as realidades. 

sexta-feira, 12 de agosto de 2022

Uma das histórias mais doidas feitas pela Marvel

Recentemente, este blog escreveu algo sobre a origem do looking do cantor Elvis Presley, baseado nas antigas histórias em quadrinhos do Capitão Marvel Jr., personagem da antiga Fawcett Comics, atualmente na DC como Shazam Jr. 

Após sua morte, Elvis também acabou aparecendo como personagem de quadrinhos, geralmente como "convidado especial". Contudo, uma das histórias mais famosas publicadas envolvendo o "rei do rock" não veio da DC, e sim da maior concorrente, a Marvel. Foi em 1992, 15 anos após a morte precoce do ídolo, numa daquelas histórias What if..., contadas por Uatu, o Vigia. 

O título era "What if Thanos Changed Galactus Into a Human Being?" (O que aconteceria se Thanos transformasse Galactus em um ser humano?, em tradução livre). A história, para lá de maluca, conta uma hipotética derrota do devorador de mundos para o poderoso titã louco, armado com a manopla e todas as joias do infinito. O vilão roxo transformou o ser cósmico em um frágil humano, com as feições de Elvis Presley, e uma fã do cantor o recebeu em sua casa. Pensando que ele estava desmemoriado, a mulher mostrou toda a coleção de discos, pôsteres e filmes, e assim Galactus acabou assumindo seu novo papel. Quando Adam Warlock, o poderoso herói cósmico (ele vai aparecer no próximo filme dos Guardiães da Galáxia), foi resgatá-lo após ter derrotado Thanos, Galactus se recusou a voltar à sua antiga vida, mostrando mais uma vez que Elvis "The Pelvis" não morreu. 

A história publicada em 1992 mostrou Galactus se tornando um "Elvis" numa realidade alternativa, e até o Uatu foi comparecer a um show dele (CBR/Marvel Comics)


N. do A.: Mais doida do que um enredo de história em quadrinhos, só a mente de certos fanáticos. Um deles tentou assassinar o escritor indiano Salman Rushdie, autor do livro Versos Satânicos, considerado insultuoso contra o Islã, durante uma palestra em Nova York. O escritor, de 75 anos, levou 15 facadas, e seu estado inspira cuidados. Ele pode ficar sem um olho e perder o movimento de um dos braços, graças ao criminoso, que teria agido sozinho, mas o governo islâmico xiita do Irã é visto com suspeita, pois em 1989 o então líder do país asiático, aiatolá Khomeini, ofereceu uma recompensa a quem matar o escritor, e isso não foi revogado até agora. 


quinta-feira, 21 de julho de 2022

Estranha semelhança

O filme Elvis é considerado um sucesso de público e crítica, embora a biografia do "rei do rock'n roll" contada a partir do ponto de vista de seu empresário, Tom Parker, o famigerado "Coronel" interpretado por Tom Hanks, seja considerada muito focada na lenda e pouco na pessoa chamada Elvis Presley, encarnado por um espantoso, digno de um Oscar, Austin Butler. 

Essa lenda foi construída a partir de uma das histórias para explicar o visual extravagante do ídolo, com suas botas, roupas esquisitas, adereços com raios e as iniciais TCB (Take Care of Business) e o imortalizado topete. Ele teria se inspirado num personagem de histórias em quadrinhos durante a Era de Ouro, o Capitão Marvel Jr. 

Em postagem recente, o companheiro de aventuras e discípulo do Capitão Marvel, agora chamado de Shazam, foi citado. Ele era da Fawcett Comics, e atualmente pertence à DC Comics, agora com o nome de Shazam Jr., muito diferente em relação ao original. A versão da Era de Ouro era um jornaleiro adolescente forçado a amadurecer por conta da deficiência física (contraída após um ataque de seu pior inimigo, o Capitão Nazista), da miséria e da II Guerra Mundial. Agora o jovem herói tem comportamento de "aborrecente" e cabelos loiros (embora a versão do filme Shazam!, interpretada pelos atores Adam Brody e Jack Dylan Grazer, seja morena como antigamente). Uma das poucas características mantidas é ser paraplégico, quando não está na forma heroica. 

A versão antiga que encantou o imortalizado roqueiro nascido no Mississipi tinha feições muito parecidas com o cantor, sobretudo quando desenhada pelo cartunista Bud Thompson (1905-1980), um inglês que modificou os traços do jovem Marvel Jr., em relação aos desenhos do criador do personagem, Mac Raboy (1914-1967), em 1941, deixando-o mais cartunesco para histórias mais leves feitas no pós-guerra. O adolescente era um precursor do Superboy, da National Publications, atual DC, criado em 1949. A editora do Superman tinha uma longa rixa com a Fawcett após acusar o Capitão Marvel (o sênior, com roupa vermelha) de ser uma imitação de seu principal super-herói. 

Não havia como dizer que o personagem fictício era o Elvis Presley, na época das publicações. Em 1953, último ano da revista "Captain Marvel Jr.", Elvis tinha apenas 18 anos e estava no início da carreira. 


O Capitão Marvel Jr. parecia um jovem Elvis com os poderes concedidos por Shazam (DC Comics/Divulgação)

Com a falência da Fawcett, as aventuras da Família Marvel, da qual pertence o jovem Marvel Jr., deixaram de ser publicadas, mas voltaram vinte anos depois com a licença adquirida pela velha inimiga da Fawcett, a DC, mas esta ficou impedida de usar "Capitão Marvel" na capa, devido ao registro desse nome pela Marvel a partir de 1967, durante o tempo do sumiço dos personagens "empoderados" pelo mago Shazam. O pobre e desafortunado personagem, que em sua forma mortal e vulnerável se chama Freddy Freeman, recebeu mudanças significativas, deixando de gritar "Capitão Marvel" e passar a evocar "Shazam" como faz o amigo Billy Batson. No entanto, ele nunca mais teve histórias relevantes, mas, de antigo ídolo de Elvis, tornou-se fã dele em algumas histórias. 

O imortal "rei do rock", por outro lado, passaria a ser mostrado nos quadrinhos de várias editoras, inclusive a Marvel, que fez uma história curiosíssima sobre ele na série What if...? (este blog vai abordar esse assunto em breve). Participou de inúmeros filmes, como Viva Las Vegas, e após o fim de sua curta vida sua biografia teve várias versões para o cinema, mas só a atual (da Warner, dona da DC) deixou explícita a história do ídolo da juventude no século XX como um fã de um personagem fictício. 


N. do A.: Enquanto isso, a mídia faz destaque à violência no Rio de Janeiro, com mais uma carnificina no Morro do Alemão. 17 moradores, alguns deles envolvidos com o tráfico de drogas, foram mortos durante tiroteio com a polícia. Um PM também perdeu a vida. Acabar com esta sina não requer o trabalho de super-heróis, mas de uma política realista baseada em inteligência, estratégia e fatos, não em ficção. 

terça-feira, 12 de julho de 2022

Da série "Qual é a dos super-heróis", parte 9 - A Era Moderna, parte III (2017-)

Enfim, chegamos aos tempos modernos dos quadrinhos, a "nona arte", sempre vista como coisa de criança, nerd ou colecionador, e agora como algo próximo da decadência. 

Críticos do "politicamente correto" enxergam os trabalhos atuais como "lacração" pura, destinados a agradar determinados nichos, como feministas ou homossexuais. E isso está acelerando o processo de decadência. Eles não aceitam o Jon-El (o novo Superman) namorando outro homem, assim como o Robin (Tim Drake) confirmando as piadas sobre o companheiro do Batman, cujo alvo, no entanto, era o Dick Grayson, agora o "pegador" Asa Noturna. Acham uma indecência a abordagem da vida do filho da Feiticeira Escarlate, o Wiccano, que namora o imperador dos Skrulls, Hulkling, ambos alvos da fúria tradicionalista quando foram mostrados se beijando em 2019. Também não gostaram de uma versão homossexual do Capitão América, ou do "excessivo" destaque para a Capitã Marvel (Carol Danvers), considerada uma feminista, assim como a Mulher Maravilha, agora convertida numa semideusa. 

A Marvel, atualmente, tenta emplacar certas ideias, como um Capitão América gay e defensor das minorias, bem longe da figura "tradicionalista" de Steve Rogers (Marvel Comics)

Próximos desses críticos, os leitores tradicionais de quadrinhos também estão detestando os rumos das histórias. Heróis tradicionais são simplesmente deixados de lado ou sofrem mudanças bruscas. Não há consenso sobre, por exemplo, os X-Men viverem isolados na ilha de Krakoa, ou as diversas versões dos outros personagens da Marvel, como o Thor ou o Hulk. Ou, como está acontecendo na "Distinta Concorrente", os heróis mais tradicionais foram simplesmente mortos por uma horda de vilões capazes de destruir todos os Universos, comandados pela "Grande Escuridão". 

Atitudes agressivas e viris parecem se transformar em coisa do passado, dando lugar à "conscientização" ou woke. Ninguém sai por aí socando o Trump ou o Putin. Eles são satirizados nas histórias como líderes defensores de valores retrógrados, sem serem importunados por outros valentões que preferem resolver as diferenças na "porrada", como na época da II Guerra Mundial. 

Outro aspecto que não encontra unanimidade é a abordagem quase como de "fim do mundo", onde demônios, zumbis e entidades capazes de recriar realidades no Multiverso (como Kang ou os Illuminati da Marvel) parecem comandar os destinos dos heróis e vilões, sob pena de simplesmente todos se transformassem em monstros ou serem apagados da existência num abismo nietzschiano. 

Para quem acompanha a trajetória dos seus personagens favoritos, fica a impressão de haver versões demais e nenhuma coerência entre elas, sem rumo certo. As gerações mais novas parecem acompanhar os super-heróis por meio do cinema ou da televisão, onde a Marvel, graças ao UCM, ainda está em vantagem frente à DC. Esta última está tentando fazer ajustes, e até consegue, com alguns trabalhos como Batman e Pacificador, mas ainda sofre. E os enredos sofrem dos mesmos problemas dos quadrinhos, descartando o aspecto apocalíptico para não estragar (demais) a essência "family-friendly". 

Qual será o futuro dos super-heróis? É o mesmo do resto de toda a criação humana, ou da própria espécie Homo sapiens. Tudo incerto. 

sexta-feira, 24 de junho de 2022

Da série "Qual é a dos super-heróis", parte 8 - A Era Moderna, parte II (2006 a 2016)

A Era Moderna dos quadrinhos é mal vista por muitos apreciadores de quadrinhos pela preocupação excessiva dos autores em não desagradar o chamado "politicamente correto", ou seja, os heróis não podem tomar certas atitudes consideradas ofensivas contra minorias e grupos oprimidos. Apenas os vilões e os anti-heróis teriam esses "direitos". 

Antes de 2016, ano da eleição de Donald Trump, o gênero ainda não alcançou seu ápice em termos de "lutar pelas causas dos oprimidos", apesar de terem lançado algo como um Wolverine homossexual numa realidade alternativa, em 2013, e a formação de um casal gay por personagens muito parecidos com Superman e Batman (Apollo e Midnighter, respectivamente).

Isso ocorria nas duas editoras mais poderosas do mercado da nona arte, e como consequência houve um crescente desinteresse do público. Soma-se a isso a concorrência dos mangás japoneses e dos videogames e o encarecimento progressivo das HQs, cujos preços deixam de ser tão acessíveis. 

Para quem ainda curtia quadrinhos, havia a opção das editoras menores, menos presas à cartilha dos "descolados", mais tarde (depois de 2016) criticados como "guerreiros da justiça social" ou "flocos de neve". A Image Comics, que já havia lançado The Walking Dead (2003), começava a publicar Saga em 2012. Os personagens de The Boys inicialmente apareceram em uma das divisões da DC Comics, a WildStorm, mas a editora não se interessou em manter os direitos, e os autores, Garth Ennis e Darick Robertson, transferiram-se para a Dynamite Entertainment em 2007. Ennis, considerado um dos maiores quadrinhistas dos últimos tempos, foi o autor de Hitman na década de 1990 e de Section 8, recentemente, para a DC, e autor de histórias memoráveis para o Demolidor na Marvel. 

Nem só de "lacração" (termo ainda não utilizado antes de 2016) viviam os heróis tradicionais. Eles não deixaram de querer salvar o mundo, mas as histórias, além de mais engajadas, foram se tornando mais sombrias, dando mais espaço para zumbis, demônios e entidades capazes de destruir universos inteiros.

Na DC, histórias do selo Vertigo, destinada ao público adulto, passam a explorar mais mundos pós-apocalípticos (DMZ, Sweet Tooth). Mesmo na linha temporal principal da editora, o clima era de "armagedom", com mais crises, como já é praxe. Houve a confusa Crise Final de 2008, quando o Multiverso esteve próximo de presenciar a vitória final dos vilões, e o Ponto de Ignição, de 2011, quando Barry Allen voltou definitivamente dos mortos (em Crise Final) e precisa arrumar uma realidade totalmente disfuncional, onde, por exemplo, Batman era Thomas Wayne e não seu filho Bruce, Superman não existia e havia uma guerra entre dois tiranos vividos por Aquaman e Diana (a Mulher Maravilha tornada vilã). Allen, o Flash, em sua tentativa de consertar a realidade, alterou a história de todos os personagens, apagando-os da realidade para serem praticamente recriados (Os Novos 52) gerando a linha temporal atual. 

O Flash Barry Allen ainda não tinha sua imagem arruinada por Ezra Miller quando protagonizou Ponto de Ignição (DC Comics)


Por conta das mudanças, a DC intensificou os trabalhos para lançar novas séries de televisão. No canal CW, onde passava Smalville, um dos grandes sucessos da telinha, foi criado um universo alternativo, comandado pelo Arqueiro Verde, curiosamente um dos raros heróis sem poderes da Editora das Lendas. Este ambiente foi chamado de "Arrowverse", e explorava tramas, fora da Terra Principal, envolvendo Barry Allen (e outros velocistas), Supergirl, Canário Negro e outros heróis menos conhecidos do público. Enquanto isso, foram lançados filmes, mas, com exceção de O Cavaleiro das Trevas (2008), pouca coisa se salvou, e a Warner, dona da DC, passou a se preocupar com as sucessivas derrotas para a Marvel e seu Universo Cinematográfico (UCM), cujos filmes eram mais populares. 

Na Marvel, o rumo dos personagens também se tornou perturbador. O Incrível Hulk ficou mais violento do que nunca, e resolveu se vingar dos heróis e vilões responsáveis pelo seu envio ao planeta Sakaar. Voltando de lá, ele se torna um guerreiro destruidor, chegando a ameaçar toda a vida na Terra e destruir o Sol, sendo contido com muita dificuldade. Depois, os Vingadores foram substituídos por um grupo de falsos heróis comandado por Norman Osborn (Reinado Sombrio), e Ultron chegou a se tornar o tirano da Terra (Era de Ultron). Neste meio tempo, Carol Danvers tornou-se uma ícone do feminismo ao se tornar a Capitã Marvel, a heroína (não mutante e nem extraterrestre) mais poderosa da Casa das Ideias. Ela viria a protagonizar a Segunda Guerra Civil, brigando com o Homem de Ferro, em 2016. Neste entrevero, Tony Stark chega a ser morto. Antes disso, o Capitão América foi assassinado, em 2007, mas logo retornaria dos mortos. 

Em 2009, a Disney adquiriu a Marvel, em transação tão monumental (US$ 4 bilhões) quanto chocante, devido ao contraste entre o universo infantil do império de Walt Disney, com suas princesas e animais antropomórficos, e o universo de heróis e vilões agressivos, sanguinários e com poderes extraordinários. O teor das histórias de cada marca (nos quadrinhos) não mudou, para alívio dos fãs. 

A Marvel começava a erguer seu império cinematográfico, a UCM, enquanto as vendas das HQs iam mal (Marvel Comics/UCM/Disney)


Se os quadrinhos mergulhavam na amargura, os filmes da Marvel, graças ao UCM, viriam a conquistar o mundo com tramas bem humoradas e otimistas, temperadas com ação e efeitos especiais. Os heróis deixavam suas angústias de lado nos quadrinhos e se tornaram, novamente, ídolos do público infantil, contando piadas e salvando o dia sem causar tanta destruição. O terreno foi preparado com os filmes solo dos heróis (Thor, Homem de Ferro, Hulk) até o lançamento de Os Vingadores, em 2012. A Sony foi cedendo parte dos personagens da Marvel sob sua tutela (Demolidor, Electra, Motoqueiro Fantasma, protagonistas de filmes pouco memoráveis) para a UCM, mas continuava a explorar o Homem-Aranha e seus inimigos. Já a Fox ainda tentou suas últimas cartadas para manter suas franquias (X-Men, Quarteto Fantástico) e até conseguiu, principalmente com Dias de Um Futuro Esquecido e Deadpool, mas ela própria iria ser "devorada" pela Disney. Isso será abordado na próxima postagem. 

sexta-feira, 10 de junho de 2022

Da série "Qual é a dos super-heróis", parte 7 - A Era Moderna, parte I (1985 a 2005)

Chegamos à chamada época atual dos quadrinhos, a "Era Moderna" ou "Era Sombria", iniciada em 1985 com a "Crise nas Infinitas Terras", da DC. Por ser um período muito longo e heterogêneo, este blog vai dividí-lo em três: 

- de 1985 a 2005: da "Crise" até a "Dinastia M", da Marvel; 

- de 2005 a 2016: da "Dinastia M" até a ascensão de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos; 

- de 2016 em diante: os eventos atuais. 

A chamada "Era Moderna", ou "Era Sombria", começou com uma sucessão de lançamentos, como O Cavaleiro das Trevas (1986) e A Queda de Murdock (1986), de Frank Miller, mostrando um Batman ainda mais sombrio e violento; Watchmen (1986), de Alan Moore e Dave Gibbons; V de Vingança (lançado em 1988 nos Estados Unidos), também de Moore. O "Cavaleiro das Trevas" ganhou grande destaque nesta época, com grandes acontecimentos narrados em A Piada Mortal e O Longo Dia das Bruxas. Depois, as tragédias acontecem aos borbotões, como Massacre de Mutantes, Morte na Família (Coringa mata Jason Todd, o segundo Robin), A Morte do Superman e A Queda do Morcego. 

O Batman estava implacável em O Cavaleiro das Trevas, chegando a brigar com o Superman (e venceu!) (DC Comics)

Como se pode notar, os heróis mais tradicionais foram mostrados em situações de vulnerabilidade. Superman foi morto pelo grotesco alienígena Doomsday e Batman teve a coluna vertebral partida pelo vilão Bane após se desgastar enfrentando vários outros inimigos. Os X-Men foram perseguidos como nunca, primeiro na já referida saga Massacre de Mutantes, depois na Era de Apocalipse enfrentando o terrível Eh Sabah Nur, foram obliterados junto com o Quarteto Fantástico e os Vingadores na saga Massacre, renascidos depois em Heróis Renascem, tornaram-se conhecidos como "Filhos do Átomo" na saga de mesmo nome e entraram em conflito com os Vingadores (X-Men vs Vingadores). Este grupo também estava em apuros, assim como a editora em si, afundada numa crise após queda nas vendas. Os Vingadores enfrentaram perigos como o Alto Evolucionário (1988) e, principalmente, Thanos (Destino Infinito, Guerra Infinita). Morreram e renasceram, para serem atacados por uma Feiticeira Escarlate enlouquecida após perder os filhos, Billy e Tommy, que teve com o Visão (Vingadores: A Queda). 

Ascenderam personagens de moral duvidosa, como os personagens de Watchmen, a exemplo do misterioso Rorschach e o maquiavélico Ozymandias, sem falar no Doutor Manhattan, um ser poderosíssimo, apático e sem nenhuma moralidade. Anti-heróis surgiram, como Deadpool, o mercenário tagarela. Vilões foram forçados a fazer atos heróicos, nos grupos conhecidos como Thunderbolts (Marvel) e Esquadrão Suicida (DC), liderados por mentes como o Barão Zemo e Amanda Waller, respectivamente. 

Outras editoras como a Image Comics surgiram, explorando personagens torturados como Spawn, criado por Todd McFarlane. A editora lançaria, em 2003, Invincible, colocando mais sangue e violência nas histórias de heróis. A Image aproveitou enquanto Marvel e DC estavam enfrentando crise nas vendas de quadrinhos. Se a primeira ameaçou até falir, precisando vender franquias de seus personagens para estúdios de cinema como a Fox e a Sony, a segunda se concentrava nas animações pela televisão (Batman, Batman Beyond, Liga da Justiça, Liga da Justiça Sem Limites e Teen Titans). 

Pouco depois, na Marvel, após o crossover desenhado por George Perez (Liga da Justiça vs. Vingadores) e os eventos de Vingadores: A Queda, o grupo liderado pelo Capitão América e o Homem de Ferro precisaram controlar a Feiticeira Escarlate, que alterou toda a realidade e fez ressuscitar não só os filhos, mas antigos personagens, como Gwen Stacy; para piorar, ela fez Magneto, seu suposto pai, tornar-se o tirano do mundo. No final, ela pronunciou a famigerada frase "Chega de mutantes", e com isso quase exterminou a raça dos "Filhos do Átomo". 

A Feiticeira Escarlate teve grande destaque na Era Moderna, alterando os rumos do multiverso da Marvel completamente com seus poderes (Marvel Comics)

Na DC, a situação também estava caótica. Além de Superman e Batman, a Mulher Maravilha também passou por um período difícil, entrando em guerra com os deuses, e o mais famoso dos Lanternas Verdes, Hal Jordan, foi morto e incorporado pelo ser conhecido como Parallax, tornando-se uma ameaça ao mundo. Barbara Gordon, a mais famosa das Batgirls, perdeu os movimentos das pernas após um sádico ataque do Coringa em A Piada Mortal e se tornou a Oráculo. Superman ressuscitou e os autores colocaram as ideias mais absurdas para renová-lo, inclusive os infames "Supermen Vermelho e Azul", enquanto a editora fez retornar a versão mais antiga de Superman, chamada então de Kal-L. A Supergirl, morta na Crise nas Infinitas Terras, ressurgiu mais tarde, enquanto o Superboy, que teve sua história apagada com a crise, voltou como um clone do Projeto Cadmus com genes de Superman e Lex Luthor. A DC consolidou sua fama como "A editora das Crises", mostrando que não conseguiu arrumar a bagunça das tramas com a unificação das Terras, publicando sagas como Zero Hora, Crise de Identidade e Crise Infinita. Esta última chocou os leitores com a morte de Kal-L por um Superboy enlouquecido de uma realidade onde heróis não existiam, o chamado "Primordial", e o ressurgimento das Terras destruídas pela Crise das Infinitas Terras. 

Como se pode notar, os heróis tiveram uma "existência" muito dura e acidentada neste período, mas ainda não chegaram a adotar completamente a cartilha dos modernos "defensores dos oprimidos" (segundo o conceito do "politicamente correto" em voga desde o início dos anos 1990). Na próxima postagem, será mostrado como este conceito foi afetando a "nona arte". 

quarta-feira, 18 de maio de 2022

Da série "Qual é a dos super-heróis", parte 6 - A Era de Bronze

Aproveitando mais um segredo de polichinelo revelado - a bissexualidade do Batman - este blog vai abordar a Era de Bronze, entre o início dos anos 1970 e o ano de 1985. 

Neste período, o Cavaleiro das Trevas voltou a se tornar sombrio e se afastou mais dos rumores acerca de sua sexualidade, mas ainda continua a ter o Robin como seu sidekick, além da Batgirl, a filha do Comissário Gordon, Bárbara. Durante a Era de Bronze, estreou um dos pontos altos da época na DC Comics: a formação mais conhecida dos Jovens Titãs (os Novos Titãs), um grupo já existente formado por jovens heróis. George Perez, agora recém-falecido, e Mark Wolfman, colocou o Robin para liderar novos heróis, como Estelar, Cyborg, Mutano e a sombria Ravena. Em 1984, Dick Grayson, já mais maduro e sem condições de continuar a ser o Robin, adotou a alcunha de Asa Noturna, afastando-se do Batman e passando mais tempo com os Titãs. Jason Todd, uma criança problemática e violenta, tornou-se o novo Robin, e isso traria consequências para a editora. 

Como destaque, também, a formação de novos Lanternas Verdes, incluindo John Stewart, um dos mais populares, e o briguento Guy Gardner. Temas sociais foram bem mais frequentes, principalmente nas histórias do Arqueiro Verde. Surgiram personagens como o ecológico Monstro do Pântano, os cavaleiros de Camelot 3000 e o Esquadrão Atari, aproveitando o sucesso dos videojogos.

Era o período dos famosos "Superamigos", a versão infantil da Liga da Justiça, que ainda lembrava a Era de Prata. Somente na última temporada (1985), os heróis ficaram mais de acordo com seus equivalentes nos quadrinhos. Também foi a época de seriados para a tevê baseados em HQs como Mulher Maravilha e O Incrível Hulk, além da série de filmes com o Superman, mas nenhum deles refletia os conflitos dos quadrinhos na época, sendo destinados a um público amplo e com conteúdo suavizado.

Neste período, a DC passou por várias "crises", envolvendo as várias Terras de seu multiverso. Essas crises não resolveram a bagunça reinante, e em 1985 Wolfman e Perez foram convocados para dar início à Crise das Infinitas Terras, marco do fim da Era de Bronze e o começo da Era Moderna, ou Era Sombria, para os detratores. Foi um choque, com a morte de vários personagens, como o Barry Allen (o mais querido e famoso dos Flash) e a Supergirl, e a alteração radical no passado de outros, inclusive o Batman, o Superman e a Mulher-Maravilha, cujas histórias foram "apagadas da existência" graças à terrível ação do vilão Anti-Monitor. Os heróis de outras Terras se viram forçados a ficar na Terra principal, que mudou o nome de "Terra 1" para "Nova Terra". Apesar da grandiosidade do evento, a DC permanece até hoje como uma bagunça, com idas e vindas de biografias fictícias e ressurgimento do Multiverso. Mas isso fica para a próxima postagem. 

Durante a Era de Bronze, os heróis puderam ter o "direito" de cometer erros crassos; o primeiro deles aconteceu em 1973, quando o Homem Aranha não conseguiu salvar Gwen Stacy (Marvel Comics)

A confusão não era muito menor na Marvel, onde coexistem várias realidades, equivalentes às Terras da DC. Um dos marcos da editora é o "What If", onde Uatu, o Vigia, conta versões não-canônicas dos diversos personagens da Casa das Ideias. Para a editora, a Era de Bronze começou com a morte trágica de Gwen Stacy, a namorada de seu principal herói, o Homem Aranha. Depois, surgiram personagens violentos e atormentados, os "anti-heróis", como Luck Cage, o Justiceiro, o Motoqueiro Fantasma e o Wolverine. Os X-Men tiveram a formação mais célebre, onde o "carcaju" baixinho e machão se juntou à poderosa Tempestade e o misterioso Noturno, além dos já antigos Cíclope, Jean Gray, Anjo e Homem de Gelo, todos sob o comando do professor Xavier. Os mutantes continuavam a ser perseguidos pelos humanos, e suas histórias ficaram mais tensas e complexas, principalmente sob os roteiros de um dos grandes quadrinhistas da época, Chris Claremont. Surgiram novas raças de extraterrestres, como os Shi'ar (cuja Guarda Imperial é uma versão "marveliana" da bem mais inocente Legião dos Super-Heróis da DC) e a Ninhada (insetoides inspirados no xenomorfo Alien). 

As histórias da editora de Stan Lee ficaram povoadas de vampiros, lobisomens e outros monstros, como Morbius. Por outro lado, ganhou mais diversidade racial, com os personagens negros e asiáticos (Shang-Chi, o Mestre do Kung Fu). Foram criados personagens cômicos, como o pato Howard e a irreverente prima de Bruce Banner, a Mulher-Hulk. Ao mesmo tempo, em 1982, Jim Starlin colocou uma das histórias mais tristes até então, A Morte do Capitão Marvel, onde Mar-Vell, o herói Kree, sucumbiu a um câncer adquirido por envenenamento de gás. Isso possibilitou a Mônica Rambeau, uma das primeiras grandes heroínas negras, assumir o nome de Capitã Marvel. 

Em 1984, a Marvel também tentou colocar ordem nas cronologias dos diferentes mundos, ao criar a raça dos Beyonders, dando origem às Guerras Secretas, onde heróis e vilões criaram grupos para lutarem entre si num lugar chamado Battleworld. Era o primeiro grande crossover envolvendo os principais personagens, causando mudanças como o uniforme preto do "Amigão da Vizinhança", dando origem à história dos simbiontes como Venom. Neste evento, também, o Doutor Destino consolidou-se como o maior vilão da editora. Antes dessa reunião com tantos heróis de histórias completamente diversas, a Marvel e a DC criaram crossovers inter-editoriais, colocando o Superman junto com o Homem Aranha e o Batman enfrentando a fúria irracional do Hulk. 

As Guerras Secretas tiveram um efeito semelhante à Crise das Infinitas Terras, com a Marvel tentando reformular histórias e causando ainda mais confusão nos leitores, tal como acabaria fazendo a sua "Distinta Concorrente". Graças a isso, a Era Moderna pode ser considerada uma grande série de acontecimentos desordenados. Isso será abordado melhor nas próximas postagens. 

Fora dos Estados Unidos, não fazia muito sentido falar em eras, mas na Grã-Bretanha, o inglês Alan Moore decretou o fim da inocência nas histórias de super-heróis em 1982, aproveitando um antigo personagem dos anos 1950 (correspondendo à Era de Prata se fosse americano), o Marvelman, para reproduzir uma história ainda mais verossímil, contando, da forma mais crua possível, como seria um mundo com gente superpoderosa. Marvelman era uma versão britânica de Shazam, e suas histórias originais eram ainda mais simplórias, mas na mão de Alan Moore, foi tornando-se um "super-homem" no pior sentido da palavra. Ele descobriu que seu passado foi manipulado por agentes do governo e um de seus ajudantes, o Kid Marvelman, cresceu e se tornou um supervilão, até morrer de forma bastante cruel nas mãos de seu antigo mentor. Em terras americanas, o personagem mudou o nome para Miracleman para não haver conflito com a Marvel (mais tarde, faria parte do imenso panteão da Casa das Ideias). Moore passou a colaborar com a DC, para continuar sua obra e fazer os quadrinhos se tornarem diversão para adultos, com V de Vingança e Watchmen, tornando-se um dos agentes da Era Moderna. 

quinta-feira, 5 de maio de 2022

Da série "Qual é a dos super-heróis", parte 5 - A Era de Prata (1956 a 1973?)

Aproveitando o lançamento do filme "Doutor Estranho no Multiverso da Loucura", este blog vai voltar com a série sobre quadrinhos, abordando a Era de Prata. Doutor Estranho, como é sabido, é um dos personagens surgidos nessa época, entre 1956 e 1970 (ou 1973). 

Esta época foi muito acusada de ter quadrinhos infantilizados ou sem compromisso com a realidade, devido ao chamado Comics Code Authority, o famigerado código de ética adotado pelas editoras. Devido às restrições, a violência e o realismo foram reprimidos, e as histórias ficaram mais próximas da fantasia pura. Outra influência foi a ficção científica, pois o mundo passou por um grande salto tecnológico com a invenção do transistor e a chamada "corrida espacial". Com isso, os monstros das histórias de terror e outros quadrinhos deram lugar aos extraterrestres. Selvas e desertos perderam espaço para os outros mundos. 

Para o bem ou para o mal, esta época influencia a criação nos quadrinhos e até nos cinemas até hoje, devido à criação de novos conceitos, como a exploração de outras realidades e a explicação pseudocientífica para os fenômenos, em detrimento da magia, que não foi abandonada. 

O marco inicial da Era de Prata é a aparição do novo Flash, Barry Allen, na revista Showcase número 4, em 1956. Ele passou a se tornar o mais popular dos Velocistas Escarlates na DC Comics, e ganhou a sua supervelocidade devido a um acidente de laboratório. Sua criação é atribuída a Gardner Fox e Carmine Infantino, dois dos nomes mais influentes da época. Sua velocidade espantosa o fez romper a barreira da luz e explorar universos paralelos, criando o conceito de "multiverso", como na famosa revista de 1961, onde Barry Allen se encontra com o seu colega Jay Garrick. Isso seria explorado posteriormente em várias histórias. 

O Flash da esquerda (Barry Allen) foi um dos símbolos da Era de Prata na DC Comics (Divulgação/DC)

A DC Comics continuava a fazer reformulações em seus personagens, fazendo-os se unirem contra as forças do mal, cada vez mais perigosas e desafiadoras. Surgiram vilões como Brainiac e grupos como a Liga da Justiça e a Legião dos Super-Heróis, grupo de jovens superpoderosos viajantes no tempo e fãs do Superboy, a versão adolescente do Superman. Isso não era o bastante para evitar a queda nas vendas ao longo da década de 1960. O público consumidor queria algo diferente, com heróis mais próximos dos seres humanos. 

Stan Lee estava atento a isso e resolveu agir quando a antiga Atlas Comics mudou o nome para Marvel Comics. Junto com Jack Kirby, conseguiu fazer um grupo de exploradores adquirir poderes por meio de raios cósmicos, durante uma viagem espacial. Os personagens não se deram ao trabalho de esconderem suas identidades, usavam tecnologia e recursos científicos para enfrentarem vilões como o terrível Doutor Destino, e ficaram conhecidos como o Quarteto Fantástico, em 1961. Curiosamente, esses personagens tinham como base um outro grupo de desbravadores criados por Jack Kirby para a DC, os Desafiadores do Desconhecido. 

Surgiu a Casa das Idéias, para ser o nêmesis da Casa das Lendas, como é conhecida a DC. Lee e Kirby foram os criadores de heróis como Thor, Homem de Ferro, Hulk, Vespa, Homem Formiga, Pantera Negra (primeiro grande super-heroi negro), Falcão, Feiticeira Escarlate, os X-Men e os Inumanos. Todos precisando lidar com problemas vividos por pessoas comuns. O Homem de Ferro, por exemplo, era o playboy Tony Stark, alcoolatra, mulherengo e com uma séria lesão no coração que o obriga a usar a armadura. Os X-Men lidavam com o preconceito contra sua espécie, o Homo superior, enquanto o Falcão enfrentava os racistas e o Hulk era perseguido por ser um monstro raivoso e destruidor. Para piorar tudo, a dupla incansável da Marvel criou uma porção de supervilões, como os invasores Skrulls, a Inteligência Suprema, a HIDRA, Loki, Magneto, Galactus, o Mandarim e o Aniquilador, entre vários outros.

A Marvel passou a reinar no final da Era de Prata, desde 1961, com o lançamento do Quarteto Fantástico (Divulgação/Marvel Comics)

Stan Lee também se juntou a outros criadores, como Steve Ditko, e com isso surgiu o Doutor Estranho, o Mago Supremo dos quadrinhos, estrela do mais novo filme da MCU junto com a Feiticeira Escarlate. Talvez o maior heroi da Marvel seja outra criação dessa dupla, o Homem Aranha, alter ego de Peter Parker, adolescente inseguro e pobre, precisando enfrentar um patrão como J. J. Jameson e uma imensa galeria de supervilões, todos querendo perseguir e eliminar o "amigo da vizinhança". 

Os elementos mágicos não foram de todo abandonados. Mesmo na "científica" Era de Prata, havia lugar para um Mago Supremo, criado em 1962 na revista Strange Tales (Marvel Comics)

Outros heróis da Marvel foram os "Capitães Marvel", nome registrado pela Casa das Ideias aproveitando o vácuo deixado pela falência da Fawcett, em 1953. Gene Colan criou o guerreiro alienígena da raça kree, Mar-Vell, e Roy Thomas concebeu Carol Danvers, a atual Capitã Marvel. 

A DC tratou de reagir, colocando seus heróis para enfrentarem novos desafios, como a presença de novos vilões como Darkseid e seu mundo odioso, pela mente de Jack Kirby quando ele saiu (temporariamente) da Marvel em 1970. Darkseid seria a inspiração para Thanos, pouco mais tarde. No início dos anos 1970, para afrontar a concorrente, eles inventaram uma Terra paralela, chamada de Angor, só com pastiches dos heróis Marvel, inclusive os Vingadores (Retaliadores). A Marvel também fez a mesma coisa, na mesma época, criando o Esquadrão Supremo, paródia da Liga da Justiça. 

Além disso, os personagens da Editora das Lendas teriam que enfrentar, também. problemas de gente normal, como o vicio em drogas de Ricardito, o ajudante do Arqueiro Verde, em 1971. Isso foi um grande desafio ao Código de Ética, e a crescente abordagem de temas fortes e realistas sepultou a Era de Prata, que teve seus últimos vestígios apagados em 1973, com a morte de Gwen Stacy, a namorada de Peter Parker, graças a um erro infeliz do herói ao tentar salvá-la. Começou aí a "Era de Bronze", marcada pela perda da inocência na nona arte. 

segunda-feira, 11 de abril de 2022

Da série "Qual é a dos super-heróis", parte 4

Um livro marcante na década de 1950 foi o famigerado "Seduction of the Innocent", ou "A Sedução dos Inocentes", em tradução livre, do psiquiatra austríaco Fredric Wertham, cujas opiniões conseguiram levantar parte da sociedade norte-americana contra os quadrinhos e provocou uma grande alteração nos rumos da nona arte. 

Este livro alterou a história dos quadrinhos (Divulgação)

Wertham, em 1948, acusou os quadrinhos de serem perniciosos para a formação dos jovens, apontando-os como estimuladores da delinquência e da homossexualidade. Os super-heróis, na Era de Ouro, cometiam atos de violência para deter os criminosos e os inimigos da América, enquanto havia uma famosa polêmica a respeito dos ajudantes adolescentes de super-heróis. Para Wertham, isso fazia alusão à milenar prática da pederastia.

Cenas como essa eram intoleráveis para os olhos dos conservadores, que apoiaram Fredric Wertham e outros críticos dos quadrinhos

Batman e Robin, o caso mais famoso da época, foi exposto como algo a ser condenado, e até hoje fazem piadas sobre a sexualidade da "dupla dinâmica". De qualquer forma, a Detective Comics tomou logo providências. Já na época das primeiras polêmicas feitas por Wertham, as histórias do "Cavaleiro das Trevas" ficaram bem mais inocentes, e não demorou para surgir a Batgirl, em 1961 (Betty Kane, usando o sobrenome do criador principal do Cruzado Mascarado, Bob Kane). 

Outros personagens também foram difamados, como o Superman, apontado como fascista, e a Mulher Maravilha, vista como lésbica. 

"Seduction of the Innocent" foi aclamado pelos conservadores da década de 1950, mas deplorado pelas mentes mais liberais, como o então jovem Stan Lee, editor da Atlas Comics (novo nome da Timely Comics, antes de vir a tornar-se a conhecida Marvel). Os editores, atendendo ao clamor, criaram um código de ética rigoroso, o "Comics Code Authority", que bania insinuações sexuais, uso de drogas, impunidade (isso acontecia com certa frequência nos quadrinhos da Era de Ouro) e exploração de deficiências físicas e mentais. Foi criado o selo de aprovação, e qualquer HQ a partir de 1955 precisava ter esse selo para ser comercializado. Algumas editoras, como a EC Comics, da revista Mad, mudaram o formato, adotando páginas maiores como as dos semanários (Magazine). 

No Brasil, também houve forte influência do "Comics Code", e um código de ética próprio foi seguido pelas principais editoras nacionais, como a EBAL, o Cruzeiro e a RGE (Rio Gráfica Editora, mais tarde Editora Globo). Havia um atraso relativamente grande entre as publicações americanas e as suas cópias traduzidas, e, além disso, os personagens mais infantis faziam mais sucesso por aqui, estimulando a criação de personagens brasileiros como o Capitão 7, o Pererê, o Judoka e a turma da Mônica. 

Wertham foi acusado de estimular a infantilização dos quadrinhos, como se pode notar nos primeiros anos da chamada "Era de Prata". A próxima postagem da série vai abordar este período. E corroborou a ideia segundo a qual as HQs não passam de subliteratura, prejudicial à formação dos jovens. Isto é difundido até hoje. 

quarta-feira, 30 de março de 2022

Da série "Qual é a dos super-heróis", parte 3 - A Era de Ouro (1938 a 1956)

Depois do lançamento do Superman, o alienígena humanoide de Krypton capaz de várias proezas quando submetido à luz do nosso Sol amarelo, a indústria de quadrinhos interessou-se pelos personagens superpoderosos, iniciando a chamada Era de Ouro. 

Criado por Joe Shuster e Jerry Siegel, o personagem não demorou a se popularizar, mas não gerou muitos benefícios aos seus criadores, pois os direitos ficaram com a National Publications, embora eles fossem bem pagos no início das publicações. Ele foi projetado muitos anos antes, inspirado no mito do Super-Homem nietzschiano e do velho desejo de onipotência. 

O Superman, na sua versão criada por Joe Shuster, até hoje é visto como o arquétipo do super-herói (Divulgação/DC Comics)

Mais tarde, Siegel e Shuster foram dispensados e acabaram na pobreza. Siegel teve numerosas brigas judiciais, inclusive envolvendo a versão do Superman nos cinemas, enquanto Shuster acabou perdendo a visão.

Fora da National, e depois da DC, alguns personagens foram claramente inspirados no personagem vestido com o conhecido uniforme azul e vermelho e a "cueca em cima da calça" própria das roupas dos artistas de circo. O mais notório deles foi o Capitão Marvel, agora conhecido como Shazam, uma versão mais caricata e ingênua do Homem de Aço, que podia voar de verdade, enquanto o Superman limitava-se a dar saltos antes de, mais tarde, conseguir ganhar as alturas e desafiar os limites do espaço-tempo. As origens, no entanto, são bem diferentes, pois o "Paspalhão Vermelho", como era conhecido o personagem feito por C. C. Beck e por Bill Parker em 1939, era a versão poderosa de Billy Batson, um menino humano que ganhava a vida como repórter de rádio, enquanto Superman se disfarçava - de forma bem pouco convincente - como um distraído jornalista de óculos chamado Clark Kent. A National teve várias dores de cabeça com a concorrente Fawcett, uma das várias editoras surgidas neste período, onde Beck e Parker, e também outros artistas, bolavam as histórias do menino que gritava Shazam! para ter os poderes de seis grandes figuras míticas. Houve várias contendas judiciais, resultando na derrota e subsequente falência da Fawcett, em 1953. O nome "Capitão Marvel", mais tarde, acabou parando nas mãos da Marvel Comics para batizar outros personagens, a partir da Era de Prata, antes da Capitã Marvel.

O mundo estava sob grande tensão devido à ameaça nacional-socialista, e as ambições de Hitler para dominar a Europa e aniquilar os judeus resultaram na II Guerra Mundial. Muitos roteiristas e desenhistas estabelecidos na América eram judeus, o grupo étnico perseguido pela tirania do III Reich. 

Editoras surgiram, para explorar o filão dos combatentes contra o nazismo. Surgiu a Timely Comics, "lar" de personagens como o príncipe Namor, o Tocha Humana (o primeiro era um androide chamado Jim Hammond) e o Capitão América, unidos para defender o mundo e fazer impor os valores norte-americanos. Este último, cria de Jack Kirby e Joe Simon, fez história ao aparecer logo na primeira edição da sua revista, acertando o nariz do tirano de bigodinho. 

Para infelicidade de muitos, não fazem essas coisas contra os tiranos atuais (Divulgação/Marvel Comics)

A Quality Comics também surgiu neste período, publicando títulos como os Blackhawks, grupo de combatentes, o Homem Borracha e uma versão heroica do grande símbolo da América, o Tio Sam. 

A Fawcett não colocou o Capitão Marvel para lutar contra a ameaça durante a guerra, salvo algumas histórias contra um personagem chamado Capitão Nazista, mas curiosamente colocou uma versão adolescente do herói, Capitão Marvel Jr., para fazer esse trabalho sujo, ao lado de alguns outros heróis, como o Megaespião (Spy Smasher). Outras editoras também colocaram heróis nessa tarefa, como a Archie, a Harvey, a Lev Gleason Publications (editora do primeiro Daredevil antes do personagem da Marvel com este nome), entre outras. De 1940 a 1945, heróis socando oficiais da SS e até mesmo o próprio Adolf Hitler eram muito populares, estimulando os norte-americanos a comprarem revistas e ajudarem a manter o espírito de combate. Os nazistas eram os principais "super-vilões", ao lado dos cientistas loucos como o Lex Luthor e o Doutor Silvana. Em geral, os vilões não tinham poderes especiais, nem mesmo o mais sinistro de todos eles, o Coringa. 

Houve contratempos, como a disseminação de estereótipos racistas contra os alemães e seus aliados, os japoneses, vistos como fanáticos e violentos. Continuavam os retratos pejorativos de outras etnias, como os povos negros, os chineses, os árabes. Em geral, as histórias continuavam com enredos simplórios e maniqueístas, salvo algumas exceções, e não raro expunham animais, extraterrestres e até plantas como ameaças aos humanos e merecedores de extermínio. 

Alguns heróis não ficaram conhecidos pela causa antinazista. Também havia interesse pelo terror, com personagens sombrios como o Terror Negro (Standard Comics), o Espectro (outro personagem de Jerry Siegel, publicado pela National) e várias entidades como fantasmas e vampiros. Com o fim da guerra, cresceu o interesse por histórias macabras. 

Surgiram também alguns personagens que não se encaixavam bem no perfil de herói, como o já referido Namor. Este seria o primeiro "anti-herói", criado por Bill Everett, um soberano da Atlântida ávido por destruir a humanidade, considerada culpada pela poluição e devastação dos mares. 

Também houve interesse por heroínas. A mulher aos poucos deixou de ser a mocinha indefesa e dependente do herói para se tornar ela própria uma combatente do crime. A maior representante foi a Mulher Maravilha, de William M. Marston, para a All American Publications, uma empresa do mesmo conglomerado da National. Outras personagens femininos de destaque foram a Miss América (Madeline Joyce) da Timely, a Miss Fury da Bell (criada por uma autora, Tarpé Mills), a Lady Fantasma da Quality Comics, Nyoka (adaptação de uma personagem de rádio) e Mary Marvel, ambas da Fawcett Comics. 

Esta última e o já citado Capitão Marvel Jr. eram os jovens ajudantes (sidekicks) do Capitão Marvel em várias histórias da Fawcett, embora tivessem muitas tramas solo, destacando suas versões sem poderes, jovens extremamente vulneráveis (a irmã e o amigo paraplégico de Billy Batson). Os sidekicks tiveram um verdadeiro boom na Era de Ouro, com dezenas deles aparecendo, mas os mais notórios foram Bucky (Capitão América) e Centelha (Tocha Humana), ambos da Timely, e o Robin, ajudante de um certo personagem, o qual será exposto adiante. 

O período também foi muito propício às histórias de mistério e detetive. Nessa época surgiu o antológico Spirit, de Will Eisner, em 1940, publicado na Quality Comics junto com outras criações do autor, como o "Tio Sam" heroico, e depois na Harvey e várias outras editoras, entre elas a própria DC (brevemente). Ele é um detetive mascarado e sempre misterioso, atuante numa cidade sombria chamada Central City e recebia a ajuda de um garoto negro (de início terrivelmente estereotipado) chamado de Ebony. 

Outro detetive viria a se tornar um dos maiores justiceiros fantasiados de todos os tempos, concebido na Detective Comics, mais uma editora do mesmo conglomerado da National e da All American, e que inspiraria o nome da futura fusão dessas marcas, a DC. Trata-se de um certo cavaleiro mascarado, de feições sinistras e atitudes frias contra o submundo, criado por Bob Kane e Bill Finger. O Batman, de início, lembrava um pouco o atual "Cavaleiro das Trevas" com o agravante de muitas vezes matar os malfeitores, pois o código moral do homem morcego ainda não estava formado. Com o passar do tempo, ele foi suavizado, ganhou o parceiro Robin, começou a acumular uma galeria imensa de vilões antológicos com os quais ele não podia facilmente lidar, como o Coringa, o Pinguim, o Charada, a Mulher Gato e o Duas Caras (para citar apenas aqueles criados antes de 1956) e foi se tornando mais ajustado para o público infantil, mesmo antes de 1954, quando houve a publicação de um certo livro chamado "A Sedução dos Inocentes", que viria sepultar de vez a Era de Ouro. Este episódio será abordado na próxima postagem. 

sexta-feira, 18 de março de 2022

Da série "Qual é a dos super-herois", parte 2 - A Era de Platina (1896 a 1938)

Na chamada "Era de Platina" dos quadrinhos, iniciada com o primeiro personagem em quadrinhos, Mickey Dugan (o "Yellow Kid", de 1896), até o lançamento do Superman na revista Action Comics em 1938, tudo era bem mais simples. As histórias de heróis eram derivadas das primeiras do gênero, voltadas para a comédia (daí serem conhecidas como comics), e não tinham muita sofisticação, principalmente em comparação com as épocas posteriores. 

Os protagonistas eram, quase sempre, do sexo masculino, caucasianos no padrão anglo-saxão (como na maioria dos ingleses e norte-americanos), fortes e viris, racionais e corajosos, sempre salvando mocinhas indefesas de vilões perversos ou megalomaníacos. Porém, nesta época, não se explorava muito a noção de superpoder. Os heróis precisavam contar com os músculos ou com a astúcia, como qualquer pessoa normal, mas sem reproduzir as nuances de caráter. Aos poucos, isso passaria a ser explorado, a partir de 1929, com o marinheiro Popeye, que não é exatamente um herói clássico, mas um personagem cômico que aumentava o poder de espancar os outros inicialmente esfregando a mão na cabeça de uma ave, para depois usar o espinafre e alavancar as vendas da hortaliça. 

Muitas vezes os cenários eram fora dos centros urbanos, em ambientes mostrados de forma estereotipada, geralmente mares, selvas e, mais recentemente, outros planetas. Nativos de outras terras eram retratados como tolos, preguiçosos ou violentos, numa caracterização que não tardaria a ser considerada ridícula. Não havia preocupação alguma com questões como racismo e nem mesmo com ecologia: os heróis, quando necessário, derrubavam árvores e matavam animais pelos motivos mais torpes, apenas para despertarem sensações fáceis. Nada a ver com o "politicamente correto", conceito desenvolvido muito mais tarde, no final do século XX. 

Seria injusto, porém, apontar as histórias da época apenas como um amontoado de clichês visando entreter mentes ociosas querendo fugir das dificuldades do cotidiano. Deve-se considerar o contexto histórico. Havia a I Guerra Mundial, a Grande Depressão, a Lei Seca, o desenvolvimento das grandes cidades. 

Até a década de 1930, os quadrinhos eram sequências de tiras de jornal, para depois serem publicados como trabalhos independentes. 

Surgiram aí personagens inesquecíveis, como Dick Tracy (1931), Mandrake (1934), Flash Gordon (1936) Fantasma ou "O Espírito que Anda" (1936). Heróis clássicos como Tarzan, Zorro e Jack Armstrong passaram a ter suas histórias contadas pelo formato. Criadores como Lee Falk (de Mandrake e Fantasma) e Alex Raymond (autor de Flash Gordon) passaram a ser cultuados, pela criatividade de suas histórias. Eles tiveram colaboradores que muito os ajudavam, para a criação de cenários usando técnicas de luz e sombra, contornos suaves ou pesados dependendo do ambiente, e o uso criativo das poucas cores disponíveis, quando haviam. 

O Fantasma (The Phantom), de Lee Falk, foi um personagem surgido antes do Superman (Divulgação/King Features Syndicate)

Os clássicos uniformes padrão para os heróis e, mais tarde, para os supervilões, foram bolados na década de 1930, e o Fantasma de Lee Falk foi um dos pioneiros, com seu uniforme roxo colante, a máscara para esconder sua identidade (já usada antes por outros personagens, como o Zorro) e a "cueca por cima da calça". Essas roupas extravagantes eram derivadas dos antigos uniformes usados pelos artistas de circo, um divertimento popularíssimo antes da II Guerra Mundial. 

Quanto ao mercado editorial, ainda estava em formação, sem os grandes conglomerados. A National Allied, que viria a publicar o Superman, e a DC Comics, onde o Batman foi inventado, eram empresas separadas, mas com um dos fundadores em comum, Malcolm Wheeler-Nicholson. Elas iriam ser uma editora única apenas em 1946. Havia relativamente poucas empresas explorando este mercado (Dell Comics, King Features Syndicate), mas isso iria mudar nos anos 1940, durante a Era de Ouro, assunto para a próxima postagem. 

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

Da série "Qual é a dos super-heróis", parte 1

As impagáveis onomatopeias presentes nos quadrinhos (Shutterstock)

Para quem está querendo fugir das notícias sobre a invasão da Ucrânia, a preocupação com a economia e com a criminalidade, ou o esvaziamento do Carnaval em tempos de pandemia infindável, ler "gibis", ou histórias em quadrinhos, não parece ser algo muito mais salutar para o cérebro. Atualmente, ninguém sonha em querer chamar algum super-herói para enfrentar Vladimir Putin, e nem na ficção eles se ocupam disso, apesar de seus poderes inacreditáveis.

Os quadrinhos já foram acusados de causar preguiça mental e até de desvirtuar os costumes, como tentou provar um livro chamado "A Sedução do Inocente", de 1954, escrito por Fredric Wertham. Vou tratar melhor disso em breve. Isso quando tinham ainda conteúdo considerado infantil e inocente, salvo as histórias de terror em voga na década de 1950. Mas este blog vai se concentrar nos heróis, considerados o carro-chefe dos quadrinhos norte-americanos.

Estudiosos da chamada "nona arte" dividem a história dos quadrinhos americanos (não os europeus ou os brasileiros, e muito menos os mangás japoneses) em cinco: 

- a Era de Platina, anterior ao lançamento da revista do Superman, pela National Comics (atual DC Comics), em 1938; 

- a Era de Ouro, entre 1938 e 1956, quando publicaram a primeira história de Barry Allen, o Flash, pela DC, logo após a repercussão do livro "A Sedução do Inocente"; 

- a Era de Prata, entre 1956 e 1973, antes da Marvel Comics publicar a morte de Gwen Stacy, a namorada do Homem-Aranha; a moderna Marvel, aliás, surgiu neste período e logo tomou a liderança no setor; 

- a Era de Bronze, entre 1973 e 1985, quando os quadrinhos começaram a perder rapidamente a inocência das épocas anteriores; terminou com a chamada "Crise das Infinitas Terras", da DC; 

- a Era Moderna, ou Era Sombria, a partir de 1985; posteriormente, este blog vai tentar justificar este apelido. 

Assim, o blog vai tentar destrinchar este assunto, sem tentar se meter a especialista. Assim, podemos entender como esta arte enveredou por caminhos tão lamentados pelos saudosistas. 

sexta-feira, 15 de outubro de 2021

Histórias de heróis seguem rumo insólito

 A chamada "lacração" está em alta na indústria de quadrinhos, colocando heróis icônicos para defender causas diversas, mesmo à custa de, aparentemente, desafiar ou mesmo destruir sua história contada ao longo de décadas. E não só isso: parece haver uma profusão de temas para chocar o leitor e fazê-lo imaginar os mais diversos futuros para os seus personagens favoritos, mesmo os mais terríveis. 

Na DC, por exemplo, a atmosfera parece tradicional, com todas as histórias de personagens antigos como o Superman, o Batman, a Mulher Maravilha, o Lex Luthor, o Coringa e outros, mas, por outro lado, há as intermináveis crises, para recontar a história dos heróis e vilões ao gosto dos editores ou de alguns criadores, com o pretexto de administrar as incontáveis "Terras paralelas", agora reduzidas a 52, incluindo a Terra principal onde se encontra a Liga da Justiça. Nesta, chamada de "Earth-Prime", o filho do clássico Superman, Jon Kent, é defensor das causas ambientais e também é bissexual, namorando um herói criado recentemente, Jay Nakamura. 

Antes, o Robin atual, Tim Drake, também "saiu do armário", embora a fama de gay do personagem afete todos os principais ajudantes do Batman com este nome: Dick Grayson e Jason Todd. (*) Sem falar em histórias cada vez mais opressivas e sinistras, não só na sombria Gotham City, mas em outros ambientes, com demônios, zumbis, magia negra, um "Batman que ri" psicopata e uma Liga da Justiça Sombria. E ainda há a ameaça da destruição de toda a existências nas 52 "Terras", em uma aparente crise no chamado "Multiverso", e o mais poderoso vilão da editora, Darkseid, sendo apontado como um dos principais responsáveis por uma hecatombe de proporções imensuráveis. 

O novo Superman virou defensor de causas, combatendo as mudanças climáticas...

... e a homofobia (DC Comics)

Já a Marvel costuma ousar mais e defender causas com mais frequência, como a questão da intolerância (os X-Men), a igualdade entre sexos (Capitã Marvel), a homossexualidade (personagens como a Míssil Adolescente Megasônico, o Homem de Gelo e o Deadpool, este último considerado "pansexual"), a deficiência física (Demolidor, Prof. Charles Xavier) e o racismo (Pantera Negra, Luke Cage, Blade, Tempestade, Monica Rambeau e outros personagens negros). Mas aí também há muita coisa estranha, como as incontáveis mortes da Feiticeira Escarlate, uma das mais poderosas heroínas da Casa das Ideias e as reviravoltas sobre sua história (ainda não está claro se ela é ou não filha do vilão Magneto, por exemplo). Recentemente, a atmosfera das histórias também está muito sombria, repetindo o caso da DC, com mortes de importantes personagens como o Doutor Estranho por, supostamente, uma versão mais jovem dele em A Morte do Dr. Estranho e o poder crescente do diabólico Doutor Destino. E também há uma crise semelhante no "Multiverso", envolvendo um número de "Terras" ainda maior do que as da editora rival, todas com a estabilidade ameaçada pelo viajante do tempo e conquistador de mundos, Kang. 


(*) Dick Grayson virou o Asa Noturna, conhecido por ser um "pegador" de superheroínas como a Batgirl Bárbara Gordon (que chegou a ficar paraplégica, mas a DC não aborda tão bem a questão da deficiência física como a Marvel, e a fez voltar a andar), a Caçadora e a Estelar. Já Jason Todd também não se tornou gay, mas se transformou no anti-herói Capuz Vermelho após morrer nas mãos do Coringa e ressuscitar usando o Poço de Lázaro, propriedade de outro supervilão inimigo do Batman, Ra's al-Ghul.