quinta-feira, 16 de abril de 2026

Triste destino para alguém que já foi presidente

Fernando Henrique Cardoso, chamado por aliados e adversários pela sigla FHC, foi presidente por oito anos, entre 1995 e 2002, considerado o melhor presidente da história da Nova República, pelo menos por boa parte da imprensa que antes via Lula como um perigo para as instituições e sem bagagem intelectual, e agora o apoia, sob o pretexto de assegurar o Estado Democrático de Direito contra a "ameaça" bolsonarista. E também por setores mais letrados da sociedade, identificados com o pensamento mais refinado vindo da Europa e com a social-democracia. Enfim, um "tucano" na Presidência, como líder do PSDB. 

Seu governo manteve o legado do Plano Real, instituido no governo anterior de Itamar Franco, sendo ele, então, o ministro da Fazenda. Conseguiu manter os preços sob relativo controle, apesar das crises econômicas provocadas pela Ásia, pelos atentados do 11/9 e pelas limitações de um país ainda sonhando em ser "Primeiro Mundo". Sua política, principalmente a externa, fez a mídia dizer que ele está conduzindo o Brasil neste rumo, mas em 2001 um apagão nacional desmentiu isso. No ano seguinte, José Serra, candidato "tucano", perdeu para Lula no segundo turno, em meio aos temores de uma política menos moderada e crise do dólar, com a moeda americana ameaçando ir para R$ 4,00, quando, no início do mandato de FHC, estava abaixo de R$ 1,00. 

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o FHC, durante uma de suas últimas aparições públicas com repercussão nacional, em 2015 (Wilson Dias/Agência Brasil)



Era uma época saudosa por muita gente, quando a Internet estava se popularizando e a vida social ainda era essencialmente offline e sem os shows das bandas de música (ainda perfeitamente audíveis) com preços (muito) nas alturas. A TV aberta transmitia programas de qualidade, principalmente na Cultura, e as novelas da Globo ainda eram muito assistidas, mas já com a tendência dos reality shows quererem invadir as telinhas de tubo. 

FHC era uma imagem de estadista para uns, acadêmico e articulado, enquanto para outros era um títere do sistema político-eleitoral e seu presidencialismo de coalizão, obrigado a se aliar com nomes considerados nefastos como o governador da Bahia Antônio Carlos Magalhães e o do Pará Jader Barbalho, enquanto escândalos políticos e financeiros sangravam o NOSSO DINHEIRO, mas não na voracidade pantagruélica durante os governos petistas seguintes. Uma manobra política permitiu uma emenda constitucional sobre o direito à reeleição, e ele conseguiu se candidatar pela segunda vez, vencendo as eleições presidenciais de 1998. Mas não podia se candidatar a um terceiro mandato. E desde a sua saída do poder, em 2002, não tem aparecido publicamente com frequência. 

Continuava a ter força política para mobilizar os "tucanos", mas com o avanço do bolsonarismo após a crise institucional do governo Dilma, ele e seus partidários se tornaram incapazes de representarem uma "terceira via", e um dos poucos bem sucedidos, João Dória Jr., contribuiu para a ruina do PSDB quando foi prefeito da capital paulista e depois governador do Estado, atendendo mais às ambições pessoais e se aliando ao bolsonarismo para depois se tornar um desafeto deste ao defender as medidas sanitárias durante a pandemia, combatidas por Jair Bolsonaro e seus apoiadores mais fieis, passando a ser odiado por todos no espectro político brasileiro inteiro. 

Agora, Fernando Henrique é um idoso esquecido e senil, consumido pelo mal de Alzheimer e juridicamente interditado pelos próprios filhos, considerado sem capacidade ou responsabilidade para administrar suas próprias finanças. Um fim terrível para um ex-presidente. 

Ontem, a Justiça deu ganho de causa para Paulo Henrique Cardoso, na prática gestor dos bens do pai há anos, e seus irmãos. A facilidade no processo mostra a pouca capacidade de reação de FHC, agora beirandos os 95 anos (*). Parece que o velho sociólogo formado na Sorbonne de Paris e considerado um dos consolidadores do atual Brasil está conformado em terminar seus dias. Provavelmente este blog voltará a escrever sobre ele em breve, e o próximo artigo será após sua morte. Mas esta postagem já parece ser um obituário. 


(*) Não é o ex-presidente mais idoso, pois José Sarney, vice de Tancredo Neves, o "fundador" da Nova República após o fim do regime militar, e presidente entre 1985 e 1990, cujo legado é considerado pior devido à péssima situação econômica ao fim de seu mandato, tem 96 e com as capacidades cognitivas mais preservadas, embora com a saúde física também delicada, agravada por uma queda em 2024. 

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