segunda-feira, 16 de março de 2015

A manifestação e suas repercussões

Ontem, houve a maior manifestação de brasileiros desde as Diretas Já (1984), superando os protestos de junho de 2013. 

Ao contrário daqueles, quase não houve violência. Porém, houve mais foco. Querem o fim da corrupção e estão contra o governo por permitir a roubalheira. Muitos pediram o impeachment, algo que depende do Congresso e não é assim tão fácil de implementar como muitos gostariam. Uma minoria de descerebrados pediram intervenção militar, mas foram postos à margem. Era uma minoria de abilolados perdida no meio de 1 milhão de pessoas. 

Nas redes sociais favoráveis ao PT, não houve diferenciação entre quem era simplesmente a favor da Operação Lava-Jato, algo ainda menos drástico do que o impeachment, dos golpistas que pediam a volta dos militares. Querem fazer acreditar que tudo é a mesma coisa, típico de uma "elite branca" que quer "frear as conquistas dos mais pobres". Acontece que havia mais negros e pobres do que defensores do militarismo nas passeatas de ontem. 

Não era só Dilma considerada a culpada pelos descalabros. Renan Calheiros, Eduardo Cunha e outros políticos denunciados na lista do procurador-geral Rodrigo Janot, assim como todo o PT, foram considerados beneficiários da corrupção. 

Para responder aos protestos, o governo incumbiu o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, e o secretário-geral da Presidência, Miguel Rossetto, para responderem à multidão. Requentaram velhas promessas do PT, rejeitadas pela base aliada e vistas com desdém pelos manifestantes. Pregam o fim do financiamento público de campanha e uma reforma política nos moldes do PT, ou seja, "não aprenderam nada e não esqueceram nada" (*). 

Hoje, as revistas do mundo inteiro trataram de mostrar os eventos em suas páginas físicas e virtuais. 



Mais tarde, a presidente Dilma falou aos brasileiros, mas não mostrou inovações no conteúdo do discurso. Comparou a corrupção a uma velha senhora, que oprime o povo há séculos. Isso é verdade, mas naturalmente ela não citou a sua contribuição para que esta "velha senhora" esteja mais forte e dominadora, escravizando a nossa gente. Ela voltou a celebrar a democracia e a liberdade de manifestação, como se ela fosse fruto das lutas feitas por ela e pelos companheiros da guerrilha contra a ditadura, e não um processo de amadurecimento do país após o trauma que se estendeu de 1964 a 1985. 

Os mercados ainda mostram cautela frente aos protestos, que ainda estão só no começo. O dólar só baixou um pouco, continuou na faixa de R$ 3,24, e a Bovespa teve uma alta insuficiente para cobrir os prejuízos da última "sexta-feira 13" (0,52%). 

Este governo vai ter dias duros pela frente. Dilma terá de usar o seu espírito guerreiro e mostrar mais habilidade política, não demonstrada por ela desde os tempos de ministra no governo de seu mentor Lula, para tentar se manter no cargo e evitar a renúncia que, ao contrário de um processo de impeachment, não dependerá do Legislativo para acontecer. 



(*) Essa frase é atribuída a Talleyrand, político francês, contra os Bourbons, que retomaram o poder na França e na Espanha após a queda de Napoleão, quase 200 anos atrás. 

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