Apontada como a montadora de veículos mais inovadora do século passado, a Fiat completou 50 anos de Brasil e promete muito mais, num dos mercados mais rentáveis para ela.
Em julho de 1976, a fábrica italiana começou a produzir em Betim, Minas Gerais, e muitos caçoavam daquele carrinho feio, batizado com um número: 147, mesmo com propagandas irreverentes mostrando as qualidades dele: agilidade, relativa robustez (embora a aparência sugira o contrário), economia de combustível e espaço interno, bem superior ao do Fusca em carroceria cerca de 45 cm mais curta. Este carro era uma versão do 127 italiano, e inaugurava no Brasil o conceito de motor transversal, uma novidade para deixar o capô menos comprido e o carro como um tudo mais fácil de estacionar. O motor transversal agora é hegemônico no mundo, inclusive aqui.
| O primeiro 147, carro de 50 anos atrás, um dos destaques da década de 1970 (Henrique Rodriguez/Acervo pessoal) |
O mesmo carrinho, após conquistar o mesmo público que debochava da sua feiúra, foi o escolhido para testar o primeiro motor a álcool, sendo chamado de "cachacinha", em 1979. No ano anterior, veio a primeira picape derivada de automóvel, de início bem pequena, mas depois suas dimensões aumentaram para poder acomodar uma quantidade considerável de carga, e só aí ganhou um nome: City. Já havia a Fiorino, um furgãozinho que logo fez sucesso.
Em 1984, surgiu o Uno, a "botinha ortopédica", com suas linhas relativamente avançadas para a época, ainda mais considerando o mercado fechado de então, onde não entravam os carros vindos da Europa, mais acostumados com inovações e tecnologia. Este carro sucedeu o 147 dois anos mais tarde, e em 1990 ganhou o primeiro motor de "mil cilindradas", na versão Mille. Ficou quase 30 anos em produção, virando até um meme quando era equipado com uma escada no teto, como nos vários Unos usados por empresas. O sedã Prêmio, derivado do Uno, foi o primeiro carro com computador de bordo, e a perua Elba tinha um porta-malas inacreditavelmente grande.
O primeiro carro fabricado no país a não merecer fama de "carroça", xingamento dado pelo então presidente Fernando Collor, foi o Tempra, também o primeiro carro médio da marca, em 1991, Derivada do Fiat Tipo, um hatch que concorria com o Escort e o Kadett desde 1993 e, em 1996, foi o primeiro carro a ter um air-bag como opcional, pouco antes do mais sofisticado Chevrolet Vectra, o mais moderno concorrente do Tempra. Primeiro carro a ter 4 válvulas por cilindro (16 no total), e um dos primeiros a ter turbo de série (ao lado do também nervosinho Uno Turbo, que não precisava de escada no teto para humilhar donos de carros maiores), foi substituído pelo Marea, cujo motor de 5 cilindros e 20 válvulas era complexo demais para o gosto do brasileiro, e, sem manutenção adequada, virou um problema no mercado.
Veio o Palio, em tese sucessor do Uno, para ser o primeiro carro com air-bag de série na versão 16 válvulas (1.6). O carro, mais um complemento do que um herdeiro do veterano Mille, trouxe algumas inovações, mas a mais lembrada foi o câmbio de seis marchas, de triste memória, e o famigerado Dualogic, um automatizado problemático. Sua versão perua, a Weekend, foi um dos carros mais longevos da categoria, e inovou com a Adventure, equipada com um sistema Locker de controle de tração que lhe permitia vencer as estradas ruins abundantes no Brasil. Do Palio veio a Fiat Strada, a campeã de vendas do segmento e até de todo o mercado automotivo, por mais maluco que isso possa soar.
Embora a montadora de Turim seja mais conhecida pelos carros pequenos e picapes, onde tem fortes representantes como o Argo e seu sucessor, o Argo X prestes a ser lançado, ela arriscou muito nos segmentos superiores, onde amarga fracassos, apesar de ter alguns bons produtos como o Stilo.
Recentemente parte do grupo Stellantis, a Fiat tem no Brasil um dos mercados mais valiosos. Em 2024, de cada cinco veículos da marca vendidos no mundo, dois foram montados em nosso país. Isso não mudará no curto e médio prazo, mesmo com a acirrada concorrência de várias montadoras, inclusive as chinesas.
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