segunda-feira, 18 de maio de 2020

Gol, 40 anos

No dia 15 de maio, dia do "aniversário" de um dos símbolos da indústria automobilística nacional, este blog ia escrever algo sobre ele, mas teve de mudar a pauta para as últimas "quizumbas" envolvendo o governo, entre as quais a demissão do ministro da Saúde Nelson Teich. 

Quem teve a oportunidade de ver o Gol, o carrinho da Volkswagen em seu primeiro ano, notava que ele ia ser uma espécie de "mini Passat" para concorrer com os pequenos carros da época, como o Chevette e o Fiat 147. No longínquo ano de 1980, o Fusca ainda era o carro mais vendido, e ainda havia a Brasília. 

O Gol de 40 anos atrás (Divulgação)
De início, o pequeno carro com o nome parecido com o Golf, o carro-chefe da marca na Europa, mas "abrasileirado" para atender ao gosto do povo, por lembrar o futebol, parecia que não ia vingar, com seu motor 1.6 refrigerado a ar, sem fôlego para correr muito com seus 42 cv. Mas ele resistiu. Philip Schmidt, então chefe do departamento de projetos da Volks no Brasil, não queria ver o projeto, desenvolvido desde 1975, fracassar, e bancou a criação de mais carros derivados: o sedã Voyage em 1981, a perua (station-wagon) Parati e a picape Saveiro, ambas de 1982. 

Depois de algumas versões impactantes, como o Gol GT de 1984, e o lançamento do conhecido motor AP, a partir do antigo motor MD-270 do Passat que equipava o carro nas versões menos espartanas e também o Voyage e a Parati, o carrinho passou a ficar interessante para o consumidor. A primeira retirada de linha do Fusca (1986) foi um teste para o Gol, que mudou a frente logo a seguir, ficando mais atraente. Apesar de apertado e sem equipamentos de conforto, o carro tinha bom desempenho para a época e uma mecânica bastante robusta. Com isso, em 1987 o pequeno Volkswagen passou realmente a ser o sucessor do velho besouro, e foi o carro mais vendido. 

A icônica versão GTi, lançada um ano após o Gol se tornar o mais vendido do Brasil
Foi assim nos anos seguintes. Em 1988, veio o Gol GTi, primeiro carro de série equipado com injeção eletrônica. Em 1993, o Gol 1000 foi uma tentativa (não muito bem sucedida) de fazer concorrência ao Uno Mille, aproveitando a menor tributação para os carros de menos de mil centímetros cúbicos no motor. 

Em 1994, o Gol se reestilizava completamente, tornando-se o "Bolinha", ou "Geração 2". Surgiram versões como o Gol GTI 16V, um dos campeões de desempenho nos anos 1990. O Voyage desapareceu, mas a Parati e a Saveiro se transformaram mais tarde, acompanhando as mudanças do carro-chefe. Surgiu a versão com quatro portas, acompanhando o gosto do público. Mais tarde, as reestilizações do "Gol Bolinha", chamadas de Gol G3 (1999) - que inovou com o motor flex a partir de 2003 - e G4 (2005), sempre acompanhadas da reestilização de suas versões perua e picape, que passaram a sofrer mais com a concorrência. A Parati, até então a líder no mercado de station-wagons, perdeu o mercado para a Palio Weekend, da Fiat, e a Saveiro foi perder terreno para a Strada, também da Fiat. 

O Gol G2, ou "Bolinha", lançado no final de 1994. Acima, a versão GTI, sucessora do antigo GTi
Finalmente, a transformação mais radical do carro em 2008, quando ele deixou de usar um motor longitudinal e passou a adotar a plataforma do Polo, tornando-se o Gol G5, na prática a terceira forma do campeão de vendas. Voltou o Voyage, para competir no mercado de sedãs compactos. A Saveiro também se reestilizou, mas a Parati estacionou no formato "bolinha", a G4. 

O Gol G5 é o terceiro formato do líder de vendas. A partir daí passou a ser encontrado predominantemente com quatro portas - os Gol mais recentes com duas portas são relativamente raros
Infelizmente, para a fábrica alemã, a concorrência passou a disputar com mais competência o gosto do consumidor, e além disso o Gol deixou de inovar como antes. Para enfrentar os rivais, surgiram novos Volkswagen na faixa dos compactos, o Fox, o Polo e o pequenino up! Como resultado disso, ele perdeu o posto de carro mais vendido para o Palio em 2014, coincidentemente o ano da Copa do Mundo no Brasil, onde houve o 8/7. O Brasil deixou de ser considerado o país do futebol, e o Gol deixou de ser o queridinho dos consumidores de automóveis. 

Desde então, o modelo nunca mais recuperou a liderança, perdendo terreno para o Onix, da Chevrolet, o novo líder de vendas. Agora, a sobrevivência do velho Gol está em xeque, com planos de substituí-lo. Mas a Volkswagen dificilmente irá desprezar o modelo responsável por recordes de vendas, sendo o legítimo sucessor do lendário Fusca no Brasil.



N. do A.: O Gol surgiu no regime militar, época com a qual alguns radicais sonham e onde a imprensa, agora vista como inimiga do governo, ainda era amordaçada, apesar da abertura política que começou com o fim do AI-5 e do período ditatorial strictu sensu, em 1978. Os radicais anti-imprensa, anti-STF, anti-Congresso e anti-Constituição fizeram questão de aparecer nas manifestações, saudadas pelo presidente como "democráticas" mas que ignoraram as recomendações de distanciamento social por causa da pandemia de COVID-19. 

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