segunda-feira, 24 de junho de 2019

Velhos problemas

1. A ponte do Jaguaré ficou interditada, atrapalhando o trânsito em toda a cidade, devido a um incêndio em moradias irregulares sob ela. Mais uma vez, o patrimônio público é estragado por causa de algumas pessoas que estão em local errado, movidas pelos instintos de sobrevivência e não pela razão, por estarem privados de condições mínimas para viverem dignamente. Desta vez, não houve mortes, ao contrário do ano passado, quando o prédio Wilton Paes de Almeida foi incendiado e destruído por fato semelhante. As prefeituras tinham a responsabilidade de evitar a ocupação das pontes e viadutos por este pessoal. Tinham condições de fazer. Mas não fizeram. 

2. Da mesma forma, prenderam os líderes do Movimento Sem Teto no Centro (MSTC), responsáveis pela tragédia do edifício Wilton. Dizem lutar pela moradia, mas são acusados de ocupar irregularmente um prédio que não lhes pertence, e sim ao Governo Federal, no Largo do Paiçandu. E ainda exploravam economicamente os moradores, cobrando-lhes valores extorsivos como aluguel dos espaços. Não se pode simplesmente colocar o MSTC na clandestinidade, mas é necessário apurar as acusações contra eles e puní-los se houver provas. Isso também é parte do déficit habitacional na cidade de São Paulo, problema crônico que precisa ser enfrentado pela prefeitura, mas sem demagogia e de acordo com a lei. 

3. Outro problema, diferente, é a precariedade na formação das jogadoras de futebol. Isso já foi abordado antes quando a Seleção Brasileira feminina fracassou nas Olimpíadas do Rio em 2016, e continua a ser um assunto, mas só quando ocorrem novos revezes. De novo, vão apontar a falta de planejamento da CBF e de interesse do público no esporte, ainda visto como uma prática masculina, para depois tudo ser esquecido. As "meninas" foram derrotadas pela equipe francesa por 2 a 1, na prorrogação, pelas oitavas-de-final da Copa do Mundo, na França. Não faltou empenho do time brasileiro, mas outra vez dependeram de jogadoras veteranas, como Marta, Cristiane e Formiga, que jogaram, provavelmente, sua última Copa. 

4. Por falar em futebol, os gramados dos estádios brasileiros mostram novamente seu estado precário de conservação, servindo como desculpa para o mau desempenho de alguns jogadores, como Messi, da Seleção Argentina, e Suárez, do Uruguai. Eles estão acostumados aos gramados europeus, e na Europa um campo como o do Beira-Rio, por exemplo, seria execrado e o clube responsável pagaria uma bela multa. Mas é neste estádio de Porto Alegre onde a Seleção Brasileira jogará, contra o Paraguai, a mesma equipe que já os eliminou duas vezes nos pênaltis, em gramados também precários, na Argentina (2011) e no Chile (2015). Os canarinhos precisam lidar com a retranca paraguaia, e não podem culpar o gramado, se houver um terceiro revés. É capaz de sugerirem que cada jogador pastasse por lá. Ou pedisse música no Fantástico, de acordo com uma velha piada.

sexta-feira, 21 de junho de 2019

O inverno começa quente

Faz quase vinte graus Celsius por aqui em São Paulo, no momento da redação desta postagem. Nunca senti um começo de inverno tão quente. 

Em Brasília, onde as temperaturas costumam ser mais altas do que na capital paulista, o clima está realmente quente, e não só no sentido literal, devido ao escândalo dos vazamentos publicados pelo site The Intercept. A defesa do ex-presidente Lula se empenha em tentar a liberdade de seu cliente, e recorre à Procuradoria-Geral da República, que tem dúvidas sobre a autenticidade do conteúdo vazado. Os advogados devem insistir, com o argumento da suspeição de Moro por ele estar falando com a Força-Tarefa, logo a sentença seria nula e, neste caso, valeria a expressão latina In dubio pro reo (a dúvida favorece o réu). Mas para muitos magistrados e juristas o caso não é assim tão simples, e depende do julgamento do STF. 

Isso tudo não é tão relevante para os destinos do mundo. No Hemisfério Norte, onde é verão, existem locais bem próximos de uma "ebulição", como no Golfo Pérsico, onde um drone americano foi derrubado por forças iranianas. Isso despertou a fúria do presidente americano Donald Trump, e por um triz ele não mandou responder militarmente ao que ele considera um ato de guerra. Desde ontem, o preço do petróleo aumentou signficativamente. No dia 19, custava pouco mais de US$ 61, e agora está em mais de US$ 65. A escalada da tensão naquela região da Ásia Ocidental pode significar aumentos maiores e impacto no preço dos combustíveis em todo o mundo, inclusive no Brasil, onde já ninguém está contente na hora de abastecer. Sem falar no encarecimento dos produtos industrializados, onde o plástico, cujas matérias primas são derivados do petróleo, é fundamental. 

quarta-feira, 19 de junho de 2019

Ranking das melhores universidades latino-americanas

Recentemente, foi liberado o ranking da QS World University Rankings 2020, indicando quais foram as melhores universidades latino-americanas no ano de 2018. 

A má notícia: a USP perdeu a liderança. Em certas épocas, disputava a primazia com a Unicamp, mas agora quem ocupa o topo da lista é a Universidad Católica, do Chile. 

A boa notícia: mais universidades brasileiras estão no Top 50: além da USP e da Unicamp, também foram bem a UFRJ (9º), a UNESP (11º), a PUC-RJ (12º), a UFMG (15º), a UFRS (18º), a UFSC (21º), a UNIFESP (31º), a UFPR (33º), a UFSCar (34º), a PUC-SP (46º), a PUC-RS (49º) e a UFF (50º). 

O QS World leva em consideração a qualidade de ensino, a empregabilidade dos alunos e a produção científica dos pesquisadores, principalmente em termos de relevância (número de citações e publicações com Qualis A ou B). 


N. do A.: Muitos temem a piora em rankings futuros com a atual política do MEC, mas boa parte das universidades brasileiras mais conceituadas ou são estaduais ou instituições privadas. Além disso, nem todos os bolsistas de pós graduação são financiados por agências federais de fomento (a FAPESP, por exemplo, é estadual).

terça-feira, 18 de junho de 2019

Moro e a Seleção feminina

Sérgio Moro, apesar das denúncias e das ilações contra ele, ainda tem prestígio junto ao presidente Bolsonaro. O time de futebol feminino, apesar de seus problemas, venceu as italianas por 1 a 0 na Copa do Mundo, e vai para a próxima fase. No entanto, ambos ainda continuam ameaçados. 

O ministro da Justiça pretende ir ao programa do Ratinho explicar sobre o episódio dos vazamentos divulgados pelo site The Intercept, expondo relações ilegais de cumplicidade entre o então juiz e Deltan Dallagnol. Ratinho, antes de ter programa próprio, fazia parte da equipe do programa Cadeia Neles, apresentado pelo já falecido Luís Carlos Alborghetti, conhecido pelo temperamento irascível e pela defesa de medidas duras contra a criminalidade, exaltando o trabalho de Moro quando ele ainda era um jovem e ainda pouco conhecido juiz em Curitiba. 

Enquanto isso, o site libera novos vazamentos, sugerindo que Moro estava tentando proteger o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso das investigações da Lava Jato. FHC é acusado de ter recebido propina da Odebrecht, a construtora envolvida visceralmente com o Quadrilhão do PT e, agora, está com uma dívida de R$ 98 bilhões, por causa da qual pediu, ontem, recuperação judicial. Vale lembrar que a Lava Jato NÃO foi responsável pela bancarrota na empresa, usada e abusada pelos seus donos e principais executivos, em conluio com os governos de Lula e Dilma, políticos, doleiros e empresários envolvidos no maior escândalo de corrupção em nossas plagas. 

No meio dos escândalos, Rodrigo Tacla Duran, o advogado e doleiro que acusou de corrupção um amigo do ex-juiz (Carlos Zuccolotto), voltou ao noticiário, dizendo ser vítima de extorsão de advogados ligados à Lava Jato, principalmente um sócio da mulher de Moro (Marlus Arns) para não ser preso. Duran nunca foi devidamente investigado, e nem os apontados por ele como autores de delitos. 

Por outro lado, setores da imprensa e da oposição culpam Moro por sua suposta participação na vitória de Jair Bolsonaro nas eleições do ano passado, inviabilizando a candidatura do ex-presidente Lula, apontado como o grande chefe do Quadrilhão, mas condenado, por enquanto, apenas por delitos menores como a posse suspeita do sítio de Atibaia e do triplex do Guarujá, em sentenças que podem vir a ser anuladas, colocando em dúvida a lisura do responsável por elas e a sua fama de seguidor da lei.

Se Sérgio Moro corre perigo de ver seus planos irem para as calendas gregas, na mesma situação está a Seleção Feminina. Elas conseguiram vencer as italianas com gol de Marta, cobrando um pênalti duvidoso, mas, por conta dos resultados, não escaparam do terceiro lugar no grupo, devido à vitória das australianas sobre as jamaicanas por 4 a 1. O saldo de gols favoreceu as rivais da Oceania, que ficaram com o segundo lugar. Apesar da derrota, o time italiano não perdeu o primeiro lugar.

Marta (dir.) e Thaisa comemoram o gol que deu a vitória à Seleção (AFP)

Na próxima fase, é bem possível que a equipe brasileira, com poucos talentos jovens e excessivamente dependente de Marta e Cristiane, enfrente as donas da casa, ou seja, as francesas. Será uma dura provação jogar com um time considerado favorito, e ainda apoiado pela torcida local. O sonho do inédito título na Copa do Mundo de futebol feminino continua em xeque. Porém, o time conseguiu jogar melhor do que nas duas partidas anteriores, e a "rainha" Marta conquistou mais um feito: fazer 17 gols em Copas, sendo artilheira isolada na história dessa competição. Mal comparando, ela supera os 16 gols do alemão Klose nas Copas masculinas.


N. do A.: A respeito das eleições de 2018, vistas como fortemente influenciadas por Sérgio Moro, continuam as denúncias de fake news nas redes sociais para beneficiar o atual mandatário, e muitos expõem essa notícia como se os usuários das redes fossem todos estúpidos e manipuláveis, e as fake news fossem fator tão importante para o resultado das urnas. As milhões de notícias mentirosas liberadas de forma criminosa a mando de certas empresas difamavam, igualmente, Haddad e Bolsonaro.

segunda-feira, 17 de junho de 2019

BNDES sob nova direção

Gustavo Montezano foi escolhido como novo presidente do BNDES, posto sob suspeita por Bolsonaro desde quando ele era deputado, por financiar empreendimentos suspeitos em países como Angola, Venezuela e Cuba, quando o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social estava subordinado ao governo petista. 

Montezano já fazia parte do governo, como secretário adjunto da Secretaria de Desestatização e Desinvestimento, e foi ex-sócio do BTG Pactual. 

Paulo Guedes havia confiado em Joaquim Levy, ex-ministro da Fazenda de Dilma, para a presidência da entidade, mas agora ele o acusa de "deslealdade" por ter nomeado, como diretor do Mercado de Capital, o advogado Marcos Barbosa Pinto, ex-assessor do BNDES ainda no primeiro governo Lula e colaborador do então ministro da Educação Fernando Haddad na criação do ProUni.

A presença de Barbosa, embora seja um nome técnico, foi muito mal vista pelos bolsonaristas, ávidos para tentarem desvendar a chamada "caixa preta" do banco. Há anos há a suspeita de haver desvios bilionários durante os governos petistas, fora os já citados financiamentos para as obras em países aliados da época, como o famigerado porto de Mariel (Cuba), sem a necessária contrapartida, isto é, o pagamento das dívidas contraídas pelos governos locais.

Bolsonaro e Guedes obtiveram uma vitória quando Barbosa e Levy se demitiram, mas com Montezano à frente do BNDES é possível haver uma gestão mais responsável, embora não necessariamente seja uma garantia de abrir a tal "caixa preta". 

sexta-feira, 14 de junho de 2019

Manifestação com menos participantes e mais violência

Hoje, as manifestações contra os cortes na Educação e a reforma da Previdência tiveram menor participação, comparadas com as de maio. Por outro lado, houve uma certa tendência à radicalização, com pessoas sendo detidas, algo que não ocorreu nos dias 15 e 30 do mês passado. 

Os motivos para haver menos gente disposta a protestar foram a pauta dos cortes estar começando a cansar, e a consequente predominância dos protestos anti-reforma, algo de menor apelo entre os estudantes e a população em geral, menos resistente ao tema do que os funcionários públicos e as categorias organizadas (principalmente os sindicalizados pela CUT). Em São Paulo, a Justiça mandou multar o Sindicato dos Metroviários e dos Motoristas e Cobradores da SPTrans em caso de paralisação. Só houve interrupção em parte da rede do metrô, e ela foi normalizada ao longo do dia. 

No entanto, mais gente esteve disposta a colocar fogo em ruas, estradas e trilhos de trens, visando paralisar os transportes e atrapalhar quem estava querendo manter a rotina. Houve confrontos em São Paulo (14 presos), no Rio de Janeiro, em Vitória. Essa atitude não ajudou a atrair mais gente para protestar contra o governo. A mesma coisa pode se dizer em relação à presença do MST e do MTST.

Pior é o atropelamento de cinco manifestantes em Niterói por um motorista, que foi detido, mas logo liberado. Apesar de ninguém se ferir seriamente, o ato não pode ser considerado próprio de gente civilizada. 

Mesmo essas tentativas de paralisar as cidades não foram suficientes para inquietar o governo. Jair Bolsonaro foi tranquilamente para São Paulo assistir ao início da Copa América, no Morumbi, e ver Philippe Coutinho e Everton "Cebolinha" fazerem os gols na vitória por 3 a 0 sobre a Bolívia. 

quinta-feira, 13 de junho de 2019

Mais para 13 a 0 do que para 106 a 105

Anteontem, o Golden State Warriors impediu a conquista antecipada do título, na grande final da NBA, pelos Toronto Raptors. Ganhou por apenas um ponto, 106 a 105, e forçou a realização de mais dois jogos. O primeiro será jogado hoje, às 10 da noite no horário de Brasilia.

Também anteontem, na Copa do Mundo de futebol feminino, a seleção americana, franca favorita a levar o título, enfrentou o frágil time da Tailândia e não perdoou: 13 a 0 ( !!! ). Alex Morgan fez cinco tentos, e é a artilheira isolada da competição.

A derrota de hoje da Seleção feminina na mesma Copa, para as australianas, foi de 3 a 2. Um gol de diferença. Porém, as brasileiras estavam ganhando, de 2 a 0, com gols da "rainha" Marta (ainda não totalmente recuperada de uma lesão) e Cristiane, quando o jogo começou a mudar, e Foord fez um gol nos acréscimos do primeiro tempo. No segundo tempo, sem as duas veteranas, e com a perda de Formiga, suspensa pelo segundo cartão amarelo, as brasileiras deixaram as australianas empatarem. E a zagueira Mônica foi a vilã do jogo, fazendo gol contra e tornando a classificação para a fase final bastante incerta, pois elas vão precisar jogar com a forte equipe italiana.

Marta marcou na sua quinta Copa, mas não conseguiu evitar a derrota para a Austrália (Pascoal Guyot/AFP)

Perder por um gol não é como perder por um ponto no basquete, um esporte totalmente diferente, onde os placares são bem mais dilatados. E os Raptors têm grande chance de conquistarem o título, se ganharem hoje. Já o time do Brasil vê a conquista da taça, a primeira delas numa Copa, ainda como utopia.

É possível imaginar um confronto entre as brasileiras e as americanas nesta Copa, se as primeiras vieram a conseguir a classificação. Caso as "meninas do futebol" não controlarem a ansiedade e aprenderem a jogar coletivamente, sem depender tanto das suas estrelas, um desastre virá, talvez comparável ao 8/7 sofrido pelo time masculino cinco anos atrás. Ou, na pior das hipóteses, aos 13 a 0 nas tailandesas.


N. do A.: Uma série de derrotas atormentam o governo Bolsonaro, que não conseguiu, por decisão do STF, extinguir os conselhos federais criados para fiscalização e controle da sociedade sobre as ações das estatais (para muitos, esses conselhos eram inúteis e só serviram para consumir o NOSSO DINHEIRO). Também não conseguiu emplacar o decreto das armas na CCJ do Senado, e a OIT, a Organização Internacional do Trabalho, ameaça colocar o Brasil na "lista suja" do trabalho infantil. Sem falar na reforma da Previdência, cujo formato está a se afastar daquele proposto por Paulo Guedes, impondo regimes de transição principalmente para as mulheres, retirando a capitalização e as aposentadorias rurais do texto, e deixando os Estados e municípios de fora. Todas essas derrotas, e mais o desgaste do ministro da Justiça, Sérgio Moro, podem deixar o governo bastante fragilizado, caso não houver capacidade de reação, capaz de aumentar a popularidade  e/ou melhorar os indicadores sociais e econômicos. Nisso, Bolsonaro e o time feminino da CBF estão parecidos. 

quarta-feira, 12 de junho de 2019

terça-feira, 11 de junho de 2019

Moro no mesmo caminho de Savonarola?


Sérgio Moro deixou de ser visto como ex-juiz rigoroso por muitos que torciam por um Brasil menos corrupto (Divulgação)

Este blog já contou algo sobre Girolamo Savonarola, o frade com fama de moralista e rigoroso que mandou e desmandou em Florença até cair vítima de seus inimigos, entre eles o papa Alexandre VI, e ser destruído em 1498 (leia AQUI).

Estará acontecendo a mesma coisa com o ministro da Justiça Sérgio Moro? As conversas entre ele e alguns procuradores da Força Tarefa, com destaque para Deltan Dallagnol, foram hackeadas e depois acabaram publicadas, de forma editada, no site The Intercept, conhecido por sua postura dita "de esquerda" e por denunciar o escândalo do NSA, cujos dados foram vazados com a ajuda de Edward Snowden. 

O site tem como um dos donos o jornalista e jurista Glenn Greenwald, marido (latu sensu) do deputado federal David Miranda, ex-suplente de Jean Wyllys, ambos do PSOL.Greenwald, premiado com o Pulitzer pela sua abordagem sobre o NSA, é acusado de querer destruir a Lava Jato e a reputação de Sérgio Moro e seus procuradores, divulgando conversas secretas (e em desacordo com o Código de Processo Penal) entre o juiz e os procuradores às vésperas de nova manifestação contra Bolsonaro, com o intuito final de lançar dúvidas sobre a lisura e a legitimidade das eleições de 2018. Enfim, uma trama em favor do ex-presidente Lula. 

Independente desse procedimento ser considerado também ilegal, produzindo provas ilícitas, o episódio destrói a reputação do ministro da Justiça e lança ainda mais questionamentos sobre a sua isenção no julgamento de Lula e dos réus que estavam sob sua responsabilidade. 

Tudo isso precisa ser apurado pela Justiça, investigando tanto os denunciados quanto os denunciantes. E ela precisa fazer um trabalho muito bom e rigoroso, pois ela também está seriamente questionada. 

A imagem do Judiciário ficou prejudicada, tornando-a tão ruim quanto a dos outros dois poderes. 

Em última análise, a democracia e o futuro do Brasil estão ameaçados. 

Quanto a Moro, ele corre o risco de ser destruído como o frade Savonarola, ao menos em sentido figurado, em favor de alguém visto como uma espécie de papa Alexandre VI: Lula, também influente e poderoso, mas considerado imoral e corrupto pelos seus inimigos. Espera-se que não seja no sentido literal, pois este blog já contou a respeito do que fizeram com o religioso italiano. As ambições de Moro para integrar o STF ou vir a ser presidente da República já estão nesse caminho.

segunda-feira, 10 de junho de 2019

O time da Seleção feminina estréia na Copa do Mundo. Mas...

Ontem, a Seleção Brasileira feminina estreou na Copa do Mundo, sediada na França, e venceu a limitada Jamaica, até com certa facilidade, apesar de depender muito das veteranas, sobretudo Cristiane, a autora dos três gols na partida. 


A Seleção feminina estreou bem graças a Cristiane (no meio), mas as más notícias chamaram mais a atenção do que a Copa do Mundo da França (Getty Images)

Infelizmente, a repercussão da Copa do Mundo feminina não é tão grande quanto o escândalo envolvendo o jogador da Seleção masculina, Neymar. Aliás, nem o atacante do PSG é o assunto mais comentado do momento. 

A explosão de um barco no Acre, o acidente que matou 10 pessoas na rodovia que liga Taubaté a Campos do Jordão (a SP-123), assim como o assassinato de uma família (o jovem ator Rafael Miguel e seus pais) por um sociopata, que não aceitava o relacionamento da sua filha com o ator, conseguiram ganhar mais espaço até do que o futebol. E nem estas são as piores notícias.

Explodiu uma bomba capaz de fazer muita gente repensar o que fez na vida e destruir as ilusões a respeito de supostos heróis da pátria, despertar velhos mitos e questionar os novos. É assunto para a próxima postagem.

sexta-feira, 7 de junho de 2019

Qual foi a ideia mais imbecil da semana?

a. O Tite convocar o William no lugar de Neymar.

b. A trama de Najila para tentar arrancar dinheiro de Neymar.

c. Neymar se envolver com a Najila.

d. (Esta não tem nada a ver com as anteriores) Uma moeda única para o Mercosul.

e. Chega de ideias imbecis! Que tal pensarmos em algo que preste para as nossas vidas?


N. do A.: Sobre a alternativa d, ela é realmente estúpida, pelo menos a curto prazo, porque reúne duas economias desajustadas. Os indicadores econômicos da Argentina são péssimos: 40% de inflação, desvalorização acelerada frente ao dólar, risco de calote na dívida interna. O Brasil, por outro lado, tem péssima distribuição de renda, máquina estatal inchada e corrompida, péssimo ambiente para os negócios. Uma moeda única, nessas circunstâncias, seria um abraço mútuo, de afogados num naufrágio. 

quinta-feira, 6 de junho de 2019

75 anos do dia D

Líderes das potências ocidentais foram comemorar os 75 anos do dia D, evento que marcou decisivamente o rumo da II Guerra Mundial. 

No dia 6 de junho de 1944, tropas aliadas compostas por forças da Resistência Francesa, e tropas americanas, britânicas, canadenses e de outros países componentes dos Aliados, desembarcaram na Normandia, vindos da Inglaterra (Portsmouth) via Canal da Mancha, e iniciaram em território francês a Operação Overlord.

Parte do território francês estava anexada ao III Reich e a outra parte era governada por meio de um governo colaboracionista, conhecido como regime de Vichy. Em toda a França ocupada havia um grande contingente de tropas alemãs, comandadas pelo famoso Marechal Rommel (1894-1944), o "Raposa do Deserto".

As forças aliadas foram constituídas de dois exércitos, o primeiro comandado pelo general americano Omar Bradley (1893-1981) e o segundo, pelo general britânico Sir Miles Dempsey (1896-1969), recebendo ordens diretas dos comandantes Dwight Eisenhower (1890-1969) e Bernard Montgomery (1887-1975). Levaram algum tempo para desenvolver uma estratégia muito bem feita, pois precisavam vencer a forte presença dos alemães no território a ser reconquistado, e expulsar os invasores da França.

De início, sofreram muitos revezes e muito sangue aliado foi derramado na difícil missão, e apenas depois de meses de luta conseguiram libertar o território francês. Paris só foi libertada em 25 de agosto de 1944. Enquanto isso, os alemães, cercados também pelos soviéticos na Frente Oriental, foram aos poucos sendo minados, inclusive politicamente, resultando em um atentado contra Hitler naquele mesmo ano (20 de julho). Rommel, ferido nos combates da Normandia e implicado na conspiração, foi forçado a cometer suicídio, em outubro. 

75 anos depois, ainda havia sobreviventes da luta pela libertação da França, e eles participaram das festividades, apesar da nonagenários. A maior parte dos veteranos era de origem norte-americana. Eles foram homenageados e condecorados com a Légion D'Honneur pelo presidente francês Emmanuel Macron, na presença de Donald Trump, do primeiro-ministro canadense Justin Trudeau e da demissionária primeira-ministra britânica Thereza May, que deve deixar o cargo amanhã. 

A cerimônia representou uma pausa nas discussões sobre o Brexit, evento que desgastou politicamente a Grã-Bretanha e provocou o fim do mandato de May, que se viu obrigada a renunciar no dia 24 de maio. Boris Johnson é o favorito, no Partido Conservador, para disputar as eleições governamentais, e conta com o apoio nada discreto de Trump por sua posição aguerridamente pró-saída da União Européia, mas Johnson demonstra não ter a mesma simpatia pelo governante americano. Em 2015, um vídeo mostrava o então prefeito de Londres dizendo que o candidato à presidência pelo Partido Republicano era de uma "ignorância estonteante". Mas isso tudo ficou esquecido em território francês, por algumas horas, em prol de um evento que marcou o começo do fim de um conflito que marcou a humanidade para sempre. 

Macron (esq.) e Trump (mais ao centro) junto aos veteranos do dia D, em Colleville-sur-Mer, na Normandia (Reuters)

quarta-feira, 5 de junho de 2019

Bolsonaro em Goiás. E o Congresso...

Jair Bolsonaro foi até Aragarças, em Goiás, para promover o projeto Juntos Pelo Araguaia, em conjunto com os governos de Goiás e do Mato Grosso. Neste projeto, a intenção é recuperar o rio Araguaia, comprometido pelo desmatamento ilegal e pelos esgotos. A iniciativa, feita no dia do Meio Ambiente, também é uma resposta aos críticos, que apontam o presidente como aliado dos desmatadores. 

Enquanto isso, sua nova medida provisória vai ser analisada pelo Congresso. Ela prevê aumentar para 40 pontos o limite para a suspensão do CNH, além de outras medidas como não multar quem não usa a cadeirinha para crianças e afrouxar as regras para motoristas usuários de drogas e outras substâncias ilícitas, como os "rebites" usados pelos caminhoneiros. Se os deputados e senadores tiverem bom senso, devem rejeitar ou simplesmente esquecer essa medida do governo, que é uma ode aos maus costumes no trânsito, e votar as reformas e o pacote anti-crime, que são mais importantes para o país. 

Por enquanto, eles estão interessados em engessar o Executivo: a Câmara votou pelo "orçamento impositivo", que destina mais dinheiro às emendas parlamentares. O efeito colateral disso é o risco maior de se fazer "pedaladas fiscais" para o governo driblar a Lei da Responsabilidade Fiscal. Isso foi um dos motivos para a ex-presidente Dilma Rousseff ser cassada. 

terça-feira, 4 de junho de 2019

Da série 'Energias renováveis no Brasil', parte 5 (final)

Este blog escreveu sobre as energias renováveis com potencial para sustentar o Brasil e contribuir para a diminuição da dependência em relação às fontes esgotáveis, como carvão e petróleo. Mas nem todas as formas presentes são viáveis. 

Um exemplo é a energia geotérmica. O Brasil está no meio de uma placa tectônica, e seu território, embora imenso, não está próximo de nenhuma grande falha geológica. Isso é bom em termos de segurança para a população, pois falhas geológicas são constantes fontes de terremotos, além de serem locais onde se concentram os vulcões. Por outro lado, não é possível extrair energia a partir do calor emanado dessas regiões. Existem fontes termais isoladas, usadas como atrações turísticas, mas não próprias para exploração energética. Em outros países, o vapor subterrâneo é usado para movimentar turbinas para a produção de eletricidade, mas à custa de alto investimento e o risco de liberação de sulfeto de hidrogênio, um gás tóxico e corrosivo. Isto talvez não compense a independência em relação ao clima, ao contrário das energias hidrelétrica, eólica e fotovoltaica (a de biomassa também, embora indiretamente, por depender do crescimento de plantas). 

Outro tipo de energia com baixo potencial de desenvolvimento por aqui é a das marés, ou maremotriz. O Brasil possui baixa diferença no nível das marés, ao contrário de países como o Canadá. Aproveita-se a vazão enquanto o nível do mar vai baixando, na transição entre a maré alta e a baixa, para o funcionamento de turbinas semelhantes às usadas nas usinas hidrelétricas. Este tipo de energia exige elevados investimentos para construir usinas com suficiente capacidade de armazenamento de água, e equipadas para suportar a salinidade. Ainda não existem usinas maremotrizes no nosso país. 

Os mares também são aproveitáveis para outras fontes de energia, a das ondas (ondomotriz) e a térmica. No primeiro caso, aproveita-se o poder das ondas para o funcionamento das turbinas produtoras de eletricidade, e no segundo caso, utiliza-se a diferença térmica entre a superfície e o fundo do mar, significativamente mais frio. Teoricamente, estas formas são mais favoráveis para a exploração no Brasil se comparadas à energia maremotriz, mas também exigem altos investimentos para as usinas poderem suportar os movimentos (pouco previsíveis) do mar e os efeitos do sal. Existem estudos e até pequenas usinas experimentais, como a do porto de Pecém, no Ceará. Esta construção é pioneira na América Latina, mas ainda está em fase de construção, apesar do início das obras no longínquo 2012. Espera-se gerar 100 kW, sendo portanto um projeto educacional e não parte da malha energética. As obras foram bancadas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. 

A usina de ondas de Pecém é um projeto experimental construído com tecnologia essencialmente brasileira; ela possui braços de 22 m, e está próxima de grandes usinas termelétricas (Divulgação)

segunda-feira, 3 de junho de 2019

Orgulho e vergonha de maio

Antes de anunciar o ganhador do selo da "Vergonha", é bom lembrar que Neymar já ganhou este mesmo selo em abril, e portanto ficará de fora. Ele ainda pode vir a receber o outro certificado, o de "vergonha mundial", no final deste mês, principalmente se conseguir a proeza de ser preso por estupro (ou divulgação de material pornográfico ao tentar se defender), e isso não deve ser desprezado. Sua capacidade para cometer desatinos extracampo, decorrentes de sua falta de maturidade e de superego, só é superada pela de fazer gols e gestos teatrais em campo.

Aliás, mesmo que ele não tivesse ganho nenhum selo, ele não poderia ser considerado para o mês de maio. O escândalo aconteceu no sábado passado, ou seja, já no dia primeiro deste mês. 

Mas esqueçamos, por ora, estes acontecimentos. Primeiro, o selo de "Orgulho Nacional", que vai para Marcelo Gleiser, ganhador do Prêmio Templeton, noticiado pela mídia como sendo o Nobel da espiritualidade. O astrônomo brasileiro, primeiro latino-americano contemplado com o Templeton, defende a harmonia entre a ciência e a religião, e recebeu a medalha no mês passado, dia 29.

Marcelo Gleiser defende a ciência como caminho para entender o mistério da existência humana

Quanto ao outro selo, vai para os manifestantes bolsonaristas que arrancaram a faixa em prol da educação no prédio da UFPR. Ser a favor da educação não é, a princípio, ser contra as pautas defendidas por eles e pelo presidente: fim da corrupção, reforma da Previdência, aprovação das medidas anti-crime do Sérgio Moro e do saneamento econômico promovido por Paulo Guedes. Ou tudo isso só é conseguido à custa de um povo ignorante e alienado? Pelo menos certos países como Canadá, Cingapura, Coréia do Sul, Japão (para não citar países comunistas ou influenciados pelo marxismo) provam o contrário. 

O ato virou pretexto para os manifestantes do dia 30 chamarem os bolsonaristas de inimigos da educação

Liverpool no céu (e Neymar no inferno)

Enquanto o craque mais leviano e inconsequente dos últimos tempos, Neymar, está enfrentando uma acusação de estupro, feita por uma suposta chantagista, alguns de seus colegas da Seleção Brasileira, o goleiro Alisson e o atacante Roberto Firmino (mais Fabinho, que infelizmente não foi convocado por Tite) estão comemorando um título junto com seus colegas do Liverpool. Não é qualquer coisa: é o título da UEFA Champions League. 

O time do Liverpool faturou a taça mais cobiçada do futebol, graças a Alisson (centro)

Foi uma final inglesa, contra o surpreendente time do Tottenham, que nunca chegou tão longe na competição mais badalada do mundo futebolístico. Houve um pênalti questionável cobrado e convertido pelo astro dos Reds, o egípcio Salah, bem no início do primeiro tempo, mas o destaque, até o intervalo, foi a aparição de uma mulher de maiô, tentando "promover" o site do namorado. 

A bela loira de maiô foi o destaque do jogo no primeiro tempo (Sérgio Perez/Reuters)

No segundo tempo, o Tottenham foi perigoso e exigiu bastante da defesa do time vermelho, principalmente do goleiro brasileiro, considerado o melhor do jogo junto com o defensor Virgil van Dijk. Um dos que fez Alisson trabalhar foi o compatriota Lucas Moura, ex-São Paulo e ex-PSG. Só no fim da partida o Liverpool conseguiu acabar com as esperanças do rival de branco: Origi, que substituiu Firmino no segundo tempo, fez o segundo gol. 

Foi a consagração de um time longe de ser o mais badalado do mundo, mas com um dos técnicos mais prestigiados, o alemão Jürgen Klopp. O Liverpool quase conseguiu no ano passado, mas foi impedido por Sérgio Ramos, que machucou Salah, e pelo antigo goleiro, o alemão Karius, dispensado pelo clube para dar lugar ao ex-goleiro do Inter de Porto Alegre. 

Tanto ele quanto Firmino ainda não se apresentaram à Seleção, pois estão comemorando a conquista. Para eles, o ano não está perdido, mesmo se não conseguirem a Copa América. Já Neymar...

sexta-feira, 31 de maio de 2019

Quem precisa deles?

Um dos filmes em cartaz mostra o poder de monstros gigantes capazes de destruir toda a humanidade, em Godzilla 2

Poster de Godzilla e de seus inimigos monstruosos, Mothra, Rodan e King Ghidorah (Divulgação)

Mas nem vai precisar dessas criaturas para arruinar a vida dos seres humanos, prejudicada pelos... próprios seres humanos. São sete bilhões, a grande maioria deles mal sobrevivendo e os demais, com exceções, causando mais estragos e consumindo mais recursos do que podem produzir em riquezas. Todos dependem de governantes ineptos, formadores de opinião inconsequentes e outros senhores irresponsáveis. 

Mesmo sem a existência de qualquer um dos monstros fictícios que aparecem no filme, existe sempre a possibilidade de não vislumbrarmos 2020. Basta o empenho de alguns dementes para provocar uma guerra em escala global.

Apenas para fazer um registro: no filme, nenhuma das criaturas é propriamente um vilão. O personagem mais maligno é um terrorista salvacionista chamado Alan Jonah. Ou seja, um ser humano. 

quinta-feira, 30 de maio de 2019

Más notícias para o Brasil e para Bolsonaro

Divulgaram os números do PIB no primeiro trimestre de 2019. Sem nenhuma medida excepcional para arrochar a economia, ele conseguiu ENCOLHER 0,2%. Pode-se culpar o regime irregular de chuvas, resultando em quebras de safra e encarecimento dos alimentos, e também a retração na atividade industrial e em vários setores, como a construção civil. Mas o que fez o governo? Preferiu estimular uma cruzada ideológica, e não pragmática, para combater os desmandos anteriores, cujos autores são os responsáveis por um longo período de trevas, desde 2013, no primeiro mandato de Dilma Rousseff. Corrupção, patrimonialismo e incompetência gerencial. Após o impeachment, houve um período mais favorável, mas a economia ainda patinou. E está voltando a piorar no governo atual. Corremos o risco de terminar o ano com RECESSÃO, como nos anos finais do governo Dilma. 


Estamos caminhando para mais um período recessivo (IBGE, pelo portal G1)

A atividade industrial encolheu ainda mais. Desde o governo Lula houve desindustrialização no Brasil (IBGE, pelo site do Valor Adicionado)
Por causa da retração econômica, o governo precisou cortar gastos e investimentos, inclusive na Educação, provocando as manifestações deste mês. A última foi hoje, e mais uma vez reuniu menos gente do que a oposição gostaria. Foi um repeteco, com participação ligeiramente menor, do dia 15 de maio, quando estudantes, professores, funcionários, membros da UNE e da UBES, sindicalistas da CUT e ativistas anti-Bolsonaro e anti-reformas protestaram. Não foi só para defender as verbas para a Educação, mas também para tentarem deter a reforma da Previdência. Alguns voltaram a pedir a liberdade do ex-presidente Lula. Porém, os protestos, apesar de espalhados por várias cidades, foram mais uma prática de exercer a liberdade de expressão do que qualquer outra coisa, e não chegaram a atrapalhar seriamente a rotina, mesmo porque, em geral, não houve baderna, salvo um ou outro incidente. Também o número de participantes ficou algo longe dos registrados no ato pró-Bolsonaro do último domingo. De qualquer forma, não foram tão dignos de preocupação quanto os números do PIB, e a economia fraca, mais do que os insatisfeitos com o contingenciamento, é a maior ameaça ao governo. 

O protesto de hoje foi grande, mas não a ponto de preocupar tanto o governo quanto a retração no PIB. No Largo da Batata, milhares foram às ruas (Wellington Valsecchi/Rede Globo)
Em Salvador, protestos contra os cortes (João Pedro Pitombo/Folhapress)

Estudante de medicina levanta placa contra o contingenciamento em Belo Horizonte (Fernanda Canofre/Folhapress)
Próximo à Candelária, o protesto, como em outras cidades, reuniu várias pautas, como o assassinato de Marielle Franco, a luta contra as reformas e a liberdade para o ex-presidente Lula (Onofre Veras/O Dia)

O principal alvo dos manifestantes, ministro da Educação Abraham Weintraub, disse que os professores fazem coação contra os alunos para forçá-los a participarem, e pediu aos pais para denunciarem essa prática à Ouvidoria do MEC. Não houve denúncias dos pais, mesmo porque eles não são obrigados por lei ou por decreto a fazerem isso, e as provas das tais coações não apareceram.  Além disso, muitos dos alunos participantes são universitários, portanto, adultos. De concreto mesmo só a denúncia do Ministério Público contra o ministro por "danos morais" ao propor que os alunos substituam funcionários terceirizados nas tarefas de limpeza, e também cobranças para o MEC justificar os cortes no Museu Nacional, cujos trabalhos de restauração após o incêndio que o destruiu e fez milhares de obras de arte se perderem para sempre estão ameaçados pela falta de verbas. 

Por fim, estão em votação várias medidas provisórias do governo, e uma delas é preocupante: ameaça simplesmente tornar inválido o Código Florestal aprovado em 2012, mutilando-o para permitir a anistia a mais proprietários rurais que desmataram áreas que deveriam ser preservadas até anos recentes. Os deputados aprovaram a medida por ampla maioria, alegando ser impossível recompor as matas conforme o Código em vigor, já criticado por ambientalistas por ser considerado brando com os desmatamentos. O problema é beneficiar atividades como a exploração ilegal de madeira, que nada tem a ver com o agronegócio e sim com o comércio criminoso de madeiras nativas, e a ocupação irregular de terrenos. Pelo menos o tempo corre contra essa alteração, pois ainda falta o Senado votar, e ele não tem o mesmo espírito permissivo de boa parte dos deputados. Se não votarem até o dia 3 de junho, esta e outras MPs caducam. 


N. do A.: A Bovespa ignorou, por enquanto, a queda do PIB e os investidores preferiram apostar no êxito das reformas. Agora, ela está em 97.457 pontos, enquanto o dólar está em R$ 3,97. Nesta semana, a moeda americana voltou a ficar abaixo dos 4 reais. 

quarta-feira, 29 de maio de 2019

terça-feira, 28 de maio de 2019

Os últimos fracassos de Moro

Sérgio Moro criou muitas expectativas como ministro da Justiça e da Segurança Pública, mas vem decepcionando muita gente. 

Durante sua gestão, houve crimes bárbaros como o massacre de Suzano, a chacina de Belém, a matança em Paracatu e o massacre de presos causado pela briga entre facções da organização criminosa Familia do Norte, em Manaus. Moro se limitou a, no máximo, fazer observações frias nas redes sociais e mandar transferir condenados para lugares muitas vezes rejeitados por autoridades e habitantes dos locais de destino: um exemplo disso é Brasília, onde o governador do Distrito Federal, Ibaneiz Rocha (MDB), protestou contra o uso da penitenciária federal próxima à sede dos Três Poderes para abrigar o líder do PCC, Marcola.

Sabe-se que é pouco tempo ainda para fazer uma avaliação a respeito da coordenação entre as polícias para combater diversos delitos, mas até agora não se viu nenhum resultado digno de nota.

Na sua especialidade, o combate à corrupção, Moro não conseguiu segurar o Coaf em suas mãos e nem conseguiu convencer a respeito de como o órgão funcionaria melhor na pasta da Justiça e não no da Economia. Possivelmente, o Coaf descobriria irregularidades nas contas de Fabrício Queiroz de qualquer modo, por onde estivesse. Não foi por falta de empenho, pois ele empreendeu pessoalmente conversações com os parlamentares, como se fosse um deles (sem ter a mesma desenvoltura e desinibição para os conchavos) e não como um nome técnico de sua pasta.

Mesmo depois das manifestações do dia 26, a favor do ministro conhecido pelo seu passado como juiz em Curitiba, o Senado autorizou a devolução do órgão fiscalizador para a Economia, e isso com o aval de Bolsonaro, contrariando a vontade dos grupos nas ruas.

Seu pacote anticrime ainda nem foi avaliado e as chances de sofrer alterações significativas, daquelas de provocarem rugidos furiosos dos bolsonaristas e dos procuradores da Lava Jato, principalmente aqueles mais chegados à militância, são grandes. Espera-se que essas possíveis mexidas no texto não provoquem o júbilo dos corruptos e outros criminosos.

Moro ainda tem tempo, mesmo considerando uma possível transferência para o STF no final de 2020, de manter o prestígio arduamente conquistado pelo seu trabalho em Curitiba, mas deve rever seu modus operandi e voltar a agir de forma técnica e não política, ou se arrependerá amargamente de ter largado a toga.