sexta-feira, 9 de setembro de 2016

O quadro negro da educação brasileira

Nesta semana divulgaram os dados do Ideb, o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica. Como era de se esperar, infelizmente, os dados não animam. 

Nenhum Estado cumpriu a meta para 2015 de forma integral, que é atingir uma nota mínima média nos quesitos leitura, matemática, taxa de aprovação, desempenho geral e índice de evasão. Para o ensino público, onde as metas são bem menos ambiciosas, apenas os estados do Amazonas e Pernambuco conseguiram superá-las. As metas desses dois estados não chegam a 5,0 (a maior nota é 10,0) nas duas amostras colhidas no ensino fundamental (quarto-quinto e oitavo-nono anos). Para os demais, nem isso foi atingido. No ensino particular, onde as metas ficam entre 6,0 e 7,0 para estas faixas, o que não é nada extraordinário, nenhum dos Estados conseguiu atingir as notas estipuladas. O Ideb ainda liberou as notas para as escolas privadas do fim do ensino médio. A meta média é de 6,3, podendo variar consideravelmente conforme o Estado. Em nenhuma das 27 unidades da federação brasileira os valores foram atingidos.

Existem algumas exceções, como a Escola Emílio Sendim, de Sobral (CE), nota 9,8 no quarto-quinto ano. É um desempenho fantástico, ainda mais vindo do interior de uma Estado pobre como o Ceará. Infelizmente, as escolas com bom desempenho parecem, em termos poéticos, algumas flores que cresceram em imensos depósitos de lixo. 

Quanto ao nosso Estado, São Paulo, com o maior orçamento do país, cerca de R$ 23 bilhões só em Educação segundo o Orçamento de 2014, os números são alarmantes. Em 2015, a nota mínima foi superada apenas na faixa de menor idade (6,2, quando exigiram um mínimo de 5,8). Nas outras faixas, o Estado mais rico do país fracassou vergonhosamente. É o que diz os dados. Para consultar, clique AQUI. É para pensar o que está sendo feito com a verba destinada às escolas paulistas, além de alimentar a "Máfia da Merenda" e outras aberrações. 

Nosso país está condenado sem um esforço mais decisivo para melhorar a nossa educação. Estamos mais do que nunca mantendo um sistema execrável de tão ineficiente. Nossas crianças - e nossa pátria - sentirão os efeitos da nossa atroz negligência. 


Da série Paralimpíadas no Rio, parte 2 - Primeiras medalhas

Farei um pequeno apanhado do que aconteceu no primeiro dia das competições paralímpicas. 

O Brasil já começou ganhando medalhas, como era de se esperar, embora China e Grã-Bretanha já tivessem levado, cada um, pelo menos cinco ouros. 

Odair Santos ganhou a primeira medalha, prata na categoria 1.000 m com guia categoria T11, mas o Comitê Paralímpico Brasileiro foi recorrer por causa de uma suposta irregularidade do queniano Samwei Kimani, que teria corrido com a venda fora do lugar, permitindo que ele enxergasse as formas amorfas em volta - deficientes visuais na categoria T11 não conseguem enxergar nada além disso.

Caio Vinícius, do arremesso de peso categoria F12 (visão subnormal grave), ganhou o bronze. Lopez Gonzalez, espanhol, ficou com o ouro.

Ricardo Costa de Oliveira, categoria T11, saltou 6,52 m, uma marca impressionante. Foi o bastante para ganhar o primeiro ouro para um paratleta brasileiro. Outro ouro veio, este mais esperado, com Daniel Dias, o "rei da natação paralímpica", fazendo 2m27s nos 200 m nado categoria S5 (amputados). É a décima sexta medalha na carreira do nadador, um dos maiores atletas da história das Paralimpíadas. 

Daniel Dias ganhou o primeiro ouro no Rio, e pretende conquistar mais (Buda Mendes/Getty Images)

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Da série Paralimpíadas no Rio, parte 1 - Começou!

Após as Olimpíadas, que deixaram saudade apesar de todos os problemas e recursos do NOSSO DINHEIRO dilapilados sem dó por conta das reformas feitas no Rio de Janeiro e dos desvios de verbas decorrentes dessas obras, por conta do mesmo problema abordado centenas de vezes por aqui (sim, aquele...), começaram as Paralimpíadas, de certa forma continuação do maior evento esportivo já feito em nosso país. 

Fizeram uma abertura mais ou menos no nível daquela feita nas Olimpíadas, com importantes diferenças além dos tipos de atletas encontrados nas delegações: 

1. A ênfase na inclusão social dos deficientes físicos e mentais, principalmente num dos pontos altos do evento, quando o Maracanã ficou às escuras mostrando dezenas de pessoas de bengalas.

2. A presença da mascote paralímpica, Tom, com a participação especial da outra mascote, Vinícius, cujas participações nas cerimônias olímpicas de abertura e encerramento passaram despercebidas. Vinícius imitou Gisele Bündchen. 

3. A ausência de Thomas Bach, presidente do COI, e a presença de Philip Craven, do Comitê Paralímpico Internacional. Ele e Carlos Arthur Nuzman fizeram a parte mais protocolar - e menos interessante - do evento. 

4. As vaias a Michel Temer foram mais constantes e chegaram a um tom de agressividade que fez Carlos Arthur Nuzman interromper o discurso, quando ele se referiu ao "governo federal". 

Algumas fotos mostraram os melhores momentos: 

 Tom, Adriana Lima e Marcelo Rubens Paiva (André Durão)

 Dançarinos fizeram do Maracanã uma praia carioca (Reuters)

 Vinícius imita Gisele Bündchen - ele faz participação especial, já que ele é a mascote olímpica (André Durão)

 Porta-bandeiras de Tonga em trajes típicos seguiram o exemplo do folclórico "besuntado" da abertura olímpica (Reuters)

 Sirlene Coelho foi a porta-bandeira da delegação brasileira (André Durão)

Com as peças do quebra-cabeça trazidas pelas delegações, um coração se formou no Maracanã (Pablo Jacob/O Globo)

 Dançarinos imitaram cegos na escuridão (Reuters)

 Amy Purdy, modelo biamputada, dança com um robô (AFP)

 Clodoaldo Silva, multimedalhista paralímpico da natação, acende a pira paralímpica (André Durão)

 A pira paralímpica tem o mesmo formato da olímpica, tão elogiada (André Durão)

Perto do final da abertura, já na parte do revezamento dos atletas paralímpicos, uma cena comoveu os espectadores: a atleta Márcia Malsar, participante das Paralimpíadas de 1984 e 1988 e ganhadora de quatro medalhas (1 ouro em 1984, 1 bronze em 1988 e 2 pratas nas duas edições) como corredora na categoria S6 (pessoas com paralisia cerebral), sofreu com as limitações de seus movimentos e com a chuva, deixou a tocha cair e tombou na pista, para depois se levantar sozinha e, com a ajuda de alguns funcionários da equipe de apoio, foi pegar a tocha de volta e completar o percurso, entregando o fogo paralímpico para Ádria Santos, campeã na categoria T11 (cegueira total) de corridas em curtas distâncias (até 400 m rasos). Esta revezou com Clodoaldo Silva, responsável pelo acendimento da pira. 

Márcia Malsar deu lição de persistência e determinação (Youtube)

O evento terminou com Seu Jorge cantando É preciso saber viver, de Roberto e Erasmo Carlos.

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Temer vaiado

Nos dois compromissos onde ele compareceu, a festividade do Dia da Independência e a cerimônia de abertura da Paralimpíada (bonita por sinal, no próximo post vou falar sobre ela), Temer não conseguiu escapar das vaias. 

Em Brasília, ele resolveu ir de carro fechado junto com a mulher, Marcela. Não quis ouvir as manifestações dos descontentes. O Rolls-Royce Silver Wraith modelo 1953 ficou na garagem desta vez. 

Mais tarde, ele foi até o Rio de Janeiro e ficou no camarote, sem participar diretamente da abertura paralímpica. Mesmo assim, foi vaiado e os apupos soaram furiosos quando Carlos Arthur Nuzman, presidente do COB, se referiu aos governos federal, estadual e municipal, e depois teve de interromper o discurso por cerca de um minuto. 

Enquanto Temer sofria, no dia da Independência, muita gente aproveitou para exigir a saída do presidente "golpista" e eleições diretas para presidente - a maioria era partidária de Lula e Marina Silva - mesmo com chances remotíssimas de isso vir a acontecer antes de 2018. Desta vez não houve confrontos dignos de nota entre policiais e manifestantes. 

Milhares foram às ruas nas grandes cidades, como São Paulo, e prometem continuar amanhã (Paulo Pinto/AGPT)

terça-feira, 6 de setembro de 2016

Seleção mais firme no caminho da Copa 2018

Com Tite, a Seleção da CBF voltou a jogar de forma mais consistente, algo não visto durante anos. Foi assim contra o Equador e também contra o perigoso time da Colômbia.

Embora seja ainda muito prematuro dizer que o time amarelo vai voltar a ser digno de conquistar a torcida, e em boa parte por culpa da direção, que não tem coragem para viajar para o exterior nem mesmo quando há reuniões na Fifa, pode-se notar uma diferença de postura, em relação àquelas equipes responsáveis pelo 8/7 e pelas desclassificações aviltantes nas últimas duas edições da Copa América.

Neymar, o grande nome, mostrou evolução em termos de comportamento, mas continua irregular e com disposição para entrar em conflito com os adversários, principalmente aqueles que conhecem melhor a personalidade do ex-santista e fazem questão de reforçar a marcação contra ele. Outros jogadores mostraram aplicação, como Phelippe Coutinho, Renato Augusto, Marcelo (apesar deste continuar abusando dos chutões) e a dupla de zaga, Miranda e Marquinhos. Este último poderia ter passado incólume das críticas, não fosse o cabeceio contra o gol de Alisson.

Os colombianos só puderam comemorar este gol, pois apesar de serem páreo para a Seleção, não conseguiram marcar, nem mesmo jogadores perigosos como Bacca, Cuadrado e o astro James Rodriguez. Por outro lado, Miranda abriu o placar em passe de Neymar, e o "dono do time" aproveitou o passe de Coutinho para fazer o seu gol.

Miranda e Neymar marcaram para a Seleção da CBF (Pedro Martins/MoWA Press)

Resta saber como este time irá se comportar nos próximos jogos. A concorrência é muito forte, e a favorita para conquistar uma das vagas é a Argentina de Messi. Sem ele, contundido, o time comandado por Edgardo Baúza amargou um empate com a Venezuela, por 2 a 2. Os gols argentinos foram de Lucas Pratto (do Atlético-MG) e do zagueiro Otamendi. O empate beneficiou o Uruguai, que massacrou o Paraguai por 4 a 0, com direito a gol do famigerado Luís Suárez (cobrando pênalti) e dois de Cavani. 

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Cenário ainda turbulento

Levando-se em consideração os últimos acontecimentos envolvendo o Brasil, como o impeachment de Dilma, a posse de Temer, as manifestações de ontem com dezenas de milhares nas ruas contra o governo (não necessariamente a favor de Dilma, mas principalmente defendendo novas eleições, não previstas na lei), as investigações da Lava Jato contra os desvios nos fundos de pensão do Banco do Brasil, Petrobras, Caixa Econômica e Correios (Previ, Petros, Funcef e Postalis, respectivamente) na Operação Greenfield e o parco resultado na reunião do G20 sobre a economia dos países emergentes, as previsões econômicas sofreram oscilações. 

Depois de projeções mais otimistas para o PIB desde o afastamento de Dilma em maio, houve ligeiro pessimismo atualmente, esperando-se um encolhimento de 3,20%, ante 3,16% na última previsão, no mês passado. Por outro lado, o PIB de 2017 deve crescer 1,30%, o que ainda mal cobre a taxa de crescimento populacional do Brasil, atualmente em cerca de 0,90%. 

Temos ainda o índice de inflação, e ele ainda será muito alto: 7,34%, segundo fontes consultadas pelo Banco Central. Esse valor ainda está acima do teto da meta (6,50%). Para 2017, prevê-se o dragão um pouco menor (5,12%), mas isso ainda vai fazer a população sofrer. 

O dólar, segundo as mesmas fontes, pode ir para R$ 3.26 (as projeções anteriores apontavam R$ 3,29) no final deste ano. Para 2017, será de mais roliços R$ 3,45, mas ainda longe dos valores alcançados em 2015, durante a crise provocada pelo segundo governo Dilma. 

Outro índice importante é a taxa de juros, que pode ficar menor do que os salgados 14,25% atuais, mas não muito: 13,75%. Em 2017, espera-se um valor de 11%, bem mais razoável.

Também não se pode esquecer da taxa de desemprego: segundo o Trading Economics, terminaremos 2016 com uma taxa de 12%, e irá diminuir bem devagar, para 11,8% em 2017. O desemprego só deve cair mesmo a partir de 2018. 

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Cinco fatos esperados mas que não ocorreram ou ocorrem

1. Zika nas Olimpiadas. Relatos da OAS mostram que o medo da doença era infundado, pois os Jogos se passaram no inverno. Desportistas que não foram por medo da zika têm motivos para se arrependem. Atenção: na primaverã enxames inteiros de mosquitos voltará a atacar com tudo.

2. Haverá tranquilidade após a queda de Dilma. Estamos muito longe disso, e os brasileiros com consciência politica estão furiosos. Os partidários de Dilma, porque a presidente foi apeada do poder, e os opositores do antigo governo, porque ela manteve os direitos políticos, dando margem a contestações de gente como Delcidio do Amaral e Eduardo Cunha.

3. A Seleção Brasileira vai passar vergonha após as Olimpíadas, contra o Equador. Mesmo com personagens do 8/7 jogando, como Marcelo e o famigerado Paulinho, ex-corintiano do elenco campeão do mundo com Tite mas inútil na Copa, o time amarelo ganhou do Equador em pleno estádio de Quito por 3 a 0 graças a Neymar e, principalmente, Gabriel Jesus, que fez dois gols.

4. O governo estará em paz com a grande midia. Devido a maneira com que se desenrolou o impeachment, a imprensa será implacável com Temer e seus aliados, principalmente Renan Calheiros.

5. Esperava-se mais divulgação das Paralimpiadas, que começam no próximo dia 7.  Os atletas paralímpicos precisam de nossa torcida, mas até agora nada, como se tudo terminasse com as Olimpíadas. Se o Rio quiser fazer bonito mesmo no exterior vai ter de assegurar o mesmo sucesso, e tratar melhor os cidadãos com deficiência.


N. do A.: E uma coisa inesperada aconteceu nesta semana: Fátima Bernardes e William Bonner se separaram, depois de 26 anos casados. 


quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Dilma saiu, mas a bagunça continua



Por 61 votos a 20, o Senado cassou o mandato de Dilma Rousseff, como a maioria da população esperava. O que não se esperava era a forma com que isso foi feito.

Por uma decisão de última hora, a partir de uma ideia do petista Humberto Costa, e aceita, estranhamente, pelo presidente do STF Ricardo Lewandowski, a votação foi dividida em dois: cassar o mandato e votar pela suspensão dos direitos políticos.

Boa parte do PMDB, inclusive o presidente do Senado Renan Calheiros, fez a vontade do PT e votou pela manutenção dos direitos políticos. Não caíram numa armadilha. Parecia algo deliberado, para criar um precedente perigoso: cassar o mandato de parlamentares e governantes, mas dando-lhes o direito de se elegerem na próxima eleição.

É uma ameaça ao povo brasileiro e a Constituição!

Isso é golpe, mas não como a ex-presidente argumenta. Cumpriram a lei até agora, mas no último ato fizeram-na em pedacinhos e deixaram a palavra final para o Supremo e a Justiça Eleitoral, que pode impugnar a candidatura não só de Dilma, mas também a de Temer, eleito vice-presidente na chapa dela em 2014. Ficou algo como uma briga entre a Camorra e a Cosa Nostra.

Além disso, a artimanha fez a base aliada rachar. O PSDB e o DEM ameaçam dificultar o governo Temer como se voltassem para a oposição. Enquanto isso, o PT vai fazer oposição cerrada.

Temer, que viajará para a China e deixará a presidência para Rodrigo Maia, perdeu definitivamente o direito de fazer um mau governo, mesmo porque do jeito que está poderemos lamentar não termos votado na monarquia naquele plebiscito de 1993. Aliás, o regime monárquico foi derrubado por um golpe (atenção: este blog defende a república parlamentarista).

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Dilma tenta a última cartada

Reunindo toda a coragem que lhe resta, a presidente afastada Dilma Rousseff depõe no Senado para tentar a sua defesa. No discurso, não disse nada de novo, dizendo que é vitima de um golpe e de injustiças. Negou cometer qualquer tipo de crime, principalmente os crimes de responsabilidade da qual é acusada no processo.

Apesar de sua impopularidade abissal, a presidente voltou a defender enfaticamente a sua volta a Presidência para implantar um plebiscito que nem a maioria do seu partido, o PT, apoia, além de não estar prevista na Constituição. Ela acusa fatores externos, a oposição e, principalmente, Eduardo Cunha, pela atual crise, negando categoricamente que ela é culpada por isso.

A presidente afastada não quer se entregar (Sérgio Lima/Época) 

Os senadores não mudaram suas convicções com as declarações de Dilma. Quem continuou a defender o impeachment continuou a questionar suas condições para governar, e quem se manteve a favor permaneceu chamando-a de "presidenta".

No momento os senadores a interrogam, num processo terrivelmente cansativo para eles, a presidente e, principalmente, a quem acompanha esta etapa pelo noticiário. 

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Da série 'Mondo Cane', parte 43

O que seria mais bizarro? Certas notícias que acontecem no mundo como: 

1. Japonês mata filho a facadas por não estudar o suficiente para entrar em escola. (Clique AQUI)

2. Cabeças de onças pintadas são encontradas em freezer no Pará (Clique AQUI). 

3. Casal bósnio celebra a vida ensaiando o próprio funeral (Clique AQUI)

4. Caminhoneiro atropela e mata pedestres enquanto jogava Pokemon Go em Tokushima - mais um doido do Japão? ou como esse joguinho de celular anda enlouquecendo o mundo? (Clique AQUI)

5. Jovem tenta procurar celular do amigo dentro do vaso sanitário na Noruega (Clique AQUI)

Ou o que está acontecendo no Senado, com troca de baixarias entre a senadora petista Gleisi Hoffman e o presidente da Casa, Renan Calheiros, por causa do processo de impeachment da Dilma? (Clique AQUI)

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Para o povo, a luta não termina

Hoje, o Senado começa a última etapa no processo de impeachment de Dilma Rousseff. A presidente afastada promete resistir de acordo com o que sabe, ou seja, protestar contra os "golpistas" e comparando a democracia como uma árvore infestada de parasitas, sem mudar muito o repertório. Ela só irá a plenário no próximo dia 29, o clímax deste processo enfadonho e aborrecido, mas que deve ser seguido, inclusive, para assegurar o necessário direito de defesa. 

Para o governo petista, tudo se encaminha para o fim, dando lugar aos seus ex-aliados e ex-companheiros da chapa eleita em 2014 com 54 milhões de votos, pouco mais de 51% dos votos válidos em uma disputa marcada por acusações, baixaria e doações não declaradas. É a regra eleitoral: Dilma foi eleita pela maioria simples de votos, embora seja uma margem muito apertada, e, segundo dados daquele ano, o número de eleitores era de 142.882.046, segundo dados do TSE. O segundo governo Dilma foi marcado por rombos no Orçamento causados, em parte, pelo acúmulo de dividas bilionárias causadas pelos atrasos nos repasses aos bancos públicos (as tais "pedaladas fiscais" praticadas costumeiramente no Brasil, mas com cifras assustadoras nos últimos anos), agravamento dos prejuízos na Petrobras e vários membros do governo condenados pela Operação Lava Jato. Ainda houve a tentativa de nomear Lula como ministro-chefe da Casa Civil, considerado uma tentativa de obstruir a Justiça, e a atuação belicosa do presidente afastado da Câmara, Eduardo Cunha, desafeto do PT e também envolvido até a medula dos ossos na bandalheira. 

Dilma foi eleita em 2014 tendo Temer como vice (Roberto Costa/Estadão)

Como resultado, em abril os deputados votaram, seguidos pelos senadores em maio, e desde então temos o presidente interino e a afastada, mas tudo indica que isso só vai durar até o final deste mês. Será o fim de uma luta política.

Para nós, cidadãos, isso não significa o fim do descanso. Teremos de continuar atentos contra os maus-feitos e apoiar quem faz a Constituição ser cumprida. Precisamos continuar a fazer o país funcionar, e votar em pessoas mais capacitadas e dignas. Precisamos nos informar sobre os atos dos nossos representantes no Executivo e no Legislativo, e não dizer simplesmente amém a eles, incluindo o presidente em exercício. Se Michel Temer vier a abusar de seu poder, a trégua acabará, e ele será o próximo alvo dos protestos e dos "panelaços". Por enquanto, ele está exercendo o cargo com destreza bem maior do que a governante afastada, a despeito das forças políticas ainda pouco dignas de confiança, principalmente aquelas na mira da Lava Jato. 

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Terremotos e guerras - a humanidade continua a sangrar

Hoje tivemos mais uma série de terremotos devastadores, na Itália central, próximo a cidades importantes como Perugia e Roma. Terremotos recentes atingiram regiões próximas, e também causaram mortes. Em 2009, na região de L'Aquila, mais ao sul, 300 pessoas morreram em decorrência de um tremor de 6,3 graus na escala Richter. Depois, em maio de 2012, uma série de tremores entre 5,6 e 5,8 graus Richter sacudiram a região da Emilia-Romagna, mais ao norte, matando 21 pessoas e desalojando centenas de outras. Dos tremores de hoje, o mais forte foi de 6,2 graus Richter, matando 159 pessoas até agora, principalmente em Amatrice, na região do Lácio, a mesma de Roma. O número de mortes é elevado porque, apesar de não serem tão intensos quanto os grandes terremotos que atingem a Ásia, acontecem mais perto da superfície, cerca de 10 km abaixo. Não há registro de brasileiros entre as vítimas. 


O cenário em Amatrice, centro da Itália, é apocalíptico (Massimo Percossi/ANSA)

Enquanto isso, outro tremor, mais forte - 6,8 graus na escala Richter - atingiu Myanmar, um país bem mais pobre, no sudeste asiático. Por ter acontecido em uma profundidade maior, 84 km, não causou tantas vítimas. Registram-se "apenas" quatro, mas os prejuízos materiais foram grandes, pois dezenas de templos na região de Bagan, centro do país, desmoronaram ou sofreram danos. O tremor foi sentido na Tailândia e em Bangladesh, países vizinhos. 

Pior é noticiar catástrofes provocadas pelo homem, e não pela natureza. Uma destas catástrofes é a guerra síria, mantida pelos opositores ao tirano Bashar al-Assad e pelos terroristas do Daesh, mais conhecido como "Estado Islâmico", que quer criar um enorme califado. Hoje, a situação ganhou um novo capítulo. 

Apoiada pelo Ocidente, a Turquia, governada pelo semi-ditador Tayyip Erdogan, resolveu intervir, em resposta aos atentados recentes provocados pelos terroristas. Dias após uma criança-bomba detonar um explosivo que matou 54 pessoas durante festa de casamento em Gaziantep, perto da fronteira com a Síria, o exército turco mandou invadir o território ocupado pelos extremistas na Síria. Outra missão, além de atacar os terroristas responsáveis por sequestros, decapitações e crucificações de xiitas, cristãos e todos os que não pensam como eles, é bombardear posições do PKK, a guerrilha curda que tenta estabelecer um Estado no leste da Turquia, e impedir que os curdos ocupem regiões a oeste do Rio Eufrates. A iniciativa deixou furiosos tanto os combatentes curdos que atuam ativamente contra os jihadistas e temem ataques contra seus pares e inclusive contra civis de sua etnia, quanto o governo sírio, acusando Ancara de invadir território alheio para colocar terroristas aliados no lugar do Daesh. Recentemente, porém, a Turquia havia concordado em aceitar Assad como parte da transição no governo sírio, refletindo uma maior aproximação com a Rússia, aliada do carniceiro de Damasco.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Debate na Band

Ontem houve debates na Band com os diversos candidatos à Prefeitura em várias cidades. Acompanhei o embate em São Paulo, e a impressão mais uma vez não é muito favorável.

Líder na pesquisa de votos, Celso Russomanno posou novamente de bom moço sem disfarçar o seu viés populista e evitou atacar os adversários, talvez ciente que o alvo a ser atacado seja o atual prefeito, Fernando Haddad, candidato à reeleição. Atacaram o partido dele, o PT, embora não o acusassem de ser, pessoalmente, corrupto, e sim de não sair de seu gabinete e fazer obras mal feitas, como as ciclovias que ligam nada a lugar nenhum. O atual prefeito se gabou de suas realizações pelo trânsito e mobilidade urbana, que na prática pouco ajudaram a cidade. 

Marta Suplicy (PMDB) foi questionada sobre o seu passado (era uma das líderes petistas) e pela sua gestão como prefeita (2001 a 2004), marcada pelas taxas, como as de lixo e iluminação pública. Tentou convencer que está arrependida de tê-las feito.

João Dória Jr. (PSDB) fez questão de mostrar que não era um candidato "coxinha", vestindo-se demagogicamente sem gravata e com jeans, e mesmo assim foi atacado por não ter experiência política. 

Ainda há o Major Olímpio (SD), que atacou o problema da segurança pública, considerado abandonado por Haddad, e vociferou contra as cracolândias, sempre quase gritando, como se desse ordens a seus subordinados - ele parecia entender muito de segurança e pouco do resto. 

Luísa Erundina (PSOL) não participou do debate, por seu partido, o PSOL, não ter o número mínimo de representantes na Câmara: dez, enquanto o partido dissidente do PT tem apenas seis. Resolveu manifestar-se em frente à sede da Band em São Paulo, no Morumbi. Se estivesse lá, talvez contribuiria para aumentar o teor dos ataques, concentrados entre Marta, Dória e Kassab, com Russomanno "neutro" e o Major dando sustentação a Marta e Dória para atacar o prefeito. E as propostas para melhorar a cidade?

No final, a sensação foi de desalento, pois com qualquer um deles São Paulo sofrerá. E muito!

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Perguntas no ar sobre o legado olímpico

Voltemos a enfrentar com mais dedicação a realidade após 17 dias de competições esportivas na "Terra Brasilis". Ainda há a etapa final do processo de impeachment, a violência urbana, o desemprego, as investigações da corrupção desenfreada nos governos anteriores de Lula e Dilma - e também no atual, a falta de perspectivas quanto à economia - apesar da melhoria sensível em relação a 2015, e os crônicos problemas já exaustivamente apontados neste blog, referente às causas do nosso povo ainda viver tão mal e estar mergulhado na ignorância, apesar das melhorias nos últimos anos.

As Olimpíadas amenizaram a sensação ruim causada pelo descalabro vivido pelo país-sede, mas infelizmente, ou felizmente, não a ponto de esquecê-lo. Além disso, os Jogos afetarão mais as nossas vidas a longo prazo do que se costuma pensar. Quantificar, no entanto, não é uma tarefa fácil nem para os analistas mais experimentados.

Cabe fazer algumas perguntas sobre o legado dos Jogos.

1. O descaso das administrações com a educação, inclusive a educação física, é notório. Até que ponto nossos eleitos ficaram dispostos a colaborar para melhorá-la e formar esportistas (e não esportistas), aprimorando-lhes seus talentos inatos? Continuarão esta política verdadeiramente suicida de não valorizarem as escolas?

2. Aprenderemos com nossos erros de planejamento, notáveis durante a Copa e as Olimpíadas, e seremos menos tolerantes com os desvios de verbas? A falta de controle de gastos e a roubalheira levam a verdadeiros rombos, como se viu nestes dois eventos e em milhares de obras feitas neste país.

3. Até que ponto as obras de infraestrutura serão mantidas e aprimoradas? Utilizarão adequadamente o Complexo Olímpico, formado pelos diversos estádios, arenas e Centros Olímpicos? Estimularão a prática de esportes e o bom uso das instalações por parte dos clubes e agremiações?

4. Precisarão mesmo aumentar os investimentos para a delegação brasileira obter mais medalhas? Houve um enorme investimento, em torno de R$ 1 bilhão, para financiamento dos atletas, com a criação de várias categorias de bolsas, dependendo do grau de competitividade, e também a inclusão de esportistas em carreira militar, na graduação de terceiro-sargento, com soldo de R$ 3.200,00 - de fato, insuficiente para um atleta se manter, mas existem outras formas de custeio, como patrocínios de empresas privadas e estatais. Mesmo assim, só houve duas medalhas a mais do que em Londres (19 contra 17), mantendo a tendência de crescimento vista desde Atlanta (1996), quando o Brasil obteve 15 medalhas. Um ponto importante é que o número de medalhas de ouro deu realmente uma guinada: de 3 para 7. Qual foi a real influência do aumento das despesas para os atletas melhorarem seu desempenho (e também ficarem menos chorões e mais fortes psicologicamente, tomando por exemplo Thiago Braz e Isaquias Queiroz)?

 
 É difícil saber se em Tóquio teremos mais medalhas de ouro do que as conquistadas no Rio por atletas como Thiago Braz (acima; Adriano Vizoni/Folha) e Rafaela Silva (AP).

5. Houve, no caso do futebol, realmente necessidade de uma premiação tão grande para cada jogador? Outros esportistas receberam R$ 35 mil, independente da medalha, enquanto a Seleção olímpica da CBF ganhou R$ 500 mil para um elenco que já ganha muito mais do que os demais. O já citado Isaquias Queiroz, maior medalhista da Rio-2016, nem pensaria em receber metade do salário de um bom jogador no Campeonato Brasileiro (em torno de R$ 200.000,00), que dirá o quanto Neymar ganha por mês no Barcelona.

6. Qual será o grau de interesse futuro dos patrocinadores privados nos atletas em formação e os já consagrados? Isso depende da boa vontade das empresas, mas também da atratividade dos esportistas, que devem se empenhar, serem exemplos para a sociedade, saberem vender sua imagem.

7. Veremos a criação de ligas nacionais de futebol feminino e de handebol ou a volta dos campeonatos de basquete? O que se vê é decepcionante: a falta de interesse do público é a causa da escassez nas transmissões de jogos não-futebolísticos, e vice-versa.

Poderia formular muito mais perguntas, mas a falta de tempo disponível me faz formular estas sete. Aliás, tempo é o que o não temos para preparar os atletas até 2020, em Tóquio, sede da próxima Olimpíada. Estas perguntas poderão ser respondidas adequadamente ao longo dos próximos Jogos, até realmente o Brasil se tornar uma potência olímpica. Aí vem uma curta mas importante pergunta adicional:

Quando?

domingo, 21 de agosto de 2016

Da série Olimpíadas no Rio, parte 21 - E agora, José?

Não há dúvidas sobre o sucesso aparente das Olimpíadas, que terminaram hoje. Foi realmente a maior festa esportiva do país em todos os tempos. Os noticiários terríveis sobre violência, corrupção, miséria, deram lugar às competições e, no último dia, à maratona e à cerimônia de encerramento. 

Comecemos pela corrida mais tradicional dos Jogos, vencida pelo queniano Ellud Kipchoge, com o etíope Feyisa Lilesa em segundo, fazendo um gesto de protesto contra o governo de seu país, acusado de perseguição étnica contra os Oromo. Cruzou os braços erguidos e fez um "X" com os punhos fechados. Parte da torcida, sem saber por que ele fez isso, até fez piada. Infelizmente, o gesto é muito sério: além do risco de perder a medalha, devido ao regulamento do COI de proibir manifestações políticas, mesmo as mais justificáveis como uma ação de uma tirania contra seus governados, ele pode ser executado se voltar para a Etiópia.

O queniano chegou em primeiro (Alex Ferro/Rio 2016)...

... mas quem chamou mais a atenção foi o segundo lugar (Reprodução/Rio 2016)

Para a maratona não ficar parecendo como as corridas de longa distância tradicionais em solo brasileiro (Meia Maratona Internacional do Rio, Volta da Pampulha, São Silvestre), um americano chegou em terceiro lugar, Galen Rupp. Devido à chuva, o chão ficou escorregadio, impedindo a obtenção do recorde olímpico. 

Os três foram premiados na cerimônia de encerramento no Maracanã, bastante bem feita, como se fosse a continuação da abertura, embora não fosse tão empolgante e tivesse muitos furos, como mostrar apenas a cultura carioca e do Nordeste, esquecendo quase completamente as outras regiões (Minas, São Paulo, Espírito Santo e as regiões Norte, Centro-Oeste e Sul). Houve o protocolo de sempre, como o discurso ufanista do presidente do COB Carlos Arthur Nuzman e os elogios feitos por Thomas Bach, presidente do COI, além de repassar a sede olímpica do Rio para Tóquio. Além disso, o prefeito Eduardo Paes tomou uma sonora e inesperada vaia ao aparecer. No mais, as imagens mostram melhor do que palavras:

Cristo Redentor formado no encerramento (Fabrizio Bensch/Reuters)


Para não variar, colocaram uma atriz, Roberta Sá, vestida de Carmen Miranda (Kevin Lamarque/Reuters)


Simone Biles e Isaquias Queiroz representando as delegações (Ezra Shaw/Getty Images)

Foram homenageados tipos brasileiros, como as rendeiras do Nordeste (Divulgação)

Para mostrar o Rio passando a responsabilidade olímpica para Tóquio, o primeiro-ministro Shinzo Abe virou o Super Mário, mas não encontra seu colega Michel Temer, que não compareceu com receio das vaias (Timothy Burke)

O momento mais triste é sempre o apagar da tocha olímpica, desta vez fazendo uma chuva artificial - o detalhe é que chovia mesmo no Maracanã (David Ramos/Getty Images)

Mas depois tudo acabou em samba, com direito a marchinhas de carnaval e até um carro alegórico (Martim Bernetti/AFP)

Assim, as Olimpíadas terminaram, deixando mais saudade que a Copa do Mundo. E desde já voltamos à velha rotina. Como escreveu o poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade, que tem uma estátua famosa no Rio, por roubarem seus óculos com frequência: 

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?

Da série Olimpíadas no Rio, parte 20 - A nova geração de ouro

Depois de duas pratas nas Olimpíadas de 2008 e 2012, o vôlei masculino perdeu atenção da mídia, principalmente para o congênere feminino, ouro naqueles Jogos em campanhas sofridas, principalmente a de Londres. No Rio de Janeiro, após perigosos tropeços, eles souberam se reerguer, e chegaram lá. 

Enquanto Jaqueline, Dani Lins e Sheila foram bem nas etapas iniciais e acabaram anuladas pelas chinesas, Wallace, Serginho e Bruninho começaram relativamente mal, ganhando de México e Canadá, mas perdendo dos Estados Unidos e da Itália, precisando vencer a França para avançar. Nas quartas-de-final, encararam e venceram a Argentina, mas a torcida estava algo cética. Afinal, em todas as partidas, perderam feio (3 sets a 1) ou, quando venceram, perderam um set. Bruninho era cornetado por ser o "filho do patrão" e estar com a braçadeira de capitão, embora o mentor intelectual do grupo seja Serginho, com quatro Olimpíadas nas costas. 

Tiveram de enfrentar a perigosa Rússia, algoz que lhes tomou o ouro na campanha de Londres. O time brasileiro tinha muitos jogadores daquela partida fatídica, além de estreantes em Jogos como Lucarelli, que atuou muito bem ao longo da campanha. Eles não tiveram medo de encarar os russos, e pela primeira vez ganharam por 3 sets a 0, não sem disputar cada ponto. 

Na final, tiveram de se encontrar novamente com a Itália, disposta a impor mais uma prata ao time de Bernardinho e conquistar o ouro inédito, uma situação parecida com a Seleção da CBF até a partida de ontem com a Alemanha: muitos Mundiais e nada de ocupar o alto do pódio nos Jogos. De novo tiveram de disputar ponto a ponto em cada set, ainda mais porque eles tinham jogadores como Buti, Birarelli e o filho de russos Zaytsev, que criaram muitos problemas na partida. O primeiro set terminou em 25-23.

Os comandados de Bernardinho sofreram duas vezes com a Itália (Yves Herman/Reuters)

O segundo foi ainda mais equilibrado, com os italianos dispostos a salvarem o set e iniciarem a reação. Esforçaram-se ao máximo, mas os jogadores verde-e-amarelos, principalmente Wallace, responderam à altura, apesar de alguns erros que preocuparam a torcida. Principalmente os italianos usaram muito o recurso do "desafio" ou "challenge", para contestar os pontos por meio da análise eletrônica de imagens (recurso também muito visto nas partidas do vôlei feminino). Terminaram em 27-25. 

No set seguinte, mais disputa pela bola, e bastante drama para a torcida, que tinha Neymar e Thiaguinho, amigos do "filho do patrão", que atuou bem, como todos os demais. Foi uma final dramática, com direito a novo pedido de desafio, quando já se comemorava a vitória. Os italianos perderam, e o Brasil ganhou. 

A geração de Wallace e Bruninho deixará de ser conhecida como "nova geração de prata", para ser considerada a "terceira geração de ouro". Jovens jogadores como Lucarelli também foram consagrados. O mais homenageado foi Serginho, quatro vezes medalhista, recebendo seu segundo ouro olímpico. Chorando muito, foi ovacionado.

Antes, os Estados Unidos despacharam a Rússia após partida dramática, quando os russos estavam vencendo por 2 sets a 0, e ganharam o bronze. Foi uma conquista, embora para os americanos não seja algo impressionante, assim como não foi a previsível vitória do time de basquete na final, contra a Sérvia. Esperava-se mais do país europeu, visto como páreo duro, mas que levou uma derrota incrível: 96 a 66. O ouro do basquete (que não é o fabuloso "Dream Team" da década de 1990) foi o último conquistado pela terra do Tio Sam, maior medalhista disparado nestes Jogos, com 46 ouros, 37 pratas e 38 bronzes.

Serginho (mostrando a medalha ao lado de Douglas, Lipe e do mascote Vinícius) despede-se da Seleção como tetracampeão e com o prêmio de melhor jogador

sábado, 20 de agosto de 2016

Da série Olimpíadas no Rio, parte 19 - Isaquias Queiroz e o ouro inédito para a Seleção

Estamos vivendo momentos inacreditáveis nestes momentos finais da Olimpíada no Rio de Janeiro, que se tornou o evento esportivo mais difícil de esquecer, superando a Copa do Mundo. 

De manhã, tivemos Isaquias Queiroz, o brasileiro que mais faturou medalhas numa única edição dos Jogos., e seu parceiro na canoagem C2, Erlon de Souza, que já participara de uma competição olímpica, em Londres. Por pouco, não conseguiram o ouro, para garantir a tríplice conquista para o baiano e a consagração de Erlon. Tiveram de enfrentar novamente o alemão Sebastian Brendel, desta vez acompanhado por Jan Vandrei. A dupla alemã era favorita ao ouro, menos para os brasileiros, que apostaram nos compatriotas. Mesmo assim, Isaquias entrou para o panteão dos heróis olímpicos, e por isso vai receber a honra de ser o porta-bandeira na cerimônia de encerramento, amanhã.

Não há o direito de esquecer estes dois (William West/AFP)

Mas a alegria dos alemães iria acabar à tarde.

Às 17h30, houve a Seleção Brasileira Olímpica de futebol, liderada por Neymar, para enfrentar três fantasmas: 

1. A pressão de jogar em casa. 
2. O tabu de nunca ganhar ouro olímpico antes.
3. O adversário, como já foi antecipado, é a seleção olímpica da Alemanha. 

É certo que apenas o zagueiro Ginter fazia parte da equipe tetracampeã do mundo, e Neymar era o representante solitário do grupo que virou motivo de raiva por uns e de piada para outros. Nenhum dos dois participou diretamente da partida mais emblemática da "Copa da Vergonha". O time olímpico alemão está longe de ter a qualidade do principal, que conta com a liderança de Joachim Low e tem astros como Müller, Hummels, Kroos, Ozil e outros (Schweinsteiger e Klose deixaram a Seleção responsável pelo "Mineiratzen"), mas pelo que jogou era bem capaz de fazer um "Maracanatzen" e destruir o plano da CBF de reabilitar a equipe vista como "amarelona".

O representante-mor da Seleção, após 26 minutos de aflição e nenhum gol da Alemanha, fez o seu e abriu o placar. Comemorou imitando Usain Bolt, em gesto midiático.

O atacante do Barcelona faz jus ao apelido de "Neymarketing" e homenageia Bolt...

... que estava na arquibancada do Maracanã (Divulgação, pelo Portal do Holanda)

Mas os três fatores citados acima pesavam, ainda mais com o famigerado "Eu acredito", grito considerado agourento. Aos 13 minutos do segundo tempo, a defesa do Brasil ficou a trocar passes de forma displicente, até a pior falha do setor acontecer, permitindo o gol de empate, de Meyer, que joga no Schalke 04. Rogério Micale aparentemente fez duas substituições arriscadas: os Gabrieis, primeiro o "Gabigol" depois o "Jesus" - este último na prorrogação - para a entrada de Felipe Anderson e Rafinha Alcântara, respectivamente. Era tirar dois atacantes para colocar dois meio-campistas, na volta do 4-4-2. O primeiro desperdiçou duas chances de gol, enquanto o segundo também teve dificuldades com a marcação dos alemães, que não se importavam com as vaias. Por outro lado, mostraram capacidade Renato Augusto e, descontado o vacilo no primeiro gol sofrido pelos verde-e-amarelos, os zagueiros Rodrigo Caio e Marquinhos e os laterais Zeca e Douglas Santos.

Depois de 120 minutos de jogo, chegou a hora das cobranças finais de pênaltis. Parecia o fim trágico do sonho do ouro, pois os alemães têm a fama de serem cobradores eficientes e a pressão estava contra o time da casa. Ginter foi o primeiro a cobrar, iniciando uma série de tentos relativamente bem sucedidos, até a chegada de Petersen, cujo chute falhou. Weverton, o goleiro brasileiro, defendeu. Os brasileiros também cobraram bem: Renato Augusto, Marquinhos, Rafinha e Luan. Coube a Neymar a responsabilidade enorme de marcar. E foi o que ele fez, mesmo exausto e sentindo dores nas pernas. Com o astro do Barcelona, o sonho virou realidade: 

O OURO OLÍMPICO!

A ÚNICA CONQUISTA QUE FALTAVA AO FUTEBOL MASCULINO BRASILEIRO!

Os Gabrieis e Renato Augusto choraram, mas não superaram Neymar, que derramou mais lágrimas do que naquele episódio onde o Brasil eliminou o Chile nas oitavas-de-final da Copa. Recobrado, o ex-santista voltou a sorrir e imitou Zagallo: "Vocês vão ter que me engolir!".

O goleiro do Atlético-PR, que substituiu Fernando Prass no último momento, assumiu a responsabilidade de defender um pênalti alemão...

... e Neymar teve a calma necessária para fazer os alemães engolirem a derrota nos pênaltis (Divulgação)

A maldição do ouro olímpico, maior tabu esportivo do Brasil, foi quebrada da maneira mais árdua possível: em casa diante da torcida, nos pênaltis, e contra a Alemanha. Tiveram de superar um começo irregular e o ceticismo dos torcedores, para mostrarem resultados mais convincentes nas quartas-de-final contra a Colômbia e nas semifinais contra a incrível seleção de Honduras.

Todo esse drama não redime o 8/7 e não muda o fato da CBF ser uma entidade corrupta e desmoralizada, cujo presidente, Marco Polo Del Nero, evita viajar para não ser preso pelo FBI. Porém, pelo menos representa um sinal de maior maturidade por parte de Neymar, até então visto como irresponsável, arrogante, vulnerável às pressões externas e sem compromisso com a Seleção. Nestas Olimpíadas ele calou os críticos, e só não foi mais herói do que o goleiro Weverton, em sua primeira atuação no time verde-e-amarelo.

Não foi só isso o que aconteceu no sábado olímpico. O lutador de taekwondo Maicon Siqueira teve de superar o britânico Mahama Cho e conseguiu encaixar os golpes para fazer 5 a 4, ganhando a medalha de bronze. Com este resultado, o número de medalhas aumentou para 18. Agora temos 6 medalhas para cada metal.

Uma medalha surpresa a mais, ganha pelo lutador Maicon Siqueira (Peter Cziborra/Reuters)

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Da série Olimpíadas no Rio, parte 18 - Usain Bolt encerra sua carreira vitoriosa

Hoje, mais uma era terminou: Usain Bolt, o "relâmpago", cumpriu com sua meta de levar 3 ouros em 3 participações, sem recorde mas mostrando toda a sua capacidade. 


Hoje, ele não correu sozinho, mas no revezamento 4x100, contando também com a ajuda de seus companheiros de equipe, que ficam com a parte possível, enquanto o astro cuida do "impossível", uma palavra que não existe no dicionário do jamaicano em se tratando de corridas. Os japoneses, surpreendentemente, ficaram em segundo lugar, o mais alto patamar possível com Bolt na pista. Com Tyson Gay (campeão mundial mas punido por uso de doping, perdendo a medalha de prata em Londres no 4x100), os americanos ficaram só em terceiro, e, por infortúnio, ainda perderam o bronze por irregularidade durante a troca de mãos no bastão.

Antes da competição, "The Lighting" mostrou descontração e bom humor, chegando a fazer um "chifrinho" na cabeça do repórter da ESPN Brasil Mendel Bdlowski.

Até o rei do atletismo tem seus momentos de bufão da corte, para aumentar ainda mais o seu carisma e marcar para sempre a história das Olimpíadas modernas.


N. do A.: O time de Bernardinho despachou nada menos que a poderosa Rússia, atual campeã olímpica, e devolvendo o resultado da final de 2012. Foram 3 sets a 0, com parciais de 25-23, 25-22 e 25-17. Nada mal para a Seleção, que não havia começado bem na fase de grupos. Agora vai ter de enfrentar a Itália na final, um time também bastante forte que deu muita dor de cabeça, mas ao mesmo tempo pressionado por não ter ganho uma medalha dourada, enquanto o Brasil é bicampeão, em 1992 e 2004.

Da série Olimpíadas no Rio, parte 17 - Elas começaram tão bem!

Hoje terminou a participação da nossa Seleção feminina, cotada antes para ganhar o ouro quando aplicaram vitórias maiúsculas sobre o time chinês e as suecas, que apanharam por 5 a 1. Isso fez a torcida aplaudir Marta, Cristiane, Andressa Alves, Beatriz, Tamires, Mônica, Andressinha ...

Acontece que, ainda na primeira fase, algo parecia já dar errado. Contra as fracas sul-africanas, elas não conseguiram marcar, ficando num 0 a 0. Poderia ser um típico caso de se pouparem, mas Marta entrou no segundo tempo para animar o jogo, sem sucesso, devido à preocupante tendência do time em depender de suas jogadas. 

Nas quartas-de-final, elas não conseguiram novamente marcar, contra as australianas, que estudaram bem as jogadas das brasileiras. Tudo precisou ser decidido nos pênaltis, e houve certo choro das brasileiras, que avançaram graças à Bárbara. 

As semifinais foram ainda mais enervantes, com o time sueco novamente, mostrando que aprenderam bem rápido a lidar com times mais ofensivos, como os Estados Unidos, causando indignação no time de Hope Solo e frustração na torcida americana, certa de mais um ouro para elas. As comandadas de Pia Sundhage aplicaram o que sabiam contra as brasileiras, não tomaram gol (embora não conseguissem fazer) e apostaram sua sorte e capacidade de reação nos pênaltis, como ocorreu no jogo contra as americanas. Novamente, elas avançaram, e a torcida brasileira, barulhenta como sempre, se consternou com a perda da chance do ouro. 

Como prêmio de consolação, a medalha de bronze. Infelizmente, nas três Olimpíadas onde elas tiveram de jogar por essa medalha, todas fracassaram. Foi o que aconteceu. As canadenses jogaram melhor, sem o abatimento das brasileiras, e aplicaram um 2 a 1. Pelo menos o jogo não foi irritante como o anterior. Beatriz quebrou o longuíssimo jejum de gols, desde o final do primeiro embate com as suecas. Um gol de honra suficiente para a torcida não se voltar contra elas, apesar do terrível castigo para uma geração que aparentava ter condições para o ouro. Infelizmente, não tinham, apesar do começo tão empolgante. Marta dificilmente irá para Tóquio devido à idade (está com 30 anos), e Formiga, a mais velha do time, anunciou que não joga mais pela Seleção. 

O triste desfecho de uma campanha para o inédito ouro em casa, no estádio do Corinthians (Paulo Whitaker/Reuters)

Para piorar, o argumento de falta de apoio e patrocínio desta vez não é válido: elas receberam muito mais dinheiro, embora em grau muito menor do que no caso da Seleção masculina. Os problemas são outros: falta de um campeonato nacional regular e investimentos na formação de jogadoras. É necessário embutir no torcedor o costume de torcer pelas "meninas" do futebol com mais regularidade, e não só nos Mundiais, nos Jogos Pan-Americanos e nas Olimpíadas. Um campeonato trará mais bagagem às jogadoras, que poderão ser vendidas para os clubes europeus quando estiverem mais tarimbadas, de preferência após se tornarem consagradas pelos torcedores. O resultado não é imediato, mas deverá haver uma mudança de rumo neste sentido para veremos um futebol feminino realmente sólido e competitivo a médio prazo. Infelizmente a CBF está mais preocupada em se proteger da opinião pública e se agarrar à falta de mérito e à corrupção do que em tornar o futebol um esporte também para as mulheres. É uma pena, pois talento elas tinham desde os primeiros anos, e ainda têm. 

E, como era esperado, as alemãs frustraram o sonho do time sueco em ganhar o ouro sem vitórias dignas desse nome, e conseguiram furar a defesa escandinava: 2 a 1. Tivemos de ouvir mais "gol da Alemanha", duas vezes, mas desta vez as germânicas não eram as culpadas pela derrocada do time brasileiro em casa. Era o único título de expressão que faltava para o futebol mais vitorioso do mundo: ambas as equipes, masculina e feminina, ganharam Copas do Mundo E Olimpíadas. As brasileiras não ganharam nenhuma delas, os brasileiros ainda precisam passar pela mesma Alemanha para ganharem o ouro olímpico, e os americanos ainda estão bem longe de ganhar um Mundial ou ouro olímpico, embora as americanas já conseguissem.


P.S.: O quinto ouro olímpico veio na madrugada de hoje, com Alison "Mamute" e Bruno, como era esperado, derrotando os italianos Nicolai e Lupo por 2 sets a 0, parciais de 21-19 e 21-17. No quadro de medalhas, o Brasil tem uma curiosa igualdade na quantidade de medalhas: 5 para cada cor, no momento. 

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Da série Olimpíadas no Rio, parte 16 - Martine e Kahena engrossam o rol dos heróis olímpicos

O maior evento esportivo do mundo está no fim, mas vez ou outra o Brasil deixa o vira-latismo, este esporte no qual somos medalhistas de ouro desde antes do Nelson Rodrigues estabelecer a sua tese, e que teima em se manifestar mesmo quando ganham uma medalha. As últimas vítimas foram a dupla Agatha e Bárbara, que não conseguiram suplantar as alemãs e ficaram com a prata, sendo alvo de comentários do tipo: "Ponto da Alemanha", "7 a 1 olímpico", "amarelonas", etc.

Após um bronze suado do canoísta Isaquias Queiroz, na modalidade C1 200 m, onde ele se recuperou após uma largada mal feita e chegou atrás do ucraniano Iurii Cheban, campeão em Londres, e do azeri Valentin Demyanenko e deu susto ao cair na poluída lagoa Rodrigo de Freitas após chegar, outra disputa foi feita na igualmente suja baía de Guanabara. 

Martine Grael é sobrinha de Lars Grael e filha de Torben Grael, conhecidos medalhistas olímpicos, e Kahena Kunze é filha do também velejador Cláudio Kunze. Aos 25 anos, nunca participaram de uma Olimpíada antes, e estavam enfrentando a pressão de serem descendentes de iatistas experientes e conceituados, e, ao mesmo tempo, representarem o Brasil no iatismo categoria 49er FX, embarcações para duas pessoas com 4,99 m de comprimento - daí o nome. Equilibradas numa embarcação tão pequena (do tamanho de um carro grande ou de uma canoa) e em cima de uma água com má reputação, elas enfrentaram velejadoras de diversos países, boa parte delas com mais horas de iatismo no currículo. E era a última chance para os velejadores brasileiros conquistarem uma medalha, algo que nem o tarimbado campeão olímpico Robert Scheidt conseguiu nesta edição dos Jogos. 

Elas não queriam ser conhecidas apenas pelos rostos bonitos e foram navegar pela medalha (Getty Images)

Tiveram dificuldades no começo, mas depois engrenaram e superaram as duplas dinamarquesas, espanholas e neozelandesas. Na última rodada, tiveram de ultrapassar estas últimas a poucos metros do fim. Ao final, exaustas e felizes, atiraram-se na água da Baía, um gesto que para os vários estrangeiros que acompanhavam a disputa parecia tresloucado, mas elas saíram ilesas e, algum tempo depois, já recompostas, foram buscar sua medalha. 

A QUARTA medalha de OURO!

Elas não se contentaram com a prata, que ficou com as neozelandesas, muito menos com o bronze ganho pelas dinamarquesas (Brian Snyder/Reuters)

Com este resultado, a campanha da delegação brasileira passa a ser a segunda melhor da história, perdendo apenas para Atenas. Para os torcedores, ainda é muito pouco pelo tanto investido, mas para Martine e Kahena as suas medalhas não têm preço. 

São as primeiras mulheres iatistas brasileiras a ganharem ouro na história das Olimpíadas. 

E não importa que, desta vez, não tenham sofrido com a pobreza, como foi o caso de Rafaela Silva, Thiago Braz ou Robson Conceição. Como eles, farão parte do panteão dos grandes esportistas desta nossa terra onde os habitantes anseiam por heróis. 


N. do A.: Hoje, mais tarde, Alison e Rodolfo podem se juntar a este grupo na final do vôlei de praia, e serem aclamados, ao contrário dos mais novos "vilões" escolhidos pela torcida brasileira: os nadadores americanos que fizeram um papelão ao contarem uma história falsa de assalto a mão armada, despertando a fúria chauvinista tupiniquim e sendo criticados até pela imprensa americana - e mundial.