quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Da série Olimpíadas no Rio, parte 16 - Martine e Kahena engrossam o rol dos heróis olímpicos

O maior evento esportivo do mundo está no fim, mas vez ou outra o Brasil deixa o vira-latismo, este esporte no qual somos medalhistas de ouro desde antes do Nelson Rodrigues estabelecer a sua tese, e que teima em se manifestar mesmo quando ganham uma medalha. As últimas vítimas foram a dupla Agatha e Bárbara, que não conseguiram suplantar as alemãs e ficaram com a prata, sendo alvo de comentários do tipo: "Ponto da Alemanha", "7 a 1 olímpico", "amarelonas", etc.

Após um bronze suado do canoísta Isaquias Queiroz, na modalidade C1 200 m, onde ele se recuperou após uma largada mal feita e chegou atrás do ucraniano Iurii Cheban, campeão em Londres, e do azeri Valentin Demyanenko e deu susto ao cair na poluída lagoa Rodrigo de Freitas após chegar, outra disputa foi feita na igualmente suja baía de Guanabara. 

Martine Grael é sobrinha de Lars Grael e filha de Torben Grael, conhecidos medalhistas olímpicos, e Kahena Kunze é filha do também velejador Cláudio Kunze. Aos 25 anos, nunca participaram de uma Olimpíada antes, e estavam enfrentando a pressão de serem descendentes de iatistas experientes e conceituados, e, ao mesmo tempo, representarem o Brasil no iatismo categoria 49er FX, embarcações para duas pessoas com 4,99 m de comprimento - daí o nome. Equilibradas numa embarcação tão pequena (do tamanho de um carro grande ou de uma canoa) e em cima de uma água com má reputação, elas enfrentaram velejadoras de diversos países, boa parte delas com mais horas de iatismo no currículo. E era a última chance para os velejadores brasileiros conquistarem uma medalha, algo que nem o tarimbado campeão olímpico Robert Scheidt conseguiu nesta edição dos Jogos. 

Elas não queriam ser conhecidas apenas pelos rostos bonitos e foram navegar pela medalha (Getty Images)

Tiveram dificuldades no começo, mas depois engrenaram e superaram as duplas dinamarquesas, espanholas e neozelandesas. Na última rodada, tiveram de ultrapassar estas últimas a poucos metros do fim. Ao final, exaustas e felizes, atiraram-se na água da Baía, um gesto que para os vários estrangeiros que acompanhavam a disputa parecia tresloucado, mas elas saíram ilesas e, algum tempo depois, já recompostas, foram buscar sua medalha. 

A QUARTA medalha de OURO!

Elas não se contentaram com a prata, que ficou com as neozelandesas, muito menos com o bronze ganho pelas dinamarquesas (Brian Snyder/Reuters)

Com este resultado, a campanha da delegação brasileira passa a ser a segunda melhor da história, perdendo apenas para Atenas. Para os torcedores, ainda é muito pouco pelo tanto investido, mas para Martine e Kahena as suas medalhas não têm preço. 

São as primeiras mulheres iatistas brasileiras a ganharem ouro na história das Olimpíadas. 

E não importa que, desta vez, não tenham sofrido com a pobreza, como foi o caso de Rafaela Silva, Thiago Braz ou Robson Conceição. Como eles, farão parte do panteão dos grandes esportistas desta nossa terra onde os habitantes anseiam por heróis. 


N. do A.: Hoje, mais tarde, Alison e Rodolfo podem se juntar a este grupo na final do vôlei de praia, e serem aclamados, ao contrário dos mais novos "vilões" escolhidos pela torcida brasileira: os nadadores americanos que fizeram um papelão ao contarem uma história falsa de assalto a mão armada, despertando a fúria chauvinista tupiniquim e sendo criticados até pela imprensa americana - e mundial. 

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